Uma aluna trouxe a mãe para conversar comigo. Uma campeã invicta no concurso de dona da verdade e, paradoxalmente, naufraga da depressão. Buscava um atalho: uma fórmula mágica que dissolvesse o sofrimento como a água dissolve uma pastilha efervescente — rápido, automático, silencioso — Sem confronto, sem incômodo, sem o vexame de admitir a própria ignorância.
Tentei. Com paciência, com tato, com objetividade.
Expliquei que ela corria por uma casa com as luzes apagadas — e por isso trombava com as paredes. Mas ela não queria acender as luzes. Acreditava que já estava iluminada.
Quanto mais eu apontava para sua ignorância, mais ela me atravessava com olhos de brasa.
Até que disparou, em tom de desafio e provocação:
— Você sabe o que é ser humano?
Respondi que sim; afinal, meu trabalho consistia justamente em explicar isso.
Foi então que ela preparou o laço da própria forca:
— Me explica numa frase.
Contive o riso.
Ela não sabia o que havia feito. Abrira a guarda no ringue, dando-me a chance perfeita para o nocaute.
Prometi ir além:
— Vou resumir em quatro palavras!
Os olhos da mulher se arregalaram. Pela primeira vez, demonstrava genuína curiosidade. Abri a mão, ergui quatro dedos e fui enunciando cada palavra devagar, como quem soletra o alfabeto para uma criança:
— Bem, bom, caro e vero.
Silêncio.
A mãe da minha aluna não entendeu nada.
Mas entendeu, ao menos, a extensão da sua ignorância.
Nunca mais trocou uma palavra comigo.