JOGO DO CONTROLE

22/03/2017 by in category Livros with 0 and 0
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01 | INTRODUÇÃO AO JOGO

Imagine que você se juntou a um grupo de seres para jogar um jogo. Esse jogo funciona com todos vocês se trancando numa cadeia. Cada um é diferente do outro, só que ninguém sabe disso, pois cada um só sabe de si. Vocês entram nessa cadeia, fecham a porta e não tem como sair. O jogo é simples assim. Imaginou? É isso mesmo! Essa cadeia é exatamente essa experiência humana que você está experimentando. E por que é uma cadeia?

PARTICIPANTE: Para não fugir?

Do que você fugiria?

PARTICIPANTE: Da convivência com o outro.

Exatamente! Ser humano é se meter dentro de uma experiência de interação com os outros. Uma vez que você está na experiência humana, você não tem como sair da convivência humana. Esse é o simbolismo da cadeia. Você nunca está apenas vivendo, você está sempre convivendo.

Viver é conviver. A convivência é o tempo todo. Quer você goste quer não, quer esteja consciente quer não, você está preso na cadeia da convivência. Você não tem outra opção. Conviver é obrigatório.

Sendo assim, pergunto: O desafio dessa brincadeira é conviver?

PARTICIPANTE: Sim.

Não! Conviver não é desafio, pois não é opcional. Conviver é inevitável. Logo, o desafio da brincadeira da convivência tem que ser outro além da convivência. Qual?

PARTICIPANTE: Boa convivência.

Isso mesmo! Conviver bem ou conviver mal são as duas possibilidades dentro de uma brincadeira de convivência. Cada momento da sua experiência humana é um momento de convivência. Cada momento da sua experiência humana você pode conviver bem ou conviver mal. O desafio é conviver bem.

O primeiro capítulo do livro Egogame explica que “não existe vida, só existe viver”. Ou seja, você está sempre vivendo. O segundo capítulo explica que “viver é conviver”. Então, você nunca está vivendo, você está sempre convivendo. Nesse exato momento, por exemplo, seu viver é você participando dessa conversa que é você convivendo com todos os outros que estão igualmente convivendo aqui. Se você decidir sair dessa conversa e ir ao supermercado fazer compras, você estará convivendo com as pessoas que estiverem no supermercado. Se você decidir entrar numa caverna para não conviver com ninguém, você estará convivêndo com a caverna. Nem sempre sua convivência é com outro ser humano, mas sempre é com o outro.

Viver é conviver. Não tem para onde fugir. A todo instante você está convivendo e só lhe restam duas opções: conviver bem ou conviver mal. Ou seja, o que você pode optar é pela qualidade da sua convivência. Isso facilita demais viver, porque uma vez que você entende que viver é conviver, e que só tem duas opções: conviver bem ou conviver mal, com o que mais você precisa se ocupar senão em conviver bem? Todo o resto fica secundário. Todo o resto é apenas o tabuleiro do jogo. Todo resto é apenas cenário para seu único desafio: conviver bem.

PARTICIPANTE: E por que conviver bem é um desafio?

A dificuldade é que cada um dentro dessa cadeia tem um gabarito diferente, mas ninguém sabe disso. Cada um dentro dessa cadeia, supõe que o gabarito que serve pra si mesmo, serve para todos os outros. E cada um supõe isso, não por maldade, mas pela própria natureza da individualidade. Você é um indivíduo porque você sabe só de si. A natureza de ser um indivíduo impossibilita que você saiba a natureza do outro indivíduo. É por você não saber do outro que você não é o outro. Então, por não saber do outro, só lhe resta a possibilidade da suposição. Você se baseia em si e supõe seu gabarito para o outro. Se todos os indivíduos da cadeia tivessem o mesmo gabarito, ou se fosse possível um saber pelo outro, não haveria dificuldade, a brincadeira seria fácil. Mas a brincadeira é desafiadora justamente porque é necessário que você viva de acordo com o seu gabarito e conviva bem com o gabarito do outro, no escuro, sem saber do gabarito do outro. Esse é o desafio.

Vou resumir para concluir. Viver é conviver. Isso é inevitável. Sua convivência pode ser de dois tipos: má convivência ou boa convivência. Você opta entre viver autoísta ou viver outroísta. Essa sua opção se desdobra em comportamentos. Seus comportamentos se desdobram na qualidade da sua convivência. Jogo do controle é quando você opta pelo viver outroísta que se desdobra em uma convivência outroísta.


