Você já acordou completamente saudável, ligou para o médico e pediu para marcar uma endoscopia?
Claro que não.
Por quê? Porque exame é coisa que se faz quando tem algo errado. Exame é o processo de descoberta do que está errado. Se não tem nada errado, vai examinar o quê?
Exame é observação — processo para tomada de consciência.
Tem algo errado e você não sabe o que é. Para sair do estado de ignorância, você observa o que está acontecendo — e por que não está acontecendo como deveria. A observação produz o conhecimento que te tira da ignorância. Você fica ciente do erro. E, uma vez ciente, se torna capaz de corrigir o erro.
Ciência serve para isso. Exclusivamente para isso. Nada além disso: tirar você do estado de ignorância.
Toda vez que você examina alguma coisa, seja a coisa que for, é para sair da ignorância. Ninguém examina o que já sabe o que é ou como funciona. Observar e analisar serve para descobrir. O que já está descoberto não tem o que descobrir.
Praticar ciência é o que te leva ao despertar da consciência — ao saber.
Quando você não sabe e quer saber, só existe um caminho: praticar ciência.
Vale para o mundo físico — plantas, minerais, planetas — que você conhece pela observação.
Vale para o mundo metafísico — pensamentos, valores, emoções — que você conhece pela auto-observação.
Eis o motivo da ciência e da autociência: saber.
E aqui chegamos na areia movediça onde todo buscador espiritual atola: a crença de que saber é autorrealização — ou leva à autorrealização.
Enorme equívoco.
Gigantesco equívoco.
Colossal equívoco.
É esse equívoco que transforma o buscador espiritual em Saci Pererê.
Ele aprende a andar com uma perna só — a perna do saber, da consciência, da iluminação — e acredita que isso basta para chegar à autorrealização.
Só muda o figurino. No lugar do gorro vermelho, turbante. No lugar do cachimbo, incenso.
Mas continua com uma perna só.
E com uma perna só não basta.
Autorrealização não é saber. É ser.
É você sendo você — viajando pela estrada da vida do seu jeito único, ímpar, singular.
E viagem se faz com duas pernas.
Você pode saber tudo sobre como funciona um carro e passar a vida inteira na garagem.
Carro não anda com conhecimento. Anda com gasolina.
E a gasolina da autorrealização é o querer.
Consciência não tem coração.
E o que não tem coração não sabe te dizer o que você quer.
Autorrealização é viver de acordo com a própria vontade — sempre, a todo instante, em cada mínima escolha da infinita viagem.
A consciência é capaz de te explicar tudo sobre autorrealização. E só. Não vai além disso.
A consciência não tem como realizar a viagem. Porque autorrealização não é a realização do saber — da consciência. É a realização do querer, da vontade — da potência.
É aí que todo iluminado trava.
Saber não é querer.
O iluminado sabe tudo sobre a viagem, mas viaja igual Saci: pulando num pé só, girando em redemoinho, sem sair do lugar.
Por isso tem muito apagado vivendo mil vezes melhor que os iluminados.
Mesmo ignorante da sua natureza espiritual (existencial), o apagado não abre mão de viver de acordo com a própria vontade. Não aceita viver em autonegação.
Pode mancar da perna do saber. Mas a perna do querer ele não corta.
O iluminado corta. Vive atolado na autonegação — nega o desejo e até o arbítrio para justificar a perna que falta.
Consciência é o mapa do GPS. Desejo é a voz que diz por onde seguir no mapa.
Consciência te diz que a estrada da direita vai para o Alasca e a da esquerda vai para Cancún. Mas é incapaz de te dizer se você quer ir para o Alasca ou para Cancún.
Quem te leva ao destino é o desejo, o querer, a vontade.
Consciência não tem coração.
Consciência não tem vontade.
Logo, iluminação — despertar da consciência — é incapaz de conduzir você na viagem da autorrealização. Só o desejo pode fazer isso.
Claro que consciência e desejo trabalham juntos, igual o mapa e a voz do GPS. Mas cada um fazendo sua parte.
Para atingir a iluminação: desperte a consciência.
Para viver em autorrealização: siga o desejo.
Sempre assim. Nunca diferente disso.
Por isso, por mais que você queira atingir a iluminação, não consegue. Iluminação não é questão de querer. É de saber.
E por isso, mesmo atingindo a iluminação, você continua vivendo mal. Autorrealização não é questão de saber. É de querer.
Para despertar a consciência: use a cabeça.
Para autorrealização: use o coração.
Autorrealização é uma viagem que se faz com duas pernas: saber e querer, cabeça e coração, consciência e desejo.
Com uma perna só, você pode pular até a iluminação.
Mas não chega na autorrealização.
Deixe o Saci no folclore.
Ande com as duas pernas.
Boa viagem.