01 | SEM ACORDO

Como você sabe que está mentindo?

Participante: Sei que não aconteceu, que é imaginação.

Vamos deixar isso mais explícito.

Alguém te pede esmola e você diz que não tem dinheiro. Você sabe que está mentindo. Como você sabe que está mentindo?

Participante: Porque sei que estou inventando algo que não é fato.

Isso mesmo! E tem mais…

Participante: Sei que os fatos não correspondem ao que estou falando.

Explique melhor isso.

Participante: O fato é Xis e estou falando Ípsilon. Minha afirmação é diferente do fato.

Exato! O fato é que você tem dinheiro. Mas o que você diz ao pedinte não é descrição do fato, é descrição de uma imaginação. A imaginação não corresponde ao fato. Você sabe disso, então, você sabe que está mentindo. Mas o pedinte não sabe que você está mentindo. Por que não?

Participante: Porque o pedinte não tem acesso ao meu bolso nem a minha imaginação.

Isso mesmo! E como o pedinte pode saber que você está mentindo?

Participante: Desse jeito não pode. Mas o pedinte pode enfiar a mão no meu bolso e constatar que de fato tenho dinheiro no bolso.

Ótimo! Vou resumir antes de prosseguirmos. Você mentindo é você descrevendo uma imaginação como se fosse fato. Você sabe que está mentindo porque tem acesso aos seus fatos e imaginação. Como o outro não tem o mesmo acesso, fica impossibilitado de saber que você está mentindo. Está claro isso?

Participante: Sim, está claro.

Agora vou trocar o termo “fato” por “gabarito”. O dinheiro que você tem no bolso é o gabarito. Você está mentindo porque o que você diz para o pedinte não está EM acordo com o gabarito. Se não está EM acordo, como está?

Participante: Está SEM acordo.

Mentira = sem acordo com o gabarito. Essa é a definição de mentira que vamos usar para entendermos o outroísmo submisso. Sendo assim, pergunto: para você poder mentir, o que é imprescindível existir?

Participante: Existir gabarito.

Exato! Sendo que mentira é quando sua manifestação está SEM acordo com o gabarito, para que você possa mentir, tem que existir gabarito, senão, como sua manifestação pode estar SEM acordo com algo que não existe? Não pode!

É por isso também que você não consegue mentir para si mesmo. Você sabe dos seus gabaritos, sabe do que está acontecendo dentro de você. Por exemplo, quando você diz que está adorando uma festa que está detestando, você sabe que está mentindo porque sabe que está detestando.


02 | ANEL DE GIGES

Outroísmo submisso é fingimento. É quando você nega sua unicidade (gabarito) fingindo ser outro.

Para ilustrar, vou contar uma história mitológica.

Giges era um pastor que morava na cidade de Lídia. Um dia Giges encontrou um anel no dedo de um cadáver. Giges pegou o anel e foi para uma reunião de pastores. Em certo momento da reunião, Giges colocou o anel no dedo e ficou invisível para os pastores. Quando retirou o anel, voltou a ficar visível. Giges decidiu tirar vantagem do poder do anel. Seduziu a rainha, convenceu-a a matar o marido e se tornou rei.

Como o mito de Giges pode nos ajudar no entendimento do outroísmo submisso?

Quando Giges fica invisível, ninguém vê o que ele está fazendo, é como se Giges não existisse para os outros, então, ninguém têm como censurá-lo. Essa é a leitura tradicional do mito de Giges. Mas podemos pensar também que do ponto de vista de Giges, quando ele está invisível, quem deixa de existir não é ele, são os outros. Por isso que Giges se permite fazer o que quer quando está invisível e volta ao normal quando está visível.

Quando Giges está invisível, Giges é Giges, vive EM acordo com seu próprio gabarito, vive do jeito que quer viver. E por quê?

Participante: Porque não existe a possibilidade de censura do outro.

Isso mesmo! E quando Giges está visível, Giges é outro, vive EM acordo com o gabarito dos outros e SEM acordo com o próprio. Por quê?

Participante: Porque existe a possibilidade de censura do outro.

O que o mito de Giges nos conta sobre o viver de Giges?

Participante: Que tem dois jeitos de Giges viver.

Isso! Giges pode viver EM acordo com seu gabarito ou SEM acordo.

O mesmo acontece com você. Você também tem essas duas opções. Você pode viver:

A) EM acordo com seu gabarito, sendo você de verdade.
B) SEM acordo com seu gabarito, sendo você de mentira.


03 | SERPENTE

Claro que seu impulso natural é viver sendo você de verdade. Então, para que haja desafio, tem que haver algo que te convença a optar pelo anti-natural. Tem que ter uma serpente no paraíso. Que serpente é essa?

Participante: Medo

Medo do que?

