— Feliz aniversário! — diz uma voz no fundo da sala.
— Quem é você? — ele pergunta.
— Sou seu filho!
— Como assim, meu filho?
Eu não tenho filhos ainda! E além do mais, olha seu tamanho, você deve ter minha idade.
— Sim, você está correto.
Hoje você completa 25 anos e eu tenho exatamente a mesma idade que você.
— E como pode ser meu filho?
— Eu venho do futuro!
— Do futuro?
— Sim, 2040, especialmente pro seu aniversário.
Vim te trazer um presente.
— Qual é o presente?
— Pense no sabão.
— Não entendi.
— Esse é o presente.
— Pensar no sabão?
— Exato!
Pense no sabão!
— Esse é o tipo de presente que se dá no futuro.
— Quando se trata de presentear um familiar entre os anos 2025 e 2030, sim, é um dos melhores presentes.
— E por que?
— É tipo chá de camomila, acalma os ânimos, baixa o estresse.
— E qual é o estresse do qual o sabão irá me salvar?
— A inteligência artificial.
O mundo todo em pânico, as manchetes apocalípticas, as pessoas com medo de perder o emprego para um algoritmo. Uma histeria, confesso, um tanto quanto compreensível, mas fácil de resolver se você pensar no sabão.
— Me ajude aqui!
Não estou entendendo nada!
— O que você faz com sabão?
— Uso!
— Quando?
— Todo dia!
— Onde?
— Em todo canto!
Na roupa, na louça, no corpo.
— O sabão é imprescindível.
Indispensável. Agora me diga: você sabe fazer sabão?
— Não faço a mínima idéia.
— Mas sua mãe, minha avó, sabia fazer sabão.
— Na juventude dela, não existia sabão industrializado.
Se ela não soubesse fazer, não tinha. Ponto.
— Exato!
Mas aí, plim! Inventaram o sabão em pó. E minha avó, que não era boba, deu de ombros, guardou o tacho, a receita e foi cuidar de assuntos mais interessantes que fazer sabão.
— Isso mesmo!
Ela nunca mais fez sabão.
— É aqui que o sabão e a inteligência artificial se encontram, numa metáfora que, espero, seja mais clara que roupa lavada com Omo.
— Lá vem!
— Inteligência artificial é sabão.
— Agora danou-se!
— Eu explico, pai!
Do mesmo jeito que você não precisa saber como faz sabão, no futuro, você também não precisará saber um monte de coisas. Estarão sempre à sua disposição na nuvem global. E a máquina de fazer pão, tão inocente, dará lugar a uma máquina de fazer tudo.
— E o que vai sobrar pra mim?
O que vou fazer da vida se as máquinas irão fazer tudo que faço?
— Calma, pai, calma.
É por isso que eu vim aqui hoje. Para te tranquilizar. O futuro é o oposto do que você está pensando. O emprego do futuro é a felicidade.
— Felicidade? kkkkkk Tá de sacanagem!
— Eu sei, eu sei.
Numa sociedade que cultua o utilitarismo e o dinheiro, isso soa absurdo. Mas o futuro tem mesmo essa mania de parecer absurdo para quem está no presente.
— Essa história de que você é meu filho, que veio do futuro, eu até consigo engolir.
Mas dizer que o emprego do futuro é a felicidade, kkkkkk… Por favor, aí é demais! kkkk — Pare de pensar no sabão por um instante e pense no homem das cavernas.
— O que tem?
— Imagine que você fizesse com o homem das cavernas o mesmo que estou fazendo com você, contasse que no futuro ele não precisaria mais caçar, bastaria ir ao supermercado e pedir um quilo de mamute moído para o açougueiro.
— Entendi seu ponto!
Kkkkk Faz sentido. Prossiga de onde parou: o emprego do futuro é a felicidade.
— E não um emprego das 8 as 6, mas uma ocupação em tempo integral, a vida inteira, do nascimento até a morte.
Quem é feliz fazendo sabão, faz sabão. Quem é feliz colecionando minhoca, coleciona minhoca. E quem, sabe-se lá por quê, é feliz enxugando gelo, enxuga gelo.
— E o resto necessário para sobrevivência?
— Fica por conta da automação.
Afinal, se tem uma coisa que a inteligência artificial não sabe fazer, é ser feliz. Essa tarefa, pai, vai continuar sendo por sua conta.
— Deixa comigo!
— Então tá!
Pense no sabão!
— E os números da loteria?
— Tchau, pai!