Toda vez que você pensa em algo, dois pensamentos surgem dentro de você.
Um pergunta: isso é verdadeiro?
O outro pergunta: isso é permitido?
A pergunta sobre a veracidade é seu pensamento analítico (intelectual). Ele investiga, compara, testa. Quer saber se a coisa procede.
A pergunta sobre a permissão é seu pensamento moral (afetivo). Ele julga, aprova, proíbe. Quer saber se a coisa pode.
Os dois tipos de pensamento são legítimos. Os dois fazem parte de você. Mas fazem trabalhos diferentes. E não dá para um fazer o trabalho do outro. Não é censurando que se descobre, nem discernindo que se censura.
Quando a moral entra na análise, a análise acaba.
Autociência é análise.
É olhar para as próprias crenças e descobrir quais são verdadeiras e quais são equívocos. Por isso, enquanto você pratica análise, a moral precisa ficar de fora.
— Então é só desligar a moral?
Não. A moral não desliga. Ninguém consegue. Ela aparece em qualquer análise, sem pedir licença.
O que dá para fazer é outra coisa: deixá-la de lado. Ela continua ali, falando. Você ouve. Só não deixa que ela conduza.
Isso tem nome: análise amoral.
Amoral não é imoral. Imoral é quem age contra a moral. Amoral é quem, durante a análise, não pede a opinião dela.
Imagine um legista diante de uma autópsia.
Sobre a mesa, o corpo de um desconhecido. Ele pega o bisturi, abre, examina os órgãos, encontra a causa da morte. Trabalho feito. Nenhuma hesitação.
Agora imagine que o corpo sobre a mesa é o do seu filho.
O bisturi é o mesmo. A técnica é a mesma. A mesa é a mesma.
Mas, na hora de cortar, não é mais um corpo. É a barriga do seu filho. É o coração do seu filho.
E a moral chega gritando:
— Não. Para. É o meu filho. Como é que eu vou passar um bisturi nele?
Repare: nada mudou no trabalho. Mudou o afeto. E foi o afeto que tirou o bisturi da sua mão.
Autociência é passar o bisturi no filho.
E o filho é o seu sistema de crenças. Principalmente as suas crenças de estimação. Aquelas que você criou, alimentou e defendeu. Aquelas que já fazem parte de quem você acha que é.
É por isso que elas são tão difíceis de examinar. Uma crença de estimação não parece uma ideia. Parece você. Questioná-la soa como um ataque pessoal.
E logo vêm as perguntas:
— Se isso for falso, então eu errei a vida inteira?
— Então eu sou burro?
— Então quem me ensinou estava errado?
Observe essas perguntas com atenção. Nenhuma delas quer saber se a crença é verdadeira. Todas querem saber quanto vai custar se ela for falsa.
Nenhuma é analítica. Todas são morais.
Daí uma consequência curiosa: quanto mais você ama uma crença, menos ela foi examinada. E quanto menos foi examinada, maior a chance de esconder um equívoco.
Ninguém nunca teve coragem de passar o bisturi nela.
Como saber que você saiu da análise e entrou na moral? Ela deixa pistas:
Você sente que precisa defender a ideia, não analisa-la.
Você foca em quem disse, em vez do que foi dito.
Você aceita argumentos a favor e repudia os contra.
Você se sente ofendido.
Você pensa no que a conclusão vai dizer sobre você.
Você quer ganhar.
Quando perceber qualquer uma dessas pistas, não brigue com ela. Só note: a moral sentou na cadeira do legista.
Por isso a análise exige frieza. Frieza de legista. Frieza de IA.
Uma IA confronta os dados e verifica se procedem, se são coerentes, se têm lógica. Se um mais um é igual a dois. Ela não se ofende com o resultado. Não tem vaidade em estar certa. Não tem crença de estimação.
Descobrir equívocos exige isso. Sangue de barata.
— Mas eu não tenho sangue de barata.
Ninguém tem. A questão não é deixar de sentir. É sentir e continuar analisando mesmo assim.
Em público, fica mais difícil.
Imagine um debate. Uma tese é colocada na mesa do discernimento. O trabalho de todos ali é um só: descobrir se ela é verdadeira ou falsa.
Até que alguém se sente alfinetado. No orgulho, na vaidade, no narcisismo.
Pronto. A pergunta muda. Deixa de ser "o que é verdade?" e passa a ser "quem tem razão?".
Ninguém investiga mais nada. Estar errado vira perder. Ser corrigido vira ser humilhado. Começa a gangorra narcísica: cada um tentando ficar por cima, cada um empurrando o outro para baixo.
Vira uma briga para ver quem tem o pinto maior.
Os dois se magoam. E a clareza, que era o único motivo da conversa, evapora.
Agora veja o mesmo debate feito com análise amoral.
Se a tese se confirma, você sai com uma crença verdadeira mais firme. Se cai, você sai com uma crença falsa a menos.
Nos dois casos, você ganha. Num debate entre analistas, ninguém perde.
— Mas e a moral? Ela não é importante?
É. Muito. Ela tem um lugar na experiência humana. Esse lugar só não é na análise.
Deixar de lado não é jogar fora. Terminada a análise, a moral pode voltar. E volta melhor: em vez de proteger um equívoco, vai decidir sobre algo que você finalmente enxerga com clareza.
Então pratique.
Escolha uma crença de que você gosta muito. Coloque-a na mesa. Pergunte: e se for falsa?
Observe o que acontece em você. O desconforto, a vontade de defender, o calor no peito. Isso é a moral chegando.
Não a expulse. Fale com ela:
— Eu sei que você está berrando. Eu te entendo. Não estou te negando. Só estou te colocando de lado, porque vou fazer uma atividade em que você não me ajuda.
E siga com o bisturi. Liste os argumentos a favor e os argumentos contra, com o mesmo cuidado dos dois lados.
No começo, é difícil. Muito difícil. Mas a prática faz a prática. A cada análise, a moral grita um pouco menos e você corta um pouco melhor.