02 | ESTRATÉGIAS DE CONTROLE

Vou falar algumas palavras e peço para que vocês escrevam essas palavras no bloco de notas do computador. Estão prontos?

PARTICIPANTE: Sim, pode falar.

Sal, Açúcar, Limão e Melancia.

Escreveram?

PARTICIPANTE: Sim.

Ótimo! Agora vamos entrar no tema. Pergunto: É possível o outro controlar você? Sim ou não?

PARTICIPANTE: Sim.

PARTICIPANTE: Não.

Vamos começar pela resposta “não”. Justifique sua resposta.

PARTICIPANTE: Não, porque tenho arbítrio. Mesmo quando digo sim, querendo dizer não, a escolha é sempre minha, sou eu que decido.

Ótimo! Agora a resposta “sim”. Justifique sua resposta.

PARTICIPANTE: Sim, é possível o outro me controlar com minha permissão.

Percebem que as duas respostas, sim e não, possuem a mesma justificativa? Sim, o outro pode controlar você quando você permite. E não, o outro não pode controlar você quando você não permite. Ou seja, de fato, é impossível o outro controlar você, porque você tem arbítrio. E vice versa. O outro não pode controlar você nem você pode controlar o outro. O que impossibilita isso é o arbítrio.

Mas se é impossível controlar o outro ou ser controlado, devido ao arbítrio, qual é o sentido de estarmos aqui estudando estratégias de controle?

PARTICIPANTE: Ótima pergunta! Não sei.

Agora vou desdizer o que disse. É possível controlar o outro, e vice versa, muito embora exista o arbítrio. Como?

PARTICIPANTE: Ainda não sei.

Pelo convencimento.

Você não tem como controlar o outro e vice versa. Mas um pode convencer o outro. Seu arbítrio é como o teclado do seu computador, só você tem acesso, só você pode digitar nele, sua realidade é o que aparece na tela, resultado do seu arbítrio, ou seja, resultado do que você digita no seu teclado. No começo dessa conversa apareceram quatro palavras na tela do computador de vocês, não foi?

PARTICIPANTE: Sal, Açúcar, Limão e Melancia.

Isso mesmo! Eu queria que vocês escrevessem essas quatro palavras. Era um desejo meu, não era de vocês. Só que eu não tenho acesso ao teclado de vocês. Ou seja, não tenho como controlar o arbítrio de vocês. Contudo, eu controlei. Tanto controlei que essas quatro palavras estão aparecendo aí na tela do computador de vocês. Como isso é possível?

PARTICIPANTE: Você pediu para que nós escrevêssemos e nós atendemos seu pedido.

Exato! Eu fiz um pedido e convenci vocês a fazerem o que eu queria. Só que quem fez não fui eu, foram vocês.

Tá claro isso?

PARTICIPANTE: Sim

Se quem fez foi você, o que isso significa?

PARTICIPANTE: Não sei.

Significa que quem fez não fui eu, foi você.

PARTICIPANTE: Sim, óbvio.

O que você experimenta é sempre o que você opta experimentar, quer seja uma opção que você mesmo imagine, quer seja uma sugestão do outro. No final das contas, em questão de experimentação, pouco importa de onde vem a opção, da sua própria imaginação ou de uma sugestão alheia, tudo se resume ao seu arbítrio. Se você não quer experimentar limão, basta você não optar por essa opção. Assim como é impossível a palavra limão aparecer na tela do seu computador se você não digitá-la, também é impossível a experiência limão aparecer na sua experiência se você não optar por ela. Você está sempre no controle da sua experiência, pois até mesmo para você fazer o que o outro quer que você faça, você precisa optar por isso. Seu arbítrio é sempre a causa do que você está experimentando. Ou seja, o outro pode tentar te controlar, mas não pode conseguir. O outro só consegue te controlar com sua permissão. E vice versa. Você pode tentar controlar o outro, mas não pode conseguir também. Você só consegue controlar o outro com permissão dele.

O filme Advogado do Diabo tem um ótimo exemplo disso. O advogado diz ao diabo: “Você me manipulou, me enganou, você me levou a fazer essas coisas”. O diabo responde: “Engano seu, pois até lhe disse para desistir. Você fez tudo por opção sua”. Ou seja, embora o outro possa e esteja constantemente te manipulando e vice versa, embora o outro possa e esteja constantemente te influenciando e vice versa, a responsabilidade pelo que cada um está experimentando é sempre de cada um.