Participante: Do julgamento, da opinião do outro.

É mais convincente do que isso!

Participante: Medo de não ser aceito.

O oposto de aceitação é rejeição, então, você teme a rejeição, a reprovação, a censura. Coloque tudo isso numa palavra só, que palavra é essa?

Participante: Não sei.

Volte na infância e verá como isso tem se repetido desde seu primeiro instante de vida. Pense em Giges visível. Se Giges ficar visível e viver como quer, o que acontecerá com Giges?

Participante: Será punido.

Exatamente. O desafio é a punição. Giges quer viver do seu jeito, mas se faz isso visivelmente, pode ser punido. O anel resolve isso. Quando Giges coloca o anel ele não fica só invisível, fica impune também.

O jeito de viver de Giges representa o viver outroísta submisso. Mas por que viver sendo outro? Qual é o benefício?

Participante: Evitar ser punido.

Exato! Você opta pelo outroísmo submisso para evitar sofrimento. Mas é bom viver sendo outro? Você calça 38, mas opta por usar 32. É bom isso? Você gosta de tocar violão, mas opta por trabalhar de advogado. É bom isso? Você gosta de chinelo e bermuda, mas opta por usar terno, gravata e sapato. É bom isso?

Participante: Não! É ruim!

Percebe o que é o outroísmo submisso? Para não ser punido pelo outro, você tem a brilhante ideia de se punir primeiro. “Ninguém vai pisar em mim, eu mesmo vou me martelar!”. Para não ser punido, você mesmo se pune. Para não sair do paraíso, você mesmo se expulsa. Essa é a genialidade do outroísmo submisso. E o pior é que além de você se punir, o outro vai te punir também.

Participante: Melhor fazer o que quero já que o outro me pune de qualquer jeito.

Exato! Na adolescência isso acontece muito. Você se submete à imposição do grupo para ser aceito no grupo. Só que ainda assim o grupo despreza você, caçoa de você e sacaneia você. Resultado: são dois sofrimentos, duas punições.

Nas relações de pais e filhos isso também acontece muito. Você faz o que seus pais querem para não ser punido ou não ficarem chateados com você. Tem filho que faz faculdade que não gosta para agradar os pais. Daí, a cada dia que passa, o filho vai ficando mais magoado com os pais, porque todos os dias está fazendo algo que não gosta, porque se sente torturado. Só que não. É o filho que está se autotorturando.


04 | AUTOÍSMO

Para concluirmos, pergunto: o que é ficar invisível?

Participante: É mentir.

Sim, mas do ponto de vista de Giges, o que é mentir? Qual é seu objetivo com isso?

Participante: Burlar o jogo.

Exato! Quando Giges coloca o anel e fica invisível, ele está tentando fazer com que a causa não corresponda ao efeito. Giges quer optar, mas não quer experimentar o resultado de sua opção. Giges quer ficar impune. Na história Giges consegue, mas na prática é impossível. E pior! É tiro no pé! Pois além de você ser o primeiro a se punir, ainda assim o outro pode punir você.

Última pergunta: usando o mito de Giges, o que é autoísmo?

Participante: Autoísmo é viver EM acordo com o próprio gabarito sem o anel.

Bingo! Autoísmo é você se bancando. É você se permitindo ser você de verdade apesar da possibilidade de punição dos outros.


05 | BURRO NAS COSTAS

Um velho e um menino viajam por uma estrada de terra puxando um burro. Uma pessoa diz: “Que burrice! Vocês dois andando a pé e o burro de carga sem carga!”. O velho coloca o menino em cima do burro. Outra pessoa diz: “Que preguiça! Um menino cheio de vitalidade em cima do burro e um pobre velho andando a pé!”. O menino desmonta do burro e o velho sobe no burro. Outra pessoa diz: “Que maldade! Um homem feito em cima do burro e um menino franzino andando a pé!”. O menino sobe em cima do burro junto com o velho. Outra pessoa diz: “Que crueldade! Dois homens em cima de um pobre burrico!”. O velho e o menino descem do burro e colocaram o burro nas costas. Moral da história: Se você vive para satisfazer as expectativas dos outros, eis porque não consegue nunca e sente como se estivesse levando um burro nas costas.


06 | VOCÊ DE MENTIRA

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Você não convive de verdade. É fingimento. Você e o outro não foram ao cartório oficializar a farsa, mas vocês têm um contrato de fingimento. Por isso o outro te elogia e você elogia o outro. Vocês estão cumprindo o contrato. Elogiar um ao outro é uma forma de dizer: “Continue fingindo que eu também continuo”. Convivência desse tipo funciona feito jogo de xadrez, não há lugar para espontaneidade. Cada movimento precisa passar por rigorosa análise do que dirão antes de vir ao tabuleiro. É muito sofrido viver assim. Ninguém aguenta. Por isso você deseja rasgar o contrato. O outro também. Só que ninguém toma iniciativa. Fica um esperando o outro desistir do fingimento. Esperando, esperando, esperando… E é assim que cada um ajuda a perpetuar o que todos desejam que acabe.

