Cada pedaço de educação que você recebe é um programa rodando dentro de você. Um programa que diz: você tem que isso, aquilo, grilo, esquilo, mamilo, Murilo, crocodilo.
Se você é homem, por exemplo, um dia você chorou. Coisa mais natural do mundo — você era uma criança, e crianças choram. Mas sua mãe olhou pra você e disse: "Para de chorar, moleque. Homem não chora."
Ela não sabia o que estava fazendo. Provavelmente nem pensou muito. Mas naquele momento, instalou um programa em você. E o pior: esse programa não era dela. Era da mãe dela. Que herdou da mãe da mãe dela. Que herdou de alguém antes. Ninguém sabe mais quem escreveu o código original — talvez não exista nem uma origem clara, só cópias de cópias de cópias, cada geração repassando o arquivo sem abrir, sem ler, sem questionar.
Você recebeu o programa. Rodou. Imitou. Imitou de novo. Imitou até não precisar mais imitar — até virar automático. Até virar você. Agora o programa roda sozinho, em segundo plano, o tempo todo. Você quer chorar. Precisa chorar. O corpo pede. Mas o piloto automático assume o controle antes — aperta a garganta, endurece o rosto, manda você engolir.
E você engole. Não porque escolhe. Mas porque nem sabe mais que existe uma escolha.