Quando ele veio ao mundo, os olhos eram dois bichos ariscos, correndo de um lado a outro sem fixar em nada. Sem prumo. Sem norte.
Entendi na hora: precisava de rédea.
Filho se não freia vira bicho solto.
Corre bonito, mas corre pro precipício.
Comecei cedo.
Enfiei nele um cabresto pequeno.
O rosto mal cabia.
Foi suficiente para entender que tem o caminho certo e tem o caminho errado.
E que o certo era eu.
Seguir meu ditado.
Sabedoria de quem já pisou em pedra…
E sabe onde o pé corta.
Ele puxava. Claro que puxava.
Todo bicho novo quer o mundo.
Eu segurava. Firme.
— É por bem, meu filho — eu dizia, baixinho, do jeito que se acalma um bicho assustado.
Fui apertando, com os anos, o que precisava ser apertado.
A sela, para ele aprender a carregar o peso da família, do nome, da virtude e de tudo que um dia teria que carregar sozinho.
Às vezes usava a espora. De leve. Só para fazer ele lembrar que a vida não aceita passo lento. Que o mundo não espera ninguém.
Depois, aprendeu a sofrer calado.
Silêncio de bicho domado.
Estava dando certo.
Teve o tempo da rédea curta.
Quando ele quis o mundo, quis a rua e as coisas erradas.
Eu puxei de volta.
Com força.
Amarrei no pau.
Porque o mundo é traiçoeiro, é cobra, é lodo.
E mãe que ama não deixa o filho se perder por aí.
Teve os dias de chicote.
Batia com o coração na boca.
Doía nele.
Doía em mim.
Mas filho que não aprende no verbo, aprende no couro.
Eu preferia seu lombo sangrando a ver ele torto.
Estragado pela vida.
Sem rumo.
Verdade seja dita.
Nunca foi maldade. Nunca.
Foi amor.
Amor bravo.
Severo.
Mas amor.
Ele cresceu manso.
Andando no passo que eu marcava.
Cabeça baixa.
Sempre na rédea.
Sem espernear.
Os vizinhos falavam: "Que filho obediente!".
Eu inflava o peito.
Então…
Sem mais nem porquê…
Ele parou.
Simplesmente parou.
Nem rédea, nem sela.
Nem nada.
Ficava parado, estátua.
Ia para onde a mão apontava.
Comia o que eu dava.
Achei, besta, que tinha terminado a doma.
Não tinha.
Não deu tempo.
O menino morreu.
Não gritou.
Não esperneou.
Só morreu.
Não entendo.
Fiz tudo certo.
Tal qual meus pais me ensinaram:
Amar é domar.
E meu filho morreu.
A vida é cruel.