Você não tem como saber que está vivendo autoísta, mas pode sentir. Felicidade e sofrimento servem pra isso— não como recompensa e castigo, mas como informação. Como o seu sistema de navegação interno dizendo: mais quente. mais frio. chegou.
Você calça 37. Mas alguém te ensinou que 35 é o número certo. Elegante. Adequado. O número que pessoas sérias, corretas, bem-educadas usam. Então você compra o 35. O dedão fica roxo. Dói. Por que tanta dor? Não é punição. É informação. Seu pé está dizendo, com toda a clareza que um pé consegue ter: esse não é o seu número. Mas você não sabe ainda qual é. Então tenta de novo.
Você opta pelo 36. Mais razoável. Meio-termo. Talvez seja esse. Dói menos. O dedão passa de roxo para azul-marinho. Ainda dói. Ainda é informação: chegou mais perto. mas ainda não é.
Então você tenta o 37. E aí acontece algo diferente. O dedão fica rosinha. Normal. Relaxado dentro do sapato como se sempre tivesse sido assim — porque sempre deveria ter sido assim. O pé não grita mais. O pé respira. Que felicidade. Que alívio. Que obviedade escandalosa. Claro que é 37. Óbvio que é 37. Evidente que é 37. Como demorou tanto para chegar numa coisa tão simples? Eureka. Eu sou 37.