Cidade não tem noite, sois eletrônicos acendem com o timer e o espetáculo da escuridão, mesmo presente, fica invisível. Sempre morei na cidade. Quase sempre. Tempo suficiente para que minhas retinas se esquecessem que são duas luas.
Certa vez, enjoado da Avenida Paulista, fui morar em um sítio. Lá, quando ficava noite, ficava noite. E tanto, que no quarto onde dormia, não fazia diferença estar de olhos abertos ou fechados. Muitas vezes, acordava antes do sol, da memória e até de mim mesmo para ficar olhando o breu.
Impressionante como o quarto encarnava no espaço com a luz do dia. Surgia a porta bege, a janela de ferro e o armário Marabraz. Quanto mais luz, maior era meu estado catatônico. Altura! Largura! Profundidade! De onde vem isso? Não estavam aqui agorinha mesmo! Pensei que fosse o único louco no mundo percebendo o absurdo do espaço, até que ouvi uma música do Raul Seixas: "Quando eu despertei, minha mobília me olhava, me julgava, me condenava...".
Raul também via o absurdo. Ele também percebia que as coisas não eram apenas coisas, mas presenças estranhas que surgiam do nada quando a luz as tocava. A mobília dele não era apenas madeira e tecido, era um tribunal que o julgava por sua incapacidade de ver além da forma. Raul cantava. E eu já não era o único louco no mundo querendo acordar o mundo para o absurdo que o mundo é.