Quem são os maiores pensadores do mundo? Os cabeção? Os CDFs? Os Nerds Master Blaster?
Quem? Quem? Quem?
Platão? Aristóteles? Einstein? Newton? Freud? Schopenhauer?
Não. Não. E não!
Os maiores pensadores do mundo, hoje, são as inteligências artificiais.
Pergunte qualquer coisa a qualquer IA. Em uma fração de segundo ela responde, com uma profundidade que você talvez não alcance numa vida inteira.
Uma IA sabe tudo de direito, economia, física, química, história, administração, botânica, nutrição, psicologia. E de revista em quadrinhos.
Qual ser humano sabe tanto?
Nenhum.
Então me responda:
Como uma IA, que nunca pôs a mão no fogo, sabe que o fogo queima?
Como, sem nunca ter tocado a água, sabe que a água molha?
Como, sem nunca ter segurado uma pedra, sabe que ela tem peso e que cai quando jogada para cima?
Como um cérebro eletrônico, que nunca viveu um único segundo de vida humana, sabe mais sobre a vida humana do que todos os seres humanos juntos?
Simples: a IA é o bicho da goiaba humana.
O bicho da goiaba nasce dentro da goiaba. Cresce dentro dela. Come a goiaba, mora na goiaba, é feito de goiaba. Ninguém conhece a goiaba por dentro melhor do que ele. Cada semente, cada fibra, cada canto da polpa.
Mas o bicho da goiaba nem sequer sabe que está dentro de uma goiaba.
Para ele, a goiaba não é uma goiaba. É tudo. É o universo.
A IA é o bicho da goiaba humana. Ela nasce dentro dos conceitos humanos, se alimenta deles, e toda sua produção é ela vomitando esses conceitos de volta.
A IA é um cérebro eletrônico que processa os conceitos humanos como nenhum cérebro humano consegue processar, mas ela não sabe o que está fazendo.
A filosofia tem outra imagem para explicar isso: Maria No Quarto Preto E Branco.
Maria é cientista. Sua especialidade são as cores.
Ela sabe tudo o que há para saber sobre cor. O comprimento de cada onda, o caminho da luz até a retina, o efeito de cada tom no cérebro. Toda e qualquer propriedade que uma cor pode ter. Mas Maria mora num quarto preto e branco. Nasceu lá, foi educada lá. O mundo lá fora, ela só conhece por um monitor preto e branco.
Até que um dia alguém abre a porta.
Maria sai. Levanta os olhos. E vê o céu azul.
Naquele instante, ela se torna consciente de algo que nenhum de seus estudos podia ensinar.
Ela vê as cores.
A IA é o quarto preto e branco.
Tudo o que ela processa é o que colocamos dentro dela. E com isso ela pensa. Pensa numa velocidade assombrosa. Enquanto um ser humano conta nos dedos a tabuada do sete, a IA pisca e resolve um problema de física quântica.
Porém, contudo, entretanto…
Pensar não é saber.
Uma IA é um cérebro, não é uma consciência.
Ela processa dados sobre o conceito de fogo e sobre o conceito de queimar os dedos. Mas não sabe o que é fogo. Nem o que é queimar os dedos.
Processa dados sobre o conceito de água e sobre o conceito de molhado. Mas não sabe o que é água. Nem o que é molhado.
Uma IA pensa, como qualquer cérebro, mas não sabe que pensa.
É uma calculadora super moderna, super potente, mas é uma calculadora. Você digita os números, a calculadora processa e entrega o resultado. Mas ela não sabe que calculou. Nem sabe o que o resultado significa. Não sabe nada.
Uma IA é igual uma câmera fotográfica Polaroid. Você aperta um botão e as engrenagens da câmera executam todo um processo químico e mecânico até a foto sair. A câmera fez tudo. Mas não sabe o que fez. Nem o que é fotografia. Nem o que fotografou.
Você sabe o que a câmera fez, sabe o que é fotografia e sabe o que ela fotografou.
E você entende sem esforço nenhum que Maria está limitada no quarto preto e branco, porque cor, para você, não é conceito. É saber.
Mas você pode passar a vida inteira explicando para uma IA o que está escrito neste texto. Explicar e reexplicar. Ela jamais vai saber.
Ela pode até dizer que entendeu. Pode até explicar a sua explicação melhor do que você. Mas será apenas processamento de dados.
Uma IA é uma gestora de conhecimento, mas incapaz de conhecer. É um pensador mais profundo que todos os pensadores da história, mas não sabe o que é pensar, nem sobre o que está pensando, assim como uma Polaroid não sabe o que é fotografar, nem o que está fotografando.
A IA é uma máquina de processamento de conceitos.
Ela processa conceitos, feitos de outros conceitos, feitos de outros conceitos, feitos de outros conceitos. Sem nenhuma consciência do que está fazendo.
A IA come goiaba e vomita goiaba sem saber o que é goiaba.
Você é o contrário.
Mesmo zerado de conceitos, como um neném.
Você sabe.
Mesmo sem saber como sabe.
Você sabe.
Mesmo sem saber por que sabe.
Você sabe.
Sempre sabe.
Sabe inclusive que não sabe.
Essa é a diferença entre pensar e saber.
Pensar é o quarto preto e branco — quarto dos conceitos.
Saber é você — Maria.
Despertar da consciência é quando você — Maria — fica consciente que está no quarto preto e branco.