ALUNO:
Olá professor!
Você diz que a consciência é uma das características do ser, e que não é a única, que o ser é uma unitrindade. Você pode me explicar isso?
PROFESSOR:
Agradeço sua pergunta.
Para que você tenha a comprovação e não apenas um resposta teórica, vou te conduzir numa prática de autociência existencial através de algumas perguntas.
ALUNO:
Sim, pode começar, estou pronto.
PROFESSOR:
Primeiro, precisamos desfazer o equívoco de desterceirizar o ser.
Quando você diz "o ser", ou "um ser", você terceirizando a si mesmo. Então, vou falar "você-ser". E sugiro que pense sempre assim “eu-ser”.
Na literatura da 1ficina eu uso muito esse recurso. Dá um trabalho danado ficar escrevendo "você-ser". Mas faço isso para evitar a terceirização do ser que impede o esclarecimento.
Então, não tem "o” ser, tem você-ser. Essa é a primeira coisa que precisa ficar esclarecida. Sem isso, nada existencial pode ser comprovado.
Se você quiser ficar consciente, deve sempre tratar assim, sem terceirizar, de forma imanente: eu-ser, você-ser, ele-ser. E o universo é a coletividade dos seres.
Muito bem. Então eu vou falar com você-ser.
Você-ser consegue negar a consciência?
Sim, não, e por quê?
Todo esclarecimento da unitrindade se desdobra dessa simples pergunta.
ALUNO:
Não consigo negar a consciência.
Não sei porque não consigo, mas o fato é que não consigo.
PROFESSOR:
Você não consegue negar a consciência justamente pelo que falei da imanência: porque você é consciência. Por isso não consegue negar. Você não consegue negar o ser que você é. E a consciência é uma das suas três características existenciais.
Você-ser é uma unitrindade. Uma das características da sua unitrindade é a consciência. Então você não consegue negar a consciência porque você é a consciência. É por isso.
Você decide negar a consciência: "Ah, vou negar a consciência." Como é que você saberia que está negando a consciência se para saber que está negando a consciência você precisa de consciência?
Você não consegue negar a consciência porque você é a consciência.
Está claro isso?
ALUNO:
Sim, está bem claro. Consciência é tudo.
PROFESSOR:
Não! Esse é o equívoco.
Consciência não é tudo. Você é três em um: unitrindade. Consciência é uma das caracteristica da sua unitrindade.
Você também é existência e potência.
E como você comprova que é existentente?
ALUNO:
Não sei.
PROFESSOR:
Quando você está sabendo, quem está sabendo?
ALUNO:
Eu.
PROFESSOR:
Pronto! Você existe. Prova disso é que você é o ser que sabe.
Ser é existir. Você-ser é existência e consciência.
Pronto: aí você já descobriu que é uma unidualidade.
O fato de você não conseguir negar a consciência deixa evidente duas características existenciais ao mesmo tempo: que você é consciência e existência.
Se você não fosse consciência, você não teria como saber que também é existência e potência. Por isso é muito fácil cair no equívoco do “consciência é tudo. Mas consciência não é tudo, é uma característica de três. Você é três.
Esclareceu? Está claro?
ALUNO:
Sim, eu existo e tenho consciência de que existo.
PROFESSOR:
Esse entendimento está de bom tamanho, vamos prosseguir daí.
Agora, vamos para o terceiro aspecto da sua unitrindade: a potência.
Por motivos pedagógicos, vamos igualar a consciência à audição (consciência = audição). Simplifica, deixa mais ilustrativo, facilita a conversa.
Você não consegue negar a audição porque você é audição.
Só que tem um outro motivo pelo qual você não consegue negar a audição, não apenas o fato de você ser audição. Que outro motivo é esse?
ALUNO:
Porque eu ouço...
PROFESSOR (14):
E por que você afirma: eu ouço? Quando você diz: "Ouvi o que você falou." O que significa isso? O que está junto com isso?
ALUNO:
Não sei muito bem, estou confuso.
PROFESSOR (16):
Eu vou simplificar aqui — não quero pular etapas de auto-observação, mas vou simplificar para agilizar.
Significa que tem algo sendo ouvido.
Ou seja, tem o observador, que é você ouvindo. E tem a coisa ouvida, o observado.
Se você está ouvindo uma música, tem você, a audição, e tem a música, que é o que você está ouvindo.
Senão, você estaria ouvindo o quê?
Muito bem.
Vamos supor que você está ouvindo uma música.
Onde está a música, e ela é feita de quê?
ALUNO:
Onde a música está? No espaço.
PROFESSOR:
Isso aí que você falou — a música está no espaço — é o materialismo. Esse é o equívoco chamado materialismo: a música não está no espaço.
Não existe música antes dela ser decodificada.
Existe impulso, mas ainda não existe música.
Imagina um rádio.
Chega um impulso até de FM até o rádio, mas, enquanto ele não transforma o impulso em música, não tem nenhuma música.
Pense em si como sendo um rádio.
Onde está a música?
Está em você.
E a música é feita de quê?
Se ela está em você, ela é feita de você.
A música está em você, ela é feita de você.
Está claro isso?
ALUNO:
Sim, está.
PROFESSOR:
Vamos então a última pergunta.
Como é que você-ser pode produzir essa música em você mesma?
Como isso é possível?
ALUNO:
É difícil.
Eu posso criar porque é o que eu sei. É o meu saber.
PROFESSOR:
Impressionante como o óbvio é invisível.
Você pode criar a música dentro de você porque você pode.
Você pode porque você pode.
Simples assim, óbvio assim.
Você pode porque você pode, porque é possível, porque você é potencial para isso. Se não fosse, seria impossível.
Você pode porque tem potencial para isso.
Você pode criar graves, pode criar agudos, pode criar dó, ré, mi, fá — tudo isso junto, misturado, criando a música.
Pronto, aí fechou.
Você é uma unitrindade:
Existência
Consciência
Potência
Esclareceu?
ALUNO:
Perfeitamente.
É o óbvio, né?
Eu posso porque posso, porque sou potência.
Está claro.
E olha que loucura! A gente pensa que sabe. E, como você disse, somos cheios de conceitos e de pouca prática.
Vou tentar praticar mais.
Muito obrigada pela paciência e pelo seu trabalho. Valeu.
PROFESSOR :
Disponha.
Agradeço igualmente a pergunta.