A palavra responsabilidade pode ter múltiplos significados. Não sei qual significado você está usando. Se a pessoa a que você se refere é um filho, por exemplo, você é legalmente responsável por ele até completar 18 anos. Essa é uma responsabilidade constitucional. Agora, enquanto ser humano, você só pode optar por si, então, você só pode ser responsável por si.

A palavra responsabilidade é a soma de duas palavras: responsa + habilidade. Responsa é responder. Habilidade é capacidade. Responsabilidade é sua capacidade humana de responder as circunstâncias da vida. Porém, nenhum ser humano é capaz de responder pelo outro. Então, é impossível você ser responsável por qualquer outro ser humano além de si mesmo.

Cada ser humano é o único usuário de si, único usuário da própria unicidade. Ninguém é usuário da unicidade do outro. Então, cada um é o único responsável por si.

Eu não minto e não gosto de mentira, então, por que estou atraindo gente mentirosa para minha realidade?

A palavra “atraindo” não é uma boa palavra para você entender criação de realidade. É ótima para vender livros, criar misticismo e equívocos, mas péssima para entender criação de realidade. Então, para lhe ajudar no esclarecimento, vou substitui-la por “experimentar”.

Fazendo isso, sua pergunta fica assim:

PERGUNTA: Eu não minto e não gosto de mentira, então, por que estou experimentando gente mentirosa na minha realidade?

A resposta curta, grossa e desagradável, é: porque você está optando por isso. Criação de realidade funciona assim: agora se opta, agora se experimenta. Realidade é efeito do arbítrio. Você pode replicar: “Você está errado, pois eu não opto por conviver com gente mentirosa, pois eu detesto mentira e gente mentirosa”. Ora, mas você opta por conviver com pessoas, não opta? Você dirá: “Sim, opto”. Pois então, pessoas mentem! Entendeu? Ao optar por conviver com pessoas, vem junto tudo que pessoas fazem: respirar, mijar, soltar pum, sorrir e mentir. Opção é kinder ovo, vem com surpresa dentro.

Quando seu carro é roubado, você se pergunta: “Por que meu carro foi roubado? Como atraí isso? Por que estou experimentando essa realidade? Quando foi que optei por isso?”. Você optou por isso quando comprou o carro. Como você poderia ter seu carro roubado se você não tivesse optado por comprar o carro? Não poderia. “Ah, mas eu optei por comprar o carro, não optei por me roubarem o carro!”. Sim, mas vem no pacote da opção de comprar o carro, vem dentro do kinder-carro. Surpreeeeesa!

“Puta merda!” você pensou agora. Pois é! Descupaê, mas é assim que funciona criação de realidade coletiva. Não inventei a brincadeira, só explico como funciona. Agora se opta, agora se experimenta. E mesmo que você opte por uma experiência específica, vem um monte de experiências surpresas e correlatas dentro do pacote. O que nos leva a sua segunda pergunta:

Como posso ser 100% responsável por ter a experiência de conviver com pessoas mentirosas como afirma o ho’oponopono?

Quem executa seu arbítrio é 100% você e mais ninguém. Simples assim. Óbvio assim. Se não quer conviver com pessoas mentirosas, não deve optar por conviver com pessoas, deve optar por conviver apenas com plantas, animais e eletrodomésticos, pois pessoas mentem. Se quer conviver com pessoas que mentem pouco, você pode, por exemplo, fazer uma entrevista com as pessoas candidatas a se relacionarem com você antes de você optar por se relacionar com elas, tipo uma entrevista de emprego. Mas os candidatos podem mentir na entrevista também. Agora já sabe porque, né? Isso mesmo! Pessoas mentem.

Você não precisa preencher o vazio, basta retirar o que está bloqueando sua integridade. É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar. É tentando preencher o vazio que você bloqueia a si mesmo. “Eu tenho que isso! Eu tenho que aquilo!”. O que você chama de vazio é você cheio de medo de ser autêntico. Vazio é o fruto da sua busca pelo pote de ouro no final do arco íris. Pote de ouro = perfeição. Não existe perfeição. Tudo no universo é único, singular, impar_feito. Perfeição é um equívoco. Perfeição é a suposição que você deve viver de acordo com algum padrão coletivo. Isso é impossível. Se fosse possível você já teria conseguido.

