01 | INTRODUÇÃO AO JOGO

Imagine que você se juntou a um grupo de seres para jogar um jogo. Esse jogo funciona com todos vocês se trancando numa cadeia. Cada um é diferente do outro, só que ninguém sabe disso, pois cada um só sabe de si. Vocês entram nessa cadeia, fecham a porta e não tem como sair. O jogo é simples assim. Imaginou? É isso mesmo! Essa cadeia é exatamente essa experiência humana que você está experimentando. E por que é uma cadeia?

PARTICIPANTE: Para não fugir?

Do que você fugiria?

PARTICIPANTE: Da convivência com o outro.

Exatamente! Ser humano é se meter dentro de uma experiência de interação com os outros. Uma vez que você está na experiência humana, você não tem como sair da convivência humana. Esse é o simbolismo da cadeia. Você nunca está apenas vivendo, você está sempre convivendo.

Viver é conviver. A convivência é o tempo todo. Quer você goste quer não, quer esteja consciente quer não, você está preso na cadeia da convivência. Você não tem outra opção. Conviver é obrigatório.

Sendo assim, pergunto: O desafio dessa brincadeira é conviver?

PARTICIPANTE: Sim.

Não! Conviver não é desafio, pois não é opcional. Conviver é inevitável. Logo, o desafio da brincadeira da convivência tem que ser outro além da convivência. Qual?

PARTICIPANTE: Boa convivência.

Isso mesmo! Conviver bem ou conviver mal são as duas possibilidades dentro de uma brincadeira de convivência. Cada momento da sua experiência humana é um momento de convivência. Cada momento da sua experiência humana você pode conviver bem ou conviver mal. O desafio é conviver bem.

Não existe vida, só existe viver. Ou seja, você está sempre vivendo. Só que viver é conviver. Então, você nunca está vivendo, você está sempre convivendo. Nesse exato momento, por exemplo, seu viver é você participando dessa conversa. Se você decidir sair dessa conversa e ir ao supermercado fazer compras, você estará convivendo com as pessoas que estiverem no supermercado. Se você decidir entrar numa caverna para não conviver com ninguém, você estará convivendo com a caverna. Nem sempre sua convivência é com outro ser humano, mas sempre é com o outro.

Viver é conviver. Não tem para onde fugir. A todo instante você está convivendo e só lhe restam duas opções: conviver bem ou conviver mal. Ou seja, o que você pode optar é pela qualidade da sua convivência. Isso facilita demais viver, porque uma vez que você entende que viver é conviver, e que só tem duas opções, conviver bem ou conviver mal, com o que mais você precisa se ocupar senão em conviver bem? Todo o resto fica secundário. Todo o resto é apenas o tabuleiro do jogo. Todo resto é apenas cenário para seu único desafio: conviver bem.

PARTICIPANTE: E por que conviver bem é um desafio?

A dificuldade é que cada um dentro dessa cadeia tem um gabarito diferente, mas ninguém sabe disso. Cada um dentro dessa cadeia, supõe que o gabarito que serve pra si mesmo, serve para todos os outros. E cada um supõe isso, não por maldade, mas pela própria natureza da individualidade. Você é um indivíduo porque você sabe só de si. A natureza de ser um indivíduo impossibilita que você saiba a natureza do outro indivíduo. É por você não saber do outro que você não é o outro. Então, por não saber do outro, só lhe resta a possibilidade da suposição. Você se baseia em si e supõe seu gabarito para o outro. Se todos os indivíduos da cadeia tivessem o mesmo gabarito, ou se fosse possível um saber pelo outro, não haveria dificuldade, a brincadeira seria fácil. Mas a brincadeira é desafiadora justamente porque é necessário que você viva de acordo com o seu gabarito e conviva bem com o gabarito do outro, no escuro, sem saber do gabarito do outro. Esse é o desafio.

Vou resumir para concluir. Viver é conviver. Isso é inevitável. Sua convivência pode ser de dois tipos: má convivência ou boa convivência. Você opta entre viver autoísta ou viver outroísta. Essa sua opção se desdobra em comportamentos. Seus comportamentos se desdobram na qualidade da sua convivência. Jogo do controle é quando você opta pelo viver outroísta que se desdobra em uma convivência outroísta.


02 | ESTRATÉGIAS DE CONTROLE

Vou falar algumas palavras e peço para que vocês escrevam essas palavras no bloco de notas do computador. Estão prontos?

PARTICIPANTE: Sim, pode falar.

Sal, Açúcar, Limão e Melancia.

Escreveram?

PARTICIPANTE: Sim.

Ótimo! Agora vamos entrar no tema. Pergunto: É possível o outro controlar você? Sim ou não?

PARTICIPANTE: Sim.

PARTICIPANTE: Não.

Vamos começar pela resposta “não”. Justifique sua resposta.

PARTICIPANTE: Não, porque tenho arbítrio. Mesmo quando digo sim, querendo dizer não, a escolha é sempre minha, sou eu que decido.

Ótimo! Agora a resposta “sim”. Justifique sua resposta.

PARTICIPANTE: Sim, é possível o outro me controlar com minha permissão.

Percebem que as duas respostas, sim e não, possuem a mesma justificativa? Sim, o outro pode controlar você quando você permite. E não, o outro não pode controlar você quando você não permite. Ou seja, de fato, é impossível o outro controlar você, porque você tem arbítrio. E vice versa. O outro não pode controlar você nem você pode controlar o outro. O que impossibilita isso é o arbítrio.

Mas se é impossível controlar o outro ou ser controlado, devido ao arbítrio, qual é o sentido de estarmos aqui estudando estratégias de controle?

PARTICIPANTE: Ótima pergunta! Não sei.

Agora vou desdizer o que disse. É possível controlar o outro, e vice versa, muito embora exista o arbítrio. Como?

PARTICIPANTE: Ainda não sei.

Pelo convencimento.

Você não tem como controlar o outro e vice versa. Mas um pode convencer o outro. Seu arbítrio é como o teclado do seu computador, só você tem acesso, só você pode digitar nele, sua realidade é o que aparece na tela, resultado do seu arbítrio, ou seja, resultado do que você digita no seu teclado. No começo dessa conversa apareceram quatro palavras na tela do computador de vocês, não foi?

PARTICIPANTE: Sal, Açúcar, Limão e Melancia.

Isso mesmo! Eu queria que vocês escrevessem essas quatro palavras. Era um desejo meu, não era de vocês. Só que eu não tenho acesso ao teclado de vocês. Ou seja, não tenho como controlar o arbítrio de vocês. Contudo, eu controlei. Tanto controlei que essas quatro palavras estão aparecendo aí na tela do computador de vocês. Como isso é possível?

PARTICIPANTE: Você pediu para que nós escrevêssemos e nós atendemos seu pedido.

Exato! Eu fiz um pedido e convenci vocês a fazerem o que eu queria. Só que quem fez não fui eu, foram vocês.

Tá claro isso?

PARTICIPANTE: Sim

Se quem fez foi você, o que isso significa?

PARTICIPANTE: Não sei.

Significa que quem fez não fui eu, foi você.

PARTICIPANTE: Sim, óbvio.

