Viver é um jogo de convivência. Para você viver, você depende do outro e o outro depende de você. Você quer vender, alguém tem que querer comprar. Você quer amar, alguém tem que querer ser amado. Você quer conversar, alguém tem que querer ouvir.
No jogo da convivência, você joga para realizar seus desejos e ganhar o jogo. Você deve pensar, optar e mover suas peças. Mas isso é na sua vez de jogar. Uma vez que você moveu sua peça, sua vez acabou e começa a vez do outro. É a vez do outro pensar, optar e fazer a jogada dele. Nesse momento do jogo, quando é a vez do outro jogar, não há nada externo que você possa fazer, pois você não controla o arbítrio do outro. Nesse momento do jogo, a única coisa que você pode fazer é ter paciência.
Eis o desafio do jogo da convivência. Conviver é igual dirigir carro no trânsito, você dirige seu carro, mas só dirige o seu, não dirige o carro dos outros. Quando você esquece disso ou ignora isso, é impossível ter paciência.
Passividade é fruto do medo, paciência é fruto da lucidez. Passividade é quando você se proíbe de agir por medo da reaction do outro. Paciência é quando você sabe que é impossível agir pelo outro e por isso nem tenta. Quem olha para você de fora vê o mesmo comportamento: não-ação. Mas na paciência você fica em paz com a não-ação e na passividade você fica contrariado.
No livro Sidarta, de Hermann Hesse, tem uma linda passagem sobre a paciência. Sidarta está procurando emprego e vai conversar com um comerciante:
— O que você sabe fazer? — pergunta o comerciante.
— Sei pensar, sei esperar, sei jejuar. — responde Sidarta.
— E que valor tem saber isso? — pergunta o comerciante
— O jejum, por exemplo, para que serve o jejum?
— O jejum é a coisa mais inteligente que se pode fazer para quem não tem o que comer. Se eu, por exemplo, não tivesse aprendido a suportar a fome, seria obrigado a aceitar hoje mesmo um serviço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a fome me forçaria a fazê-lo. Mas posso aguardar os acontecimentos com toda calma. Não preciso ficar impaciente. Para mim não existem situações embaraçosas. Posso aguentar por muito tempo o assédio da fome e ainda rir dela. É para isso que serve o jejum.
Hermann Hesse está explicando porque você perde a paciência. A fome representa a dor, esperar representa a paciência. Quando você está sofrendo, seja com dor física, como na fome, seja com dor psicológica, como na raiva, a probabilidade de você perder a paciência e agir por impulso é enorme. E quem age por impulso, geralmente faz uma jogada ruim e perde o jogo.
Saber esperar (ter paciência) é a estratégia para você não agir por impulso enquanto não chega sua vez de jogar. Saber jejuar é a estratégia para você suportar a dor de não ter seus desejos realizados imediatamente. E saber pensar é a estratégia para você planejar sua próxima jogada.