A solução não é preencher o vazio com algo artificial, mas retirar o que está bloqueando o natural. Um tratamento médico não produz saúde, apenas retira o que está bloqueando a saúde. Retirado o bloqueio, a saúde volta naturalmente. Saúde é natural. Impar_feição é natural. Sua crença na perfeição que é o bloqueio. Quando você desperta e percebe a insanidade que é tentar ser perfeito, você imediatamente para de tentar e se permite ser você (impar_feito). Despertar para impar_feição é você se curando do equívoco da perfeição. Quanto mais você se cura, mais evidente fica que o vazio não era vazio, era você cheio de negação de si.

Fico triste. Acho ruim. Sobre como lido com isso, só sei na hora.

Dito isso, sua pergunta contém um equívoco que todo aluno de autociência comete no começo dos estudos, acreditar que existe receita de certo e errado, solução de bolo de caixinha para viver bem. Não existe. Tudo é circunstancial e uma circunstância nunca é igual a outra. Então, o que funciona numa circunstância pode não funcionar na outra, o que é melhor numa circunstância pode ser pior na outra, e assim por diante.

Um ser humano lúcido nunca usa uma receita de bolo de caixinha para lidar com uma circunstância, usa o raciocínio. Ele olha para sua realidade com atenção, analisa e pensa na melhor maneira de lidar com aquela realidade. É isso que faço de instante em instante, circunstância após circunstância. É isso que faria para lidar com a traição de um amigo. É isso que sugiro que você faça.

Você pode replicar: “Ah! Mas eu não tenho a mesma qualidade de raciocínio que você para lidar com minha realidade”. Sim, fato, cada um tem sua própria qualidade de raciocínio. A minha é diferente da sua, que é diferente do outro, etc. Cabe a cada um usar o próprio raciocínio para lidar com sua realidade. Um não tem como usar o raciocínio do outro. Mas você pode fazer do limão uma limonada.

Você pode e deve usar circunstâncias desagradáveis como oportunidades para exercitar e melhorar a qualidade do seu raciocínio. Quanto mais você exercita seu raciocínio, mais você desenvolve a qualidade dele, quanto mais desenvolve, melhor você opta, quanto melhor você opta, melhor você vive.

Resumindo: Honre ter um cérebro: pense!

Claro que é mais fácil dizer que é difícil. Claro que é mais fácil fazer mimimi. Claro que é mais fácil ficar na mesmice, na zona de conforto, censurar e depois dizer vitorioso: “Eu não disse que era loucura!”. Mas é esse tipo de vitória que você quer experimentar? A vitória do mais do mesmo? A vitória da inércia? Ou será que você está louco de vontade de pirar nas possibilidades, de se atirar de cabeça nos desafios, de colocar o delírio em prática, de realizar o absurdo e depois dizer: “Eu não disse que era loucura!”. Quem quer inventa um meio, quem não quer inventa um freio. Se você quer mesmo. Se quer de doer no osso. Se quer de ficar com febre. Então, de que importa o tamanho do desafio? Não há dificuldade capaz de vencer sua inteligência e vontade. Difícil é viver mal.

É bastante comum mulheres virem conversar comigo e dizerem: “vocês, homens”. Quando fazem isso, costumo perguntar: “E quem lhe disse que eu sou homem?”. Elas se espantam e perguntam: “Você é gay?”. Respondo que não. Elas ficam sem entender e perguntam: “Se você não é homem e não é gay, o que você é?”. Respondo: “eu sou eu”. Entende o que estou dizendo?

O primeiro passo para uma boa convivência é estar consciente que convivência é entre um indivíduo e outro indivíduo. Ou seja, entre um ser humano único, singular, diferente de todos os outros seres humanos e você, que também é um ser humano único, singular, diferente de todos os outros.

Uma mulher, um homem, uma esposa, um marido, um pai, uma mãe, um filho, são, antes de todos esses rótulos que você cola na testa das pessoas, indivíduos. Quando você ignora isso e assume que o outro é o rótulo que você está colando na testa dele, você está condenando sua convivência, desde a raiz, a ser uma árvore produtora de má convivência.

Dito isso, um ser humano que opta pelo fingimento para manipular a relação, faz isso em toda e qualquer circunstância que acredite ser necessário manipular a relação. Então, se tal ser humano acreditar que precisa manipular a relação o tempo todo, irá fingir o tempo todo, em todas as circunstâncias.