O que você experimenta é sempre o que você opta experimentar, quer seja uma opção que você mesmo imagine, quer seja uma sugestão do outro. No final das contas, em questão de experimentação, pouco importa de onde vem a opção, da sua própria imaginação ou de uma sugestão alheia, tudo se resume ao seu arbítrio. Se você não quer experimentar limão, basta você não optar por essa opção. Assim como é impossível a palavra limão aparecer na tela do seu computador se você não digitá-la, também é impossível a experiência limão aparecer na sua experiência se você não optar por ela. Você está sempre no controle da sua experiência, pois até mesmo para você fazer o que o outro quer que você faça, você precisa optar por isso. Seu arbítrio é sempre a causa do que você está experimentando. Ou seja, o outro pode tentar te controlar, mas não pode conseguir. O outro só consegue te controlar com sua permissão. E vice versa. Você pode tentar controlar o outro, mas não pode conseguir também. Você só consegue controlar o outro com permissão dele.

O filme Advogado do Diabo tem um ótimo exemplo disso. O advogado diz ao diabo: “Você me manipulou, me enganou, você me levou a fazer essas coisas”. O diabo responde: “Engano seu, pois até lhe disse para desistir. Você fez tudo por opção sua”. Ou seja, embora o outro possa e esteja constantemente te manipulando e vice versa, embora o outro possa e esteja constantemente te influenciando e vice versa, a responsabilidade pelo que cada um está experimentando é sempre de cada um.

Influenciar não é determinar. Entre as influências e a realidade experimentada, está o arbítrio. O ambiente pode influenciar fortemente na decisão. De fato, o ambiente sempre influencia fortemente na decisão. Mas influenciar não é decidir. No filme Advogado do Diabo, o diabo influenciou o advogado, tentou convencê-lo de várias formas a fazer o que ele queria, mas não determinou a escolha do advogado. Eu fiz a mesma coisa quando pedi para vocês escreverem “sal, limão, açúcar e melancia” no computador. Eu influenciei vocês, mas quem escreveu foram vocês.

Para controlar o outro, você precisa convencer o outro, pois é impossível controlar o outro de forma direta, atuando no arbítrio do outro. Assim como um não tem como digitar as palavras “sal, limão, açúcar e melancia” no teclado do outro, pois somente cada um tem acesso ao próprio teclado, somente cada um pode executar o próprio arbítrio.

Para que seja possível um controlar o outro, é necessário um meio de influência. Meio é a estratégia, maneira, jeito, método. No início dessa conversa, para que vocês fizessem o que eu queria, eu disse: “Preciso da ajuda de vocês, por favor, façam uma coisa para mim. Será importante para o entendimento do que vamos estudar hoje”. Essa foi minha estratégia de convencimento para convencer vocês a fazerem o que eu queria. E minha estratégia funcionou. Porém, só influenciei, vocês só escreveram porque aceitaram minha influência.

É fundamental entender a diferença entre determinação e influência. Muitas coisas podem te influenciar, às vezes a influência é quase irresistível, mas não é determinação. O que determina seu viver é sua escolha, seu arbítrio.

O diabo representa a influência tentadora. O diabo pode ser uma circunstância, uma pessoa, uma sociedade, o que for. O diabo representa algo que está tentando fazer com que você saia do viver autoísta e entre no jogo do controle (outroísmo). Mas o diabo não pode ganhar de deus. Por que não? Porque deus é seu arbítrio. O que cria sua realidade é seu arbítrio. Então, só você pode criar sua realidade.

Mas para que estudar estratégias de controle, se você não quer jogar o jogo do controle?

PARTICIPANTE: Para eu não cair em tentação.

Mais do que isso! Para você sair da tentação que está caído. Você vive caído em tentação. Seu viver é o jogo do controle. Só que você não percebe isso. O estudo das suas estratégias de controle é para você perceber o que você está constantemente fazendo, mas não percebe. Você está doente e o caminho para cura é você estudar minuciosamente sua doença. Suas estratégias de controle são as minúcias da sua doença.


03 | CONTROLE PELA PUNIÇÃO

Quer você esteja consciente, quer não esteja, você está jogando o jogo do controle. Você executa o jogo do controle através de estratégias. Então, quer você esteja consciente, quer não esteja, você está constantemente executando estratégias de controle.

Só existem duas estratégias de controle. Sendo que todo ser quer sempre a mesma coisa, o bem, e todos repudiam a mesma coisa, o mal. Então, uma forma de você controlar o outro é através do mal, da punição, e a outra forma é através do bem, da recompensa.

No jogo do controle, você controla o outro através do que ele quer (recompensa) ou através do que ele não quer (punição) e você é controlado da mesma maneira. A punição ocorre até que o outro faça o que você quer, ou seja, viva de acordo com seu gabarito. E vice versa. Se você não vive igual, em uniformidade, você é punido. Se você já vive igual, você aplica a punição em quem ainda vive diferente.

Controle pela punição é um ato de violência, mas recebe um nome bonito. Você chama o controle pela punição de educação. E você não aplica a educação só na escola, aplica em todo lugar e a todo instante. Tanto que você nem consegue imaginar sociedade sem educação.

E punição não é só física, pois a natureza humana é quaternária. Então, punição pode ser física, sensorial, afetiva e racional. Punição gera má convivência porque quem é punido quer vingança. Quando o outro pune você, você quer se vingar do outro. Quando você pune o outro, ele quer se vigar de você. Jogo do controle gera mais jogo do controle.

Você também joga o jogo do controle através da ameaça. Ameaça é promessa de punição. “Se você não fizer tal coisa (viver igual eu), vou fazer aquilo (te bater, te humilhar, etc)”. Ameaça é uma estratégia de controle também. Não há punição, mas há promessa de punição. Funciona até melhor. Primeiro você pune, depois de várias punições a pessoa internaliza a punição. A partir daí, basta a promessa.

Sendo assim, fique ciente que o viver autoísta não é um mar de rosas. Os outros irão punir você de todas as formas possíveis para que você viva em uniformidade. Você vai dar liberdade para o outro viver e o outro vai te punir do mesmo jeito. Não conte que o outro vai desistir de te uniformizar. Não vai.


04 | CONTROLE PELA RECOMPENSA

Escolhi o filme A Última Tentação de Cristo para ajudar no estudo do controle pela recompensa, porque esse filme pega a história mais famosa do mundo e propõe uma outra opção para o desenrolar da história. Se a história de Jesus é factual ou não, isso não importa para nós nesse estudo, o que importa nesse estudo é o simbolismo contido na história de Jesus. E qual é o simbolismo? Qual é a história por trás da história de Jesus?

A história de Jesus é uma jornada de autorrealização (realização do destino). Nessa história, a autorrealização é representada por Jesus realizando a vontade do pai. Esse é o termo cristão que se usa. E o que é realizar a vontate do pai? É realizar o próprio destino. Metaforicamente falando, o destino de Jesus era percorrer toda via sacra até a crucificação. Na crucificação, é onde se consuma a jornada de Jesus, onde se consuma seu destino, onde se consuma a vontade do pai, onde se consuma sua autorrealização.

Para evitar equívocos, mais uma vez explico que destino não é o que você faz, destino é o que você é, destino é ser. A história de Jesus é uma metáfora do processo de autorrealização do ser. Então, quando Jesus chega à crucificação, isso simboliza que Jesus viveu sendo Jesus, que viveu em acordo com sua unicidade, que viveu de forma autoísta. Essa é a moral da história. Todos os acontecimentos e toda a trajetória de Jesus são metáforas paro o entendimento da jornada de autorrealização.

