Seguro a espada com as duas mãos.
À minha frente, de joelhos sobre a terra batida, está Sasaki, o homem que matou meu filho.
Ele mantém a cabeça baixa.
O pescoço, nu e curvado, está inteiramente exposto.
O vento, com cheiro de terra molhada e incenso queimado, percorre a clareira, fazendo balançar as grandes bandeiras de seda da tribo.
Ninguém fala.
As crianças foram levadas para longe, para trás das cabanas.
Os velhos samurais observam da sombra, sem mover um único músculo do rosto esculpido pelo tempo.
A decisão já foi tomada.
E não há apelo.
Olho por olho.
Dente por dente.
Filho por pescoço.
É a tradição.
Levanto a espada acima da cabeça.
O aço reflete o sol pálido da tarde.
Sinto o peso da lâmina no centro da minha gravidade.
O cabo de madeira e couro conhece o formato dos meus dedos como a água conhece o leito do rio.
Sasaki inspira uma última vez.
Meu braço desce com a força da gravidade e do ódio.
São poucos segundos de movimento vertical vingando o fim de uma vida horizontal.
Conto a descida da espada nos anos de vida do meu filho.
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois…
O mundo trava.
O vento não sopra mais.
Um pássaro fica suspenso no ar, as asas abertas, imóvel como um desenho.
A poeira paira em pequenos pontos dourados, sem cair.
E a lâmina afiada da minha espada fica a um fio de cabelo de tocar o pescoço de Sasaki.
Até minha respiração fica presa dentro do peito.
Só meus olhos continuam vivos.
Então, sou puxado para trás.
Não ando.
Não é um passo físico.
Não é um salto.
É a visão se descolando do corpo.
Como se meus olhos fossem arrancados de dentro da minha cabeça e arremessados um metro e meio para trás.
Vejo minhas costas, minha espada parada no ar e o pescoço curvado de Sasaki.
Estou atrás de mim.
Olhando para a iminente decapitação de Sasaki como se estivesse olhando para uma fotografia.
Me afasto mais um pouco.
Percebo que Sasaki e eu não estamos sozinhos na fotografia.
Na visão ampliada da decapitação, vejo um samurai ajoelhado diante de Sasaki, tal como ele está ajoelhado diante de mim.
A espada de Sasaki também está congelada a fio de cabelo do pescoço desse outro samurai.
E na frente desse outro samurai, existe outro.
E mais outro.
E outro.
É uma fila.
Que se estende para além da aldeia, para além da colina, para além do que os meus olhos deveriam alcançar.
Todas as espadas congeladas no ápice do golpe.
Todos os pescoços esperando a lâmina.
Sinto um choque mudo.
São centenas de eus e centenas Sasakis.
Todos de dentes cerrados, acreditando piamente que está encerrando uma história de dor.
Nenhum deles percebe que apenas segura a ponta de outra.
Olho para a frente, tentando achar a origem.
A fila continua. Não alcanço o fim.
Morte. Vingança. Pescoço.
Morte. Vingança. Pescoço.
Morte. Vingança. Pescoço.
Me afasto um pouco mais para trás.
A fila, que eu via reta, se curva.
Dobra sobre si mesma como uma cobra que morde o próprio rabo. Forma um arco imenso. Depois, um círculo perfeito.
Agora consigo ver tudo.
Não existe começo. Não existe fim.
Cada espada aponta para um pescoço; cada pescoço pertence àquele que, em algum momento do tempo, levantará outra espada. Cada golpe produz o seguinte. Cada vingança alimenta a próxima.
O círculo gira sem se mover.
Na velocidade do pensamento, vejo o homem diante de mim cortar o pescoço de outro.
Esse outro, em um tempo anterior ou posterior, corta outro.
Outro. Outro. Outro.
As cabeças caem sobre a clareira como abóboras podres. O sangue espirra e desenha um anel escuro sobre a terra.
O círculo completa a volta e encontra o meu próprio pescoço, curvado, esperando a lâmina de um homem que ainda não nasceu, ou que já morreu, ou que sou eu mesmo…
Minha cabeça cai. Mas o círculo não para.
Recomeça toda vez que termina.
Um golpe chama outro. Outro chama outro. Outro chama outro. Quando percebo, em uma fração de segundo, minha cabeça já está rolando pela terra novamente.
O tempo implode.
O ciclo de vingança se repete tantas vezes que não consigo mais distinguir qual das decapitações é a primeira.
Talvez nenhuma seja.
Talvez todas sejam.
Volto para o meu corpo.
Minhas mãos ainda seguram a espada a um fio de cabelo do pescoço de Sasaki.
Olho para a lâmina.
Vejo o reflexo do meu próprio rosto nela, distorcido e cansado.
Minha espada não irá parar na carne do pescoço de Sasaki. Continuará viajando, invisível, de mão em mão. Atravessará filhos, pais, netos, ancestrais. Viajará pelo tempo e retornará sempre para mim.
Minha mão não fará justiça, fará o motor da vingança continuar girando.
Se eu prosseguir, estarei cortando minha própria cabeça, de novo e de novo, em uma decapitação sem fim.
A vingança abandona meus músculos.
Solto a espada.
O mundo volta a respirar.
Ouço novamente o sussurro do vento nas copas das árvores.
A folha seca finalmente toca o chão. O pássaro conclui o voo e desaparece no horizonte.
Levo as mãos ao meu próprio pescoço e desamarro o lenço que carrego ali. O vento, que volta a soprar, balança o tecido.
Um aroma suave invade o ar da clareira.
O lenço ainda guarda o perfume das flores de ameixa que crescem atrás da casa onde meu filho costumava brincar na primavera.
Sasaki continua esperando o aço da espada chegar.
Eu me inclino.
Passo o lenço no pescoço dele — não a lâmina.
Um gesto suave, sobre seu pescoço tenso.
Deixo o lenço ali — pendurado.
O perfume das flores da infância do meu filho se misturam com o suor sobre a pele daquele que o matou.
Sasaki ergue lentamente a cabeça.
Nossos olhos se encontram.
Em seu rosto não há surpresa, nem alívio, nem gratidão, há reconhecimento.
Ele leva a mão trêmula ao pescoço.
Toca o lenço.
Retira-o dali com um cuidado quase sagrado.
Anda até Akechi, um dos samurais que está na clareira. Coloca o lenço no pescoço dele.
Akechi deixa sua espada cair. Depois repete o gesto de Sasaki com Maeda, outro samurai que também está na clareira.
Gesto que é repetido de novo.
E de novo.
Até a última espada cair.
Até o último samurai.
O sol se move.
As sombras trocam de lado.
Quando já não há mais samurais no mundo, e estou saindo da clareira, sinto um tecido leve tocar minha nuca.
Alguém amarra, atrás de mim, um lenço.
Tem o cheiro das flores de ameixa.