Quem é você para confiar em si mesmo? Quem é você para confiar em seu sentimento, sensibilidade, autoridade e juízo!? Que absurdo! Pirou? Para você viver bem, você precisa do aval do Dalai Lama, do Buda, de Jesus, do Papa, do Xamã Pena Branca, do Einstein, do Stephen Hawking, da NASA, do Freud, do Jung, do Allan Kardec, do teorema de Pitágoras, do Guru da Baba Azul e, principalmente, do Elvisleno, o camelô, filho do Elvis Presley com o John Lennon, que vende relógio suíço na rua 25 de Março, em São Paulo. Quer algo em que confiar? Confie no horóscopo, na propaganda política, no facebook, na previsão das cartomantes, nos comerciais de margarina, na novela das oito que começa às nove, nos filmes do Chuck Norris e nas revistas de fofocas. Confie em qualquer coisa. Confie na fada do dente. Confie nas fitinhas do Senhor do Bonfim. Confie em São Longuinho. Só não cometa a insanidade de confiar em si mesmo. Jamais! Quem avisa amigo é! Confie em mim.

Você acredita que se viver sendo você, espontaneamente você, o outro vai te rejeitar, te excluir, te odiar, te crucificar, enfim, vai te matar (metaforicamente falando). A menos que esse outro seja um repolho, uma melancia, uma parede, um tatu, enfim, algo não humano, você está certo, provavelmente o outro vai te matar sim. Então, o que você faz para evitar que o outro te mate? Você se suicida (metaforicamente falando). Você mesmo se mata fingindo ser outro. Fingindo ser o que não é. Você sofre com isso, claro! Imagine a dor de um cavalo se obrigando a cacarejar e botar ovo! Imagine a dor de uma águia se obrigando a rastejar feito cobra! Não tem nada mais sofrido do que viver em negação de si. É uma tortura. Então, se quer viver bem, pare de se rejeitar para ser aceito pelo outro. Você não tem obrigação de agradar ninguém. Tire essa corda do pescoço. Viva bem!

Não. É impossível deixar de ser carente. Carência é inevitável. Carência é desejo. Todo ser é desejante, então, todo ser é carente. O bem viver não vem do fim da carência. Esse é o equívoco. O bem viver vem de lidar bem com a carência. Você está lidando mal com sua carência, estava lidando de forma outroísta submissa, por isso estava vivendo mal.

Você protege as cagadas de quem ama. Faz vista grossa. Você finge que a pessoa amada não está fazendo a merda que está fazendo. E pior! Você acredita que faz isso por amor ao outro. Só que não! Você faz isso para controlar o amor do outro, para inibir a possibilidade do outro lhe odiar. Na posição de mãe, por exemplo, você finge que seu filho não está fazendo merda para que seu filho lhe ame. Na posição de filho, você finge que seus pais não estão fazendo merda pelo mesmo motivo. Mas quando alguém está fazendo merda, fazendo merda está. Óbvio! Simples assim! Pessoas amadas são pessoas iguais você e fazem merda igual você. Não é fingindo que o outro não tem cu que você convive bem com ele. Todas as pessoas acordam de manhã, vão até o banheiro e fazem merda, nem por isso deixamos de amá-las. Uma pessoa não é a merda que faz, apenas faz merda.

O problema não é que mentira é pecado, ou errado, ou antiético. O problema é que viver fingindo ser outro é exaustivo. Quanto maior a mentira, mais exaustivo. Mentira não se sustenta por si só, requer constante esforço para permanecer parecendo verdade. Mentir é igual segurar pedra. Toda pedra quer cair, quer voltar para o chão. Uma pedra só fica na sua mão enquanto você a impede de voltar para o chão. Analogamente, para viver fingindo ser outro você precisa ficar se impedindo de ser você. Segurar uma pedra o dia inteiro já é exaustivo, muito mais exaustivo é viver se segurando a vida inteira. Ninguém aguenta, nem merece, nem precisa. Desista de viver sendo outro. Abra a mão, a pedra cai sozinha.

Ego é uma palavra feita de três letras: e+g+o. Só isso! Palavras tem significados diferentes em contextos diferentes. Ego significa vaidade no contexto moral, significa mediador no contexto psicanalítico e significa falso-eu no contexto espiritualista. Tem outros significados em outros contextos.

Eu não uso a palavra ego na literatura da 1ficina, não recomendo usar, nem incentivo o uso. Além da multiplicidade de significados, trata-se de uma palavra rançosa, carregada de mal entendidos e usada sem conhecimento de causa. Ou seja, quem usa a palavra ego geralmente está apenas papagaiando o que decorou e reproduzindo sem saber do que está falando. Então, para o bem do meu leitor, evito o uso da palavra ego.

Dito isso, mesmo sendo uma palavra que evito usar, ainda é interessante refletir sobre o significado de “falso-eu” atribuído a palavra ego. O que seria um falso-eu? Ou melhor, o que seria um falso-você? Bem, para haver falso é preciso haver verdadeiro. Óbvio! Mas se há um você verdadeiro, onde está? E por que o falso toma o lugar do verdadeiro?

