Torre Do Ego
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Ninguém sabe quem construiu a torre.
Ela sempre esteve lá. Infinita, sem topo visível, sem fundação encontrada.
E todos que nascem dentro dela aprendem a mesma verdade inquestionável: quanto mais alto você mora, mais você vale.
Porém, quanto mais alto se chega, mais a torre parece vazia.
Torre Do Ego é uma fábula curta e afiada sobre a arquitetura vertical da convivência humana.
Ninguém sabe quem construiu a torre.
Alguns dizem que ela sempre existiu. Outros afirmam que é obra dos antigos. Os religiosos garantem que o Arquiteto Supremo a ergueu antes mesmo do primeiro homem.
Os engenheiros dizem que isso é impossível, pois toda torre precisa de fundação. Só que nunca ninguém encontrou a fundação.
Também nunca encontraram o último andar. A torre sobe tanto que desaparece nas nuvens.
A torre é um movimento perpétuo. Está em obras dia e noite. São milhares de apartamentos subindo e descendo ao mesmo tempo, sem parar nunca.
As crianças aprendem cedo que a torre é o mundo inteiro.
Não existe lado de fora.
E há uma verdade que ninguém ousa contestar: quanto mais alto você mora, mais valor você tem.
— Em que andar você mora? — perguntam os moradores.
Não querem saber o nome, nem a idade, nem a profissão.
O andar responde tudo.
Morar no décimo é aceitável, no quinquagésimo é motivo de respeito.
Acima do centésimo é quase glorificação.
Miguel mora no vigésimo terceiro andar.
É um bom endereço. Não excelente, mas bom.
Sua mãe diz:
— Você deve agradecer. Seu avô passou a vida inteira no décimo primeiro. Seu pai conseguiu chegar ao décimo oitavo. Você já nasceu no vigésimo terceiro. É um abençoado.
Miguel olha pela janela.
Lá embaixo, as pessoas parecem pequenas.
Depois olha para cima. Os apartamentos ultrapassam as nuvens.
Ele pergunta:
— O que existe na cobertura?
A mãe sorri e responde:
— A felicidade.
A mudança é constante.
Famílias inteiras descem, outras sobem. Basta uma decisão do CDA — Conselho De Andares.
Em um mesmo dia, um médico desce vinte pavimentos.
Um cantor sobe quarenta.
Um político despenca.
Um atleta dispara.
Uma atriz cai.
Um empresário volta a subir.
Ninguém entende exatamente os critérios, mas todos comentam, porque toda mudança altera a posição de alguém.
E posição é tudo.
Miguel tem um amigo chamado Elias.
Moram no mesmo corredor, no mesmo andar, em apartamentos de mesmo tamanho. Crescem juntos, brincam juntos.
Até que, numa manhã, Elias aparece sorrindo:
— Fui para o vigésimo quinto.
Miguel o abraça e tenta sorrir, mas alguma coisa estranha acontece.
Pela primeira vez, o apartamento do amigo parece maior, a voz parece mais bonita, as roupas parecem melhores. Até o café parece ter outro cheiro.
Naquela noite, Miguel não consegue dormir. Não porque o amigo subiu, mas porque, sem que ninguém diga nada, ele próprio parece ter descido.
Quando Miguel completa dezoito anos, ele recebe uma carta.
É um envelope branco, grosso, com o brasão do CDA gravado em relevo.
Ele abre com as mãos trêmulas.
<<< Parabéns. A partir de hoje, o senhor está autorizado a subir de andar.>>>
É o sonho de toda criança.
Até então, qualquer mudança de andar dependia da família.
Agora Miguel pode subir por conta própria.
Sua mãe chora.
Seu pai aperta sua mão com orgulho.
— Finalmente você virou homem.
Na manhã seguinte, Miguel veste sua melhor roupa e entra no Elevador.
É enorme. Porém…
Sem botões.
Apenas um ascensorista muito velho.
Miguel espera.
O elevador não se move.
Depois de alguns minutos, ele pergunta:
— Posso subir?
O velho responde:
— Sim, claro.
— Quando? — pergunta Miguel.
— Quando fizer por merecer.
Miguel sai confuso.
Miguel tenta descobrir como subir.
Faz cursos. Lê livros. Trabalha mais horas. É educado. Chega antes. Sai depois. Ajuda colegas. Doa dinheiro. Visita idosos. Nunca reclama.
