O mais comum, ao falar de violência, é pensar na violação da integridade física.
O estupro. A facada.
O que está implícito nisso?
Suponha que você queira violar a integridade física de uma pessoa. O que essa pessoa precisa ter?
Um corpo. Como violar o corpo de quem não tem corpo?
Você só consegue violar o outro porque o outro tem corpo.
Caso contrário, violaria o quê?
Mas corpo é um jeito superficial de tratar da violação da integridade física. Existe uma palavra melhor, mais precisa.
Individualidade.
Para violar a integridade física de alguém, é preciso que essa pessoa seja uma integridade física, seja um indivíduo, seja uma unidade.
Integridade = individualidade = unicidade.
Todas essas palavras são sinônimos.
Conclusão. Só existe violência porque cada um é um.
Cada um é um indivíduo.
Cada uma é uma unicidade.
Violência quaternária
Violência quaternária
A unicidade de uma pessoa não é apenas física.
Então, violência não é só física.
Ser humano não é só corpo. Ser humano é um quaternário — tem unicidade física, sensorial, afetiva e intelectual. Assim como existe violência física, existe violência sensorial, afetiva e intelectual.
Só que a violência física é a única considerada violência. As outras três, não.
Quando alguém viola sua unicidade sensorial, afetiva ou intelectual, essa pessoa não considera que cometeu um ato de violência.
E o contrário também.
Quando você viola a unicidade sensorial, afetiva ou intelectual do outro, você também não considera que cometeu um ato de violência.
Quando você tenta enfiar seu critério goela abaixo do outro, você não considera que está executando um ato de violência. Muito pelo contrário: acha que está fazendo um bem, que está ajudando.
Vamos supor que você se ache uma boa mãe. Só que seu filho não acha. O critério de valor dele é diferente do seu. Mas você quer, a todo custo, que ele te considere uma boa mãe. Faz chantagem emocional. Tenta convencê-lo.
Ao fazer isso, você não considera que está cometendo um ato de violência com seu filho. Mas está. Violência afetiva.
Vamos supor que quer obrigar um amigo a gostar do mesmo estilo de música que você. Passa os dias enchendo o saco dele. Faz ironia com o gosto dele. Guerra de nervos.
Você não considera isso um ato de violência. Mas é.
Quando o outro não gosta de algo, forçar a barra é violência sensorial.
Violência sensorial, afetiva e intelectual não são consideradas violências. Se não cortou o pescoço, não furou os olhos, se não tem hematoma e sangue jorrando, não é violência.
Mas é. Violência é violar.
Quando você viola a unicidade do outro — fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou intelectualmente — você está executando um ato de violência.
Quando o outro viola sua unicidade — fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou intelectualmente — o outro está executando um ato de violência com você.
Violência não é só física. É quaternária.
Física. Sensorial. Afetiva. Intelectual.
Você viola e é violado de quatro maneiras.
Só que apenas a violência física é considerada violência.
Isso é um equívoco.