Entendido isso, fica fácil de entender que a jornada de Jesus simboliza sua própria jornada de autorrealização. Ou seja, a via sacra simboliza a jornada de todos e cada um dos seres humanos. Jesus simboliza o ser humano que passa por desafios, vence e se autorrealiza. Os desafios são dois: punição e recompensa. No capítulo anterior estudamos detalhadamente o desafio da punição, nesse vamos aprofundar no entendimento da recompensa.

Na história de Jesus, houve momentos em que o desafio para que Jesus abandonasse seu destino, foi a punição, mas também houve momentos em que o desafio foi a recompensa. Como já vimos, no jogo do controle, você controla o outro e é controlado por ele, através da punição e da recompensa. Por quê? Porque você foge da punição para ir para recompensa, que é o mesmo que buscar a recompensa para sair da punição. São dois lados da mesma moeda. No jogo do controle, o outro usa punição e recompensa para fazer você sair do seu destino, e vice versa.

É isso que o filme A Última Tentação de Cristo mostra quando Jesus está na cruz e vem o anjo conversar com ele. O anjo tira a coroa de espinhos, tira os pregos, ou seja, recompensa, está tirando a dor. Daí o anjo leva Jesus para uma casa confortável, onde ele tem prazeres, alegrias. Tudo recompensa. Daí ele tem uma esposa, tem filhos, tem uma família. Tudo recompensa.

Não estou dizendo para você se negar ter prazer e alegria, pelo contrário. Mas é que a história de Jesus é metafórica, representativa. Quando Jesus aceita as recompensas, simboliza você aceitando recompensa para negar seu destino, sua unicidade. É por isso que o filme chama A Última Tentação de Cristo, porque ele aceita a recompensa para negar seu destino, ou seja, cai em tentação.

Então, Jesus sofre dois tipos de tentação. Ele é punido para não cumprir o destino dele. E ele é subornado também para não cumprir o destino dele. São dois tipos de estratégias que têm o mesmo objetivo, controlar Jesus e fazê-lo negar seu destino. E no filme, o controle através da punição não funcionou, mas o controle através da recompensa, funcionou.

O mesmo acontece com você no jogo do controle. Você também controla o outro e é controlado por ele através da punição e da recompensa, e você também cai mais em tentação através da recompensa. Isso acontece porque recompensa é bom, então, recompensa não parece estratégia de controle. Mas é. Recompensa e punição são as duas estratégias de controle.

O controle pela punição é a estratégia da educação, o controle pela recompensa é a estratégia da ratoeira. Por que ratoeira? No controle pela punição, você pune, pune, pune, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa. No controle pela recompensa, é similar, você recompensa, recompensa, recompensa, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa. Por isso é ratoeira, o benefício é usado para prender.

Então, você pode até ter uma vida boa, que é o queijo da ratoeira, mas você não vive bem, pois não vive em acordo com seu destino, em acordo com seu próprio gabarito.

Para terminar, tem uma palavra que deixa a estratégia da recompensa totalmente explícita. Essa palavra vai te ajudar a perceber quando você está tentando controlar o outro através da recompensa e quando o outro está tentando controlar você. Essa palavra é: suborno.

Estratégia da recompensa é subornar.


05 | HOTEL ERRADO

Um homem entra no elevador de um hotel. O ascensorista lhe pergunta:

“Para qual andar o senhor deseja ir?”.
“Qualquer um”, responde o homem, “estou no hotel errado!”

Outroísmo é o hotel do jogo do controle. Tanto faz para qual andar você vai dentro do jogo do controle, tanto o andar de cima (outroísmo impositivo) como o andar de baixo (outroísmo submisso), só servem para lhe manter jogando o jogo do controle, e consequentemente, vivendo mal. Para viver bem, ao invés de mudar de andar, mude de hotel.


06 | SOLTA A CORDA

Um alpinista estava escalando uma montanha durante a noite quando escorregou e começou a cair. A corda de segurança estancou a queda. Porém, ele ficou pendurado no escuro. Desesperado, quase morrendo de frio, o alpinista começou a gritar:

— Socorro! Alguém me ajude!
— Solta a corda!
— Quem está falando? — perguntou o alpinista.
— Você quer se salvar ou não?
— Sim, quero!
— Solta a corda.
— Isso não, me ajuda a sair daqui!
— Estou tentando: solta a corda!
— Nem fodendo solto essa corda!
— Você quer se salvar ou não?
— Sim, quero!
— Então, solta a corda.

No dia seguinte, o alpinista foi encontrado congelado e morto, agarrado a uma corda, a meio metro do chão.

O alpinista é você. O frio é você vivendo mal. A corda é o jogo do controle. Sua persistência em se manter agarrado a corda, é você persistindo em jogar o jogo do controle. Quer viver bem? Solta a corda! Desista do jogo do controle!


07 | MANTRA PARA SAIR DO JOGO DO CONTROLE

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Quando você quebra uma regra que combinei com você, eu cumpro a regra para ir a favor de mim e não contra você. Minha intenção não é lhe penalizar, é me beneficiar. Daí, claro que meu SIM PRA MIM é não para você. Mas isso é apenas consequência do sim pra mim, não é punição nem controle. Você permanece livre no começo, meio e fim da convivência. E quando você cumpre o combinado, mesma coisa. Eu não te benefício, você mesmo se beneficia por chegar ao resultado que se determinou e concordou em chegar. Eu não te recompenso, você se recompensa do combinado. E você é livre no começo meio e fim da convivência. Também é jogo da liberdade.

Depende, você está cobrando algo que foi combinado?

Eu moro com uma amiga e combinamos de limpar a casa.

Ela fura com o combinado?

Mais ou menos, ela diz que não vê necessidade de tanta limpeza.

Aí é questão de critério de limpeza. Tem O QUE fazer e COMO fazer. Vocês estão discordando em COMO fazer, que é o critério de fazer. Aqui em casa, por exemplo, eu e minha esposa combinamos que ela faz a comida e eu lavo a louça. Daí, certa vez, eu lavei a louça e ela reclamou que a louça estava mal lavada. A reclamação da minha esposa não foi sobre o que fiz, foi sobre como fiz. Eu cumpri nosso acordo, mas não cumpri de acordo com o CRITÉRIO dela. Só que não tínhamos um acordo sobre o critério do que é uma louça bem lavada e mal lavada. No meu critério a louça que era bem lavada, mas no critério da minha esposa era mal lavada. Como resolvemos isso? Pedi para minha esposa me explicar qual era o critério dela. O critério dela é super criterioso, muito acima do meu. Mas tudo bem, posso usar o critério dela. Então, surgiu um segundo acordo. O primeiro acordo foi sobre o que fazer: lavar a louça. O segundo acordo foi sobre como fazer: lavar com muito sabão e não deixar nenhuma gordurinha. Me parece que você e sua amiga já tem um acordo sobre o que fazer, mas ainda não tem em um acordo sobre como fazer. Para que vocês tenham boa convivência com a limpeza, devem conversar e entrar em acordo sobre como fazer.

Se as regras estiverem claras, não serei impositiva?