Imagine que você adore música dançante, com tambores e batidas fortes, mas você nasceu e vive em um mundo que despreza esse tipo de música e só valoriza música erudita, tipo Mozart, Beethoven, Bach, etc. Você coloca uma música dançante e seus amigos começam a te zuar. Seus pais tratam esse seu gosto musical como um defeito. Ninguém te convida para as festas, nem conversa com você, pois você é estranho, você gosta de música dançante. O que você faz para ter a aceitação do mundo?

Vamos supor que seu nome é Pessoa. Para ser amado pelo mundo, você cria um falso você, a Pessoa fake, que é você fingindo que não gosta de música dançante e adora música erudita. Esse exemplo é simplificado, mas ilustra bem o que é o falso você e porque você o coloca no lugar do verdadeiro. A verdadeira Pessoa não é amada pelo mundo, e como você prefere ser amado do que ser você, você tranca a verdadeira Pessoa no porão da autonegação e coloca a Pessoa fake no lugar dela.

A Pessoa fake não é o que você verdadeiramente é, naturalmente é, espontaneamente é. A Pessoa fake é um fingimento, é uma estratégia de manipulação que você executa dia e noite para ser amado pelo mundo. E fingir o gosto musical não é o único fingimento que a Pessoa fake precisa executar para ser amada. A Pessoa fake precisa fingir que concorda com o que todo mundo concorda, que acha importante o que todo mundo acha importante, que acha certo o que todo mundo acha certo, etc.

Tudo que você faz repetidamente se torna um hábito, você começa a fazer automaticamente, igual dirigir carro. Então, quanto mais você repete o fingimento de que você é a Pessoa fake, mas automático fica você ser a Pessoa fake. Depois de muito tempo de autonegação, a verdadeira Pessoa fica soterrada pelo hábito do fingimento e você se torna a Pessoa fake. Você até esquece que é uma Pessoa verdadeira, a máscara vira sua pele.

A Pessoa fake é seu ego (falso-eu). Na 1ficina eu chamo esse comportamento de “outroísmo submisso”. Outroísmo porque você deixa de ser você mesmo e se torna outro. Submisso porque viver sendo outro, é você se submetendo aos critérios e ideais do outro.

O termo “outroísmo submisso” é melhor que a palavra “ego” pelos motivos que expliquei no começo. E mais! O termo “outroísmo submisso” deixa explícito seu comportamento e coloca a responsabilidade por você viver mal no executor do seu comportamento: você. A palavra “ego” faz o oposto, esconde seu comportamento e coloca a responsabilidade por você viver mal em um bode expiatório chamado o ego. Esconder não resolve fingimento, perpetua. Então, usar a palavra “ego” é apenas mais uma estratégia que você usa para perpetuar sua autonegação.

Você é a fábrica da sua realidade. Realidade é produto. Sua fabricação de realidade funciona assim: sua vontade produz seu pensamento, que produz seu comportamento, que produz sua realidade. Sendo assim, o natural seria que você vivesse em constante autorrealização, ou seja, que sua realidade fosse reflexo da sua vontade. Mas não é isso que acontece. Por que não? Porque você tem arbítrio. Você é livre para NEGAR sua vontade. Não é agradável, mas é possível. Então, você nega sua vontade para realizar a vontade dos seus pais, dos seus amigos, dos seus professores, da sua sociedade. Você nasce e morre em autonegação. O resultado de viver assim, é uma profunda e constante insatisfação, uma sensação de que sua realidade está errada, de que você está vivendo a vida de outra pessoa, de que sua realidade não é sua. Claro que é sua! Só que não!

Ótima pergunta. Aliás, essa é A pergunta: “O que me impede de ser eu?”. Mas antes de responder preciso que você se sente e relaxe. Você está sentado? Se não estiver, por favor, se sente para não cair duro com a resposta. E você está relaxado? Se não, relaxe, por favor. Caso contrário você terá um ataque de fúria ou de pânico.

Vamos fazer um breve exercício de respiração para provocar o relaxamento. Puxe o ar pelo nariz. Segura. Conta até sete. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Solta o ar calmamente. Repete o exercício. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Isso! Repete mais uma vez. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Solta o ar calmamente. Ótimo! Agora que você está sentado e relaxado, vou responder: o que impede você de viver sendo você é seu arbítrio.

Ops! Respira, respira, respira… Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete… Segura! Isso! E pára de bater a cabeça na mesa e na parede. Isso! Solta o ar calmamente. Ótimo! Vou continuar…

A laranjeira consegue dar laranja e você não consegue dar você, porque a laranjeira não tem arbítrio. Ou seja, não existe, no caso da laranjeira, a possibilidade de autonegação. A laranjeira está condenada a dar laranja. Não pode jamais dar jaca, nem jabuticaba, nem goiaba, nem tomate. Laranjeira dá laranja e pronto! Não tem liberdade para ser diferente disso. Você é um ser humano, você têm liberdade de optar, ou seja, tem arbítrio. Então, você pode se proibir de dar você e viver sendo outro.

