Minha mãe foi uma ovelha negra, mas criada no tradicional sistema méééé. Que traduzindo para o bom português quer dizer: "fica quieta e obedece". E traduzindo para o inglês genérico fica: “até calada você está errada”.
Antes dela, na hierarquia do rebanho, vinha a minha avó: uma ovelha branca de dar medo, daquelas que não aceitavam nem um fio de lã fora do lugar.
A minha mãe, coitada, teve que aprender o dialeto das brancas na marra. Em pouco tempo já estava domada. Bastava um méééé mais agudo da matriarca e pronto: ela voltava pro cercadinho de cabeça baixa.
O engraçado, ou melhor, o insensato, é que essas ovelhas que cresceram sob uma pedagogia nível Pinochet não tentam nem um tiquinho de Piaget com os próprios filhos. Mas o que é a sensatez diante da necessidade de manter o rebanho?
Aí eu nasci. Só que eu nasci verde. Uma ovelha totalmente fora do espectro cromático da família. E minha mãe, sem perceber isso, repetiu comigo o mesmo méééé que recebeu das ovelhas brancas — só que na cor dela.
Por amor, claro. O velho e bom amor méééé.
Ela quis me pintar de preto. Tentou com afinco. Mas sempre que vinha me arrebanhar, eu respondia com meu contra-mantra: "Livre-arbítrio, mãe!".
Ela deve ter me ouvido dizer isso um milhão de vezes. Ficava possessa. Queria porque queria me enfiar na fila das ovelhas negras. Mas, no fundo daquela lã toda, eu sentia que ela sabia do que eu estava falando.
A coitada tentou de tudo, inclusive o "méééé" emocional, que era a especialidade da casa.
Mas nada conseguia tingir o meu mantra.
E foi assim, marchando com botas de lã e sem nenhum mééé da minha boca, que mostrei à minha mãe o único balido capaz de produzir boa convivência:
Livre-arbítrio. E béééleza.