Tinha lá, no meio do mundão, três criaturas.
Vamos chamar pelo nome que a gente usa quando não tem ninguém ouvindo, porque a honestidade é a melhor política: três cuzinhos. Três centros de pura tensão, travados, engessados pelo medo de viver.
Quem nunca? Quem não todo dia?
Para se protegerem, resolveram construir uma casa — um bunker contra infortúnios.
Juntaram ciência de palha, autoconhecimento de palha, religião de palha, filosofia de palha, arte de palha, espiritualidade de palha, moral de palha, amor de palha, tudo de palha. E fizeram aquela estrutura bonitinha.
— Ah, agora sim, estamos protegidos.
Sentiram-se salvos.
Só que a Vida, essa criatura desumana, não pede opinião.
Apareceu vestida de Lobo Mau.
— Abre aí, gente!
— Sai pra lá, tá maluca?
— Se não abrir, eu sopro, hein?
— Pode soprar. Estamos fundamentados em verdades sólidas.
A Vida encheu o peito e soprou a real:
— Cuuuuuuuuuuuuuuuu!
A casa de palha virou confete.
Os três cuzinhos, claro, correram. Depois concluíram:
— O problema é o material. Precisamos de proteções mais fortes.
E partiram para a madeira.
Mesma coisa. Juntaram ciência de madeira, autoconhecimento de madeira, religião de madeira, filosofia de madeira, arte de madeira, espiritualidade de madeira, moral de madeira, amor de madeira, etc.
A nova casa parecia firme, estruturada e pesada.
Outro sopro:
— Cuuuuuuuuuuuuuuuu!
A madeira rangeu, quebrou e ruiu. Lá foi a casa de madeira para o espaço.
Aí apelaram para o tijolo, o ápice da racionalização humana. Criaram uma fortaleza de convicções que não balançava nem com terremoto.
— Agora estamos seguros — pensaram, orgulhosos da invulnerabilidade.
A Vida deu aquela inspirada profunda, puxando o ar do infinito, e soprou com a força de uma caganeira:
— Cuuuuuuuuuuuuuuuu!
A fortaleza virou pó.
Restaram os três cuzinhos — pelados e contraídos — esperando o fim do mundo.
A Vida só sacou um espelho e botou na frente deles.
— Olhem no espelho — disse a Vida, com a doçura de quem sabe que a gente é meio bobo mesmo. — Eu falo "cu" porque vocês são isso. Três cuzinhos apertados.
— A gente só quer uma vida boa! Você é má! — choramingaram.
A Vida sorriu, quase com dó.
— Meus filhos, eu sou o pacote completo. Verão, inverno, conta para pagar, decepção amorosa. Viver bem é tipo casamento, na saúde e na doença. Vocês querem que a banana venha sem casca? Querem a vida sem a parte que dói? A decepção tira a venda. A frustração arruma a casa. O prejuízo ensina a desapegar. A crítica alheia é o melhor remédio anti-baba-ovo. Nada disso mata, só esculpe.
Os três soltaram um pum. Um bom sinal, aliás.
A rigidez cedeu.
— Quer saber? — disse a Vida, pegando um violão que não sei de onde ela tirou. — Da próxima vez, me recebam cantando.
— Cantando o quê?
— Quem tem medo de qualquer mal, qualquer mal, qualquer mal?
E os três cuzinhos viveram bem para sempre.