Nada muda.
Seu apartamento continua no vigésimo terceiro.
Enquanto isso, um homem famoso por humilhar funcionários, aparece morando no quadragésimo.
Um comentarista famoso, especializado em dizer quem presta e quem não presta, ganha quinze andares numa única semana.
Miguel começa a desconfiar.
Talvez esteja fazendo alguma coisa errada.
Eis que Miguel conhece Cervantes, o zelador da torre.
Um homem elegante e calmo.
As pessoas o ouvem como quem escuta um sábio.
Miguel pergunta:
— Como o senhor conseguiu subir tanto?
Cervantes sorri.
— Você realmente não sabe?
— Não.
— Suponho que ainda acredita na história do mérito.
Miguel fica em silêncio.
Cervantes aponta para a janela.
— Olhe bem.
Miguel olha. Não entende.
— Continue olhando.
Demora alguns minutos. Então Miguel vê um apartamento trocando de lugar com o outro. Um sobe ao mesmo tempo que o outro desce.
Cervantes explica:
— Sempre que um sobe, outro desce. Nunca acontece uma coisa sem a outra.
Miguel sente um frio atravessar o peito.
— Quer dizer que...
— Sim, Miguel — Cervantes interrompe. — Não existe subida sem rebaixamento. Para você se posicionar acima do outro, você precisa posicionar o outro abaixo de você.
A torre é uma gangorra.
Chega a noite, mas Miguel não consegue dormir.
Lembra-se de todas as maledicências que ouviu desde criança.
"Fulano é um incompetente."
"Beltrano é ridículo."
"Ela é vulgar."
"Ele é um fracasso."
"Ciclano não presta."
Miguel sempre pensou que fossem apenas opiniões. Agora começa a entender que são o motor da mudança de andar.
Cada maledicência é um pisão na cabeça, empurrando o injuriado para o andar de baixo e fazendo o injuriador subir.
Cada humilhação coloca alguém um pouco mais abaixo.
Miguel não consegue mais desver o funcionamento da torre.
Na fila da padaria.
— Você viu a filha do síndico?
— Aquela ordinária?
A filha desce.
No hospital.
— O que achou do novo médico?
— Sensacional.
O médico sobe.
No elevador.
— Meu filho tem 15 anos.
— Sei, aborrecente.
O filho desce.
Bonito.
Feio.
Esperto.
Burro.
Elegante.
Ridículo.
Bem-sucedido.
Fracassado.
Basta um adjetivo para a torre funcionar.
Fácil. Sem ruído.
Como se respirasse atributos.
Miguel resolve testar o elevador.
Entra numa cafeteria.
Pede um café.
— Açúcar? — pergunta a atendente.
Miguel responde:
— Você é muito gentil.
Na mesma hora, o piso sobe e a moça se eleva alguns centímetros.
Miguel arregala os olhos.
Então é verdade.
Boa ou ruim, toda adjetivação gera mudança de posição.
Toda atribuição de valor reorganiza a torre.
Miguel vai conversar com Cervantes.
Ele precisa entender.
— Então basta humilhar alguém para subir?
Cervantes ri.
— Não.
— Mas foi o que vi.
— Você viu os aprendizes.
Miguel franze a testa. Cervantes pergunta:
— Quem mora mais alto?
Miguel responde sem pensar.
— Os mais admirados.
— Exato.
— E como alguém consegue admiração?
Miguel começa a responder, mas para no meio da frase.
Cervantes levanta e abre a janela.
Lá fora há milhares de apartamentos com milhares de pessoas.
— Veja aquele homem.
É um pregador. Uma multidão o escuta.
— O que ele faz? — pergunta Cervantes.
— Ensina.
— Não.
Miguel olha outra vez.
O pregador está gritando:
— Existem homens de bem e homens perdidos!
A multidão aplaude. E, a cada aplauso, os homens rotulados de bons sobem, e os rotulados de ruins descem.
Cervantes aponta para outro lado. Uma influenciadora grava um vídeo dizendo:
— Mulheres de verdade jamais fariam isso.
Milhares concordam.
A Torre Do Ego se movimenta.
Alguns apartamentos sobem.
Outros descem.
Filósofos. Políticos. Humoristas. Padres. Professores. Cientistas. Mendigos.
Todos fazem exatamente a mesma coisa.
