A oficina de literatura aconteceu na biblioteca circulante. Os participantes eram malucos de todas as idades, raças, gêneros e pretensões literárias. Para ilustrar, um deles tinha uma lágrima tatuada no rosto. Nosso professor era o poeta e jornalista Nunlembrunome, de sobrenome Pouquimporta, mas a missão dele era claríssima, e ele a verbalizou, após acender um cigarro:
— Tenho três dias para ressuscitar Lázaro.
Para começar o serviço, contou sua história.
— Quando era dúvidas, também tinha Hamlets: to be or not to be escritor? Para sair desse imbróglio, juntei toda a minha coragem e enviei alguns dos meus textos para a escritora que mais admirava: Clarice Lispector. Vocês já pararam para pensar quanto dura uma eternidade? Dura o tempo exato da espera de uma resposta. Após uma eternidade, a resposta veio. Curta. Fria. Clarice em modo guilhotina: "Desista! Literatura não é pra você!". Fiquei, claro, esmigalhado. Mas era preciso entender o porquê daquele pão seco. Escrevi novamente para Clarice perguntando o que tinha de errado com meus textos. Ela respondeu, dessa vez, com um koan budista: "Não tem nada de errado com seus textos. Esse é o problema!"
A fumaça do cigarro do professor Nunlembrunome, de sobrenome Pouquimporta, foi se dissipando e comecei a entendê-lo. Ele continuou com sua história:
— Minha mediocridade era chique, tinha diploma latu sensu, assinava coluna no jornal. Eu precisava de um tapa na cara com todas as letras. Escrevi, mais uma vez, pedindo que Clarice me explicasse o koan. Ela, com sua paciência de navalha, respondeu: "Ninguém se torna autor imitando autoridades. Seu texto é ótimo, perfeito, mas não é seu. É Drummond, é Machado, é a Academia inteira, menos você."
Choque 220 volts em cadeira de plástico. A lágrima tatuada caiu no chão junto com meu cu. A verdade dura de engolir desceu goela baixo: estou morto e sepultado no certo! Para sair do sepúlcro, só tinha um jeito: trocar a idolatria (pecado cópia) pela egolatria (pecado original).
E foi assim que me tornei um pecador original.