Influenciar não é determinar. Entre as influências e a realidade experimentada, está o arbítrio. O ambiente pode influenciar fortemente na decisão. De fato, o ambiente sempre influencia fortemente na decisão. Mas influenciar não é decidir. No filme Advogado do Diabo, o diabo influenciou o advogado, tentou convencê-lo de várias formas a fazer o que ele queria, mas não determinou a escolha do advogado. Eu fiz a mesma coisa quando pedi para vocês escreverem “sal, limão, açúcar e melancia” no computador. Eu influenciei vocês, mas quem escreveu foram vocês.

Para controlar o outro, você precisa convencer o outro, pois é impossível controlar o outro de forma direta, atuando no arbítrio do outro. Assim como um não tem como digitar as palavras “sal, limão, açúcar e melancia” no teclado do outro, pois somente cada um tem acesso ao próprio teclado, somente cada um pode executar o próprio arbítrio.

Para que seja possível um controlar o outro, é necessário um meio de influência. Meio é a estratégia, maneira, jeito, método. No início dessa conversa, para que vocês fizessem o que eu queria, eu disse: “Preciso da ajuda de vocês, por favor, façam uma coisa para mim. Será importante para o entendimento do que vamos estudar hoje”. Essa foi minha estratégia de convencimento para convencer vocês a fazerem o que eu queria. E minha estratégia funcionou. Porém, só influenciei, vocês só escreveram porque aceitaram minha influência.

É fundamental entender a diferença entre determinação e influência. Muitas coisas podem te influenciar, às vezes a influência é quase irresistível, mas não é determinação. O que determina seu viver é sua escolha, seu arbítrio.

O diabo representa a influência tentadora. O diabo pode ser uma circunstância, uma pessoa, uma sociedade, o que for. O diabo representa algo que está tentando fazer com que você saia do viver autoísta e entre no jogo do controle (outroísmo). Mas o diabo não pode ganhar de deus. Por que não? Porque deus é seu arbítrio. O que cria sua realidade é seu arbítrio. Então, só você pode criar sua realidade.

Mas para que estudar estratégias de controle, se você não quer jogar o jogo do controle?

PARTICIPANTE: Para eu não cair em tentação.

Mais do que isso! Para você sair da tentação que está caído. Você vive caído em tentação. Seu viver é o jogo do controle. Só que você não percebe isso. O estudo das suas estratégias de controle é para você perceber o que você está constantemente fazendo, mas não percebe. Você está doente e o caminho para cura é você estudar minuciosamente sua doença. Suas estratégias de controle são as minúcias da sua doença.


03 | CONTROLE PELA PUNIÇÃO

Quer você esteja consciente, quer não esteja, você está jogando o jogo do controle. Você executa o jogo do controle através de estratégias. Então, quer você esteja consciente, quer não esteja, você está constantemente executando estratégias de controle.

Só existem duas estratégias de controle. Sendo que todo ser quer sempre a mesma coisa, o bem, e todos repudiam a mesma coisa, o mal. Então, uma forma de você controlar o outro é através do mal, da punição, e a outra forma é através do bem, da recompensa.

No jogo do controle, você controla o outro através do que ele quer (recompensa) ou através do que ele não quer (punição) e você é controlado da mesma maneira. A punição ocorre até que o outro faça o que você quer, ou seja, viva de acordo com seu gabarito. E vice versa. Se você não vive igual, em uniformidade, você é punido. Se você já vive igual, você aplica a punição em quem ainda vive diferente.

Controle pela punição é um ato de violência, mas recebe um nome bonito. Você chama o controle pela punição de educação. E você não aplica a educação só na escola, aplica em todo lugar e a todo instante. Tanto que você nem consegue imaginar sociedade sem educação.

E punição não é só física, pois a natureza humana é quaternária. Então, punição pode ser física, sensorial, afetiva e racional. Punição gera má convivência porque quem é punido quer vingança. Quando o outro pune você, você quer se vingar do outro. Quando você pune o outro, ele quer se vigar de você. Jogo do controle gera mais jogo do controle.

Você também joga o jogo do controle através da ameaça. Ameaça é promessa de punição. “Se você não fizer tal coisa (viver igual eu), vou fazer aquilo (te bater, te humilhar, etc)”. Ameaça é uma estratégia de controle também. Não há punição, mas há promessa de punição. Funciona até melhor. Primeiro você pune, depois de várias punições a pessoa internaliza a punição. A partir daí, basta a promessa.

