Teime!
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
É bom ser teimoso. Eu garanto. Se eu não fosse teimoso, não tinha chegado aqui e não estaria escrevendo esse livro. Quando decidi seguir pelo caminho do autoconhecimento, aos 21 anos, tive que ir contra tudo e todos, família, sociedade, amigos e inimigos. Tive que largar meu emprego e minha carreira. Abandonei a banda de rock em que tocava. Abandonei meu vício em álcool e outras drogas. E depois de muitos anos no autoconhecimento, tive que abandonar todas as escolas por onde passei, todos os livros que li, todos os ensinamentos que recebi e todos os gurus que cruzaram meu caminho.
Fiz tudo isso baseado no quê? Na mais pura e absoluta teimosia. Pois a teimosia nunca me prometeu nada em troca. Nunca disse o que viria no futuro. Nunca sequer disse o que viria depois do próximo passo. Me dizia apenas: "teime!". E eu teimei. Muito. Noite e dia. Teimei até o meu limite. E todas às vezes que desisti, teimei em tentar novamente. E foi assim, de teimosia em teimosia, que cheguei aqui.
É com conhecimento de causa que afirmo: não existe maior poder no universo do que a teimosia. Imagine como seria o mundo se por um dia, apenas um dia, todos teimassémos em ser bons, verdadeiros, íntegros, justos, éticos, amorosos, pacientes, benevolentes, beneficentes, etc. Seria maravilhoso, não é? O problema é que usamos a teimosia no sentido posto. Teimamos em ser maus, mentirosos, corruptos, anti-éticos, violentos, impacientes, impiedosos e nocivos. Somos teimosos por natureza, mas usamos a teimosia contra nosso próprio bem. Isso acontece porque teimosia sem consciência é igual carro sem motorista.
Teime! Teime muito! Teime sempre! Teime com todas as suas forças. Teime até desfalecer! Teime mesmo quando tudo e todos estiverem em oposição. Mas teime com consciência para teimar no sentido correto, benéfico, auto-realizador. Esse livro tem o propósito de ajudar você a despertar a consciência e assim fazer bom uso da teimosia. Boa leitura!
Claro que é mais fácil dizer que é difícil. Claro que é mais fácil fazer mimimi. Claro que é mais fácil ficar na mesmice, na zona de conforto, censurar e depois dizer vitorioso: "Eu não disse que era loucura!".
Mas é esse tipo de vitória que você quer experimentar? A vitória do mais do mesmo? A vitória da inércia? Ou será que você está louco de vontade de pirar nas possibilidades, de se atirar de cabeça nos desafios, de colocar o delírio em prática, de realizar o impossível e depois dizer: "Eu não disse que era loucura!".
Quem quer inventa um meio, quem não quer inventa um freio. Se você quer mesmo. Se quer de doer no osso. Se quer de ficar com febre. Então, de que importa o tamanho do desafio? Não há dificuldade capaz de vencer sua inteligência e vontade.
Difícil é viver mal.
Convivo com um rapaz do tipo caga-regra. Se você não conhece esse termo, vou explicar. Cagar regra é uma gíria que significa dizer ao outro o que é certo e errado para o outro. Pai e mãe geralmente são caga-regras. Educadores em geral são caga-regras. Ditadores são o exemplo máximo de caga-regras. Com certeza você conhece um caga-regra, ou então, você mesmo é um. Mas enfim, continuando….
Esse rapaz regularmente caga-regra para mim sobre meu comportamento em um grupo que participamos. Eu escuto as regras dele. Às vezes, concordo, outras vezes, discordo. Quando eu concordo, ele fica todo simpático comigo. Quando eu discordo, ele fecha a cara e me diz: — Não dá para conversar com você, Ferrari, você é muito cabeça dura — Depois vira as costas e encerra a conversa.
Certo dia, durante uma atividade, esse rapaz começou a cagar regra e reclamar do meu comportamento. Ele reclamou uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes, ou até mais. Fiquei de saco cheio. Eu realmente não concordava em fazer o que ele estava querendo que eu fizesse. Mas como estávamos no meio de uma atividade e não havia tempo para dialogar, apenas disse: — Vai a merda e me deixa em paz!
