Certa vez, na juventude, quando morava em São Paulo, minha esposa (da época) decidiu que queria aprender a meditar. Ainda não existia o termo mindfullness, muito menos escolas. O único lugar que ensinava meditação eram os centros budistas. Minha esposa fez uma lista de todos os centros budistas de São Paulo e traçou um plano de turismo para visitá-los.
Eu acreditava que budismo era igual japonês, tudo igual. Só que não. Tem budismo que senta no chão, tem budismo que senta no banco de nave, igual igreja, tem budismo que só canta mantra e tem budismo que nem meditação faz. O budismo que mais me surpreendeu foi o zen. O templo ficava no bairro da liberdade, tradicional reduto da cultura japonesa em São Paulo.
Assim que chegamos, recebemos algumas instruções mínimas e ficamos aguardando. Passado um tempo, o instrutor nos chamou pra entrar na sala de prática e fazer zazen. Arruma a almofada, coluna ereta, pernas cruzadas, mãos sobre os joelhos, olhando pra parede. Peraí!!! Como assim??? Olhando pra parede??? Como vou chegar ao Nirvana olhando pra uma parede?!!!
Fechei os olhos e comecei a pensar na vida. E o instrutor, como se lesse meu pensamento, disse: “Olhos abertos, não é pra ir pra lugar nenhum, é pra ficar aqui, olhando pra parede”. Quer fazer uma coisa difícil na vida? Tenta ficar uma hora olhando pra uma parede. VTNC! É impossível! Mas como não tinha outra coisa pra fazer, fiquei, pelo menos, tentando.
Terminada a prática de zazen, pensei: beleza, agora vem a explicação, tenho um monte de perguntas. Só que não! Depois de ter passado uma hora olhando pra uma parede, fomos dispensados, recebendo apenas o convite de voltarmos no próximo sábado pra ficarmos mais uma hora olhando pra mesma bosta de parede. Nenhuma palavra foi dita.
Nenhuma explicação. Perguntei se tinha algum livro pra ler e o instrutor sequer pronunciou a palavra não, apenas balançou a cabeça para os dois lados. Minha esposa e eu fomos pra casa sem entender nada. Então, meditação é isso?!!!. Que merda!!! Que perda de tempo!!!! Demorei pra entender o que o zazen não me disse. Eu acreditava que meditação era pra entender.
Acreditava que Buda era um sabidão que entendia dos paranauês. Nada! Meditação não é pra entender, é pra saber. Saber da parede, da flor, do pensamento, da raiva, da coceira no nariz, do que for. Saber e pronto! Sem para, sem nauê!