Uns usando palavras bonitas, outros usando palavrões.
Todos construindo a mesma torre.
Miguel sente um vazio no estômago.
— Então somos os construtores da Torre Do Ego.
Cervantes sorri e responde:
— Herdeiros e legadores.
Miguel olha para os moradores.
Nunca reparou.
Mas cada um carrega uma pequena colher de pedreiro pendurada na cintura.
Algumas são pequenas.
Outras grandes.
Toda vez que dizem:
"Isso é melhor."
"Tal pessoa vale mais."
"Esse é um lixo."
"Aquele é brilhante."
A colher de pedreiro aparece sozinha em suas mãos.
Assentam mais um tijolo.
Resedimenta a torre.
Miguel olha para a própria cintura. Há uma colher ali.
Gasta. Coberta de cimento.
Como se estivesse sendo usada há muitos anos.
Muito antes de ele aprender a falar.
Certo dia, Miguel recebe um novo envelope do CDA.
<<< Morador do vigésimo terceiro andar está autorizado a visitar a Cobertura. >>>
Seu coração dispara.
É um privilégio concedido a poucos.
O elevador sobe durante quase uma hora.
Passa por andares tão altos que as janelas já não mostram a cidade, mostram apenas nuvens. Depois, as nuvens passam.
Lá em cima há sol.
O elevador para. As portas se abrem.
Miguel olha.
Espera encontrar jardins, música, silêncio, paz.
Mas encontra longos corredores.
E pessoas correndo de um lado para o outro.
Os moradores da cobertura não dormem.
Em cada apartamento há enormes telescópios apontados para a casa de outros moradores, através dos quais observam uns aos outros.
Um homem grita:
— O centésimo vigésimo andar subiu três apartamentos esta semana!
Outro responde:
— Impossível! Descubram o que ele está fazendo!
Mais adiante, uma mulher rasga jornais e chora como quem perdera um filho.
— Meu nome saiu na segunda página!
Miguel entra numa sala enorme.
Há centenas de pessoas diante de um painel.
O painel mostra apenas números.
124.
125.
126.
127.
Os números mudam o tempo inteiro.
Para cima. Para baixo.
As pessoas comemoram.
Depois desesperam.
Depois comemoram de novo.
Miguel pergunta:
— O que são esses números?
Um homem responde sem desviar os olhos do painel.
— Nossa posição.
— Posição em quê?
— Em tudo.
Na volta, Miguel encontra Cervantes.
— Achei que os moradores da cobertura vivessem em paz por terem atingido o topo.
Cervantes responde:
— Eis o problema! Não existe topo.
Os dias passam.
Miguel tenta esquecer o que viu.
Volta ao trabalho.
Mas agora tudo revela a torre.
À rotina.
O café da manhã.
Às conversas no corredor.
Na empresa onde Miguel trabalha abre uma vaga de gerente.
Cinco candidatos. Um cargo.
O vencedor sobe quinze andares.
Miguel decide competir pela primeira vez.
No começo tenta vencer pelo mérito, trabalhando melhor, chegando cedo, saindo tarde, organizando relatórios, ajudando colegas.
Nada acontece.
Até que escuta uma conversa.
— O Marcelo anda esquecendo as reuniões.
Outro responde:
— Sempre foi um desorganizado.
Os dois sobem alguns centímetros.
Marcelo desce.
Na manhã seguinte, Miguel encontra Marcelo.
Pensa em avisá-lo sobre um erro num relatório. Para. Olha em volta. Há outras pessoas ouvindo. Respira fundo. Depois diz:
— Estranho um gerente que não sabe fazer contas.
Ao voltar para casa encontra um aviso na porta.
<<< Parabéns. Sua residência foi transferida para o vigésimo quarto andar.>>>
O coração acelera.
É verdade.
O rebaixamento do outro faz ele subir.
Funciona.
Na semana seguinte Miguel tem outra oportunidade de ascensão.
Uma apresentação importante.
Miguel sabe que Clara é a pessoa mais preparada da equipe. Mas também sabe que tem medo de falar em público.
Antes da reunião, aproxima-se dela, sorri e diz:
— Você parece nervosa.
Ela sorri e responde:
— Sim, um pouco.
Miguel faz uma pausa. Depois diz bem baixinho:
— Tomara que você não trave de novo.
Clara empalidece.