O rapaz ficou horrorizado comigo e começou a reclamar mais ainda. Eu entendi que mandar ele a merda novamente não iria resolver, então, deixei ele reclamando até terminar a atividade. Quando a atividade terminou, perguntei se ele queria conversar. Ele disse que não. Respeitei e peguei minha mochila para ir embora. De repente, ele se acalmou um pouco e disse: — Ok, vamos conversar.
— Você faz exatamente a mesma coisa que reclama que eu faço. Somos iguaizinhos. Não tem diferença nenhuma — eu disse.
O rapaz ficou calado. Achou que eu iria reclamar dele, ou brigar com ele, mas não esperava essa afirmação. Então, me perguntou: — E o que eu faço igual você?
— Você é cabeça dura igual a mim. Somos iguais nisso. Só que eu nunca reclamei disso. Sabe por quê? — eu pergunto.
O rapaz juntou os beicos e fez cara de não sei.
— Eu nunca reclamei porque ser cabeça dura não é um defeito, é uma qualidade — eu disse.
— Não entendi! — disse o rapaz.
— Ser cabeça dura significa que você não abre mão do que você considera certo só porque os outros consideram errado. Significa que você não abre mão dos seus valores só porque os outros acham ridículo. Significa que você não faz o que os outros querem só porque os outros querem. Ser cabeça dura é ser teimoso. Isso é ótimo! O mundo seria um lugar muito melhor, se todos os seres humanos fossem cabeças duras ao invés de cabeças moles — eu disse.
— E o que é ser cabeça mole? — perguntou o rapaz.
— Ser cabeça mole é desistir do que você considera certo só porque os outros consideram errado. É desistir dos seus valores só porque os outros acham ridículo. É fazer o que os outros querem que você faça só porque os outros querem. Enfim, ser cabeça mole é ser maria vai com as outras — eu disse.
— Maria vai com as outras, nunca! Isso não! — disse o rapaz.
— Exatamente! Nisso somos idênticos! Você é cabeça dura igual a mim. Só que eu não reclamo da sua cabeça dura, mas você reclama da minha. Então, te pergunto: por que a sua cabeça dura é uma virtude e a minha é um problema?
— Me diga você! — respondeu o rapaz.
— Eu sou cabeça dura e você é cabeça dura. Somos iguais nisso. Mas eu sou cabeça dura de um tipo e você é de outro tipo. É por isso que eu não reclamo de você, mas você reclama de mim — eu disse.
— Quer dizer que tem dois tipos de cabeça dura? Quais são os dois tipos? — perguntou o rapaz.
— Cabeça dura democrática e cabeça dura caga-regra — eu respondi.
— O que é caga-regra — ele perguntou.
— Cagar regra é uma gíria que significa dizer ao outro o que é certo e errado para o outro — eu disse.
— Qual o problema nisso? — o rapaz perguntou.
— O problema é que você não tem competência em saber o que é certo e errado para o outro, pois o outro é outro, diferente de você — respondi.
— Mas se é certo é certo, se é errado é errado! — ele disse.
— Para você é certo colocar açúcar no café? — eu perguntei.
— Sim, é certo — ele respondeu.
— E para um diabético, é certo colocar açúcar no café? — eu perguntei.
— Não! É errado — ele respondeu.
— Certo e errado não é absoluto, é relativo, é particular. O que serve para você, pode não servir para o outro, o que faz bem para você, pode fazer mal para o outro, o que é importante para você, pode ser irrelevante para o outro, e vice-versa — eu disse.
— Eu sei disso! — disse o rapaz.
— Se soubesse, não reclamava da minha cabeça dura — eu disse.
— Eu reclamo porque você é cabeça dura! — o rapaz disse.
— Sim, mas você também é cabeça dura e eu não reclamo. Por que você reclama da minha cabeça dura e eu não reclamo da sua? — eu disse.
— Já falei! Me responda você! — disse o rapaz.
— Porque eu sou cabeça dura democrático e você é cabeça dura caga-regra. Para mim, cada um é livre para acreditar diferente, gostar diferente, dar valor diferente. Você é o oposto, quer que todos acreditem igual você, gostem igual você e valorizem o mesmo que você. Quando você reclama da minha cabeça dura, na verdade, você está querendo dizer: Ferrari, seja cabeça mole e pense igual a mim! Quando eu penso diferente, você me chama de cabeça dura como estratégia para amolecer minha cabeça — eu disse.
— Discordo! — disse o rapaz.
— Ótimo! Não precisa concordar comigo, seja cabeça dura, pense no assunto com sua própria cabeça. Se fizer isso, você verá que é verdade: você é caga-regra — eu disse.
— Eu pensei no que você falou sobre ser caga-regra — disse o rapaz.
— E qual foi a sua conclusão? — eu perguntei.
— Eu concordo que às vezes eu quero que você faça o que eu acho certo. Mas eu só faço isso porque eu quero o seu bem e o bem do grupo — disse o rapaz.
— Eu acredito em você. Eu sei que sua intenção é boa. Mas o fato de você ter uma boa intenção não te dá o direito de impor o seu certo para o outro — eu disse.
— Mas se eu não falar o que eu acho certo, como vamos resolver nossos conflitos? — perguntou o rapaz.
— O primeiro passo é o diálogo. No diálogo, cada cabeça dura expõe o seu certo sem tentar impor ao outro. Eu te digo o que eu acho certo e você me diz o que você acha certo. Sem críticas, sem julgamentos, sem ofensas. Apenas exposição de ideias. É impossível saber o que está dentro da minha cabeça dura se eu não te contar. O diálogo é o primeiro passo para solução — eu disse.
— E qual é o segundo passo? — o rapaz me perguntou.
— O segundo passo é o acordo. Devemos pensar em uma solução que beneficíe todas as cabeças duras envolvidas — eu disse.
— E se não tiver acordo — o rapaz me perguntou.
— Pode ser que a solução não appareça de imediato. Pode ser que leve algum tempo até pensar em uma opção que beneficíe todas as cabeças duras envolvidas. Mas sempre surge uma ideia conciliadora. E se não surgir e não tiver acordo, ainda tem uma alternativa infalível — eu disse.
— Qual? — o rapaz me perguntou.
— O respeito. Cada um faz o que acha certo e respeita o certo do outro — eu disse.
— Entendi! Foi uma boa conversa. Claro que não foi exatamente assim que essa conversa aconteceu. Você colocou palavras na minha boca e entendimentos na minha cabeça que não aconteceram de fato — disse o rapaz.
— Sim, pois o propósito desse texto não é descrever exatamente o que aconteceu, é ajudar o leitor a entender os dois tipos de teimosia: democrática e caga-regra. Acho que nossa conversa cumpriu esse propósito — eu disse.
— Agora concordamos — disse o rapaz.
Teime!
Teime muito!
Teime sempre!
Teime com todas as suas forças.
Teime até desfalecer!
Teime mesmo quando tudo e todos estiverem em oposição.
Mas verifique sempre se sua teimosia é uma teimosia democrática ou caga-regra.
Se for uma teimosia caga-regra, para o seu próprio bem, desista dela.
Teimosia caga-regra não produz bem viver nem boa convivência.
Não vou explicar o porque nesse livro. Mas se quiser entender mais, tem vários outros livros no site da 1ficina que explicam isso. Basta fazer uma busca pelo termo "outroísmo impositivo".
Se sua teimosia for caga-regra, para o seu próprio bem, transforme-a em uma teimosia democrática.
Ao fazer isso, você não estará desistindo do que é certo e valoroso para você, estará apenas desistindo de fazer algo impossível: fazer com que todos os seres do universo pensem igual você.
Isso é impossível e quando você desiste disso, o benefício é todo seu.
Se sua teimosia visa mudar o outro: sua esposa, seu marido, seus filhos, seu pai, sua mãe, seus amigos, seus inimigos, a sociedade, o governo, o mundo, etc, então, sua teimosia é caga-regra. Mas se sua teimosia visa mudar a si mesmo: seus hábitos, seus pensamentos, seus sentimentos, suas atitudes, sua vida, etc, então, sua teimosia é democrática.
Portanto, sempre que você disser ou pensar: "Eu sou teimoso!", acrescente uma vírgula e diga: "mas sou teimoso comigo mesmo!".
Teime em ser uma pessoa melhor para si mesma. Teime em ser mais consciente. Teime em ser mais amoroso. Teime em ser mais verdadeiro. Teime em ser mais íntegro. Teime em ser mais justo. Teime em ser mais ético. Teime em ser mais paciente. Teime em ser mais benevolente. Teime em ser mais beneficente. Enfim, teime em ser feliz!
Teime! Teime! Teime muito! Teime sempre! Teime com todas as suas forças. Teime até desfalecer! Teime mesmo quando tudo e todos estiverem em oposição. Teime!