O terceiro obstáculo da autoanálise é a moralidade.
Mais precisamente: a sua incapacidade de colocá-la na gaveta enquanto se analisa.
Essa incapacidade tem nome. Narcisismo.
Pense num analista externo. Um psicólogo, um terapeuta, um professor, um filósofo. Até um amigo serve.
Você começa a conversar e tenta escapar da análise. Ele te pega no pulo.
Você tenta fazer vista grossa para um equívoco. Ele esfrega o equívoco na sua cara.
Por que para ele é tão fácil, e para você quase impossível?
Simples. Não são a moralidade e o narcisismo dele que estão em jogo. São os seus.
Não é o cu dele que está na reta. É o seu.
E pimenta no cu alheio é refresco.
Por isso o outro pisa no seu calo com força.
Sem dó.
E aí está a dificuldade da autoanálise:
Você tem dó de si.
A sua moralidade não permite que você veja os seus erros, muito menos a sua “monstruosidade”. Ela sempre dá um jeito de te pintar de santo. E de certo.
Na autoanálise, você é o paciente e o analista ao mesmo tempo.
E o paciente, movido pela moralidade e pelo narcisismo, boicota o analista. Não deixa que ele encoste a sua moralidade e a sua autoimagem contra a parede.
Quem precisa conduzir a análise é o analista em você. Não o paciente.
Quem faz a autópsia é o seu discernimento. Não o seu sistema de crenças e valores.
Doa a quem doer.
E o quanto doer.
Se a autoanálise mostrar que você é um bunda-mole, encare o óbvio:
— É isso. Sou um bunda-mole.
Se mostrar que você é um bocó que passou a vida inteira acreditando num equívoco, encare o óbvio do mesmo jeito:
— Sou um bocó. Passei a vida inteira acreditando num equívoco.
É para isso que existe aquela etapa no Diário da Consciência em que você se divide em dois e conversa consigo mesmo.
Você-analista diante de você-paciente.
É ali que o milagre da descoberta, do despertar e do autoconhecimento deveria acontecer.
Mas não acontece.
Por quê?
Porque o paciente não deixa.