Foi numa festa que o vi pela primeira vez.
Ele atravessou o salão como quem atravessa um reino.
Depois disse:
— Olhe para mim.
Eu olhei.
— Dance comigo.
Eu dancei.
Chamei aquilo de amor.
Nos amamos como se ama no mundo imperativo.
— Espere.
— Beije-me.
— Venha aqui.
Ele achava que ser obedecido era ser amado.
Eu achava que obedecer era amar.
Os dois certos.
Os dois enganados.
Casamos num templo de pedra fria.
O padre, de braços erguidos, ordenou o nosso amor:
— Amem-se para sempre.
Nós, ajoelhados diante do nosso destino, repetimos um para o outro os mesmos grilhões dourados:
— Ame-me para sempre.
Ninguém ali estranhou que os votos mais sagrados fossem, também, sentenças.
Assim envelhecemos, como envelhece tudo:
— Segure minha mão e fique ao meu lado.
Eu ficava.
Ele nunca perguntou se eu queria ficar, eu nunca senti falta da pergunta, porque isso de perguntar, não existia em nossa consciência.
As ordens, com os anos, foram ficando mais curtas e cansadas.
— Descanse.
— Coma.
— Durma.
E nisso havia, talvez, um amor disfarçado.
Adoeci no inverno.
Ele, sentado ao lado da minha cama, me dizia:
— Melhore.
— Não me deixe.
— Lute.
Eu já não tinha palavras, só um fôlego raso.
Na última noite, ele segurou minha mão e quis, pela primeira vez em toda a vida, dizer algo que não fosse uma ordem.
Procurou uma palavra. Não achou.
Não existia, em nenhum canto do seu pensamento um jeito de dizer "eu tenho medo", ou "eu não sei viver sem você", ou "eu queria ter perguntado, nem que fosse uma vez, o que você queria". Só existia um modo verbal e foi esse que ele usou:
— Não morra.
Morri pela manhã, antes do sol.
A vida inteira eu obedeci.
Sua última ordem, mesmo querendo, eu não consegui obedecer.