Sendo assim, fique ciente que o viver autoísta não é um mar de rosas. Os outros irão punir você de todas as formas possíveis para que você viva em uniformidade. Você vai dar liberdade para o outro viver e o outro vai te punir do mesmo jeito. Não conte que o outro vai desistir de te uniformizar. Não vai.


04 | CONTROLE PELA RECOMPENSA

Escolhi o filme A Última Tentação de Cristo para ajudar no estudo do controle pela recompensa, porque esse filme pega a história mais famosa do mundo e propõe uma outra opção para o desenrolar da história. Se a história de Jesus é factual ou não, isso não importa para nós nesse estudo, o que importa nesse estudo é o simbolismo contido na história de Jesus. E qual é o simbolismo? Qual é a história por trás da história de Jesus?

A história de Jesus é uma jornada de autorrealização (realização do destino). Nessa história, a autorrealização é representada por Jesus realizando a vontade do pai. Esse é o termo cristão que se usa. E o que é realizar a vontate do pai? É realizar o próprio destino. Metaforicamente falando, o destino de Jesus era percorrer toda via sacra até a crucificação. Na crucificação, é onde se consuma a jornada de Jesus, onde se consuma seu destino, onde se consuma a vontade do pai, onde se consuma sua autorrealização.

Para evitar equívocos, mais uma vez explico que destino não é o que você faz, destino é o que você é, destino é ser. A história de Jesus é uma metáfora do processo de autorrealização do ser. Então, quando Jesus chega à crucificação, isso simboliza que Jesus viveu sendo Jesus, que viveu em acordo com sua unicidade, que viveu de forma autoísta. Essa é a moral da história. Todos os acontecimentos e toda a trajetória de Jesus são metáforas paro o entendimento da jornada de autorrealização.

Entendido isso, fica fácil de entender que a jornada de Jesus simboliza sua própria jornada de autorrealização. Ou seja, a via sacra simboliza a jornada de todos e cada um dos seres humanos. Jesus simboliza o ser humano que passa por desafios, vence e se autorrealiza. Os desafios são dois: punição e recompensa. No capítulo anterior estudamos detalhadamente o desafio da punição, nesse vamos aprofundar no entendimento da recompensa.

Na história de Jesus, houve momentos em que o desafio para que Jesus abandonasse seu destino, foi a punição, mas também houve momentos em que o desafio foi a recompensa. Como já vimos, no jogo do controle, você controla o outro e é controlado por ele, através da punição e da recompensa. Por quê? Porque você foge da punição para ir para recompensa, que é o mesmo que buscar a recompensa para sair da punição. São dois lados da mesma moeda. No jogo do controle, o outro usa punição e recompensa para fazer você sair do seu destino, e vice versa.

É isso que o filme A Última Tentação de Cristo mostra quando Jesus está na cruz e vem o anjo conversar com ele. O anjo tira a coroa de espinhos, tira os pregos, ou seja, recompensa, está tirando a dor. Daí o anjo leva Jesus para uma casa confortável, onde ele tem prazeres, alegrias. Tudo recompensa. Daí ele tem uma esposa, tem filhos, tem uma família. Tudo recompensa.

Não estou dizendo para você se negar ter prazer e alegria, pelo contrário. Mas é que a história de Jesus é metafórica, representativa. Quando Jesus aceita as recompensas, simboliza você aceitando recompensa para negar seu destino, sua unicidade. É por isso que o filme chama A Última Tentação de Cristo, porque ele aceita a recompensa para negar seu destino, ou seja, cai em tentação.

Então, Jesus sofre dois tipos de tentação. Ele é punido para não cumprir o destino dele. E ele é subornado também para não cumprir o destino dele. São dois tipos de estratégias que têm o mesmo objetivo, controlar Jesus e fazê-lo negar seu destino. E no filme, o controle através da punição não funcionou, mas o controle através da recompensa, funcionou.

O mesmo acontece com você no jogo do controle. Você também controla o outro e é controlado por ele através da punição e da recompensa, e você também cai mais em tentação através da recompensa. Isso acontece porque recompensa é bom, então, recompensa não parece estratégia de controle. Mas é. Recompensa e punição são as duas estratégias de controle.

