Assim que o patinho colocou a ponta do bico para fora de casa, começou o quá-quá-quá.
— Olha lá, que pato mais fora do padrão! — grasnou uma pata antipática.
— Ele anda todo torto, parece que está pisando em ovos... e ovos fritos! — sentenciou o tribunal dos marrecos.
— Vai estragar o visual do nosso feed do Instaganço! — reclamou outra, ajeitando as penas.
Era muita patacoada! Com o coração murcho feito balão esquecido depois da festa, o patinho resolveu arrumar as malas (que na verdade eram só as suas asas) e partiu. Caminhou tanto que os dedinhos da pata ganharam nós. Dormiu abraçado a uma árvore e, ao acordar, deu de cara com uma lagoa lisinha, parecendo um espelho gigante.
Ao olhar para baixo, viu alguém na água. Sem perceber que estava olhando para si mesmo, achou o outro pato simpático e resolveu puxar papo:
— Ei... por que você está com essa cara de quem comeu um pedaço de genipapo e ficou engasgado com dor no papo?
— Boa pergunta. Por que você também está? — respondeu o reflexo.
— É que eu sou todo esquisito. Imperfeito.
— Quem foi que inventou isso?
— Todo mundo na minha rua diz!
— E desde quando “todo mundo” entende de pato? — perguntou a imagem, dando uma piscadinha.
— Ué, eles são a maioria. Se todos dizem, deve ser verdade.
O reflexo soltou uma bolhinha de ar e perguntou:
— E como você queria ser, afinal?
— Ah... perfeito. Igualzinho aos outros. Bonitinho, alinhado, sem passar vergonha.
— Mas se você for outro, quem vai ser você? Sacou? Já tem muita gente sendo igual por aí, é um tédio só!
— É... pensando bem, é verdade. Mas eu só queria que gostassem de mim.
A imagem na água amoleceu o olhar, cheia de doçura:
— Eu gosto de você!
— Gosta mesmo? Assim, todo tortinho e desengonçado?
— Exatamente assim. Suas bizarrices são a sua melhor parte! É o que te faz ser esse pato exclusivo, edição limitada!
O patinho sentiu um quentinho no peito, como se tivesse tomado um chocolate morno num dia de chuva. A tristeza derreteu na hora.
— Sabe de uma coisa? Você não é perfeito — disse o reflexo, rindo. — Você é ÍMPAR-FEITO! Único no universo inteiro!
— Caramba! É verdade! Até minha asa parou de doer! Posso te dar um abraço de urso... quer dizer, de pato?
— Pula aqui para dentro!
O patinho não pensou duas vezes. Deu um salto bombástico na água — TIBUM! — quebrando o espelho em mil pedaços de alegria. Quando voltou para a superfície, sacudindo as penas e espirrando água para todo lado, estava mais feliz que pato na água. Não precisava mais da aprovação de ninguém. Estava batizado em ser feito à mão, peça única, singular, à imagem e semelhança: ÍMPAR-FEITO!