Por favor, não se levante e pare de bater a cabeça na parede. Respira. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Isso!

Sei que é desagradável ouvir essas palavras, mas é o remédio amargo que cura. Leia tudo que irá lhe ajudar. Recapitulando… Você tem arbítrio, então, você pode se proibir de viver sendo você e viver sendo outro. Isso é o que a 1ficina chama de outroísmo. Você pode optar por viver igual seus pais querem, igual seus amigos querem, igual a igreja quer, igual seu guru quer, igual o comercial da coca cola quer, etc. Você pode optar por viver sendo outro e não você mesmo. O resultado dessa opção é viver mal, mas você pode fazer isso, a laranjeira não pode.

A laranjeira não consegue sair do paraíso. A laranjeira não tem arbítrio. A laranjeira não pode comer a maçã. Você pode cair em tentação e comer a maçã (viver sendo outro). O resultado dessa opção é ser expulso do paraíso. É impossível viver bem sendo outro, é doloroso, é um inferno. Mas você pode optar por viver sendo outro. Prova disso é que você vive sendo outro. E mesmo eu te explicando aqui a besteira que está fazendo, você continuará fazendo. E pior! Nada nem ninguém é capaz de te impedir de continuar.

Lembra que expliquei ontem que arbítrio é incorruptível, e que isso tem um lado bom, mas que também tem um lado ruim. Eis o lado ruim. Nada nem ninguém é capaz de te impedir de viver outroísta. Nem Jesus na causa! Nem os vingadores! Mesmo que todos os seres do universo se juntem para te impedir de optar por um viver outroísta, ainda assim, você é livre para continuar se proibindo de ser você mesmo.

O universo é absolutamente impotente perante seu arbítrio. Olha que loooooco! Leia pausadamente. O universo…. é… absolutamente… a.b.s.o.l.u.t.a.m.e.n.t.e… im.po.tente… perante seu arbítrio. Entende o tamanho do seu poder??? Quer mais empoderamento que isso??? Não existe! Você é um ser humano. Você é o ser mais empoderado do universo. Por um lado, isso é ótimo, pois nada, absolutamente nada, pode te impedir de viver bem, mas por outro lado, nada pode te impedir de viver mal.

Eis a grande questão do arbítrio: benção ou maldição?

Você decide.

Mãe não é um ser humano. Você já viu mãe que faz coco? Mãe que faz sexo? Já viu mãe que faz qualquer coisa mundana? É difícil entender que a mãe é um ser humano igual você. Tem um 1ficineiro antigo, que sofreu violência dos pais e que tinha mágoa da mãe. Só que ele não gostava de fingimento. Ele não fingia amar a mãe dele. Ele assumia o desafeto com a mãe, inclusive na família. O resultado era que sempre o consideravam errado, o filho ingrato que não amava a mãe. E porque estou contando isso? Porque ele falava assim: “Aos olhos dos outros, filho falando mal da mãe está sempre errado, mesmo estando certo”. Ele via a mãe dele como um ser humano igual ele e era considerado um filho ingrato pelos outros.

Vou lhe dar alguns dados para reflexão. O maior evento de adoração brasileiro se chama romaria, que é um evento de adoração da mãe de deus. Se é pecado odiar deus, que dirá a mãe! O único amor verdadeiro no universo, puro, cristalino, incondicional, imaculado, é o amor de mãe. Como você vai odiar quem te ama de forma tão imaculada? Por fim, quem te deu a vida? E que dinheiro paga essa dívida? Nenhum! Entende? Você não nasceu, você foi colocado dentro de uma dívida eterna e está condenado a pagar um boleto até morrer, pois segundo a mentalidade materialista, sem sua mãe você não existiria.

Você quer ser culpado pelo bem-bom, mas não quer ser culpado pelo bem-mal. Você faz que nem o Homer Simpson: “Se a culpa é minha eu ponho em quem eu quiser”. Bode expiatório não falta. Pais, cônjuge, filhos, sociedade, governo, ets, lei de murphy, lei de darvin, mente, karma, vidas passadas, deus e o diabo. Esse seu jeito de viver chama-se omissão. É uma opção. E tem intenção positiva: resolver seu sofrimento. Só que não resolve. Pelo contrário, perpetua. Assumir a responsabilidade pela solução do próprio sofrimento é fundamental para resolvê-lo, pois assim como ninguém pode fazer xixi por você, ninguém pode resolver você por você.