O controle pela punição é a estratégia da educação, o controle pela recompensa é a estratégia da ratoeira. Por que ratoeira? No controle pela punição, você pune, pune, pune, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa. No controle pela recompensa, é similar, você recompensa, recompensa, recompensa, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa. Por isso é ratoeira, o benefício é usado para prender.

Então, você pode até ter uma vida boa, que é o queijo da ratoeira, mas você não vive bem, pois não vive em acordo com seu destino, em acordo com seu próprio gabarito.

Para terminar, tem uma palavra que deixa a estratégia da recompensa totalmente explícita. Essa palavra vai te ajudar a perceber quando você está tentando controlar o outro através da recompensa e quando o outro está tentando controlar você. Essa palavra é: suborno.

Estratégia da recompensa é subornar.


05 | JOGO DA LIBERDADE

O oposto do jogo do controle é o jogo da liberdade. E como faz para jogar o jogo da liberdade? É muito simples, basta você desistir do jogo do controle. E como desistir do jogo do controle? Da mesma maneira que você desiste de ficar de olhos fechados: percebendo que está de olhos fechados. Só quando você percebe que está de olhos fechados você é capaz de abrir os olhos, só quando você percebe que está jogando o jogo do controle você pode desistir dele. Esse estudo foi realizado para lhe ajudar a perceber quando você está jogando o jogo do controle e assim poder sair dele. Que você possa perceber melhor o jogo do controle em você, que possa sair dele, e assim conviver bem.

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Você protege as cagadas de quem ama. Faz vista grossa. Você finge que a pessoa amada não está fazendo a merda que está fazendo. E pior! Você acredita que faz isso por amor. Só que não! Você faz isso para controlar o amor do outro, para inibir a possibilidade do outro lhe odiar. Na posição de mãe, por exemplo, você finge que seu filho não está fazendo merda para que seu filho lhe ame. Na posição de filho, você finge que seus pais não estão fazendo merda pelo mesmo motivo. Mas quando alguém está fazendo merda, fazendo merda está. Óbvio! Simples assim! Pessoas amadas são pessoas iguais você e fazem merda igual você. Não é fingindo que o outro não tem cu que você convive bem com ele. Todas as pessoas acordam de manhã, vão até o banheiro e fazem merda, nem por isso deixamos de amá-las. Uma pessoa não é a merda que faz. Apenas faz merda.

Imagine que você está jogando futebol e toda vez que a bola vem para você o juiz apita e marca falta. Você não consegue sair desse ciclo, fica preso nele, dentro dele. Basta alguém passar a bola para você e o ciclo se repete, o juiz apita e marca falta. Então, você decide descobrir porque está preso no ciclo do apito. Você investiga o jogo e descobre que futebol se joga com os pés e você está usando a mão. Por isso que toda vez que passam a bola para você se repete o ciclo do apito. Você está pegando a bola com a mão. Ao ficar consciente disso, você para de pegar a bola com a mão e sai do ciclo do apito. Analogamente, o mesmo acontece com o ciclo da violência. Você fica preso no ciclo da violência porque combate violência com violência. Para sair, você deve ficar consciente que está dentro.

Você não convive de verdade. É fingimento. Você e o outro não foram ao cartório oficializar a farsa, mas vocês têm um contrato de fingimento. Por isso o outro te elogia e você elogia o outro. Vocês estão cumprindo o contrato. Elogiar um ao outro é uma forma de dizer: “Continue fingindo que eu também continuo”. Convivência desse tipo funciona feito jogo de xadrez, não há lugar para espontaneidade. Cada movimento precisa passar por rigorosa análise do que dirão antes de vir ao tabuleiro. É muito sofrido viver assim. Ninguém aguenta. Por isso você deseja rasgar o contrato. O outro também. Só que ninguém toma iniciativa. Fica um esperando o outro desistir do fingimento. Esperando, esperando, esperando… É assim que cada um ajuda a perpetuar o que todos desejam que acabe.

Um homem entra no elevador de um hotel. O ascensorista lhe pergunta: “Qual andar o senhor deseja ir?”. O homem responde: “Qualquer um, estou no hotel errado!”. Outroísmo é o hotel errado. É você se obrigando a ser igual os outros. Você é você justamente porque não é os outros. Por isso viver outroísta não dá certo! Nunca deu! Nunca dará! Tanto faz para onde você vai dentro do hotel do outroísmo, todas as portas que você abre e todos os quartos em que entra, só servem para lhe manter vivendo mal. Para viver bem, mude de hotel. Viva autoísta. Permita-se ser você!

