Para de rolar essa timeline hipnótica e olha pra mim.
Será que você tomou um balde de formol na veia pra ficar com essa cara de paisagem, achando que o mundo está funcionando?
Olha pra esse mundo, criatura!
Olha qualquer avenida às seis da manhã.
Aquilo não é gente indo trabalhar: é uma horda de zumbis cinzentos, enlatados feito sardinha em ônibus que parecem navios negreiros.
Criaturas com a mandíbula travada de ódio e a espinha curvada. Metade dormindo de exaustão e a outra metade hipnotizada pelo celular.
Passam duas horas respirando diesel pra percorrer uma distância que se faria em vinte minutos, e a gente chama isso, com a maior naturalidade, de "trânsito".
Tudo isso pra ir se trancar num cubículo sob luz de necrotério, sem saber se o céu lá fora está azul ou cinza.
Ninguém sorri, ninguém conversa, ninguém vive. Só mastigam o próprio desespero a caminho da masmorra diária, duas vezes por dia, seis dias por semana, a vida inteira.
E repara no gênio da engenharia: o sujeito trabalha pra pagar a casa onde dorme, dorme pra conseguir trabalhar, trabalha pra comprar comida e come pra aguentar trabalhar. Um moto-contínuo de carne e osso! E chama isso de vida.
Olha a economia!
É uma moedora de carne humana onde todo mundo compete com o colega de baia pra ver quem infarta primeiro.
O sujeito, cinicamente de "colaborador", tem o salário corroído antes do dia cinco, vive com a corda do cheque especial no pescoço e passa o dia bajulando chefe medíocre pra não perder a vaga de escravo moderno.
Vende a alma parcelada a perder de vista e se endivida até a terceira geração pra comprar tralha de plástico que quebra em seis meses. E quando finalmente se aposenta, está cansado demais pra lembrar o que gostaria de ter feito.
Olha o recém-graduado.
Fez tudo direitinho: estudou, se formou, pendurou o diploma na parede. Hoje mora no quarto em que cresceu e pedala doze horas por dia entregando comida pros outros, sem folga, sem seguro, sem saber se amanhã tem serviço. Chamam isso de "empreendedorismo".
Olha aquela mulher que saiu de casa às cinco da manhã e volta às nove da noite. Os filhos jantaram sozinhos, na frente de uma tela. Pergunta pra ela quando foi a última vez que fez alguma coisa só porque quis. Ela nem vai entender a pergunta.
E cuidado! Olha pro chão!
Tem um sujeito deitado num papelão molhado, faminto, com uma ferida aberta na perna, bem na porta de uma joalheria. Do lado de dentro, ar-condicionado; do lado de fora, ele.
Daí vem engravatado olhando no celular, dá um passo largo por cima do corpo na calçada, como quem desvia de uma poça, confere os likes e segue sem piscar.
No semáforo, uma criança de oito anos vende bala debaixo do sol das duas da tarde, e nenhum vidro desce. Não é que ninguém viu. É que todo mundo aprendeu a não ver.
A miséria virou mobília urbana, virou poste.
E o mais aterrorizante é que tem comida jogada fora aos montes e gente passando fome. Prédio vazio e gente dormindo debaixo de viaduto.
Inventamos máquinas que conversam, traduzem e desenham. Mandamos sonda pra Marte, e ainda tem gente sem água limpa pra beber.
E as nossas casas?
Que casa, rapaz? Ninguém mora em casa: a gente mora em bunker. É muro de três metros, arame farpado que fatia passarinho, cerca elétrica, caco de vidro e câmera vigiando até a sombra de quem passa.
E o vizinho da porta ao lado, que mora a três metros de você há cinco anos? Você não sabe o nome dele, e ele também não sabe o seu.
Nos trancamos em jaulas e chamamos isso de tranquilidade.
Mas tem a família! A doce e sagrada família!
Entra numa casa qualquer, num domingo à tarde, pra ver o show de horrores: é uma trincheira de rancor, uma panela de pressão prestes a explodir.
O pai vegeta na frente da televisão com olhar bovino. A mãe vive à base de gotas de calmante e os filhos se trancam no quarto pra não terem que olhar na cara dos pais.
Ninguém conversa, só se troca patada passivo-agressiva sobre quem ganha mais e quem fracassou mais.
Enquanto isso, os irmãos se odeiam em silêncio e esperam os pais morrerem pra se esfaquearem por uma herança de tijolo velho.
Aí você vai num restaurante no sábado à noite pra ver a tal "vida social". Na mesa ao lado estão pai, mãe e dois filhos: quatro corpos curvados, dedilhando a tela do celular feito chimpanzés viciados em dopamina. Mandam coraçãozinho pra estranhos enquanto ignoram solenemente a pessoa de carne e osso a meio metro de distância.
Você tem quinhentos contatos no whatsapp, mas ninguém pra ligar às três da manhã quando o desespero bate.
E rola o feed.
Um vídeo de quinze segundos, outro, outro, e lá se foram três horas. O que você viu? Não lembra.
Quando desce pros comentários de qualquer notícia, encontra um desejando a morte do outro que nunca viu, ódio de graça antes do café.
E o melhor é que tudo isso é vendido.
Sua raiva é vendida, seu medo é vendido, sua solidão é vendida, seu tempo é picado em fatias e leiloado. E você entrega tudo de bandeja, de graça, sorrindo pra tela.
E se alguém é atropelado no meio da rua? Esfaqueado na esquina? Acha que alguém corre pra socorrer? Não! Sobem vinte celulares no ar num balé grotesco, todo mundo disputando o melhor ângulo da poça de sangue pra postar antes do vizinho.
É necrofilia em tempo real em troca de engajamento.
Abre o armário do banheiro de qualquer cidadão dito "normal". Aquilo não é armário, é sucursal da indústria química.
Tem uma pílula pra conseguir levantar da cama, outra pra não ter um ataque no trânsito, estimulante pra aguentar a humilhação do dia e um coquetel tarja preta à noite pra desligar o cérebro na marretada, porque o sujeito desaprendeu a fechar os olhos em paz.
E tem a moça que chora trancada no banheiro do escritório, lava o rosto e volta pra mesa sorrindo.
E lá fora um cheiro de borracha queimada e um rio morto. Naquele rio, os velhos lembram, as crianças nadavam; hoje é um esgoto borbulhando com sofá boiando.
Olha pro céu da cidade e não tem nenhuma estrela. Tem criança que nunca viu a Via Láctea.
A gente lê absurdos e segue rolando o feed. Depois corre pro ar-condicionado do shopping pra fingir que o planeta não está derretendo.
E pra fechar com chave de ouro: construímos bombas capazes de apagar cidades inteiras, guardamos com carinho, mantemos tudo lubrificado e pronto, e chamamos isso de "segurança".
Passamos milênios jurando que queremos paz enquanto afiamos a faca.
Olha pra essa monstruosidade toda, meu amigo.
E não, isso não é filme pós-apocalíptico. É a nossa segunda-feira. É a nossa terça. É a rua por onde você passa, o prédio onde você mora, a tela que você está olhando agora.
É um hospício a céu aberto, todo mundo finge saúde e sanidade enquanto a carcaça da sociedade apodrece em pé.
E o mais assustador nem é que esteja ruim. É que todo mundo se acostumou.
A criança no farol virou paisagem. O remédio virou rotina. A solidão virou estilo de vida. O cansaço virou personalidade. O desperdício virou progresso, a violência virou segurança, o absurdo virou "é assim mesmo".
O estranho não é a gente ter chegado aqui. O estranho é olhar pra tudo isso todo santo dia... e não achar estranho.
A gente não está evoluindo, está chafurdando na lama com conexão de alta velocidade.
Então tira essa cara de manequim.
Acorda Porra!