Transcrição:
Político: — Você está dizendo que a economia não funciona porque os economistas usam conceitos ultrapassados da física clássica?
Cientista: — Estou dizendo que a forma como pensamos o mundo está descompassada da realidade biológica e ecológica. Veja a ideia de crescimento econômico ilimitado. Nenhum sistema vivo cresce indefinidamente sem destruir o ambiente ao seu redor ou a si mesmo. Na biologia, crescimento descontrolado e sem limites tem um nome: câncer.
Político: — Mas a economia precisa crescer. Sem crescimento, as empresas quebram, o desemprego sobe, a sociedade entra em colapso.
Cientista: — Isso porque a economia foi construída sobre uma premissa anti-sistêmica: extrair recursos finitos, produzir, consumir e descartar resíduos, tratando o planeta como se fosse uma fonte inesgotável e uma lata de lixo sem fundo.
Cientista: — A natureza funciona de maneira completamente diferente. Ela é organizada em redes. Isso é o que chamamos de teia da vida. Nela, não existe lixo: o resíduo de um organismo é o alimento de outro. Tudo é reciclado em ciclos fechados de matéria e energia. Há uma interdependência essencial onde a parte só existe em relação ao todo.
Artista: — O problema é que nós nos acostumamos a olhar as árvores isoladas e esquecemos que a floresta é um único organismo vivo.
Cientista: — Exatamente, Thomas. Desde Descartes e Newton, passamos a ver o mundo como partes independentes ao invés de interdependentes. Mas o mundo é uma teia complexa de relações. Quando você puxa um fio aqui, tudo o mais vibra em outro lugar.
Cientista: — A crise ecológica, a pobreza, os problemas de saúde pública e os impasses econômicos não são problemas isolados, são manifestações diferentes de uma mesma crise fundamental de percepção. Enquanto tentarmos resolver problemas sistêmicos e interdependentes com pensamento de partículas independentes, continuaremos criando mais desastres do que soluções.
A cientista arremessa uma pedra na água.
Cientista: — Eu poderia usar as equações de Newton para calcular e explicar cada movimento desse arremesso, desde a curva balística até as ondulações na água.
Cientista: — Veja bem, esse foi um feito tão impressionante para a época que o sistema matemático de Newton se consolidou imediatamente como a teoria correta da realidade, as leis definitivas da natureza. O sonho de Descartes de um mundo como uma máquina perfeita tornava-se agora um fato estabelecido. Isso trouxe consigo uma infinidade de benefícios para as pessoas. Elas puderam realizar coisas que nunca tinham sido capazes de fazer antes. Foi algo irresistível. E, naturalmente, as noções antigas do mundo como um organismo vivo foram varridas para longe.
Político: — Então qual é o problema com Newton?
Cientista: — Enquanto você continuar enxergando as coisas através dessa velha lente cartesiana e newtoniana, você vai deixar de compreender o que o mundo realmente é. Você, nós, todos precisamos de uma nova visão de mundo, e precisamos de uma ciência mais abrangente e inclusiva para nos respaldar. Há uma nova teoria despontando agora, que reúne todos os conceitos ecológicos que estivemos debatendo em uma única estrutura científica e coerente. Nós a chamamos de teoria dos sistemas vivos.
Político: — Sistemas vivos?
Cientista: — Todos os organismos vivos, assim como sistemas sociais e ecossistemas. Essa teoria nos ajudaria a ter uma compreensão muito mais sólida sobre as ciências que lidam com a vida.
Politico: — Essas são todas ideias suas ou outras pessoas também compartilham delas? Quero dizer, isso já foi aplicado na ciência em algum lugar?
Cientista: — Será que eu sou uma lunática? Tudo bem, senador. Isso é ciência de verdade. E muitos cientistas, inclusive alguns ganhadores do Prêmio Nobel, vêm trabalhando nessas ideias. Prigogine, Bateson, Maturana, apenas para citar alguns. Sim, é ciência. Mas de um tipo novo. Em vez de se concentrar nos blocos fundamentais independentes, a visão sistêmica se concentra nos princípios de organização. Em vez de coisas isoladas, ela olha para o sistema como um todo interdependente.
Político: — Como é possível pensar de maneira prática dessa forma holística? É isso que eu não consigo ver. Você pode contemplá-las, pode olhá-las, como diz o Thomas. Mas se você quiser fazer algo, se quiser entrar em detalhes específicos, por definição, você não precisa isolar?
Cientista: — Um cartesiano olharia para uma árvore e a veria isoladamente. E daí ele nunca entenderia de verdade a essência da árvore. Um pensador sistêmico olharia para a árvore e veria a troca sazonal entre árvore e terra, terra e céu. Veria o ciclo anual, que é, na verdade, uma grande respiração que a Terra dá por meio de suas florestas, fornecendo oxigênio para nós. Um sopro de vida, ligando a terra ao céu, a nós, e ao universo.
Cientista: — Um pensador sistêmico olharia para uma árvore e enxergaria a vida da árvore apenas em relação à vida de toda a floresta. Veria a árvore como um habitat para os pássaros, um lar para os insetos.
Cientista: — Se você olhar para uma árvore tentando compreendê-la como algo isolado, você ficará perplexo com os milhões de frutos que ela produz ao longo da vida, já que apenas uma ou duas árvores irão nascer desses frutos. Agora, se você olhar para a árvore e a enxergar como membro de um sistema vivo muito maior, essa abundância de frutos fará sentido, porque centenas e centenas de animais e pássaros da floresta sobreviverão graças a eles.
Cientista: — Interdependência.
Cientista: — E a árvore também não consegue sobreviver sozinha. Para extrair água do solo, ela precisa do fungo que cresce na ponta de cada raiz. E o fungo precisa da raiz para sobreviver, e a raiz precisa do fungo. Se um morre, o outro também morre.
Cientista: — E existem milhões de relações como essa no nosso mundo, cada uma dependendo da outra para viver. A teoria dos sistemas reconhece essa teia de relações como a essência de todos os seres vivos. Apenas os desinformados chamariam tal noção de ingênua ou romântica, porque essa dependência que todos nós compartilhamos é um fato científico.
Político: — Uma teia de relações.
Cientista: — Sim. Mas desta vez, é a própria teia da vida.