Três Montanhas
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
O autoconhecimento é um jogo com três fases. Cada fase se diferencia da outra pelo entendimento que você tem de si.
Primeiro a montanha existe.
Depois não existe
Depois volta a existir.
Este livro foi escrito para explicar essa metáfora.
O que é explicado aqui não tem o propósito de gerar competição ou comparação. O propósito é dar uma visão geral da jornada do autoconhecimento para que você possa se situar nela.
Cada um está na montanha que está por um motivo ímpar que só cada um pode compreender. Você não tem competência para compreender a jornada do outro. O outro não tem competência para compreender a sua.
Mas você e o outro podem respeitar a jornada um do outro, seja ela como for.
Primeiro a montanha existe.
Depois não existe
Depois volta a existir.
Montanha é metáfora.
Interpretando:
Primeiro você é só humano.
Depois você é só ser.
Depois você é ser humano.
Colocando em termos de mentalidade:
Mentalidade materialista.
Mentalidade espiritualista.
Mentalidade universalista.
Tanto o verso com a palavra "montanha" como o verso com a palavra "humano" usam o mesmo verbo: existir.
Existir = ser.
Eu sou = eu existo.
Essas duas frases dizem a mesma coisa. A diferença entre existir e ser é que "eu sou" é uma auto-afirmação de existência.
Mas por que o verbo existir é fundamental para o entendimento das três montanhas?
Porque mudar de uma montanha para outra é justamente mudar de entendimento sobre o que é existir.
Primeiro a montanha existe.
Depois não existe.
Depois volta a existir.
O que muda com o autoconhecimento não é sua existência — é seu entendimento sobre o que é existir, e consequentemente, sobre o que é ser humano.
Ao mudar de montanha, sua experiência humana permanece a mesma, permanece humana. O que muda é a amplitude da sua visão dela.
A primeira montanha é a mentalidade materialista.
É por onde você começa. É por onde todos começam. É também a mentalidade mais comum atualmente em nossa coletividade.
Para a mentalidade materialista, só as coisas existem — o que não é coisa, não existe. A montanha existe porque é coisa. Você também existe porque é coisa.
Para a mentalidade materialista, existir é tempo.
Ser = tempo.
As coisas existem e deixam de existir por temporalidade.
Nascer é começar a existir. Morrer é deixar de existir.
Então, na primeira montanha, você acredita que sua existência começa no nascimento e termina na morte. É por isso que, aos olhos da mentalidade materialista, você é só humano.
O entendimento materialista ignora o Ser que você é.
Por quê?
Porque o Ser que você é não é coisa nenhuma — embora seja o fabricante e o experimentador de tudo que você experimenta. Para a mentalidade materialista, isso é incompreensível.
A segunda montanha é a mentalidade espiritualista.
É na segunda montanha que você perde o chão — pois é nela que você descobre que realidade é ilusão. Este entendimento surge natural e inevitavelmente conforme você vai despertando para o ser que você é.
Para a mentalidade espiritualista, existir é espaço.
Ser = espaço.
Todas as coisas são ilusões temporais que acontecem no espaço que é você. A temporalidade mutante das coisas acontece na eternidade fixa do Ser que você é.
É na segunda montanha que você descobre que sua existência não tem começo nem fim — que você é um Ser.
Para a mentalidade espiritualista, só o Ser existe.
O que não é, não existe. A montanha não existe porque é coisa temporal. Você, humano, também não existe — porque também é coisa temporal.
A montanha é ilusão. Você, humano, também é ilusão.
Tudo é ilusão.
Para a mentalidade espiritualista, você é só Ser — pois o olhar espiritualista nega o humano que você está.
Por quê?
Porque para a mentalidade espiritualista, Ser é apenas consciência. Você é apenas observador da sua realidade — não criador dela.
A mentalidade espiritualista entende que tudo é ilusão. Mas considerar que você é o criador da sua ilusão — e cocriador da ilusão coletiva — isso é inaceitável.
É um absurdo.
A terceira montanha é a mentalidade universalista.
Na primeira montanha você ignora o Ser que você é. Na segunda montanha você descobre — mas nega o Humano que você está. É na terceira montanha que finalmente você se entende como Ser Humano.
Na mentalidade universalista a montanha volta a existir. Porém, seu entendimento sobre existência — e consequentemente sobre si mesmo — não é mais excludente.
É complementar.
Para a mentalidade materialista, você é só humano. Para a mentalidade espiritualista, você é só ser. Para a mentalidade universalista, você é ser humano.
Na terceira montanha você abandona a dualidade — isto ou aquilo, ser ou humano — e assume a UNIdualidade: isto e aquilo, ser e humano.
Você sabe que a montanha existe e não existe.
Sabe que você é ser e humano.
Você também entende que não é apenas observador da realidade — é também idealizador e realizador.
Mas a terceira montanha não é o fim da brincadeira.
Pelo contrário, é o começo.
A terceira montanha é a ficha de inscrição para a prática da autociência.
É a partir dela que você mergulha de fato em sua experiência humana — para descobri-la e manifestá-la de forma ímpar.
Sala de meditação. Silêncio com grife de franquia — do tipo que faz questão de ser percebido. Um dos meditadores ultrapassa os sete véus de maya, as fronteiras do materialismo paraguaio e acaba diante de Krishna.
Seu nome é Anara. Não o nome de cartório. O outro. O nome que o guru lhe deu depois de concluir que o anterior não ajudava muito na iluminação.
Anara abre o terceiro olho. Com olheiras. Olhar de quem medita diariamente e, ainda assim, não consegue dormir direito.
— Lord Krishna, estou sofrendo.
— Já notei — diz Krishna. — Quem não está?
— Vivo dividido. Gosto da filosofia da não dualidade, do silêncio, da não mente, do não desejar. Mas também gosto do oposto. Das miudezas do mundo. Milhas aéreas, fofocas no WhatsApp, o ar-condicionado no 21, sobremesa gourmet no delivery. Entende? — diz Anara, piscando o terceiro olho.
— Entendo.
— Entende mesmo?
— Meu caro, eu sou uma divindade. Meu emprego consiste basicamente em administrar as contradições do algoritmo humano.
Anara solta um suspiro cósmico.
— E o que eu faço?
— Autoconhecimento.
— De novo isso?
Anara irrita-se. Krishna espera, com a paciência de quem já viu todos os memes da internet.
— Medito todos os dias há sete anos — continua Anara. — Sento naquela almofada de merda como quem cumpre pena. Observo a respiração, os pensamentos passando como no feed do Instagram, o observador observando o observador do observador. Quanto autoconhecimento uma pessoa precisa?
— Não é quanto autoconhecimento, é qual. Você já conhece tudo sobre o nada — autoconhecimento existencial. Mas não conhece nada sobre o tudo — autoconhecimento psicológico e pessoal. Entende?
— Não, nada.
— Me diga: como se conhece qualquer coisa hoje em dia?
Anara faz o impensável: pensa.
O que, para um meditador, é uma recaída.
— Navegando na internet.
— Vire o navegador em 180 graus: navegue em si mesmo.
— Mas se eu sou o vazio, como navegar no vazio?
— Aí é que está. Isso é saber tudo sobre o nada. Mas você não é apenas o Ser puro — só ser. Você é um ser humano. Precisa conhecer também o motorzinho que transforma o nada em tudo: sua natureza humana.
Anara franze o terceiro olho, desconfiado.
— Mas isso... isso não seria uma identificação com o ego? — pergunta Anara, já procurando o contato de Krishna no celular para deletá-lo.
É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito, já dizia Einstein. E a situação piora quando o preconceito é o Ray-Ban do terceiro olho.
— Vamos fazer um trato — propõe Krishna. — Guarde a palavra "ego" no bolso das calças por cinco minutos. Junto com o iPhone.
— E depois?
— Depois você decide se quer levá-la para casa.
Anara obedece.
— Você é um ser humano, certo?
— Certo.
— E o que você sabe sobre isso?
— Sobre ser humano?
— Sim.
Anara abre a boca para responder.
Fecha.
Pensa.
Abre novamente.
Fecha de novo.
— Não sei.
— E sobre você, Anara?
— Também não sei.
— Exatamente.
Krishna sorri satisfeito.
— Você sofre porque é Anara.
— Não captei.
— Seu nome. Sabe o que significa?
— Não.
— Vem do sânscrito. "A" é o prefixo de negação. "Nara" significa humano. Você sofre porque ignora e nega sua humanidade. Você é A-Nara. Sem Humano.
A revelação do próprio nome golpeia Anara no plexo solar e esfarela os sete chakras.
Ele experimenta ali algo muito mais raro que um satori: a verdade nua, crua e difícil de engolir. Esperava que Krishna dissesse isto ou aquilo, mas ouviu isto e aquilo.
É muita coisa para processar. E pensar é coisa do ego. Melhor não.
Pensa Anara, colocando a mão no bolso.
Você não precisa vir-a-ser para ser.
Você é, sempre, inevitavelmente. Não há nada que você possa fazer para deixar de ser. É isso que algumas escolas e mestres orientais de autoconhecimento buscam explicar.
Esse ensinamento é verdadeiro.
Mas é incompleto — e faz você jogar fora o bebê junto com a água suja do banho.
O que falta nesses ensinamentos é a questão do SENDO.
Embora seja desnecessário vir-a-ser para ser, é imprescindível estar SENDO para estar SENDO.
Imagine que você é um gato.
Você não precisa vir-a-ser gato para ser gato — você é gato. Agora imagine que você é um gato cacarejando. Você não deixa de ser gato porque está cacarejando. Mas você cacarejando não está SENDO gato.
Você cacareja, muge, pia, relincha — reza a cartilha da bicharada toda, menos a sua própria. Por isso você sofre.
Você é um ser não SENDO você. SENDO outro.
Iluminação existencial é despertar para o ser. Mas você não é só ser — você é ser humano. Ficar consciente do ser não é suficiente para viver bem. É preciso ficar consciente do funcionamento humano e pessoal também.
Você lê sobre iluminação, despertar da consciência, espiritualidade — e chega à conclusão que está rolando uma festa para a qual não foi convidado.
Fica emputecido.
Quer entrar na festa de qualquer maneira.
Faz meditação, reza, toma chá de bambu, tenta suborno, chantagem, lê tudo que tem para ler — e ainda assim não chega nem na porta.
Até que desiste.
Então: puft! Desperta a consciência. Atinge a iluminação.
E um anjo vem conversar com você:
—Ufa! Iluminou! Até que enfim! Agora pode voltar!
—Como voltar! Dei um duro danado para chegar aqui. Tive que matar o materialismo dos cientistas e o catecismo dos religiosos.
—Sim. E daí?
—Agora sou um iluminado!
—Sim. E daí?
—Iluminados moram no paraíso, não é?
—O que você acha que vai fazer aqui no paraíso? Passar a eternidade tocando harpa e peidando nuvens? Pode voltar!
—Quer dizer que a gente chega na iluminação só para voltar?
—É por isso que os iluminados a chamam de vazio absoluto. Não tem absolutamente nada para fazer aqui. Aliás, nem aqui tem.
—E a festa? Cadê a festa?
—Não tem festa!
—Mas falaram que tinha.
—Pegadinha!
Não adianta ler sobre as três montanhas e tentar dar o passo maior que a mentalidade.
Esteja onde estiver — se quer avançar de uma mentalidade para outra, o jeito é admitir a mentalidade atual e caminhar na prática da autociência.
Boa prática!