Basta um trauma para coisa desandar.
E o 7x1 de 2014 foi o fundo do poço que o diabo estava esperando para subir de elevador.
O chifrudo surge do nada.
Capa preta de tergal. Megafone na mão. E uma disposição de síndico de prédio antigo para distribuir imperativos.
Diante de um cidadão que apenas observa o movimento do mundo, o demônio aproxima o aparelho e decreta:
— Beba pinga, meu filho! Entorne o caldo!
O sujeito, que devia ser da abstinência, finge que não é com ele. Aí o Coisa Ruim cola o megafone no ouvido do infeliz e dá o ultimato.
— Eu disse: BEBA PINGA!
O homem, que não quer confusão com a gerência, enche um copo e vira, sem gelo e sem limão.
A rotina do absurdo prossegue.
Na praça ao lado, tem uma garota ouvindo música com aqueles fones que parecem um abafador de ruído de aeroporto. O chifrudo chega chegando:
— Tira essa MPB e bota um Mc Salsicha no talo.
Ela fez careta, claro. Mas o Demo é persistente:
— Escuta o Salsicha, garota! É hit!
Dito e feito. Dois minutos depois e ela já está balançando o ombrinho no compasso do pancadão.
As ordens multiplicam-se como juros bancários.
— Torça para o Vasco.
— Passe férias em Cubatão.
— Deixe crescer os cabelos do ouvido.
— Assista o show do Ary Toledo.
— Durma na praça.
— Bota cinco colheres de açúcar nesse café.
É uma doideira atrás da outra. A lista de maldade não para. E a Cidade Maravilhosa vai virando o puxadinho do inferno, tudo no figurino que o capeta manda.
Até que, no melhor estilo "quem te viu, quem te vê", aparece o Salvador.
O herói da pátria!
Batina branca impecável, brilhando mais que dente de comercial de pasta de dente. Um chaveiro de ouro no peito e aquela aura de quem acabou de descer o Monte Sinai depois de conversar com Deus.
Sobe no coreto, ajeita a voz de barítono e lança sua contraofensiva:
— Atenção, povo! Parem já de obedecer esse sujeitinho mandão!
O povo, que já tava tonto de tanta pinga, olha para o santo e pensa: "Armagedom".
O Santo, então, começa a desfazer os nós:
— Chega de pinga! Quero ver todo mundo na água mineral!
Num estalo, as garrafas vão pro lixo.
Obediência instantânea, coisa linda de se ver.
— E desliguem esse tal de MC Salsicha! Que barulheira é essa?
Os fones são arrancados como se fossem carrapatos.
— Ninguém mais torce pro Vasco!
— E acabou a farra na praça, todo mundo pra dentro de casa agora!
O Santo é um fenômeno.
Onde o diabo havia dito "faz", ele chega com um "desfaz".
Uma espécie de Procon da alma.
Anos depois, o Santo Salvador bate as botas e se apresenta no guichê de imigração celestial, ali mesmo, nas fundações do Cristo Redentor.
O anjo da recepção, com aquela cara de funcionário público cansado, olha a ficha e diz:
— O senhor desce. Destino: Inferno.
— Como assim, meu anjo? Tá doido? Eu salvei o Rio de Janeiro!
— Salvou de quem? Do imposto de renda?
— Do capeta, meu caro! O bicho feio desembarcou na Cidade Maravilhosa e mandou todo mundo fazer o que ele queria. Eu fui lá e libertei geral!
— E como foi essa "libertação"?
— Mandei largarem a cachaça e beber água.
— Que mais?
— Mandei pararem de ouvir aquela porcaria de MC Salsicha!
— Que mais?
— Mandei pararem de torcer para o Vasco.
— Que mais?
— Mandei todo mundo voltar pra casa e dormir cedo!
O anjo suspira, guarda a caneta atrás da orelha e diz:
— Mandou, mandou, mandou... percebe o que fez?
— Não — diz o Santo.
O anjo balança a cabeça, naquele ritmo de quem já viu esse filme mil vezes.
— Você libertou as pessoas dos mandamentos impostos pelo capeta, impondo os seus. O capeta mandou, você mandou. No fim das contas, o verbo é o mesmo.
— Sim, mas os meus mandamentos eram pro bem! — insistiu o Salvador — Eram santos e sagrados.
O anjo, que já viu muitas boas intenções pavimentarem o caminho errado, diz:
— Meu chapa, aqui em cima, o que avaliamos não é o que se manda fazer, mas o fato de se achar no direito de mandar. O verbo foi o mesmo: mandar.
O Santo Salvador emudece.
A batina murcha.
A ironia do destino é mais pesada que a batina.
— Então é o inferno? — pergunta, já esperando o pior.
O anjo fecha a prancheta com aquele estalo de "final de expediente".
— Calma! Você foi qualificado para um programa de reciclagem para quem gosta de dar ordens. Chama-se reencarnação. Você volta e tenta de novo.
O anjo entrega o bilhete de reencarnação para o santo e diz :
— Não repetirás a mesma merda.
O Salvador dá um sorriso amarelo:
— Mas isso é um mandamento! — retruca o Santo.
O anjo arregala os olhos:
— Pqp! Espera que eu vou também!