Segunda Redação
Primeiro, cumpria meu dever: escrevia a minha própria redação. Logo em seguida, em uma manobra clandestina, trocava de prova com um colega e redigia a redação dele. Ele nem sequer passava os olhos pelo papel, aceitava meu texto com o alívio de quem se livra de um fardo. Para ele, qualquer amontoado de letras alheio era preferível à sua total falta de inspiração. Seu interesse não era pelo texto, era pelo diploma universitário.
O espanto vinha com a nota: a dele sempre superava a minha. Aquilo me deixava curioso. Eu escrevia a segunda redação às pressas, sem capricho, encadeando pensamentos tão caóticos como o trânsito da cidade em que morávamos: São Paulo. Como? Como a nota da redação “dele” podia ser melhor que a “minha”? A única explicação: havia alguém em mim que escrevia melhor do que eu.
Certo dia, esse amigo, interessado em clonar minha galinha dos ovos em pé, me fez a seguinte pergunta: “Como eu faço para ser criativo igual você?”. Era o que estava me faltando para entender o paradoxo da segunda redação. Comparei mentalmente o processo de escrita das duas redações e respondi: “Erre!”. A resposta causou mais espanto em mim que no meu amigo.
A primeira redação era a certa. Escrita para agradar o professor, tirar nota boa e passar de ano. A primeira redação era útil. A segunda redação era a redação errada. Escrita pelo prazer da criatividade e sem o peso da expectativa. A segunda redação era inútil. A primeira redação tinha meu nome, mas era do outro. A segunda redação tinha o nome de outro, mas era minha.
Nunca mais fiz a primeira redação.