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?

— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.

No videogame tem consequências também.

— É verdade.

—Então, qual é a diferença?

— Nenhuma!

— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?

— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.

— Sendo assim, qual é a diferença?

— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.

— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?

— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.

— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?

— Não sei. Qual é?

— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.

— Nossa, é mesmo!

— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.

— Verdade também!

— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que vai experimentar sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que vou experimentar minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

Viver não é sempre um mar de rosas. Viver é um pacote de viagem completo que contém tudo, tanto as partes boas como as partes ruins. Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo.

É isso que você faz. Você se proíbe de viver. É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço. Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor.

E como faz para não viver? Você pensa em duas opções. Opção A: sair da brincadeira (suicídio). Opção B: fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga.

Ao fazer isso, além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção A. Mas tem também a opção C, que você nunca considera: se permitir sentir dor. O benefício da opção C é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

Um oficial de saúde vai fiscalizar uma fazenda e pergunta ao fazendeiro: “Que comida você dá para os porcos?”. O fazendeiro responde: “Dou bagaço de cana, sabugo de milho, lavagem, leite azedo, botina velha, tudo que não presta”. O oficial multa o fazendeiro por atentado contra a saúde pública. Um ano depois, o oficial retorna e faz a mesma pergunta: “Que comida você dá para os porcos?”. O fazendeiro, prevenido, responde: “Dou caviar, pizza quatro queijos, salmão defumado, lasanha, vinho do porto, tudo do bom e do melhor”. O oficial multa o fazendeiro por desperdício de comida. Um ano depois, o oficial retorna e faz a mesma pergunta: “Que comida você dá para os porcos?”. O fazendeiro responde: “Não dou comida nenhuma, dou um vale refeição para cada um e eles que decidam o que comer”. Moral da história. Quer se libertar de todas as obrigações que você nunca teve? Desista do controle! Dê liberdade ao outro de optar por si.

Controlar o outro é imprescindível para sobrevivência. Se você não controlar a mamadeira, você morre de fome. Se você não controlar a temperatura no inverno, você morre de frio. Se você não controlar seu carro, você morre acidentado. Enfim, se você não controlar o outro, você morre. Só que tem outra COISA e tem outro SER HUMANO, mas você acredita que é tudo a mesma coisa. Pasme! Não é! Isso mesmo! Não é! Uma coisa é uma COISA, outro ser humano é outro SER HUMANO.

Ser humano não é mamadeira, não é carro, não é cobertor, não é tapete, não é sapato, não é telefone celular. Seres humanos não são coisas. Cada ser humano, assim como você, tem sentimento próprio, valor próprio, pensamento próprio, vontade própria e… Pasme mais ainda! Cada ser humano tem inteligência e arbítrio para optar pelo que é melhor para si.

Então, embora você precise controlar as coisas para sobreviver, você não precisa e nem deve controlar os outros seres humanos. Tudo que você consegue ao tentar é viver em cabo de guerra, sofrer e gerar sofrimento. Use sua inteligência e entenda isso. Use seu arbítrio e liberte o outro. Você irá descobrir que o prisioneiro era você.

Não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas nesse caso vale o desconforto. Certa vez, fizeram a seguinte pergunta a um extraterrestre que estava se manifestando através de um médium: “Como será quando os ETs chegarem?”. O extraterrestre respondeu: “Vocês se sentirão envergonhados!”. Uma pessoa no grupo perguntou: “Envergonhados com o que? Com vocês? Com a forma como vocês vivem?”. O extraterreste respondeu: “Não, vocês ficarão envergonhados com vocês mesmos, com a forma como vocês vivem e convivem!”. Poucos entenderam a resposta do extraterrestre. Até porque era preciso já estar envergonhado para entendê-la.

Descendo na escala astronômica, recentemente um rapaz da minha cidade se suicidou. Ele foi a médicos, psiquiatras, tomou os remédios recomendados, fez terapia, por fim, se matou. O motivo do suicídio foi vergonha. O rapaz se envolveu com corrupção na prefeitura, a corrupção foi descoberta, veio à tona nos jornais, o rapaz não suportou a vergonha e se suicidou. O motivo do suicídio me fez lembrar dos ETs: “Vocês se sentirão envergonhados!” Ora, só mesmo com a consciência muito adormecida para não sentirmos vergonha da forma como vivemos e convivemos. Hipocrisia, recalque, violência, vingança, luta pelo poder. E seguimos sem remorso! Como? Que nível de inconsciência é esse que acha isso normal?