Não! Você é impositiva quando impõe suas regras, estando suas regras explícitas ou ocultas. Tanto faz. Para não ser impositiva você deve entrar em acordo com o outro sobre as regras de convivência. Uma vez que você entre em acordo, não há imposição de regras, pois as regras são acordadas.

E se o outro não cumprir o acordo?

O outro tem obrigação de cumprir o acordo?

Sim, tem.

Justifique sua resposta

Sendo um acordo, deve ser cumprido

Exato! Um acordo DEVE ser comprido. O que não significa que TEM QUE ser cumprido. Dever e obrigação não é a mesma coisa.

Qual é a diferença?

Dever é opcional. Você entende que deve fazer e opta por fazer. Obrigação não é opcional. Você faz porque é obrigação, não faz por opção.

Por que se deve cumprir o combinado?

Para não quebrar a confiança que o outro depositou em você. Desconfiança produz má convivência.

Se você fosse meu aluno no ciclo de estudos Eureka, você receberia uma resposta assim: “Você tem o telefone do Max Weber? Liga pra ele e pergunta!”. É isso que respondo aos meus alunos quando me perguntam dos outros. Faço isso para evitar confusão desnecessária. Dá confusão falar pelos outros. Cada autor tem um jeito particular de usar as palavras e só o autor pode responder por suas palavras. Mas aqui não serei tão rigoroso como no ciclo de estudos e, para lhe responder, vou assumir que Max Weber está se referindo ao que a 1ficina chama de outroísmo, mais especificamente, outroísmo impositivo.

Infelizmente nossa convivência é de dominação. Mas não precisa ser obrigatoriamente assim. Pode ser diferente. A qualidade de uma convivência é determinada pelo arbítrio dos conviventes. Sendo assim, para convivermos melhor, sem dominação, bastaria optarmos por uma convivência sem dominação. O que leva a seguinte pergunta: Por que não fazemos isso?

A resposta é a mesma de todo mal viver: ignorância.

Um ser humano lúcido sabe que dominação pode gerar conforto para o dominador, mas jamais vai gerar boa convivência. E sabe também que não tem maior desconforto do que má convivência, uma vez que viver é conviver. Então, um ser humano lúcido, jamais opta por uma convivência de dominação. Só um ser humano em estado de ignorância opta pela dominação.

Atualmente somos uma coletividade de seres ignorantes. Isso é fato e a qualidade da nossa convivência é demonstrativa desse fato. Mas se não bastasse isso! Somos uma coletividade de seres ignorantes que ignoram que são uma coletividade de seres ignorantes. Entende o tamanho do buraco? Ignoramos que ignoramos. O que resulta em acreditar que sabemos. O que resulta em não nos abrirmos para um despertar consciencial, pois somos cegos que acreditam enxergar.

Existem duas opções para o fim da treta humana:

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser fisicamente e psicologicamente idênticas. Não deve haver nenhuma desigualdade que sirva de motivo para inveja. OPÇÃO (B) Respeitar e apreciar as diferenças.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser patrões, ninguém deve ser empregado. OPÇÃO (B) Quem quiser ser patrão, seja patrão, quem quiser ser empregado, seja empregado.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser candidatas à presidência da república e todas devem vencer as eleições com 100% dos votos. OPÇÃO (B) Democracia.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ganhar no par ou ímpar. Nunca ninguém deve perder. Só deve existir ganhadores, nunca perdedores. Todas as seleções devem ser igualmente campeãs da copa do mundo. OPÇÃO (B) Aprender a perder.

OPÇÃO (A) Ninguém deve jamais frustrar ou decepcionar as expectativas dos outros. Todas as expectativas de todas as pessoas devem ser sempre e completamente satisfeitas. OPÇÃO (B) Aprender com a frustração e a decepção.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser onipotentes. A vontade de cada pessoa deve ser absoluta e deve ser seguida por todos. OPÇÃO (B) Cada um com seu arbítrio.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem estar certas. A crença de cada pessoa deve ser absoluta e deve ser verdade para todos. OPÇÃO (B) Cada um acredita no que quiser.

OPÇÃO (A) O que é melhor para cada pessoa deve ser absoluto e deve ser melhor para todos. OPÇÃO (B) Cada um faz o que achar melhor.

Escolha sua opção.

Você está condenado a sofrer porque sofrimento é você experimentando insatisfação. Por mais que você esteja satisfeito, o estado de satisfação sempre acaba e você volta a insatisfação, ou seja, volta a sofrer. É assim que funciona. Inevitavelmente. Sua opção frente a isso é lidar bem ou lidar mal com isso. Você lida mal quando transfere ao outro a responsabilidade pela satisfação do seu desejo. Sendo que o outro não tem essa obrigação, tudo que você consegue com isso é perpetuar seu estado de insatisfação, ou seja, perpetuar seu sofrimento.

Você usa duas estratégias: imposição e submissão. Por exemplo, você deseja beber água. Na estratégia impositiva, você ameaça o outro: “Seu filho da puta! Seu desgraçado! Me traz um copo d’água agora mesmo ou te mato”. Você pega um revólver e dá um tiro para cima. Pega uma faca e finca na mesa. “Vai logo!”, você ordena. Só que o outro não nasceu para ser seu garçom e não vai. Você tenta mil torturas para obrigar o outro a pegar o copo d’água para você. Nada funciona. Se você usasse 0,1% da energia que está disparando no outro para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d’água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não! Você é o sabidão. Tão sabido que sabe que o culpado pelo seu sofrimento é o outro que está te enrolando. Então, já que tempestade por um copo d’água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você decide apertar o botão vermelho e começar com a terceira guerra mundial.

Na estratégia submissa, você começa a fazer chantagem e vitimização para obrigar o outro a satisfazer seu desejo. Você diz: “Quem me ama pega um copo d’água para mim”. Só que o outro não nasceu para ser sua babá e não vai. Você começa a chorar: “Você não me ama! Eu faço isso por você, faço aquilo, eu te dei a vida e você nem pega um copo d’água para mim! Você é um egoísta ingrato!”. Se você usasse 0,1% da energia do mimimi para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d’água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não! Você é o sabidão. Tão sabido que sabe que a culpa do seu sofrimento é do ingrato que está te enrolando. Então, já que mimimi por um copo d’água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você entra em depressão, começa a tomar remédios tarja preta e por fim decide cortar os pulsos.

Resumindo, sofrer é natural, inevitável e saudável. Você precisa experimentar sofrimento para tomar consciência do seu desejo e satisfazê-lo. Só que você pode transferir sua responsabilidade de satisfação ao outro ou pode assumi-la. Assumir é lidar bem com o sofrimento e resolvê-lo. Transferir é lidar mal com o sofrimento e perpetuá-lo. Você decide.

Você pode falar. Claro que pode! Tanto pode, que fala, e fala, e fala… E você não é o único que pode e fala. Todos os seres humanos podem e falam, diariamente, repetidamente e insistentemente. Vai no facebook, vai no youtube, vai no whatsapp. O que tem todo dia na rede social de cabo a rabo? Seres humanos cagando regra. Seres humanos recitando o gabarito do certo e do errado. Seres humanos dizendo o que pode e não pode comer, o que é bom e o que é ruim, o que está na moda e o que é brega, o que é pecado e o que é virtude. São oito bilhões de caga-regras dizendo uns aos outros como cada um deve viver sua vida.

Não existem índios nesse planeta, só existem caciques. Mas a divina ironia da tragédia humana não para por aí. Como se não bastasse os seres humanos serem oito bilhões de caga-regras, são também oito bilhões de super heróis, todos tentando salvar o mundo. E salvar o mundo do que? Do errado. O cristão quer salvar o mundo do islamismo e o islâmico quer salvar o mundo do cristianismo. O ateu quer salvar o mundo da crendice e o crente quer salvar o mundo do ateísmo. Os heterossexuais querem salvar o mundo da homossexualidade e os homossexuais querem salvar o mundo da heterossexualidade. A esquerda quer salvar o mundo da direita e a direita quer salvar o mundo da esquerda. Os pais querem salvar os filhos e os filhos querem salvar os pais. Resultado, treta, guerra, soco, pontapé, facada, mágoa, inimizade, ódio, etc. E tudo em nome de ajudar o outro.

Ajudar o outro o caralho! Cada um quer ajudar a si mesmo. Cada um quer que o outro reze a sua cartilha. Cada um quer que a sua regra seja a regra coletiva. Se pelo menos os seres humanos não fossem hipócritas, isso sim ajudaria. Mas não, são todos certos e santos. O vilão é sempre o outro. A culpa é sempre do outro. É o outro que é egoísta. O inferno é o outro. Eu sou o salvador. Eu imponho minhas regras ao outro porque são as regras da santidade, da verdade, do amor e da salvação.

Então, você pode sim cagar sua regra para o outro, assim como o outro pode cagar a regra dele para você. O que não significa que a regra que você caga para o outro, serve para o outro, assim como a regra que o outro caga para você, serve para você. E nem precisa praticar autociência para perceber isso. O outro calça 37, você calça 36, como seu sapato pode servir para o outro? Não pode. Impossível. O que serve para você, serve para você. O que serve para o outro, serve para o outro. Seu viver, suas regras. Viver do outro, regras do outro. Cada um optando pelo que serve para si e todos vivendo e convivendo bem.

Dito isso, você pode expor sua opinião e seu critério de valores ao outro sem ser um caga regras. Como fazer isso? Exatamente como estou fazendo aqui nesse texto: explicando. Nessa resposta estou lhe explicando como funciona a atual forma de convivência humana e porque resulta em mal viver. E só estou fazendo isso porque você me perguntou. Se não tivesse me perguntado, não lhe explicaria nada, pois estaria sendo invasivo. Então, expor é diferente de impor, explicar é diferente de implicar. Expor e explicar é saudável e produz bem viver. Impor e implicar é violento e produz mal viver. E cada um que decida como viver.

Expliquei?

Sua pergunta contém alguns equívocos. Vou explicitá-los para que você possa se libertar deles. Assim como dança e dançarino não são a mesma coisa, religião e religioso também não. Alguma vez você foi na igreja e assistiu a religião rezando a missa? Claro que não! Quem reza a missa é o padre. Alguma vez você foi ao terreiro de umbanda e conversou com a umbanda? Também não! Você conversa com os médiuns e as entidades. Quem se comporta assim ou assado são os religiosos e não a religião. Comportamento é sempre de um corpo. Dança não tem corpo, então, não tem comportamento, quem tem comportamento é o dançarino. Religião também não tem corpo, então, também não tem comportamento, quem tem comportamento é o religioso: o padre, o bispo, o papa, o médium, o monge, o pastor, etc. Estando isso esclarecido, sua pergunta corrigida fica assim:

Como os religiosos deveriam se comportar diante da política?

Suponho que você considere errada a maneira como os religiosos estão se comportando, por isso está perguntando. Se considera errado, é porque vai contra o que considera certo. Sendo assim, lhe pergunto, como os religiosos deveriam se comportar? Como seria o certo? Sugiro que você escreva uma carta para os religiosos expressando o que eles estão fazendo de errado e como eles deveriam se comportar. Não estou brincando, nem sendo irônico, escreve mesmo, coloque no papel o que pensa e sente. Faça uma lista de todos os erros cometidos e outra lista de como eles deveriam se comportar, de como é o jeito certo. Coloque no título da carta: “Gabarito do certo e errado”. Coloque a carta em um envelope. Vá até o correio e envie a carta para si mesmo. Assim que chegar, leia e viva de acordo com o seu gabarito e permita que o outro vida de acordo com o gabarito dele. E não faça isso pelos outros, por benevolência, tolerância ou respeito. Não! Faça por si mesmo, pelo seu próprio bem. Viver censurando e corrigindo a vida dos outros só serve para você perder sua vida.

Você não convive de verdade. É fingimento. Você e o outro não foram ao cartório oficializar a farsa, mas vocês têm um contrato de fingimento. Por isso o outro te elogia e você elogia o outro. Vocês estão cumprindo o contrato. Elogiar um ao outro é uma forma de dizer: “Continue fingindo que eu também continuo”. Convivência desse tipo funciona feito jogo de xadrez, não há lugar para espontaneidade. Cada movimento precisa passar por rigorosa análise do que dirão antes de vir ao tabuleiro. É muito sofrido viver assim. Ninguém aguenta. Por isso você deseja rasgar o contrato. O outro também. Só que ninguém toma iniciativa. Fica um esperando o outro desistir do fingimento. Esperando, esperando, esperando… E é assim que cada um ajuda a perpetuar o que todos desejam que acabe.

Imagine que você está jogando futebol e toda vez que a bola vem para você o juiz apita e marca falta. Você não consegue sair desse ciclo, fica preso nele, dentro dele. Basta alguém passar a bola para você e o ciclo se repete, o juiz apita e marca falta. Então, você decide descobrir porque está preso no ciclo do apito. Você investiga o jogo e descobre que futebol se joga com os pés e você está usando a mão. Por isso que toda vez que passam a bola para você se repete o ciclo do apito. Você está pegando a bola com a mão. Ao ficar consciente disso, você para de pegar a bola com a mão e sai do ciclo do apito. Analogamente, o mesmo acontece com o ciclo da violência. Você fica preso no ciclo da violência porque combate violência com violência. Para sair, você deve ficar consciente que está dentro.

Quando a água é aquecida, vira vapor. Tanto faz se você goste ou desgoste disso, tanto faz se você considera certo ou errado, tanto faz se você acha que deveria ser diferente. É assim que funciona. Mesmo que você convença todas as pessoas do planeta que o comportamento da água está errado, que deveria ser diferente, ainda assim a água continuará tendo o mesmo comportamento. Você pode criar uma lei proibindo a água de virar vapor. Você pode mandar prender a água. Você pode até condenar a água a pena de morte por desobedecer sua lei. E ainda assim a água continuará tendo o mesmo comportamento.

Ou seja, a natureza não funciona de acordo com a moral, funciona de acordo com o natural. Por isso, o trabalho de um cientista é observar e estudar o funcionamento da natureza, não é fazer julgamento moral sobre esse funcionamento. Um cientista não é moralista, nem imoral, é amoral. O mesmo acontece com a autociência. O trabalho de um autocientista é observar e estudar o funcionamento da natureza humana, não é fazer julgamento moral sobre esse funcionamento. Por isso, tanto faz minha opinião moral sobre a sexualidade humana. A sexualidade humana funciona como funciona e não muda por conta da minha opinião moral, nem por conta da opinião moral de ninguém.

Dito isso, posso compartilhar um pouco do que já observei e descobri sobre o funcionamento da sexualidade humana. O mais importante a ser observado e comprovado é que sexualidade não se resume a sexo. Atração sexual é atração pelo prazer. Se imagine fazendo sexo com um liquidificador, por exemplo. Isso te dá tesão? Claro que não! Por que não? Porque ao fazer sexo com um liquidificador você irá experimentar o oposto do prazer, você irá experimentar dor. Você faz sexo para experimentar prazer. Só que sexo não é a única forma de você experimentar prazer. Você pode experimentar prazer ouvindo música, comendo macarrão, praticando esporte, assistindo filmes, conversando, contando piada, entrando no mar, rolando na areia, etc.

Sexualidade é sensorialidade. Sensorialidade é lidar com o prazer e o desprazer. Cada um tem uma sensorialidade única, particular, diferente dos outros. Então, cada um tem um critério de prazer e desprazer único, particular, diferente dos outros. Eu, por exemplo, detesto comer jiló, pois não tenho prazer em comida amarga, é desprazeroso para mim. Mas tem pessoas que adoram comida amarga. Eu detesto techno music também, mas tem pessoas que adoram techno music justamente pelo mesmo motivo que detesto, o repetitivo som de bate estaca.

Sensorialidade funciona assim, você tem tesão pelo que te dá prazer e brocha com o que te dá desprazer. Porém, só você é capaz de saber O QUE te dá prazer, QUANDO te dá prazer e COMO te dá prazer, pois mesmo a coisa prazerosa, no momento errado ou de forma errada pode gerar desprazer ao invés de prazer. Então, cabe a você decidir o que, quando e como é prazer e desprazer para você. Ninguém pode fazer isso por você, porque só você tem acesso a sua unicidade e a sua experiência humana.

Dito isso, vou responder o resto da sua pergunta:

Como viver em paz com a própria sensorialidade (sexualidade)?

Simples, não entrando em guerra. Onde não há guerra, há paz.

…que precisa ser aceita pelo outro para que possamos conviver bem?

Essa sua crença é um equívoco. Quem deve aceitar sua sensorialidade é você, não o outro. Ninguém tem obrigação de aceitar sua sensorialidade. Ninguém tem obrigação de aceitar nada. Não existe obrigação no universo. Uma pessoa pode até respeitar sua sensorialidade voluntariamente. Mas só fará isso se for uma pessoa iluminada, um ser humano consciente sobre o que é respeito e porque é a melhor opção de convivência. Seres humanos assim são raros. Então, se você ficar esperando o outro aceitar sua sensorialidade para viver bem, tudo que irá conseguir será morrer esperando e vivendo mal. O que você pode fazer é se libertar dessa esperança. Você pode desistir de esperar que o outro lhe aceite e se aceitar. Isso sim irá lhe ajudar a viver e conviver melhor.

Você que deve saber, a intenção que está motivando sua manifestação é algo que só você tem acesso.

Então sugerir, influenciar, opinar, a palavra não importa, o que importa é a minha intenção?

Exato! Sua manifestação é desdobramento da sua intenção. Se sua intenção é controlar o outro, seja lá como você nomear seu comportamento, sua manifestação é você jogando o jogo do controle.

Mesmo que eu disfarce dizendo que estou só dando uma sugestão, a intenção é controlar. Eu tinha um amigo que ficava dizendo que eu era livre para pensar do jeito que quisesse, mas ficava toda hora mandando textos, videos, só para mudar minha opinião sobre aquele assunto. Era um saco!

Tipo Fulana me aconselhando a usar o Telegram?

Sim, Fulana é muito boa nisso também. Ai meu Deus, deixa eu correr pro PV me desculpar.

Isso! Agora que já puniu Fulana, dá uma recompensa, senão, vai perder o controle da amizade.

Como eu sou doente! Eu faço isso o tempo todo. Com todo mundo. Eu peço desculpas para controlar. Sempre. Pro outro continuar gostando de mim. Isso é jogo do controle, claro. Como não percebi antes?

Não percebeu antes porque estava dentro da caverna e nem sabia. Mas agora sabe. E o que importa é daqui pra frente. Então, prossigamos…

Observe como grande parte do meu trabalho aqui com vocês não é responder, mas retirar os equívocos contidos nas perguntas. Pergunta equivocada não produz resposta esclarecedora. Então, primeiro retiro os equívocos, só depois respondo. E como eu faço isso? Andando para trás. Eu leio a pergunta e ao invés de andar para frente, rumo a resposta, ando para trás, identificando cada suposição assumida como verdadeira na estrutura da pergunta. Muitas vezes basta um pequenino passo para trás e a questão já se esclarece. Sugiro que façam o mesmo. Pratiquem andar para trás antes de sairem correndo para frente em busca da resposta.

Tem uma suposição falsa na estrutura da sua pergunta, mas que você assume como verdadeira. Vou explicitá-la. Você parte do princípio que o homem é mau. Primeiro você assume isso, depois você questiona: “O homem é mau por natureza ou é a sociedade que o torna mau?”. Ao fazer isso, você parte em busca da resposta esclarecedora, mas que está construída em cima de uma suposição equivocada. Então, tudo que irá encontrar pela frente será mais equívocos.

No direito, existe uma teoria chamada “fruto da árvore envenenada”. Diz que se uma prova for falsa, tudo que deriva daquela prova (qualquer fruto) é falso (envenenado). É o mesmo que estou explicando aqui. Sua pergunta é uma árvore envenenada. Se você andar para frente em busca de uma resposta, tudo que encontrará será frutos envenenados (mais equívocos). Para esclarecer sua questão você deve andar para trás, você deve investigar a raiz da árvore (da pergunta), você deve investigar as premissas que você está assumindo como verdadeiras na estrutura da sua pergunta.

Nessa sua pergunta, seu equívoco é assumir como verdadeira a premissa de que o homem é mau, quer por natureza, quer por influência social. Isso é um equívoco. O homem não é mal, nem bom, o homem é homem. Só isso. A árvore é árvore. A gaivota é gaivota. O fogo é fogo. E o homem é homem. Simples assim.

Bem e mal não dizem respeito ao que o homem é, dizem respeito ao comportamento do homem. O comportamento de um homem pode gerar bem viver (boa convivência) ou mal viver (má convivência). Mas daí sua pergunta não faz mais sentido. Corta a árvore envenenada e planta uma nova árvore. Joga a pergunta equivocada no lixo e produz uma nova pergunta, uma que traga esclarecimento. Vou fazer isso por você. Por que o homem se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência? Ou melhor ainda:

PERGUNTA: Por que o ser humano se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência?

Observe como a pergunta correta produz resposta esclarecedora: O ser humano se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência porque o ser humano ignora o que é ser humano. A má convivência entre os seres humanos não é produto de uma maldade intrínseca, nem de uma corrupção social, é produto da ignorância dos seres humanos sobre o que é ser humano.

Retirada a ignorância, a má convivência desaparece automaticamente, pois nenhum ser do universo jamais opta pelo pior, opta sempre pelo melhor. Um ser só opta pelo pior quando está equivocado, ou seja, quando está em estado de ignorância. Por isso só o despertar da consciência produz bem viver e não precisa de mais nada.

Dito isso, para não perder a viagem, tem outro equívoco implícito na sua pergunta que vou explicar, pois é um equívoco recorrente seu e de toda coletividade humana. Trata-se do equívoco do vitimismo. Sua pergunta busca encontrar um culpado. Sua pergunta é tipo assim: “Quem é o culpado por essa má convivência que experimento todo dia?”.

Se você está buscando um culpado, então, é porque você é vítima. Só que não! O culpado pela má convivência humana é a ignorância de todos os seres humanos, o que inclui você. Então, você não é vítima, você é parte integrante da criação da má convivência. A culpa é sua também.

Você pode argumentar: “Mas não tenho culpa de ignorar uma vez que ignoro”. Sim, perfeito, é isso mesmo. Mas você permanece na ignorância por opção. Você pode optar por sair. E como sair da ignorância? Essa é a pergunta que vale o paraíso, o nirvana e 10 mil litros de cerveja em Valhalla. A resposta é: praticando autociência. Que tal começar agora mesmo?

É bastante comum mulheres virem conversar comigo e dizerem: “vocês, homens”. Quando fazem isso, costumo perguntar: “E quem lhe disse que eu sou homem?”. Elas se espantam e perguntam: “Você é gay?”. Respondo que não. Elas ficam sem entender e perguntam: “Se você não é homem e não é gay, o que você é?”. Respondo: “eu sou eu”. Entende o que estou dizendo?

O primeiro passo para uma boa convivência é estar consciente que convivência é entre um indivíduo e outro indivíduo. Ou seja, entre um ser humano único, singular, diferente de todos os outros seres humanos e você, que também é um ser humano único, singular, diferente de todos os outros.

Uma mulher, um homem, uma esposa, um marido, um pai, uma mãe, um filho, são, antes de todos esses rótulos que você cola na testa das pessoas, indivíduos. Quando você ignora isso e assume que o outro é o rótulo que você está colando na testa dele, você está condenando sua convivência, desde a raiz, a ser uma árvore produtora de má convivência.

Dito isso, um ser humano que opta pelo fingimento para manipular a relação, faz isso em toda e qualquer circunstância que acredite ser necessário manipular a relação. Então, se tal ser humano acreditar que precisa manipular a relação o tempo todo, irá fingir o tempo todo, em todas as circunstâncias.

Não! Pelo contrário. Se você se sente abusado, desrespeitado, invadido pelos outros, você deve praticar estabelecer limites. Os outros não tem obrigação de respeitar seus limites. Muitas e muitas vezes irão desrespeitar. Mas se você não estabelecer seus limites de forma clara e explícita, como espera que os outros respeitem uma linha que não foi traçada? Impossível.

Outra coisa que precisa ficar óbvia é que regras é sempre para o futuro, nunca para o passado. Por exemplo, não adianta você estabelecer que o leite derramado volte para panela. O leite já foi derramado. Regrar o passado é regar mágoas. Você pode estabelecer que ninguém deve derramar leite no seu fogão. Isso sim ajuda, pois isso é para atividades futuras.

E o que fazer com o desrespeito passado?

Você escreveu a regra do fogão limpo na parede da cozinha e alguém derramou o leite no fogão. Tanto nesse caso, como sempre, você tem três opções: A) Punir o infrator para tentar controlar seu comportamento através do medo. B) Engolir o sapo (infração) para tentar controlar a percepção do infrator sobre você através da mentira. C) Expressar seu desagrado, reafirmar sua regra, repetir o pedido de colaboração e deixar o infrator livre para optar de acordo com a própria consciência e a si mesmo também.

A melhor forma de convivência é aquela produzida através do diálogo e do acordo. Traçar limites na convivência é fundamental para que um não ultrapasse o limite do outro, mas um limite não precisa ser imposto com punição, pode ser conversado e combinado. O combinado não é caro. Quando é um limite próprio, como é o limite entre passar bem e passar mal com algum comportamento, a única forma de realmente ficar consciente do próprio limite é testando o próprio limite e experimentando a dor de ultrapassá-lo. O sofrimento é o único e verdadeiro mestre do bem viver. Seus filhos, provavelmente, ainda não sofreram uma dor de barriga de tanto comer bolacha recheada, ainda não sofreram a dor de ultrapassar esse limite, por isso persistem no comportamento. Quando sofrerem, terão aprendido com o sofrimento que excederam um limite próprio e por consciência própria respeitarão os próprios limites. Você provavelmente já sofreu com esse tipo de comportamento e deseja que eles comam brócolis para não ter dor de barriga. Daí você impõe que eles comam brócolis usando a estratégia da punição: brócolis ou punição. A aprendizagem que eles vão ter se você impor brócolis ou punição é a mesma que os cachorros recebem quando estão sendo adestrados, que devem se submeter as ordens e aos outros caso contrário são punidos. Dito isso, você decide como conviver com seus filhos. Seja lá o que você decidir, eles não são vítimas, pois estão brincando de ser humano por opção deles.

Você protege as cagadas de quem ama. Faz vista grossa. Você finge que a pessoa amada não está fazendo a merda que está fazendo. E pior! Você acredita que faz isso por amor ao outro. Só que não! Você faz isso para controlar o amor do outro, para inibir a possibilidade do outro lhe odiar. Na posição de mãe, por exemplo, você finge que seu filho não está fazendo merda para que seu filho lhe ame. Na posição de filho, você finge que seus pais não estão fazendo merda pelo mesmo motivo. Mas quando alguém está fazendo merda, fazendo merda está. Óbvio! Simples assim! Pessoas amadas são pessoas iguais você e fazem merda igual você. Não é fingindo que o outro não tem cu que você convive bem com ele. Todas as pessoas acordam de manhã, vão até o banheiro e fazem merda, nem por isso deixamos de amá-las. Uma pessoa não é a merda que faz, apenas faz merda.

Se colocar no lugar do outro é executar a empatia. A empatia é uma prática. Quanto mais você pratica empatia, mais fácil fica executar. Então, se você não consegue em se colocar no lugar do outro, e deseja conseguir, você deve se perguntar o que te impede de praticar a empatia, o que te impede de se colocar no lugar do do outro. Daí, você irá descobrir. Pode ser, por exemplo, que você evita a empatia para fugir da sua parcela de culpa e colocar toda a culpa no outro. Pode ser uma forma cultivar a uniformidade. Pode para continuar no jogo do controle. Pode ser que não está preparada para ouvir a verdade do outro. Etc. Pratique autoobservação que você irá descobrir qual é o bloqueio. Descobrindo, você começa a praticar.

Imagina que você é um ser que quer aprender a jogar o jogo da liberdade. Tem dois planetas que você pode ir:

( ) planeta outroísmo
( ) planeta autoísmo

Para qual planeta você vai?

Vou para o planeta autoísmo.

Resposta errada. É do veneno que se faz o antídoto. No planeta autoísta ninguém joga o jogo do controle, logo, você não tem material de estudo para ficar consciente sobre o que é o jogo do controle e como funciona. Se você não é consciente sobre o funcionamento do jogo do controle, você não tem como optar pelo jogo da liberdade. Então, você se trancou no planeta do outroísmo, onde todos jogam o jogo do controle do nascimento até a morte, 25 horas por dia, porque, ou você aprende a jogar o jogo da liberdade, ou você aprende. Você se trancou no planeta outroísmo porque sabia que iria tentar fugir da escola, e como você quer aprender, retirou de si mesmo a possibilidade de fuga.

Aprendizagem se dá pelo contraste. Preciso saber o que é jogo do controle para optar pelo jogo da liberdade.

Exato! Você aprende a não colocar a mão no fogo colocando a mão no fogo. Você aprende a não fazer merda, fazendo merda. Você aprende a jogar o jogo da liberdade jogando o jogo do controle.

Porque ninguém tem interesse que você seja você. Seu pai quer que você seja outro. Sua mãe quer que você seja outro. Sua esposa quer que você seja outro. Seu marido quer que você seja outro. Seus filhos querem que você seja outro. Seus amigos querem que você seja outro. Seus professores querem que você seja outro. A sociedade quer que você seja outro. O padre quer que você seja outro. E mais! Segundo a bíblia, até Deus quer que você seja outro. Ora, se o universo inteiro e até o criador do universo quer que você seja outro: quem é você para ser você? De onde vem essa arrogância suprema de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo escancarado, fedido e mesquinho é esse de ser autêntico? É acreditando nessas certezas e duvidando de si que você opta pela uniformidade e vive sendo outro.

Viver não é sempre um mar de rosas. Viver é um pacote de viagem completo que contém tudo, tanto as partes boas como as partes ruins. Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo. É isso que você faz. Você se proíbe de viver. É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço. Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor. E como faz para não viver? Você pensa em duas opções. Opção A: sair da brincadeira (suicídio). Opção B: fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga. Ao fazer isso, além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção A. Mas tem também a opção C, que você nunca considera: se permitir sentir dor. O benefício da opção C é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

Um náufrago estava caminhando por uma ilha deserta quando viu uma pessoa se afogando no mar. O náufrago se jogou na água, salvou a pessoa e a levou para ilha. Chegando na ilha, descobriu que a pessoa era a Sharon Stone. Muito agradecida, Sharon Stone disse ao náufrago para pedir o que quisesse em retribuição ao salvamento. O náufrago não hesitou e disse: “Quero fazer sexo com você!”. Durante dois mês eles transaram todos os dias e o náufrago ficou muito feliz. No terceiro mês o náufrago começou a ficar deprimido. Sharon Stone percebeu e perguntou se podia fazer algo mais para deixá-lo feliz. Sem hesitar, o náufrago pegou um velho baú de roupas e vestiu a Sharon Stone de paletó e gravata. Depois disse: “Faz de conta que essa parte da praia é a empresa em que eu trabalhava e você é meu colega de trabalho. Eu vou ficar parado aqui como se estivesse no elevador lotado. Você chega e me cumprimenta”. Sharon Stone achou estranho, mas concordou. Ela entrou no elevador fictício vestida de homem e disse: “Olá, tudo bem com você?”. E o náufrago respondeu entusiasmado: “Raaaaapaaaaz, você não vai acreditar! Tô comendo a Sharon Stone!”.

Entendeu o fundamento da treta? Por isso você jamais recebeu e jamais receberá uma mensagem no privativo dizendo que tem pinto pequeno ou que é gorda balofa. Glorificação e difamação só funcionam quando tem platéia. Quem joga flores ou tomate é o público. Difamação privada vai direto para privada. Não tem poder nenhum. Difamação só funciona quando é feita na rede globo em horário nobre. Difamação privada não é difamação, é conversa. Você envia uma mensagem descrevendo o desafeto com a intenção de conversar e resolvê-lo, não de piorá-lo.

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?
— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.
— No videogame tem consequências também.
— É verdade.
—Então, qual é a diferença?
— Nenhuma!
— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?
— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.
— Sendo assim, qual é a diferença?
— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.
— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?
— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.
— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?
— Não sei. Qual é?
— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.
— Nossa, é mesmo!
— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.
— Verdade também!
— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que experimenta sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que experimento minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

Controlar o outro é imprescindível para sobrevivência. Se você não controlar a mamadeira, você morre de fome. Se você não controlar a temperatura no inverno, você morre de frio. Se você não controlar seu carro, você morre acidentado. Enfim, se você não controlar o outro, você morre. Só que tem outra COISA e tem outro SER HUMANO. E você acredita que é tudo a mesma coisa. Vou te contar uma coisa: não é! Isso mesmo! Não é! Uma coisa é uma COISA, outro ser humano é outro SER HUMANO.

Ser humano não é mamadeira, não é carro, não é cobertor, não é tapete, não é sapato, não é telefone celular. Seres humanos não são coisas. Cada ser humano, assim como você, tem sentimento próprio, valor próprio, pensamento próprio, vontade própria e… Pasme! Cada ser humano tem inteligência e arbítrio para optar pelo que é melhor para si.

Então, embora você precise controlar as coisas para sobreviver, você não precisa e nem deve controlar os outros seres humanos. Tudo que você consegue ao tentar é viver em cabo de guerra, sofrer e gerar sofrimento. Use sua inteligência e entenda isso. Use seu arbítrio e liberte o outro. Você irá descobrir que o prisioneiro era você.

Quando fica óbvio que tentar controlar a opinião dos outros sobre você só serve para te fazer escravo desse ofício, você desiste. O outro pode te criticar, te caluniar, te difamar, foda-se! Você não se proíbe mais de viver do seu jeito só para receber emoji de coração e curtida no facebook. Você desiste de parecer e se permite ser. Você caga para opinião dos caga-regras. Só que os caga-regras começam a te criticar como nunca. É muita merda no seu ventilador. Muita pedra no seu telhado de vidro. A dor fica insuportável. Então, como a melhor defesa é o ataque, ao invés de você continuar cagando PARA os outros, você começa a cagar NOS outros. Você ataca merda para não ser atacado. Você voltou para mesma escravidão da qual havia saído: tentar controlar a opinião dos outros. E pior! Você se transformou no que odiava: um caga-regra.

Não. Vou contar uma experiência. Não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas nesse caso vale o desconforto. Certa vez, fizeram a seguinte pergunta a um extraterrestre que estava se manifestando através de um médium: “Como será quando os ETs chegarem?”. O extraterrestre respondeu: “Vocês se sentirão envergonhados!”. Uma pessoa no grupo perguntou: “Envergonhados com o que? Com vocês? Com a forma como vocês vivem?”. O extraterreste respondeu: “Não, vocês ficarão envergonhados com vocês mesmos, com a forma como vocês vivem e convivem!”. Poucos entenderam a resposta do extraterrestre. Até porque era preciso já estar envergonhado para entendê-la. Descendo na escala astronômica, recentemente um rapaz da minha cidade se suicidou. Ele foi a médicos, psiquiatras, tomou os remédios recomendados, fez terapia, por fim, se matou. O motivo do suicídio foi vergonha. O rapaz se envolveu com corrupção na prefeitura, a corrupção foi descoberta, veio à tona nos jornais, o rapaz não suportou a vergonha e se suicidou. O motivo do suicídio me fez lembrar dos ETs: “Vocês se sentirão envergonhados!” Ora, só mesmo com a consciência muito adormecida para não sentirmos vergonha da forma como vivemos e convivemos. Hipocrisia, recalque, violência, vingança, luta pelo poder. E seguimos sem remorso! Como? Que nível de inconsciência é esse que acha isso normal? Como disse, não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas se extraterrestres não são evidentes para você, o que um deles explicou é mais do que evidente, é extra-ululante.

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© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari