Já reparou que há palavra para tudo o que existe e até para o que não existe — como no caso de "nada"? Por que isso? Para que tanto nome? Simples: porque, sem palavras, não há comunicação. Esse é o resumo da criação do termo "outroísmo". Mas, antes de explicar o que ele significa, vamos entender o superpoder que existe por trás do ato de dar nome aos bois.
Pense comigo: as palavras criam a realidade ou a realidade existe independentemente delas? Quem nasceu primeiro, o mundo ou o dicionário? Com certeza, a realidade existe antes das palavras que a explicam. A realidade vem primeiro; o dicionário surge depois.
Mas algo interessante acontece quando as palavras dizem respeito a coisas que não são físicas. Quando se nomeia uma experiência abstrata — o calor, por exemplo —, cria-se um conceito. Como o conceito, por meio da nomeação e da definição, confere concretude ao abstrato, tem-se a falsa impressão de que ele cria a própria experiência.
Quer um exemplo? Desde que o mundo é mundo, quando uma maçã se solta da macieira, vai direto para o chão. As maçãs sempre caíram. Mas aí veio um homem chamado Isaac Newton, olhou para aquilo, coçou a cabeça e disse: "Vou chamar isso de gravidade". A força da gravidade já era uma realidade desde sempre, mas, depois que Newton lhe deu um nome, ficou bem mais fácil conversar sobre o assunto.
Mais um exemplo: a febre. O corpo humano sempre se aqueceu para combater infecções. Nenhuma novidade nisso. O sintoma existia antes da medicina. Alguém foi lá, batizou-o de "febre" e pronto: facilitou a vida de todos na hora de pedir um remédio.
Dar nome aos bois e criar conceitos é o feijão com arroz da ciência. A 1ficina é uma escola de autociência. Então, nos primeiros livros que escrevi, precisei apontar para certos aspectos da experiência humana para os quais ainda não havia termos no dicionário. Como não existiam, tive que inventá-los.
"Outroísmo" é um desses termos. Mas essa não foi minha primeira opção. A primeira foi "outrocentrismo". Usei essa palavra durante algum tempo, mas logo a substituí por "outroísmo", por ser menor e traçar um paralelo com "egoísmo". Em suma: o neologismo é meu, mas o comportamento ao qual ele se refere pertence à própria natureza humana.