Não sei o que é urubu.
Sei o que é pedra. Sei onde dói sua visita inesperada. Na asa, no músculo, na carne sendo amassada com o impacto.
Esse ruído — u-ru-bu — que os homens fazem com a boca quando me veem. Isso eu não sei. Não molha minha asa como a chuva. Apenas passa pelo ar como passa o vento, e o vento eu não guardo.
Me chamam de feio.
Feeeeeeio. Sinto a vibração. Chega a refrescar as penas. Depois passa.
Dizem que trago morte.
A morte eu conheço. Conheço o cheiro, o sabor, o lugar exato onde ela pousa e espera. O resto é ideia de homem. Coisas que colocam em mim e acham que é meu. Eu não tenho ideia do que é ideia. Nem de morte. Nem de nada.
Certa vez um homem sentou perto da minha árvore. Ele chorava. O corpo tremendo, o ar saindo em pedaços, os olhos fazendo água. Isso eu entendo. O corpo faz essas coisas quando está machucado. Também faço quando a pedra me atinge.
Mas ele não estava machucado. Pedra nenhuma havia lhe atingido.
Ele chorava do mesmo sopro que jogam em mim. Feeeeeeio. Só que nele o sopro não refrescava. Desfalecia.
Quando me viu, tocou a campainha. Os homens gritam assim, como campainha.
— Sai daqui agourento.
Depois, me jogou uma pedra. Essa sim eu entendi, no ombro que ardeu. E voei. Sem saber que era agouro. Com o ardido que foi sendo curado pelo ar.
São interessantes os homens.
Há neles um lugar onde o som chega duro, sólido e pontudo. Um lugar que não é carne, que não sangra, mas que dói, tanto quanto pedradas.
Eu os vejo arremessando. Não vejo de onde as tiram.
Algumas soam como sirene. Outras como vento. Outras como o canto do rio.
São infinitas.
São pedras que não existem no ar, não existem no chão, existem apenas para os homens.
Eu não carrego essas pedras.
Por isso voo.
Não porque sou livre. Liberdade é pedra humana. Voo porque o ar sustenta, porque as asas empurram, porque a corrente quente sobe e me carrega.
Os homens dizem que sou feio. Eu voo.
Os homens dizem que sou agourento. Eu voo.
Os homens dizem que trago a morte. Eu voo.
A pedrada de ontem já não dói. O agouro nunca doeu.
Amanhã vou pousar no galho. Abrir as asas. Sentir o sol no preto das penas.
O que sou? Não sei. Jamais saberei.
Assim como não sei porque os homens insistem nesse ruído — u-ru-bu — e acreditam, com convicção dura feito pedra, que moro dentro dele.