A primeira vez que produzi um clip da música Shangrilá, eu morava em um sítio com minha avó. No sítio ao lado morava Sebastião, irmão mais velho dela. Bastião, como todos o chamavam, acordava todo dia bem cedo para fazer caminhada na rodovia vicinal que passava em frente o sítio. Ele andava dois quilômetros em uma hora, ida e volta, arrastando os chinelos pelo asfalto. Dava tempo de ordenhar todas as vacas do sítio e Bastião ainda não havia terminado sua caminhada matinal.
A paciência vagarosa de Bastião me encantava. Era como se ele caminhasse cantando a música Shangrila. Então, certo dia, peguei minha filmadora e gravei ele caminhando até chegar na porteira do sítio. Depois peguei a gravação, acrescentei a música Shangrilá e carreguei no youtube. Foi o primeiro clipe da música. A versão atual dessa música é com outra gravação e outro vídeo, mas a caminhada de Bastião permanece na minha memória como fonte de inspiração.
Bastião era caipira pira pora, mas caminhava como um discípulo budista, dando passinhos de zazen. "Será que todo caipira é iluminado?" eu pensava. Minha avó também era iluminada. Ela tinha até mantra para expressar o caminho para iluminação. Ela dizia: "Devagar é pressa". Sabe quando uma pessoa querida te abraça calorosamente numa situação de estresse e te diz: "Calma! Está tudo bem". Eu sentia o mesmo conforto ouvindo o mantra da minha avó.
Mas onde quero chegar com tudo isso? Quero chegar em Shangrilá e explicar a diferença entre paciência e passividade. Muita gente confunde as duas coisas, mas são opostas. Paciência é uma estratégia de quem age. Passividade é uma estratégia de quem espera.