Profissional Inútil

— Próximo, por favor — anuncia a secretária, com a voz de quem já carimbou a própria alma.

— Sou eu — Felício ergue-se, ajustando o paletó que parece um pouco grande demais para sua modéstia.

— Pode entrar. À direita.

— Grato.

O escritório tem cheiro de carpete antigo e decisões corporativas. O entrevistador, um homem cujo rosto parece esculpido em burocracia, nem sequer levanta os olhos dos papéis.

— Sente-se — ordena.

— Grato — repete Felício, acomodando-se na ponta da cadeira.

— O senhor busca uma colocação, imagino.

— Sim, senhor, exatamente!

— E quais são suas competências? O que o senhor sabe fazer?

Felício hesita por um milésimo de segundo, mas o sorriso não o abandona.

— Nada.

O entrevistador interrompe o movimento da caneta. Olha por cima dos óculos, incrédulo.

— Nada?

— Bem, quase nada — retifica Felício, polido.

— Ótimo. Vamos ser práticos: o que é que o senhor sabe fazer, afinal?

— Eu sei ser feliz.

Há um silêncio no escritório, do tipo que precede as tempestades e as gargalhadas. O Dr. Ataliba, como diz a placa de latão sobre a mesa, inclina-se para a frente.

— Você sabe ser feliz? Como assim?

— É um dom, creio eu. Faça chuva ou faça sol, eu sei ser feliz. Ladeira acima, ladeira abaixo. Na saúde, na doença, no lucro ou na escassez. Em suma, Dr. Ataliba: eu sei ser feliz sob qualquer circunstância.

O entrevistador solta um suspiro pesado, entre o deboche e a irritação.

— Meu caro, você não pode estar falando sério.

— Mas estou. Sou feliz agora, inclusive — diz Felício, e seus olhos brilham com uma honestidade ofensiva. — E mesmo que o senhor me dispense sem o emprego, continuarei sendo feliz lá fora, na rua.

Ataliba dá uma risada curta e seca.

— Rá! Muito engraçado. Isso é alguma dinâmica de grupo? Alguma pegadinha de televisão? Onde está a câmera escondida?

— Com todo o respeito, Doutor...

— Ataliba.

— Com todo o respeito, Doutor Ataliba, não há câmeras. Eu apenas sei ser feliz.

— E como espera ser absorvido pelo mercado de trabalho com esse seu... "talento"?

— O mundo não precisa de felicidade? As pessoas não querem ser felizes?

Ataliba faz uma pausa. Pensa por um segundo na resposta de Felício e acha pertinente; pensa novamente e acha um absurdo. Por fim, retorna à lógica de mercado:

— Felicidade conserta geladeira, por acaso?

— Não, Doutor Ataliba.

— Felicidade assa pão francês ou enche tanque de carro?

— Também não.

— Então para que serve ser feliz, homem? Qual a utilidade disso?

Felício pondera a pergunta como se fosse um filósofo grego.

— Não serve para nada, Doutor Ataliba.

O entrevistador recosta-se na poltrona, o rosto subitamente sombrio. Olha para o currículo em branco de Felício e depois para o próprio relógio de ouro.

— Pois bem. Por uma ironia do destino, abriu-se uma vaga hoje. Precisamos justamente de alguém que ensine as pessoas a serem felizes.

— Ótimo! Perfeito! — exulta Felício, as mãos unidas em contentamento.

— Mas já vou avisando — interrompe Ataliba, com um brilho gélido no olhar.

— Algum problema? — indaga Felício.

Ataliba faz uma pausa dramática, ajeita a gravata e explica o problema:

— O último funcionário que ocupou este cargo terminou crucificado.