Entra insegura na sala de reunião.
Erra.
Sai chorando.
Naquela noite Miguel muda para o vigésimo sexto andar.
Enquanto uma equipe de carregadores coloca os móveis de Miguel no novo apartamento, outra equipe retira os móveis de Clara.
Ela desce dois andares.
Miguel sobe dois.
Os meses passam e Miguel aprende rápido.
Não precisa humilhar diretamente, basta sugerir, comparar, insinuar, rir no momento certo, silenciar no momento exato.
Cada pequeno gesto eleva alguns centímetros.
Centímetros viram andares.
Andares viram prestígio.
Prestígio produz mais ascensão.
Quando Miguel chega ao quadragésimo andar, quase não reconhece a própria voz. Fala diferente. Veste-se diferente. Anda devagar.
As pessoas sorriem antes mesmo que ele sorria. Cedem lugar para ele no elevador. Perguntam sua opinião.
Ele gosta. Muito.
Certa tarde encontra o amigo de infância.
Elias mora agora no trigésimo segundo.
Conversam alguns minutos.
Quando se despedem, Elias diz:
— Tenho orgulho de você.
Miguel responde automaticamente:
— Você também chegará lá.
Elias sorri.
Miguel entra no elevador.
Só então percebe.
Não desejou felicidade ao amigo.
Desejou ascensão.
É no quadragésimo primeiro andar que Miguel escuta o boato.
Duas senhoras cochicham perto da lavanderia.
— Você soube?
— De quem?
— Daquela mulher.
— O que aconteceu?
A outra olha para os lados antes de responder, como quem conta um crime.
— Disse que a torre não existe.
As duas fazem o sinal da proteção.
— Cruz credo! Enlouqueceu.
Depois vão embora.
Miguel fica intrigado.
Começa a perguntar discretamente.
As respostas são sempre iguais.
— Não fale sobre isso.
— Dá azar.
— Existem pessoas doentes.
— Gente louca.
Semanas depois, Miguel encontra Cervantes.
— É verdade?
Cervantes responde:
— O quê?
— Há pessoas enlouquecendo.
Cervantes entrega um pequeno mapa para Miguel.
Amarelado. Velho. Desenhado à mão.
E diz:
— Descubra por si mesmo.
Miguel segue o mapa e encontra uma porta escondida atrás de um depósito de limpeza.
Não tem número. Nem maçaneta.
Empurra e abre.
Atrás tem uma escada estreita, escura, sem corrimão.
Ele desce.
Os degraus estão cobertos de poeira.
Quase ninguém passa por ali.
Quanto mais desce, mais silencioso fica o edifício.
Não há discussões.
Nem aplausos.
Nem anúncios.
Nem propagandas.
Nem painéis mostrando posições.
Miguel desce até ouvir risadas.
Para e espia pela fresta de uma porta.
Cinco pessoas jantam juntas.
A mesa é simples e a comida também.
Ninguém disputa a palavra.
Ninguém interrompe ninguém.
As conversas não movimentam a torre.
Uma senhora percebe a presença de Miguel.
Abre a porta.
Convida ele para sentar à mesa.
— Você deve estar com fome — ela diz.
Miguel usa o cumprimento padrão:
— Em que andar você mora?
A mulher responde:
— No meu.
Miguel sente um arrepio.
Os loucos não sabem dizer o próprio endereço.
E, curiosamente, parecem felizes.
Miguel volta todas as noites.
Desce as escadas.
Está curioso.
Os loucos não se incomodam em defender o próprio valor. Nem disputar atenção.
Quando alguém conta uma história, ninguém tenta contar outra melhor.
Quando alguém erra, ninguém faz questão de corrigir.
Quando alguém acerta, ninguém parece diminuir.
As conversas terminam exatamente como começam.
Sem vencedores.
Aquilo o incomoda. Muito.
Numa das noites pergunta:
— Quem manda aqui?
Os loucos olham uns para os outros.
Depois riem.
Noutra noite pergunta:
— Quem é o melhor?
Um rapaz responde:
— Ninguém.
Miguel espera que alguém discorde.
Ninguém discorda.
Aquilo parece impossível.
Na torre toda pergunta terminava em disputa.
Ali, toda pergunta terminava em curiosidade.
Um dia encontra uma menina desenhando no chão.
Ela faz casinhas, árvores, cachorros, pessoas…
Todos na horizontal.
Miguel pergunta:
— Cadê o elevador?
A menina responde:
— Que elevador?
Miguel decide procurar a fundação da torre.
Vai além do lugar onde moram os loucos.
Além das cozinhas.
Além dos depósitos.
Além das tubulações.
Sempre para baixo.
Depois de muitas horas, as escadas chegam ao fim.
Ou melhor.
Ao que deveria ser o fim, pois não há chão.
Miguel fica imóvel.
A última escada termina no vazio.
Olha para baixo.
Nada.
Nem terra.
Nem concreto.
Nem rocha.
Nem pilares.
Nada.
Levanta a cabeça.
Acima dele está a torre inteira.
Milhões de apartamentos.
Milhões de corredores.
Milhões de pessoas.
Tudo suspenso.
Miguel sente as pernas tremerem.
— Isso é impossível.
Miguel aproxima-se da borda.
Espera encontrar cabos.
Estruturas metálicas.
Qualquer coisa.
Não encontra nada.
Miguel olha para cima.
Não enxerga concreto.
Enxerga medo.
Medo de ser esquecido.
Medo de ficar por baixo.
Medo de não ser ninguém.
Cada andar é feito desse medo.
A torre inteira é uma arquitetura de medo.
E, naquele instante, Miguel compreende a loucura dos loucos.
Ninguém é prisioneiro da torre.
Pois a torre não existe.
Miguel tenta imaginar como seria se todos enlouquecessem.
Se parassem de acreditar na torre.
Um minuto apenas.
Sessenta segundos.
Sem comparar.
Sem medir.
Sem subir.
Sem rebaixar.
Miguel pensa que, se todos soubessem da verdade, a torre desapareceria.
Começa a revolução pelos amigos.
Chama Elias para conversar.
— Descobri uma coisa.
— O quê?
— A torre não existe.
Elias sorri.
— Claro que existe.
Miguel balança a cabeça.
— Somos nós que mantemos essa verticalidade, acreditando nela.
Elias permanece em silêncio.
Depois pergunta:
— Você está morando em qual andar agora?
Miguel responde:
— Quadragésimo primeiro.
Elias sorri novamente.
— Então é fácil falar.
Miguel sai frustrado.
Resolve conversar com colegas de trabalho.
A reação é idêntica.
Alguns riem.
Outros dizem que está deprimido.
Alguns insinuam que ele enlouqueceu.
Uma mulher comenta:
— Isso é discurso de quem não consegue subir mais.
Outro responde:
— Inveja.
Outro:
— Ressentimento.
Miguel tenta explicar.
Quanto mais explica, menos é ouvido.
Miguel decide fazer uma revelação coletiva.
Aluga um salão.
Escreve cartazes.
<<< A TORRE NÃO EXISTE >>>
Centenas de pessoas aparecem.
Algumas por curiosidade.
Outras para rir.
Miguel sobe ao palco.
Respira fundo.
Começa a falar.
Conta sobre a fundação.
Fala durante horas.
As pessoas ouvem em silêncio.
Quando termina, pergunta:
— Alguém gostaria de dizer alguma coisa?
Um rapaz levanta a mão.
— Então você descobriu uma verdade que ninguém mais descobriu?
— Sim.
O salão fica em silêncio.
O rapaz pergunta a Miguel:
— Agora devemos aplaudi-lo para que suba muitos andares?
Miguel abre a boca para responder.
Para.
Deixa a colher de pedreiro cair.
O barulho ecoa pelo salão.
Depois vai embora sem terminar a explicação.
Sem convencer ninguém.
A explicação da verdade não é a verdade.
Miguel fecha a porta do seu apartamento e sai.
Não leva malas.
Nem mapas.
Nem discursos.
Desce em silêncio.
Passa pelo subsolo.
Continua.
Depois de muitas horas encontra uma porta.
É pequena, sem fechadura, sem placa.
Ele empurra e ela abre.
Do outro lado há apenas um campo.
Tão plano que faz doer os olhos.
Miguel senta-se na grama.
Depois de algum tempo, Cervantes se aproxima.
Senta-se ao seu lado.
Nenhum dos dois fala.
Ficam olhando o horizonte.
Até que Cervantes faz a pergunta padrão:
— Você mora onde?
Miguel sorri.
Aponta para todos os lados e responde:
— Eu moro aqui.