Porque ninguém tem interesse que você seja você. Seu pai quer que você seja outro. Sua mãe quer que você seja outro. Sua esposa quer que você seja outro. Seu marido quer que você seja outro. Seus filhos querem que você seja outro. Seus amigos querem que você seja outro. Seus professores querem que você seja outro. A sociedade quer que você seja outro. O padre quer que você seja outro. E mais! Segundo a bíblia, até Deus quer que você seja outro. Ora, se o universo inteiro e até o criador do universo quer que você seja outro: quem é você para ser você? De onde vem essa arrogância suprema de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo escancarado, fedido e mesquinho é esse de ser autêntico? É acreditando nessas certezas e duvidando de si que você opta pela uniformidade e vive sendo outro.

Viver não é sempre um mar de rosas. Viver é um pacote de viagem completo que contém tudo, tanto as partes boas como as partes ruins. Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo. É isso que você faz. Você se proíbe de viver. É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço. Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor. E como faz para não viver? Você pensa em duas opções. Opção A: sair da brincadeira (suicídio). Opção B: fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga. Ao fazer isso, além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção A. Mas tem também a opção C, que você nunca considera: se permitir sentir dor. O benefício da opção C é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

Para construir novas crenças você precisa viver novas opções. Para viver novas opções você precisa optar por novas opções. Para optar por novas opções você precisa se permitir errar. Para se permitir errar você precisa bancar seus erros. Caso contrário, você vai ser sempre Maria Vai Com As Outras. Por que você opta por ser Maria Vai Com As Outras? Por que daí você tem em quem jogar a culpa. Eu fiz o que todo mundo faz. O problema é que tudo mundo não vive com as consequências das suas escolhas, quem vive com as consequências das suas escolhas é você. Então, ou você banca optar pelo que quer, mesmo que possa dar merda, ou então, fica só esse blablabla de baixa estima.

O que precisa ficar óbvio é que não existe mãe. O que você chama de mãe é um ser humano igual você, ignorante igual você, que faz merda igual você. Mãe é um rótulo que você coloca em uma pessoa. Tire o rótulo e conviva com a pessoa. Boa convivência só é possível entre seres humanos e nunca entre rótulos humanos.

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?
— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.
— No videogame tem consequências também.
— É verdade.
—Então, qual é a diferença?
— Nenhuma!
— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?
— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.
— Sendo assim, qual é a diferença?
— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.
— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?
— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.
— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?
— Não sei. Qual é?
— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.
— Nossa, é mesmo!
— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.
— Verdade também!
— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que experimenta sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que experimento minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

Praticando autociência e ficando consciente que a pessoa falecida que você chamou de mãe era um ser humano igual você, ignorante igual você, que fez merda igual você. E ficando consciente da função espelho que o comportamento da sua mãe teve para você.

Não necessariamente. Pode ser, pode não ser. Meu trabalho de professor de autociência, por exemplo, consiste em servir vocês, alunos, mas não é outroísmo submisso, é autoísmo. Outroísmo e autoísmo não está no ato, mas na motivação do ato, na intenção do ato. A esposa pode fazer sexo com o marido, por exemplo, para ter prazer ou para salvar o casamento. É o mesmo ato, mas são duas motivações diferentes. Outroísmo submisso é fingimento. Usando o exemplo da esposa, se a esposa finge que quer fazer sexo para salvar o casamento, está sendo outroísta submissa. Outroísta porque a motivação da esposa é controlar o outro. Submissa porque está fazendo isso através do fingimento, da submissão.

Seu eu-presente condena seu eu-passado pelos erros que ele cometeu. Só que o eu-passado não sabia o que o eu-presente sabe, então, não tinha como fazer diferente. A prática do perdão nesse caso, é a mesma do perdão para com o outro. Você deve colocar o eu-presente para calçar os sapatos do eu-passado. O eu-presente que condena o eu-passado geralmente é adulto. E o eu-passado era só uma criança que na época não sabia nada de nada, mas era cobrado em fazer tudo certo, e um certo que desconhecia, até porque, o tal do certo, era só uma norma que não estava escrita em lugar nenhum e mudava de um adulto para o outro.

Quando fica óbvio que tentar controlar a opinião dos outros sobre você só serve para te fazer escravo desse ofício, você desiste. O outro pode te criticar, te caluniar, te difamar, foda-se! Você não se proíbe mais de viver do seu jeito só para receber emoji de coração e curtida no facebook. Você desiste de parecer e se permite ser. Você caga para opinião dos caga-regras. Só que os caga-regras começam a te criticar como nunca. É muita merda no seu ventilador. Muita pedra no seu telhado de vidro. A dor fica insuportável. Então, como a melhor defesa é o ataque, ao invés de você continuar cagando PARA os outros, você começa a cagar NOS outros. Você ataca merda para não ser atacado. Você voltou para mesma escravidão da qual havia saído: tentar controlar a opinião dos outros. E pior! Você se transformou no que odiava: um caga-regra.

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© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari