OUTROÍSMO SUBMISSO

20/12/2016 by in category Livros with 0 and 0
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01 | SEM ACORDO

Como você sabe que está mentindo?

Participante: Sei que não aconteceu, que é imaginação.

Vamos deixar isso mais explícito.

Alguém te pede esmola e você diz que não tem dinheiro. Você sabe que está mentindo. Como você sabe que está mentindo?

Participante: Porque sei que estou inventando algo que não é fato.

Isso mesmo! E tem mais…

Participante: Sei que os fatos não correspondem ao que estou falando.

Explique melhor isso.

Participante: O fato é Xis e estou falando Ípsilon. Minha afirmação é diferente do fato.

Exato! O fato é que você tem dinheiro. Mas o que você diz ao pedinte não é descrição do fato, é descrição de uma imaginação. A imaginação não corresponde ao fato. Você sabe disso, então, você sabe que está mentindo. Mas o pedinte não sabe que você está mentindo. Por que não?

Participante: Porque o pedinte não tem acesso ao meu bolso nem a minha imaginação.

Isso mesmo! E como o pedinte pode saber que você está mentindo?

Participante: Desse jeito não pode. Mas o pedinte pode enfiar a mão no meu bolso e constatar que de fato tenho dinheiro no bolso.

Ótimo! Vou resumir antes de prosseguirmos. Você mentindo é você descrevendo uma imaginação como se fosse fato. Você sabe que está mentindo porque tem acesso aos seus fatos e imaginação. Como o outro não tem o mesmo acesso, fica impossibilitado de saber que você está mentindo. Está claro isso?

Participante: Sim, está claro.

Agora vou trocar o termo “fato” por “gabarito”. O dinheiro que você tem no bolso é o gabarito. Você está mentindo porque o que você diz para o pedinte não está EM acordo com o gabarito. Se não está EM acordo, como está?

Participante: Está SEM acordo.

Mentira = sem acordo com o gabarito. Essa é a definição de mentira que vamos usar para entendermos o outroísmo submisso. Sendo assim, pergunto: para você poder mentir, o que é imprescindível existir?

Participante: Existir gabarito.

Exato! Sendo que mentira é quando sua manifestação está SEM acordo com o gabarito, para que você possa mentir, tem que existir gabarito, senão, como sua manifestação pode estar SEM acordo com algo que não existe? Não pode!

É por isso também que você não consegue mentir para si mesmo. Você sabe dos seus gabaritos, sabe do que está acontecendo dentro de você. Por exemplo, quando você diz que está adorando uma festa que está detestando, você sabe que está mentindo porque sabe que está detestando.


02 | ANEL DE GIGES

Outroísmo submisso é fingimento. É quando você nega sua unicidade (gabarito) fingindo ser outro.

Para ilustrar, vou contar uma história mitológica.

Giges era um pastor que morava na cidade de Lídia. Um dia Giges encontrou um anel no dedo de um cadáver. Giges pegou o anel e foi para uma reunião de pastores. Em certo momento da reunião, Giges colocou o anel no dedo e ficou invisível para os pastores. Quando retirou o anel, voltou a ficar visível. Giges decidiu tirar vantagem do poder do anel. Seduziu a rainha, convenceu-a a matar o marido e se tornou rei.

Como o mito de Giges pode nos ajudar no entendimento do outroísmo submisso?

Quando Giges fica invisível, ninguém vê o que ele está fazendo, é como se Giges não existisse para os outros, então, ninguém têm como censurá-lo. Essa é a leitura tradicional do mito de Giges. Mas podemos pensar também que do ponto de vista de Giges, quando ele está invisível, quem deixa de existir não é ele, são os outros. Por isso que Giges se permite fazer o que quer quando está invisível e volta ao normal quando está visível.

Quando Giges está invisível, Giges é Giges, vive EM acordo com seu próprio gabarito, vive do jeito que quer viver. E por quê?

Participante: Porque não existe a possibilidade de censura do outro.

Isso mesmo! E quando Giges está visível, Giges é outro, vive EM acordo com o gabarito dos outros e SEM acordo com o próprio. Por quê?

Participante: Porque existe a possibilidade de censura do outro.

O que o mito de Giges nos conta sobre o viver de Giges?

Participante: Que tem dois jeitos de Giges viver.

Isso! Giges pode viver EM acordo com seu gabarito ou SEM acordo.

O mesmo acontece com você. Você também tem essas duas opções. Você pode viver:

A) EM acordo com seu gabarito, sendo você de verdade.
B) SEM acordo com seu gabarito, sendo você de mentira.


03 | SERPENTE

Claro que seu impulso natural é viver sendo você de verdade. Então, para que haja desafio, tem que haver algo que te convença a optar pelo anti-natural. Tem que ter uma serpente no paraíso. Que serpente é essa?

Participante: Medo

Medo do que?

Participante: Do julgamento, da opinião do outro.

É mais convincente do que isso!

Participante: Medo de não ser aceito.

O oposto de aceitação é rejeição, então, você teme a rejeição, a reprovação, a censura. Coloque tudo isso numa palavra só, que palavra é essa?

Participante: Não sei.

Volte na infância e verá como isso tem se repetido desde seu primeiro instante de vida. Pense em Giges visível. Se Giges ficar visível e viver como quer, o que acontecerá com Giges?

Participante: Será punido.

Exatamente. O desafio é a punição. Giges quer viver do seu jeito, mas se faz isso visivelmente, pode ser punido. O anel resolve isso. Quando Giges coloca o anel ele não fica só invisível, fica impune também.

O jeito de viver de Giges representa o viver outroísta submisso. Mas por que viver sendo outro? Qual é o benefício?

Participante: Evitar ser punido.

Exato! Você opta pelo outroísmo submisso para evitar sofrimento. Mas é bom viver sendo outro? Você calça 38, mas opta por usar 32. É bom isso? Você gosta de tocar violão, mas opta por trabalhar de advogado. É bom isso? Você gosta de chinelo e bermuda, mas opta por usar terno, gravata e sapato. É bom isso?

Participante: Não! É ruim!

Percebe o que é o outroísmo submisso? Para não ser punido pelo outro, você tem a brilhante ideia de se punir primeiro. “Ninguém vai pisar em mim, eu mesmo vou me martelar!”. Para não ser punido, você mesmo se pune. Para não sair do paraíso, você mesmo se expulsa. Essa é a genialidade do outroísmo submisso. E o pior é que além de você se punir, o outro vai te punir também.

Participante: Melhor fazer o que quero já que o outro me pune de qualquer jeito.

Exato! Na adolescência isso acontece muito. Você se submete à imposição do grupo para ser aceito no grupo. Só que ainda assim o grupo despreza você, caçoa de você e sacaneia você. Resultado: são dois sofrimentos, duas punições.

Nas relações de pais e filhos isso também acontece muito. Você faz o que seus pais querem para não ser punido ou não ficarem chateados com você. Tem filho que faz faculdade que não gosta para agradar os pais. Daí, a cada dia que passa, o filho vai ficando mais magoado com os pais, porque todos os dias está fazendo algo que não gosta, porque se sente torturado. Só que não. É o filho que está se autotorturando.


04 | AUTOÍSMO

Para concluirmos, pergunto: o que é ficar invisível?

Participante: É mentir.

Sim, mas do ponto de vista de Giges, o que é mentir? Qual é seu objetivo com isso?

Participante: Burlar o jogo.

Exato! Quando Giges coloca o anel e fica invisível, ele está tentando fazer com que a causa não corresponda ao efeito. Giges quer optar, mas não quer experimentar o resultado de sua opção. Giges quer ficar impune. Na história Giges consegue, mas na prática é impossível. E pior! É tiro no pé! Pois além de você ser o primeiro a se punir, ainda assim o outro pode punir você.

Última pergunta: usando o mito de Giges, o que é autoísmo?

Participante: Autoísmo é viver EM acordo com o próprio gabarito sem o anel.

Bingo! Autoísmo é você se bancando. É você se permitindo ser você de verdade apesar da possibilidade de punição dos outros.

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O outro sempre quer que você seja outro. Ninguém tem interesse que você seja você. Seu pai quer que você seja outro. Sua mãe quer que você seja outro. Sua esposa quer que você seja outro. Seu marido quer que você seja outro. Seus filhos querem que você seja outro. Seus amigos querem que você seja outro. Seus professores querem que você seja outro. A sociedade quer que você seja outro. O padre quer que você seja outro. E mais! Segundo a bíblia, até Deus quer que você seja outro. Ora, se o universo inteiro e até o criador do universo quer que você seja outro: quem é você para ser você? De onde vem essa arrogância suprema de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo escancarado, fedido e mesquinho é esse de ser autêntico? É acreditando nessas certezas e duvidando de si que você opta pela uniformidade e vive sendo outro.

Você quer ser culpado pelo bem-bom, mas não quer ser culpado pelo bem-mal. Você faz que nem o Homer Simpson: “Se a culpa é minha eu ponho em quem eu quiser”. Bode expiatório não falta. Pais, cônjuge, filhos, sociedade, governo, ets, lei de murphy, lei de darvin, mente, karma, vidas passadas, deus e o diabo. Esse seu jeito de viver chama-se omissão. É uma opção. E tem intenção positiva: resolver seu sofrimento. Só que não resolve. Pelo contrário, perpetua. Assumir a responsabilidade pela solução do próprio sofrimento é fundamental para resolvê-lo, pois assim como ninguém pode fazer xixi por você, ninguém pode resolver você por você.

Quem é você para confiar em si mesmo? Quem é você para confiar em seu sentimento, sensibilidade, autoridade e juízo!? Que absurdo! Pirou? Para você viver bem, você precisa do aval do Dalai Lama, do Buda, de Jesus, do Papa, do Xamã Pena Branca, do Einstein, do Stephen Hawking, da NASA, do Freud, do Jung, do Allan Kardec, do teorema de Pitágoras, do Guru da Baba Azul e, principalmente, do Elvisleno, o camelô, filho do Elvis Presley com o John Lennon, que vende relógio suíço na rua 25 de Março, em São Paulo. Quer algo em que confiar? Confie no horóscopo, na propaganda política, no facebook, na previsão das cartomantes, nos comerciais de margarina, na novela das oito que começa às nove, nos filmes do Chuck Norris e nas revistas de fofocas. Confie em qualquer coisa. Confie na fada do dente. Confie nas fitinhas do Senhor do Bonfim. Confie em São Longuinho. Só não cometa a insanidade de confiar em si mesmo. Jamais!

Quem avisa amigo é! Confie em mim.

Você não convive de verdade. É fingimento. Você e o outro não foram ao cartório oficializar a farsa, mas vocês têm um contrato de fingimento. Por isso o outro te elogia e você elogia o outro. Vocês estão cumprindo o contrato. Elogiar um ao outro é uma forma de dizer: “Continue fingindo que eu também continuo”. Convivência desse tipo funciona feito jogo de xadrez, não há lugar para espontaneidade. Cada movimento precisa passar por rigorosa análise do que dirão antes de vir ao tabuleiro. É muito sofrido viver assim. Ninguém aguenta. Por isso você deseja rasgar o contrato. O outro também. Só que ninguém toma iniciativa. Fica um esperando o outro desistir do fingimento. Esperando, esperando, esperando… É assim que cada um ajuda a perpetuar o que todos desejam que acabe.

Claro que é mais fácil dizer que é difícil. Claro que é mais fácil fazer mimimi. Claro que é mais fácil ficar na mesmice, na zona de conforto, censurar e depois dizer vitorioso: “Eu não disse que era loucura!”. Mas é esse tipo de vitória que você quer experimentar? A vitória do mais do mesmo? A vitória da inércia? Ou será que você está louco de vontade de pirar nas possibilidades, de se atirar de cabeça nos desafios, de colocar o delírio em prática, de realizar o absurdo e depois dizer: “Eu não disse que era loucura!”.

Quem quer inventa um meio, quem não quer inventa um freio. Se você quer mesmo. Se quer de doer no osso. Se quer de ficar com febre. Então, de que importa o tamanho do desafio? Não há dificuldade capaz de vencer sua inteligência e vontade. Difícil é viver mal.

Todo dia você come. Todas os seres comem. Não tem exceção. Ser que não enche o bucho, morre. Mas comer não é saborear. Comer é mastigar, triturar e engolir. Saborear requer algo além de dentes, requer você. Viver é comer. Viver com consciência é saborear. Para engolir a realidade, basta ter sentidos. Para realidade ter sentido, é preciso presença. Por isto que você se sente um morto vivo. Seu corpo está presente, sua boca está presente, a comida está presente, mas o principal está faltando: você. Vazio interior é quando o automatismo e a uniformidade comem você. A alma do negócio é saborear o negócio. Quando você desaparece do seu viver, está jogando ajinomorto no banquete vivo. Viver fica sem cor, sem cheiro e sem sabor. Quer voltar a viver? Volte para sua vida!

Um velho e um menino viajam por uma estrada de terra puxando um burro chamado mundo. Uma pessoa diz: “Que burrice! Vocês dois andando a pé e o burro de carga sem carga!”. O velho coloca o menino em cima do burro. Outra pessoa diz: “Que preguiça! Um menino cheio de vitalidade em cima do burro e um pobre velho andando a pé!”. O menino desmonta do burro e o velho sobe no burro. Outra pessoa diz: “Que maldade! Um homem feito em cima do burro e um menino franzino andando a pé!”. O menino sobe em cima do burro junto com o velho. Outra pessoa diz: “Que crueldade! Dois homens em cima de um pobre burrico!”. O velho e o menino descem do burro e colocaram o burro nas costas. Moral da história: Se você vive para satisfazer as expectativas dos outros, eis porque não consegue nunca e sente como se estivesse levando o mundo nas costas.

Um dos maiores obstáculos para o autoconhecimento é a idolatria. Por isso é fundamental rasgar os livros e matar os mestres. Não porque as coisas que ensinam estejam erradas, mas porque não é coisa sua (evidente), é coisa emprestada (acreditada). O máximo que os livros e os mestres podem fazer por você é lhe dar conceitos. Autoconhecimento é conhecer a si mesmo. Você não é um conceito. Outra coisa, é que nenhum livro ou mestre tem acesso a você. Só você pode saber de si. Então, embora os conceitos que os livros e os mestres lhe ensinam possam lhe ajudar com os primeiros passos, do meio para frente, viram o obstáculo. Mas rasgar os livros e matar os mestres é como ficar órfão. Por isso você resiste. Então, você continuará idolatrando os livros e os mestres até entender que só tem um livro para ler: você. E só tem um mestre a seguir: o óbvio. Quando entender isso, todos os livros queimados e mestres mortos ressuscitarão, mas ao invés de caminharem por você, caminharão com você.

Viver não é sempre um mar de rosas. Viver é um pacote de viagem completo que contém tudo, tanto as partes boas como as partes ruins. Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo.

É isso que você faz. Você se proíbe de viver. É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço. Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor.

E como faz para não viver? Você pensa em duas opções. Opção A: sair da brincadeira (suicídio). Opção B: fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga.

Ao fazer isso, além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção A. Mas tem também a opção C, que você nunca considera: se permitir sentir dor. O benefício da opção C é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

MULHER MARAVILHA: Parece que voltei à estaca zero. É como se não tivesse aprendido nada. Ainda bem que meu namorado também tem super poderes. Ele é super paciente e aguenta o tranco quando jogo minhas neuras para cima dele.

— Suas neuras estão vindo à tona justamente para você poder curá-las. O que está acontecendo é que por você saber como faz para viver bem, por ter aprendido a teoria, você não se permite viver mal. Mas assim você só duplica seu sofrimento. Sofre com as neuras e sofre por tentar proibir as neuras e não conseguir.

MULHER MARAVILHA: É isso mesmo!

— Você jamais irá conseguir se curar das suas neuras na base da proibição.

MULHER MARAVILHA: Por que não?

— Porque a proibição é consciente e suas neuras são subconscientes, ou seja, são automáticas. Tentar mudar suas neuras com proibição é igual você tentar controlar a respiração o dia inteiro, no primeiro descuido a respiração volta para o automático. Outra coisa é que para proibir algo esse algo tem que já estar manifesto, caso contrário, não tem nada para ser proibido. Então, o que você está fazendo de fato, não é se proibir, é se culpar. Você está se culpando por não estar sendo na prática o que sabe em teoria, por não estar sendo a Mulher Maravilha que deseja ser. Enfim, você está se culpando por errar.

MULHER MARAVILHA: Isso mesmo!

— Quem está “errando” é seu subconsciente, só que subconsciente não sabe o que é certo e errado, isso é coisa de consciente. Subconsciente é como robô, só entende de executar a programação. Então, seu subconsciente está sempre fazendo a coisa certa, pois está sempre executando a programação que recebeu.

MULHER MARAVILHA: Mas meu subconsciente está executando comportamentos que estão me fazendo viver mal.

— Você sabe disso, mas seu subconsciente não sabe. Saber é consciente. Subconsciente é execução automática da programação. E não é se culpando que você reprograma seu subconsciente.

MULHER MARAVILHA: Como é?

— É se mostrando um jeito melhor toda vez que o jeito pior for executado. Isso é passo a passo e infinitamente. E para uma caminhada infinita: paciência eterna.

MULHER MARAVILHA: Tem razão! Estou me culpando. E também voltei ao padrão de tentar dar o passo maior que a perna.

— Por que a pressa? Para quem você está querendo provar que é perfeita e nunca erra? Para quem você está querendo provar que é a Mulher Maravilha?

MULHER MARAVILHA: Para mim mesma. Quero me olhar no espelho e dizer: você é foda! E por fim morrer aplaudida pela humanidade inteira.

— Então, quer ser aplaudida?

MULHER MARAVILHA: Na verdade, não quero ser vaiada. Tenho vergonha de errar. Me sinto uma bosta quando erro ou faço algo errado. Isso acaba comigo. Então, meu problema nem é acertar. Eu só quero acertar para me livrar da vergonha de errar.

— Eis o nó do seu sofrimento! Coloque para fora sua vergonha que esse nó vai desatando. Use a memória para contar eventos relacionados.

MULHER MARAVILHA: Eu lembro que meu pai ria dos meus erros. Ele tirava um sarro. Na escola também, as crianças davam risada de mim quando eu errava. Eu ficava vermelha de vergonha. Eu ficava acanhada e mesmo sabendo a matéria, não respondia. Ficava só pensando que não podia errar, pois se falasse alguma besteira iriam dar risada de mim. Era um terror. Ah! Eu tinha medo da punição também. Medo de errar e levar bronca, tanto dos meus pais como dos professores. Eu me sentia injustiçada com as broncas, pois eu não errava por mal, errava porque não sabia. Mas levava bronca e esculacho. Me diziam: “Você é muito burra!”. Mas poxa, eu não sabia e não tinha obrigação de saber! Eu não nasci sabendo!

— Você foi no epicentro. Me diga, você gostava de receber broncas por errar?

MULHER MARAVILHA: Não gostava. Me sentia injustiçada. Me sentia um lixo. E não fazia por mal.

— Exato! Você não errava por mal, apenas não sabia o certo. E você não nasceu sabendo. Sendo assim, me diga: Ao invés do outro te dar broncas e rir dos seus erros, como você acha que o outro deveria ter se comportado? Como você acha que seria uma forma boa dele reagir ao seus erros?

MULHER MARAVILHA: O outro deveria ter me explicado como fazer certo ao invés de apenas me crucificar por ter feito errado. O outro deveria ter me explicado com clareza e educação ao invés de ficar me chamando de burra. O outro deveria ter falado comigo com carinho e respeito, me tratando de igual para igual, sem superioridade, sem autoritarismo, sem arrogância. O outro deveria ter sido paciente com meu processo de aprendizagem. O outro deveria ter considerado que eu era uma aluna e não uma professora. O outro deveria ter me mostrado onde estava errando, me feito consciente do erro e me ajudado a corrigir.

— Percebe a função espelho?

MULHER MARAVILHA: Sim! Total! Estou fazendo comigo o oposto disso. Estou sendo impaciente, cruel e severa comigo mesmo, igual meus colegas e educadores na infância.

— Retire a palavra “outro” do que você disse acima, substitua pela palavra “eu” e coloque os verbos no presente.

MULHER MARAVILHA: Eu devo me explicar como fazer certo ao invés de apenas me crucificar por ter feito errado. Eu devo me explicar com clareza e educação ao invés de ficar me chamando de burra. Eu devo falar comigo com carinho e respeito, me tratando de igual para igual, sem superioridade, sem autoritarismo, sem arrogância. Eu devo ser paciente com meu processo de aprendizagem. Eu devo considerar que sou uma aluna e não uma professora. Eu devo me mostrar onde estou errando, me fazer consciente do erro e me ajudar a corrigir.

— Eis a história que sua história tem para te contar.

Seu pai não fez por mal, fez por ignorância. Seu avô fez com seu pai, então, ele repetiu com você. Seu avô também não fez por mal, também fez por ignorância. Seu bisavô fez com seu avô, então, ele repetiu com seu pai, que repetiu com você. Seu bisavô também não fez por mal, também fez por ignorância. Seu tataravô fez com seu bisavô, então, ele repetiu com seu avô, que repetiu com seu pai, que repetiu com você. E assim por diante, ou melhor, assim por antes. Mas o que está feito está feito. O que você pode fazer agora é entender o feito e decidir se deseja continuar fazendo.

Mas o que foi feito? Seu pai lhe disse: “homem que é homem”. E não apenas disse, declarou com tom barítono, soturno e convicção que só um homem que é homem é capaz de ter. E o que você fez? Você acreditou. Afinal, sua autoridade tinha no máximo três centímetros, duro, enquanto que a autoridade do seu conselheiro era pelo menos três vezes maior que a sua, e se não fosse, você nem tinha nascido. Que outra opção você tinha? Você fez o que seu pai, seu avô, seu bisavô e todos seus ancestrais alfa fizeram: você acreditou.

Daí fodeu! Daí você virou coroinha da tradição, família e ancestralidade. Daí você deixou de ser um homem e se transformou num bosta. Afinal, você não tinha nenhuma das qualificações necessária para ser um homem que é homem. Você podia vir a ter as devidas qualificações e assim vir a ser um homem que é homem, porém, com uma autoridade de três centímetros, sem RG, CPF, cartão Gold e opinião crítica sobre o governo do PSPT, você nem podia ser chamado de bosta, você era um bostinha.

Mas nem tudo era espinhos. O tempo estava a seu favor. Você pensou: “Sou um bosta, mas ninguém nasce homem que é homem, meu pai também nasceu bostinha, logo, só preciso descobrir quais são as qualificações que transformam um bosta em um homem que é homem, praticar, assimilar e pronto!”. Seu raciocínio foi hierarquicamente perfeito! Foi exatamente isso que todos seus ancestrais pensaram e concluíram. Você deu o primeiro passo. Fez a matrícula. O segundo passo era descobrir o que era um homem que é homem.

“Pai, o que é um homem que é homem?”, você perguntou. Embora a resposta fosse automática e a pergunta fosse aguardada, por um instante seu pai hesitou. Ele previu seu futuro inteiro, pois seria exatamente a repetição do passado dele: uma bosta pintada de homem que é homem. Mas daí ele pensou: “A vida do meu filho não pode ser uma bosta que nem a minha!!!”. E foi assim que seu pai começou com a ladainha: “Homem que é homem isso, aquilo, murilo, grilo, crocodilo, esquilo, etc”.

Se ignorância é uma benção, sinta-se desabençoado. Depois dessa reflexão, você pode até continuar seguindo a tradição, família e ancestralidade, mas não pode mais alegar ignorância. Se você é mulher, é só trocar “pai” por “mãe”, “bosta” por “tonta” e “homem que é homem” por “mulher que é mulher”, depois aplicar a mesma lógica e destino. Agora, se você é um bosta ou uma tonta, parabéns: você é uma benção.

Você acredita que se viver sendo você, espontaneamente você, o outro vai te rejeitar, te excluir, te odiar, te crucificar, enfim, vai te matar (metaforicamente falando). A menos que esse outro seja um repolho, uma melancia, uma parede, um tatu, enfim, algo não humano, você está certo, provavelmente o outro vai te matar sim. Então, o que você faz para evitar que o outro te mate? Você se suicida (metaforicamente falando). Você mesmo se mata fingindo ser outro. Fingindo ser o que não é. Você sofre com isso, claro! Imagine a dor de um cavalo se obrigando a cacarejar e botar ovo! Imagine a dor de uma águia se obrigando a rastejar feito cobra! Não tem nada mais sofrido do que viver em negação de si. É uma tortura. Então, se quer viver bem, pare de se rejeitar para ser aceito pelo outro. Você não tem obrigação de agradar ninguém. Tire essa corda do pescoço. Viva bem!

Você não precisa preencher o vazio, basta retirar o que está bloqueando sua integridade. É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar. É tentando preencher o vazio que você bloqueia a si mesmo. “Eu tenho que isso! Eu tenho que aquilo!”. O que você chama de vazio é você cheio de medo de ser autêntico. Vazio é o fruto da sua busca pelo pote de ouro no final do arco íris. Pote de ouro = perfeição. Não existe perfeição. Tudo no universo é único, singular, impar_feito. Perfeição é um equívoco. Perfeição é a suposição que você deve viver de acordo com algum padrão coletivo. Isso é impossível. Se fosse possível você já teria conseguido.

A solução não é preencher o vazio com algo artificial, mas retirar o que está bloqueando o natural. Um tratamento médico não produz saúde, apenas retira o que está bloqueando a saúde. Retirado o bloqueio, a saúde volta naturalmente. Saúde é natural. Impar_feição é natural. Sua crença na perfeição que é o bloqueio. Quando você desperta e percebe a insanidade que é tentar ser perfeito, você imediatamente para de tentar e se permite ser você (impar_feito). Despertar para impar_feição é você se curando do equívoco da perfeição. Quanto mais você se cura, mais evidente fica que o vazio não era vazio, era você cheio de negação de si.

O problema não é que mentira é pecado, ou errado, ou antiético. O problema é que viver fingindo ser outro é exaustivo. Quanto maior a mentira, mais exaustivo. Mentira não se sustenta por si só, requer constante esforço para permanecer parecendo verdade. Mentir é igual segurar pedra. Toda pedra quer cair, quer voltar para o chão. Uma pedra só fica na sua mão enquanto você a impede de voltar para o chão. Analogamente, para viver fingindo ser outro você precisa ficar se impedindo de ser você. Segurar uma pedra o dia inteiro já é exaustivo, muito mais exaustivo é viver se segurando a vida inteira. Ninguém aguenta, nem merece, nem precisa. Desista de viver sendo outro. Abra a mão, a pedra cai sozinha.

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