Durante muito tempo, carreguei um fardo.
Eliminar o sofrimento do mundo.
Parecia nobre. Parecia o caminho natural de quem desperta — tornar-se mestre dos que ainda dormem, estender a mão, iluminar o caminho. Eu acreditava nisso com sinceridade total.
E fracassava com a mesma sinceridade total.
Não conseguia aliviar o sofrimento de ninguém. Nem o meu próprio. Apenas acumulava decepções, aumentando o peso invisível desse equívoco.
Até que, após muito penar, compreendi a razão de tanto fracasso:
O sofrimento é o mestre, não eu.
Essa foi a descoberta mais libertadora da minha vida. Não porque resolveu tudo — mas porque dissolveu quatro correntes que me prendiam.
Se o mestre é o sofrimento, então:
Não precisava mais seguir nenhum mestre.
Não precisava mais ser mestre de ninguém.
Não precisava mais eliminar a dor do mundo.
Não precisava mais fugir do meu sofrimento.
Se não tivesse chegado a essa compreensão, provavelmente ainda estaria preso ao que chamo de compaixão ignorante — aquela que, sem perceber, incentiva as pessoa a se verm como vítimas.
Hoje, quando vejo alguém sofrer, não sinto pena. Não sinto o impulso urgente de salvar. Vejo, em vez disso, o mestre trabalhando — conduzindo o indivíduo, com precisão cirúrgica e inevitável, pelo processo de autoconhecimento.
Foi o sofrimento que me conduziu até aqui. Não apesar das dores — através delas. Cada decisão errada trouxe o mestre junto. Cada vez que me desviei, ele apareceu— pontual, fiel, implacável — e permaneceu ao meu lado até que eu finalmente aprendesse.
Nenhum outro mestre tem essa dedicação.
Nenhum livro tem essa paciência.
Nenhuma filosofia desce ao seu inferno para conduzi-lo, passo a passo, de volta ao paraíso.
O sofrimento faz isso.
Por isso, já não sigo a ninguém: sigo apenas o sofrimento.
Encontrei o guia dos guias, o mestre dos mestres.