Assim que Da Vinci decidiu começar a pintar, ela chegou.
Quinze minutos de vômito verbal — sem ponto, sem vírgula, sem respeito à sintaxe e à gramática. Quando Monalisa finalmente para, olha nos olhos de Da Vinci pela primeira vez e dispara o mesmo SOS de todos os náufragos do mar da vida:
— Entendeu por que vim até você?
— Sabia desde a primeira pincelada — responde ele, sustentando o peso do olhar. — Só existem dois motivos para uma pessoa entrar nesta sala. E são sempre os mesmos dois. Uma profecia sem falhas.
— Quais são os dois? — ela pergunta.
Da Vinci deixa o silêncio trabalhar por ele, igual ao branco da tela que trabalha pelo pincel. Por fim, responde — com uma pincelada de vermelho-carmim:
— O sofrimento.
Monalisa balança a cabeça devagar. Confirmação silenciosa. Culpada.
— E o segundo?
Da Vinci responde — com cinza-escuro:
— Ignorância da causa do sofrimento.
Ela sorri — com aquele sorriso familiar.
— Me conte tudo outra vez. Mas devagar. Com ponto e vírgula — pede Da Vinci.
Seguem-se outros quinze minutos de verborragia — agora um pouco mais decodificáveis.
— Já entendi o problema — diz Da Vinci.
— Qual? Me diz! — indaga Monalisa.
— Começa com "a". Termina com "ência".
Os olhos de Monalisa acendem. A língua dispara feito metralhadora:
— Abstinência? Advertência? Ausência? Ambivalência?
O pincel para. Recua. Volta à tela com um toque leve.
— Adolescência — diz Da Vinci, superando todas as expectativas da moça.
O bico aparece de imediato.
Pequeno, mas carregado de protesto.
Monalisa tem 23 anos, mas gostaria de ter 230 — sábia, experiente, resolvida, perfeita.
Claro que, se fosse esse o caso, não estaria pedindo ajuda a Da Vinci para viver sua própria vida. Claro que, se fosse esse o caso, não acreditaria mais em contos de fadas, soluções mágicas, verdades fixas e perfeição. Claro que, se fosse esse o caso, seus lábios não estariam contraídos.
Então, claro que não é esse o caso.
— Estou em crise existencial — ela declara. Da Vinci larga o pincel. Conhece aquela cor de cor. — Passo o dia inteiro questionando quem sou. O que é certo, o que é errado. Pedi demissão. Gosto de trabalhar — mas trabalhar por dinheiro, por obrigação, por medo, não consigo mais. Não consigo conviver com as pessoas. Briga atrás de briga. Não sei, não sei, não sei… Só sei que está ruim. Estou à deriva.
— E você acredita que está sofrendo porque não sabe quem você é? Porque não encontrou seu ponto geográfico no mapa-múndi? — pergunta Da Vinci.
— Exatamente.
— Não é por isso. — Da Vinci diz, seco.
Monalisa contrai as sobrancelhas.
— Como não?
— Você acha que eu sei quem sou, Monalisa? — pergunta Da Vinci. — Acha que acordo todo dia com as respostas organizadas numa prateleira?
— Sim. Por isso vim falar com você.
— Você está muito enganada, Monalisa. Não sei quem sou. Nunca soube. Minha única certeza é que nunca vou saber. E olha — estou bem.
Ela olha para ele como quem descobre que o pintor nunca tocou num pincel.
— Autoconhecimento não é exatamente isso — saber quem se é?
— Não mesmo!
— Como não? Então me explica o que é!
— Primeiro você precisa largar um equívoco — diz Da Vinci.
— Qual equívoco?
— De que você está sofrendo por causa da crise existencial.
— E por que estou sofrendo?
Da Vinci faz uma pausa. A próxima pincelada vai doer.
— Você está sofrendo porque tem esperança.
Monalisa pisca.
— Esperança?
— Você tem esperança de que a crise existencial vai acabar um dia. De que existe uma versão futura de você que finalmente se conhece, está inteira — chegou ao fim da pintura.
— Tenho essa esperança, sim.
— Eu também tive — diz Da Vinci. — Acreditei que quando me tornasse adulto, saberia quem era. Que a névoa da incerteza iria embora. Já sou adulto faz tempo, Monalisa. A névoa continua. Aprendi a andar nela.
O silêncio que se segue tem a textura de pinceladas azuis.
— Então não tem cura? — questiona Monalisa.
— A cura é aceitar que não tem cura — responde Da Vinci. — Seres humanos nascem, crescem e morrem em crise existencial. Não tem pílula, livro, terapia, chá, guru, ensinamento — nada capaz de curar um ser humano do fato de ser humano. O que você pode fazer — a única solução — é derrubar a crença de que a vida começa depois da certeza. Certo é só o passado. E o passado é o cemitério da vida.
Monalisa rejeita a cruz e a espada.
Ela tem 23 anos, mas gostaria de ter 230 — sábia, completa, emoldurada.
Claro que, se fosse esse o caso, não estaria pedindo conselhos a Da Vinci. Claro que, se fosse esse o caso, saberia que crise existencial não se tratava de um traço torto, mas do próprio processo de pintura. Claro que, se fosse esse o caso, o bico não teria retornado ao rosto.
Então, claro que não é esse o caso.
— Você está me deixando assustada e sem esperança — diz ela.
— Assustada, não é minha intenção. Desesperançosa, sim — responde Da Vinci.
— E o que você me sugere?
— Que você trate a crise existencial como o pintor trata seu ofício — uma pintura termina apenas para que outra comece. E assim, o pintor nunca tem fim. E, também, nunca tem começo. É sempre o eterno meio.
— Nunca vou terminar de pintar meu autorretrato? É isso?
Com uma última pincelada, Da Vinci termina o quadro que vinha pintando há décadas. Olha para a imagem e sorri — com aquele sorriso familiar.
O bico retorna. Desta vez, no rosto do pintor.
Da Vinci pendura o quadro na parede do ateliê, incerto do destino que aquela obra terá — se é que terá algum. Quem sabe.
Da Vinci sai do ateliê — ainda em crise existencial.