Como disse, não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas se extraterrestres não são evidentes para você, o que um deles explicou é mais do que evidente, é extra-ululante. Dito isso, lhe pergunto: ainda quer saber como será quando os ETs chegarem?

Quando alguém te perguntar no futuro o que aconteceu com a civilização humana, eis o resumo da história. Eram quatro pessoas: Todomundo, Alguém, Qualquerum e Ninguém. Havia um trabalho a ser feito. Todomundo pensou que Alguém faria. Qualquerum podia fazer. Mas Ninguém fez. Todomundo ficou esperando Qualquerum fazer. Terminou Todomundo culpando Alguém porque Ninguém fez o que Qualquerum podia ter feito.

Um alpinista estava escalando uma montanha durante a noite quando escorregou e começou a cair. A corda de segurança estancou a queda. Porém, ele ficou pendurado no escuro. Desesperado, quase morrendo de frio, o alpinista começou a gritar:

— Socorro! Alguém me ajude!
— Solta a corda!
— Quem está falando? — perguntou o alpinista.
— Você quer se salvar ou não?
— Sim, quero!
— Solta a corda.
— Isso não, me ajuda a sair daqui!
— Estou tentando: solta a corda!
— Nem fodendo solto essa corda!
— Você quer se salvar ou não?
— Sim, quero!
— Então, solta a corda.

No dia seguinte, a equipe de resgate encontrou o alpinista congelado e morto, pendurado numa corda a meio metro do chão.

O alpinista é você. O frio é você vivendo mal. A corda é o jogo do controle. Sua persistência em se manter agarrado a corda, é você persistindo em jogar o jogo do controle. Quer viver bem? Solta a corda! Desista do jogo do controle! Jogue o jogo da liberdade.

Você está condenado a sofrer porque sofrimento é você experimentando insatisfação. Por mais que você esteja satisfeito, o estado de satisfação sempre acaba e você volta a insatisfação, ou seja, volta a sofrer. É assim que funciona. Inevitavelmente. Sua opção frente a isso é lidar bem ou lidar mal com isso. Você lida mal quando transfere ao outro a responsabilidade pela satisfação do seu desejo. Sendo que o outro não tem essa obrigação, tudo que você consegue com isso é perpetuar seu estado de insatisfação, ou seja, perpetuar seu sofrimento.

Você usa duas estratégias: imposição e submissão. Por exemplo, você deseja beber água. Na estratégia impositiva, você ameaça o outro: “Seu filho da puta! Seu desgraçado! Me traz um copo d’água agora mesmo ou te mato”. Você pega um revólver e dá um tiro para cima. Pega uma faca e finca na mesa. “Vai logo!”, você ordena. Só que o outro não nasceu para ser seu garçom e não vai. Você tenta mil torturas para obrigar o outro a pegar o copo d’água para você. Nada funciona. Se você usasse 0,1% da energia que está disparando no outro para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d’água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não! Você é o sabidão. Tão sabido que sabe que o culpado pelo seu sofrimento é o outro que está te enrolando. Então, já que tempestade por um copo d’água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você decide apertar o botão vermelho e começar com a terceira guerra mundial.

Na estratégia submissa, você começa a fazer chantagem e vitimização para obrigar o outro a satisfazer seu desejo. Você diz: “Quem me ama pega um copo d’água para mim”. Só que o outro não nasceu para ser sua babá e não vai. Você começa a chorar: “Você não me ama! Eu faço isso por você, faço aquilo, eu te dei a vida e você nem pega um copo d’água para mim! Você é um egoísta ingrato!”. Se você usasse 0,1% da energia do mimimi para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d’água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não! Você é o sabidão. Tão sabido que sabe que a culpa do seu sofrimento é do ingrato que está te enrolando. Então, já que mimimi por um copo d’água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você entra em depressão, começa a tomar remédios tarja preta e por fim decide cortar os pulsos.

Resumindo, sofrer é natural, inevitável e saudável. Você precisa experimentar sofrimento para tomar consciência do seu desejo e satisfazê-lo. Só que você pode transferir sua responsabilidade de satisfação ao outro ou pode assumi-la. Assumir é lidar bem com o sofrimento e resolvê-lo. Transferir é lidar mal com o sofrimento e perpetuá-lo. Você decide.

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© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari