ALUNO:
Olá professor. Eu queria que você respondesse: o que é a consciência? E queria que falasse também daquela frase da 1ficina: "Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica".
PROFESSOR:
Melhor do que responder de forma teórica, vou te ajudar a ficar consciente da consciência.
ALUNO: Ótimo!
PROFESSOR:
Você sabe do mundo através de cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Certo?
ALUNO: Sim, certo.
PROFESSOR:
Além disso, você sabe de si através de um sexto sentido. O sentido pelo qual você sabe das suas emoções, pensamentos, sentimentos, etc. Certo?
ALUNO:
Sim, certo.
PROFESSOR:
O que é a consciência?
Para você, ser humano, consciência são os seis sentidos.
Isso é o óbvio ululante.
Mas a partir disso, podemos fazer uma abstração.
Audição e visão são sentidos, mas não são o mesmo sentido. Audição tem a ver com sonoridade, visão tem a ver com luminosidade.
Isso é o diferencial. E o que os iguala?
ALUNO: Ambos são sentidos.
PROFESSOR:
Exato!
Visão é um sentido, tato é outro sentido, paladar é outro sentido, olfato é outro sentido. O sexto sentido é outro sentido. Todos divergem na qualidade, mas em essência: todos os sentidos são sentidos. Cada um é um tipo de saber, mas em essência: todos são saber. Então, abstraindo, podemos entender que:
Consciência é saber.
ALUNO:
Show de bola.
Então, consciência é percepção. A percepção humana é baseada nos cinco sentidos mais esse sexto que você explicou. Ficou bem claro.
Mas e o cego?
PROFESSOR:
Aqui entramos na questão da consciência humanizada.
Você não é só SER, é um ser HUMANO.
Melhor ainda é dizer que você é um ser que ESTÁ humanizado.
Essa conceituação evita bastante o materialismo.
E o que é essa humanização?
Você é um ser universal que instalou em si um sistema operacional. Para ilustrar, é como se você fosse um computador que instalou em si um navegador de internet, uma interface. Essa interface é um conjunto de restrições.
Quando você decide brincar de ser humano, você está decidindo se restringir a um sistema, decidindo se colocar num estado de limitação.
Você é uma unitrindade.
Ao decidir brincar de tal coisa — no seu caso, brincar de ser humano —, você se restringe à natureza humana, às possibilidades da natureza humana, aos parâmetros da interface humana. Ou seja, é a restrição que cria a experiência humana. Sem essa restrição a parametros humanos, não tem experiência humana.
Imagina que você é um computador que deseja criar um jogo para você mesmo jogar em si mesmo. Você pode criar qualquer jogo: infinitas possibilidades. Só que, antes de criar as regras do jogo, não tem jogo nenhum, então, você não consegue jogar nada.
Para jogar um jogo — qualquer jogo — você precisa se restringir às regras do jogo. São as restrições — o que pode e não pode acontecer no jogo — que criam o jogo.
Agora, voltando ao tema da consciência.
O que é consciência?
É você: você-ser.
Você-ser é uma unitrindade: consciência, presença, potência.
Isso é o que você é. Essa é sua natureza existencial. Só que, para brincar de ser humano, você precisa restringir sua unitrindade a um sistema. Na hora em que você a restringe, ela começa a funcionar dentro dos parâmetros daquele sistema.
Então, você — existencialmente falando — é consciência. Mas ATUALMENTE, é uma consciência humanizada. Logo, ATUALMENTE: o que é consciência?
Consciência é visão, audição, tato, olfato, paladar, tato e o sexto sentido.
Na maioria dos casos, o sistema operacional humano é quase idêntico para todos, mas podemos perceber pequenas divergências entre um ser humano e outro.
A cegueira é uma dessas divergências.
E a cegueira é menos consciência?
Sim e não.
Não porque nenhum ser deixa de ser a unitrindade que é independente do sistema a que decide se limitar. Porém, seu sistema ESTÁ sim mais limitado do que o geral. Esse ser não tem uma qualidade de consciência que a maioria tem: a visão. O que significa, que ele tem menos consciência do que a maioria.
ALUNO:
Isso parece mais a parte mecânica da coisa: o modus operandi.
PROFESSOR:
Achei legal você falar "parte mecânica". É um bom jeito de colocar. Talvez a palavra "estrutural" seja até melhor. Na informática, o mecânico recebe o nome de estrutura. É isso mesmo! Monta-se a estrutura do jogo e daí você vai jogar.
Pois bem.
Agora vamos a frase da 1ficina que você perguntou: “Com consciência tudo se resolver, sem consciência tudo se complica”.
ALUNO:
Certo. Vamos nessa!
PROFESSOR:
Primeiro: tem o ser e tem o estar.
O ser se refere ao que você é; o estar se refere a como você está.
O estar é derivado do ser: não tem estar se não tiver o ser.
Você é um ser.
Você existe, e você, que existe, pode ter estados.
Se você não existisse, como ia ter estado?
Vamos definir o ser como sendo o Epson.
Eu te pergunto: "Epson, como você é?"
Não faz sentido, né? Você vai falar: "Eu, Epson".
Então, pergunto: "Epson, como você está?"
Aí você fala: "Estou bravo, estou triste, estou decepcionado, estou com febre, estou com fome, estou ansioso, estou calmo, estou satisfeito, estou alegre".
E assim vai: você vai descrevendo seus estados.
O ser tem estados.
Você é consciência, e essa consciência tem estados.
Só que a palavra consciência é usada para definir estados de consciência também, isso gera confusão.
Você é consciência: ser. Mas você pode estar num estado inconsciente.
A consciência que você é pode ter dois estados: consciente ou inconsciente. São estados da consciência, não a consciência em si — porque não é possível ter estados quando não há um ser que tem esses estados.
É preciso entender isso para entender o sentido da frase “Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica".
O mais correto seria dizer: ”Conscientemente tudo se resolve; inconscientemente tudo se complica". Só que uma frase assim ficaria hermética. Então, para simplificar, para o leigo, eu falo: “Com consciência tudo se resolve; sem consciência tudo se complica”.
Mas o termo correto é "consciente", que se refere ao estado.
Porque não tem como deixar de ser consciência, mas tem como deixar de ser consciente. Quando você fecha o olho, entra no ESTADO inconsciente.
Então, todo o trabalho para viver bem — sendo o que o obstáculo é o estado inconsciente — é trabalhar o despertar consciência: sair do estado inconsciente e ir para o estado consciente. É abrir os olhos. Se você for andar na rua de olho fechado, você vai viver mal, porque vai trombar em tudo. Abra o olho, e tudo se resolve.
Para criar uma imagem de como se comportam muitas pessoas no autoconhecimento: elas querem viver bem de olho fechado. Têm que ir de casa até a padaria, só que querem ir de olho fechado. E o que fazem? Decoram tudo o que aprenderam sobre como ir de casa até a padaria de olho fechado.
Na cabeça delas, vão pensando: três passos para a frente — explicação de alguém que já fez o caminho de olho aberto —, dois passos para o lado, continua reto, mais cinco passos para a frente. Esses dois passos para o lado são para desviar do poste, que alguém que já trombou falou que tem ali.
Em vez de abrir os olhos e ir facinho de casa até a padaria — viu o poste, desvia; viu o buraco, desvia; precisa virar à direita, vira —, não: a pessoa quer chegar à padaria decorando tudo o que alguém que chegou de olho aberto falou para ela.
Essa é a teimosia humana, de não querer abrir o olho. Abre o olho! Sai do estado inconsciente e vai para o estado consciente. Você vai viver bem melhor, sem precisar seguir nenhum ensinamento.
Outra imagem interessante para pensar a questão.
Imagina que você faz parte de uma coletividade de cegos, só que você não é cego. Aí você quer que as pessoas da sua coletividade leiam o que está no outdoor. Você fica apontando:
— Ó, tá vendo aquele outdoor?
— Não, não estamos vendo nada.
— Ali, ó, vocês não estão vendo o que está escrito naquele outdoor?
— "Como assim, escrito?
— Escrito, pô, está escrito ali no outdoor, vocês não estão vendo?
— A gente nem sabe o que é outdoor.
— Pô, outdoor, ali, ó, olha ali, tem uma palavra escrita ali, vocês não estão vendo?
— O que é palavra?
— Em que mundo você vive, amigo? O que você está querendo mostrar para a gente?
— Olha ali, ó: o outdoor é branco, a palavra está escrita em preto.
— Amigo, o que é branco? O que é preto? O que é outdoor? O que é palavra? A gente não está entendendo absolutamente nada do que você está falando.
Absurda essa situação, né?
Mas eu te pergunto: o que essa situação absurda demonstra? Dá para inferir coisas dessa situação absurda. Se você tiver alguma inferência, fala aí. Talvez você não acerte a minha, talvez até acerte, ou fale outras em que eu nem pensei. É uma imagem interessante e pedagógica; dá para usá-la para pensar um bocado de coisa.
ALUNO:
Dá para inferir que, nesse grupo, eu não sou cego. E os demais são cegos. É isso que dá para inferir de maneira óbvia, ululante.
Mas o que leva um ser a ter mais ou menos sentidos?
PROFESSOR:
A interface de interação que um ser está usando para interagir. Se escolher uma interface de um tipo X ou Y, ela vai limitá-lo aos sentidos X e Y.
ALUNO:
E o que leva um ser usuário de uma interface X e outro ser uma interface Y?
PROFESSOR:
Cabe a cada ser responder a essa pergunta, pois foi decisão individual de cada um se limitar a uma interface e não a outra.
ALUNO:
Você acha que as pessoas preferem obedecer mesmo tendo a capacidade de decidir por si mesma, pelo conforto de se fazerem de vítima e não assumirem os próprios erros?
PROFESSOR:
Não, não acho que é por isso.
Para esclarecer, precisamos fazer mais um aprofundamento.
Conforme você vai vivendo, vai raciocinando e produzindo entendimento.
A consciência acessa o raciocínio. Você olha para o seu raciocínio, e aí tem consciência dele. E o seu raciocínio te informa. Você olha para algo e seu raciocínio fala: "Isso é uma xícara". O entendimento de xícara é o raciocínio que te dá. Se o raciocínio explicasse, mas não tivesse você (consciência) escutando, de que adiantaria? Não faria sentido.
Então, para viver bem, você precisa entender o que é viver e conviver. E para entender você precisa pensar. E pensar não é saber.
Pensar é sua racionalidade funcionando.
Consciência é saber. Você, consciência, sabe o que está pensando, você observa seu raciocínio acontecendo, mas pensar é um trabalho mental, e consciência é saber desse trabalho, observar ele funcionando.
Você precisa ser um excelente pensador para viver bem. Precisa desenvolver o seu discernimento, a sua capacidade de entender, de verificar se uma crença é verdadeira ou falsa — porque você pode estar usando uma crença falsa, e isso vai te fazer viver mal.
Isso você tem que desenvolver. A consciência vem de graça, de fábrica. Você não precisa desenvolver ser consciência: você é consciência.
Você nasce com visão, acabou.
Nasceu com visão e, se não acontecer nada, vai morrer com visão.
Você não nasce cego e vai desenvolvendo o sentido da visão. Não é assim que funciona. Nasceu com visão, e pronto.
A partir da visão, começa a raciocinar e entender o que está vendo. Entender as cores, as formas, o cheio eo vazio, etc.
Isso tudo é entendimento, não é a visão.
É entendimento que você produz porque tem visão.
O entendimento você desenvolve.
E se não desenvolver, vive mal.
E, para produzir entendimento, tem que pensar.
O neném nasce e começa a pensar, porque, se não pensar, está lascado: não vai entender nada e vai passar a vida inteira metendo a cara na parede. Ele tem que pensar para entender que não dá para atravessar a parede.
Para sair da ignorância do funcionamento da vida, tem que pensar.
E pensar requer esforço.
A visão acontece sem esforço, mas entender o que você está enxergando requer esforço: você precisa pensar, discernir, investigar para entender.
As pessoas não fazem esse esforço. Elas tem preguiça. Em vez de se esforçarem para entender, é muito mais fácil acreditar.
Prova disso é que existe professor e aluno. Por quê? Porque, se o aluno não tivesse preguiça de pensar, não precisaria existir professor. Se o aluno não tivesse preguiça, ia lá e descobria por si só, pensando.
Então não é que a pessoa não queira assumir responsabilidade. As pessoas não querem sair da inércia. Elas não quer gastar um joule de energia pensando. Elas não querem fazer o esforço de pensar. Elas querem entender sem se esforçar no que é necessário para entender: pensar. É isso. Esse é o motivo das pessoas permanecerem na ignorância: entender requer esforço, e elas não querem fazer esse esforço.
ALUNO:
Bando de preguiçosos. É isso que vocês são: um bando de preguiçosos.
PROFESSOR:
Sim, isso mesmo. Mas sem ofensa, só esclarecimento.
Agora vou comentar sobre a pessoa com visão apontando para o outdoor para uma coletividade de pessoas cega. Uma pessoa que fizer isso ou é louca ou é muito burra. Se você está numa coletividade de cegos, por que vai ficar apontando para um outdoor e falando para olharem e ver? Ou você pirou ou é muito tonto, né? Ninguém vai ver.
Agora, tem uma outra possibilidade. Se você faz isso, é porque não é um grupo de cegos. É um grupo de pessoas de olhos fechados, mas que não são cegas.
Ninguém aponta outdoor para cego. Então, não usei o conceito de “apontar” a toa. Usei porque é exatamente isso que um professor de autociência faz.
O professor de autociência aponta para coisas que você ignora. Mas sua ignorância não é estrutural, não é porque você não tem capacidade de ficar consciente. Você ignora porque está de olho fechado, em estado inconsciente. Então o professor fica apontando, apontando, apontando, para quê? Para você abrir o olho e ver.
Ou seja: você não é cego. Você está se colocando em estado de cegueira por manter o olho fechado. Se abrir o olho e olhar, vai ver.
“Com consciência tudo se resolve, sem consciência tudo se complica”, significa que você está vivendo mal, não porque é cego, mas porque está andando pela vida de olho fechado. Abra o olho e tudo se resolve: começa a viver bem.
ALUNO:
Então, pensar é importante?
PROFESSOR:
É vital. É questão de vida ou morte.
Para viver bem, precisa de três autoconhecimentos: existencial, psicológico e pessoal. Na verdade, quatro: existencial, psicológico, social e pessoal.
Só que o mundo espiritualista, idolatra o mito de que a iluminação é o fim de todos os problemas: despertou existencial, acabou, não tem mais problema, está tudo resolvido.
Esse mito cria dois problemas:
Faz a pessoa ficar correndo atrás de uma iluminação que nunca chega, porque é só um mito. Mito é mentira. E mentira nunca vira verdade.
Ou então ilumina de verdade, desperta para o ser, mas o sofrimento continua porque ser não é problema nenhum. Você existe, pronto. Vai fazer o quê? Você nem tem outra opção. Ser é tranquilo. O problema é viver. Viver é que é cheio de treta, de problema.
Sem autoconhecimento psicológico, social e pessoal, pode ser iluminado no último grau: vai viver muito mal. Não tem jeito, é impossível. Você não vai conseguir lidar bem com a sua experiência humana.
A cultura espiritual é focada no ser, no existencial. Ninguém fala que existem quatro tipos de autoconhecimento: existencial, psicológico, pessoal e social. E que precisa dos quatro para viver bem.
ALUNO:
Qual a dificuldade do despertar existencial.
PROFESSOR:
O hábito do materialismo.
ALUNO:
Que hábito é esse?
PROFESSOR:
É o hábito de pensar que você tem consciência.
Você não tem consciência: você é consciência.
E daí vem o segundo problema: como você vai conhecer a consciência se a consciência não é um objeto, é o conhecedor dos objetos.
Tudo é objeto da consciência, mas a consciência não é objeto.
Como você vai conhecer uma coisa que não é cognoscível?
Você consegue ver a visão? Não. Você nunca, jamais vai conseguir ver a visão. Por que não? Porque você é a visão.
Para sair do paradigma materialista, você tem que ficar consciente do materialismo. E essa é a dificuldade, embora seja simples, é super sutil. A gente tem anos e anos de mentalidade materialista: "Eu sou um corpo, esse corpo tem consciência. Isso é inquestionável". E você precisa questionar justamente isso.
O problema é que não adianta acreditar que você é consciência.
Acreditar não é saber.
Você tem que fazer o exercício consciencial de despertar para entender que a consciência é fundamental. Tudo o mais deriva da consciência. Aí você desperta e fala: "Pô, claro, a consciência é o fundamento e tudo o mais deriva da consciência”.
Tem um exercício simples, que pensei agora, que dá para fazer.
Você pensa: "Eu tenho um corpo, esse corpo tem um olho, e esse olho vê. Isso é inquestionável. Eu tenho consciência; o corpo produz a consciência".
Se pergunte: com base em que eu afirmo que sou um corpo?
Não é com base na visão?
Você olha para o corpo e fala: "Estou vendo a minha mão, eu sou um corpo". Não é isso que você fala? Você olha para a perna e fala: "Estou vendo a minha perna, eu tenho perna, eu sou um corpo". Não é com base na visão?
Percebe como a visão é mais fundamental do que o seu corpo?
É a visão que afirma o seu corpo, e não o seu corpo que afirma a visão.
Se você desligar todos os seus cinco sentidos, o seu corpo desaparece. Por quê? Porque a consciência é fundamental, e não a matéria.
Explode, consciência!
ALUNO:
Um pouquinho de esforço e atinge a iluminação.
PROFESSOR (25):
Vamos ser justos.
Aliás, vamos ser justos e amplos no esclarecimento.
Vou dar um exemplo muito ilustrativo, que se amplia em escala enorme. Se a gente pegar esse exemplo simples e fizer uma pesquisa, provavelmente vamos perceber que 99% dos casos são idênticos a ele.
Tem uma aluna — não vou dar muito detalhe, porque é história pessoal dela; vou falar meio por cima, só para contextualizar — que entrou no ciclo de estudos. Hoje em dia é veterana, bem antiga. E o que acontecia com ela? Ela tinha uma memória que lhe causava muita dor emocional. Era uma dor emocional profunda.
E o que acontece quando experimentamos dor?
A dor suga o foco da consciência. Ela não pede permissão: "Por favor, você, consciência, por obséquio, poderia vir até aqui comigo e dar uma olhada nisto?" Não é assim que a dor funciona. Ela pega a consciência pelo cangote e fala: "Fica olhando aqui".
Você fica preso naquele foco de dor.
Quanto maior a dor emocional, mais a sua consciência fica presa nela. Você não consegue sair. Não consegue desfocar, fica preso ali.
Esse era o caso dessa aluna. Ela chegou ao ciclo de estudos com uma dor emocional latente e a consciência dela estava presa naquela dor.
Estou usando essa pessoa de exemplo, mas a maioria dos alunos é assim — eu conheço a história de vida dos alunos. A maioria ainda está preso à dor emocional. Essa estava; por isso a uso de exemplo. Ela estava, mas conseguiu sair.
Mas voltando… Ela começou a participar do ciclo de estudos e passou pela fase existencial. Só que o foco da consciência dela estava preso no emocional, na dor. Então, ela passou pela fase existencial como se eu estivesse falando grego. Não entendeu nada. Ou entendeu tudo errado. Quando chegou à fase psicológica e pessoal do ciclo de estudos, aí ela aproveitou. Por quê? Porque o foco dela já estava na dor psicológica que tinha a ver com o caso pessoal dela.
Terminou o ciclo de estudos e foi fazer de novo. Aconteceu a mesma coisa.
Aí foi para a fase de prática do ciclo de estudos e começou a praticar, praticar, praticar, entendendo o sofrimento, a dor que estava tendo.
E assim foi descolando, foi relaxando um pouco esse foco.
Fez mais um ciclo de estudos, passou mais uma vez batida pela fase existencial, chegou à fase psicológica, que a ajudou um pouco mais, e à pessoal também.
Então agarrou na autoanálise e foi produzindo autoconhecimento psicológico e pessoal. E zero existencial. Acho que ela fez o ciclo de estudos uma terceira vez, se não foi a quarta. De tanto produzir autoconhecimento psicológico e pessoal, foi conseguindo relaxar o foco da consciência. E aí, em algum momento, falei alguma coisa do existencial e — clique! Ela falou: "Puta que pariu, era isso que você tanto falava? Que ridículo!"
Mas por que deu o clique?
Porque o sofrimento psicológico relaxou. O foco da consciência dela estava preso ali, e ela conseguiu relaxá-lo. Acho que ela fez aquela tal experiência do olho de peixe, que é justamente isso: relaxar o foco da consciência. Vou até postar esse exercício abaixo.
Ela relaxou o foco da consciência e — eureca! — teve um despertar existencial.
Olha só, parece um paradoxo, né? O professor diz: "Você tem que se dedicar à prática da auto-observação existencial, tem que se esforçar para ter um despertar existencial". Na hora em que você ouve isso, você imediatamente pensa: "Preciso ter foco, disciplina, não sei o quê". E é justamente o contrário. Você tem que ter disciplina na prática do relaxamento, e não da prática de focar”.
Segue o exercício:
ALUNO:
Beleza, Ferrari. Acho que, para mim, pode fechar e passar a régua.
PROFESSOR:
Bom demais. Agradeço o papo. Abço1mano.