Quem?
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Sou professor de autociência. Ensino meus alunos a praticarem auto-observação e produzirem autoconhecimento. Todas as pessoas que me procuram, sem exceção, buscam a resposta para mesma pergunta, a mais antiga das perguntas humanas, a pergunta que não quer calar e jamais será calada: quem sou eu? Suponho que esse seja seu caso também, caro leitor. Você quer saber quem é você.
Você acredita que vive mal porque ignora quem é você. E acredita que quando descobrir vai ser feliz. Pois bem, eu tenho uma boa e uma má notícia para você. A má notícia é que essa crença é um equívoco. A boa notícia é que essa crença é um equívoco. Não entendeu? Explico.
Sua crença sobre autoconhecimento é um equívoco. Eu lhe garanto que é. Estou escrevendo esse livro para que você desperte desse equívoco. Porém, se esse equívoco é um equívoco de estimação, se você passou a vida inteira cultivando esse equívoco, o que vou explicar nesse livro é má notícia. Mas se você não aguenta mais viver correndo atrás do próprio rabo, o que vou explicar nesse livro é boa notícia.
Boa leitura e muitas Eureka!
Autoconhecimento, no sentido de descobrir quem você é, é um equívoco. É o maior e mais recorrente equívoco entre os buscadores de autoconhecimento. E pior! É uma das principais fontes de sofrimento e mal viver entre os buscadores.
O termo "quem" supõe que você é uma pessoa só, sempre a mesma pessoa, imutável. Mas você não é uma pessoa só, imutável, você é múltiplas pessoas, aliás, infinitas. Se você fosse uma pessoa só, imutável, sempre a mesma, você ainda estaria chupando chupeta e com medo do bicho papão, tal como a pessoa que você foi na infância.
A palavra personalidade vem de persona. Persona é pessoa. Você, assim como todo ser humano, não é uma pessoa só, você é múltiplas pessoas. Pense no seguinte. Seu relacionamento com o padeiro é o mesmo que você tem com seu marido/esposa? Você é a mesma pessoa nos dois casos? Seu comportamento no futebol é o mesmo que você tem no trabalho? Você é a mesma pessoa nos dois casos?
É por isso que você jamais irá encontrar seu eu verdadeiro, porque você é múltiplos eus, múltiplas pessoas, e todas são você. A pessoa que conversa com o padeiro é você, a pessoa que beija sua esposa é outro você, a pessoa que grita no futebol é outro você, a pessoa que trabalha concentrado é outro você.
Não existe esse tal de eu verdadeiro, no sentido de personalidade real, fixa e imutável. Esse é o equívoco. É por isso que você vive correndo atrás do rabo. Você não é uma cebola de eus falsos que tem um eu verdadeiro no centro. Você é uma cebola de eus. Ponto final.
Todas suas múltiplas personalidades são você. Você olha no espelho, vê um corpo só, e acredita que é uma pessoa só, imutável. Mas nem seu corpo é um só, seu corpo é multiplicidade de células. E não são células fixas. A cada instante, milhares de células morrem e milhares de células novas nascem. Seu corpo é múltiplo e mutante. Tudo no universo é múltiplo e mutante. Por que sua personalidade seria exceção?
Cada pessoa dentro de você tem alguma coisa para manifestar e para oferecer a sua coletividade interior. Você não precisa e não deve excluir nenhuma personalidade em detrimento de outra supostamente verdadeira para viver bem. Muito pelo contrário, viver bem vem da inclusão de todas as suas personalidades como verdadeiras e não da exclusão e segregação delas entre verdadeiras e falsas.
Você exclui e segrega as pessoas no mundo externo porque você exclui e segrega suas personalidades em você. O mundo, assim como você, não é uma pessoa só, o mundo também é feito de múltiplas personalidades. Aceite suas múltiplas personalidades tal como são e você começará a aceitar todas as pessoas do mundo tal como são.
Sua busca por si mesmo é fuga. Por isso você nunca se encontra. Desista! Ao invés de viver buscando quem você é, buscando o mito do eu verdadeiro, apenas aceite sua múltipla personalidade. Você não vive mal porque ainda não encontrou seu eu verdadeiro, você vive mal porque ainda não aceitou que todos eus são verdadeiros. Aceite isso e será o começo do fim do seu sofrimento.
Vamos supor que seu nome é Moisés. Imagine que você, Moisés, deita de noite na cama e dorme. Quando você acorda de manhã, quem é você? Ora, você é Moisés, certo? Você dorme Moisés e acorda Moisés. Mas por que você acorda Moisés? Por que você não acorda outra pessoa? Porque você dormiu com as memórias de Moisés e acordou com as memórias de Moisés.
Agora, imagine que você dormiu Moisés, mas durante a noite você perdeu todas as memórias. Todas, todas, todas. Vazio completo. Quando você acorda: quem é você? Você é ninguém. Você é um bebê recém nascido com corpo de adulto.
Agora, imagine que você dormiu Moisés e durante a noite sua memória foi trocada pela memória de Jesus. Você dormiu com memória de Moisés e acordou com memória de Jesus. Quando você acorda: quem é você? Você é Jesus, sem tirar nem pôr, sem sombra de dúvida. Você sobe o Monte das Bem-Aventuranças e começa a pregar o sermão da montanha.
Entende do que as pessoas são feitas? Pessoa são feitas de memória. Você é a pessoa que sua memória diz que você é. O outro é a pessoa que a memória dele diz que ele é.
Agora que já desmistificamos o mito do "eu verdadeiro", vamos à pergunta subsequente: "O que é uma personalidade?". Para que você possa entender isso, primeiro é preciso que fique consciente de três obviedades.
Existem infinitas formas de manifestação, mas não existe manifestação sem forma. Por exemplo, você pode manifestar seu afeto por alguém dizendo "eu te amo" em português, em inglês, em russo, em linguagem de sinais, dando um presente ou um abraço. É impossível você manifestar seu afeto por alguém sem usar uma forma de manifestação. Essa é a primeira obviedade: toda manifestação acontece de alguma forma.
Só que uma forma não é causa de si mesma, não existe por si mesma. Toda forma é produto de uma fôrma. Não existe forma sem fôrma. O bolo redondo é produto da fôrma redonda. O bolo quadrado é produto da fôrma quadrada. Essa é a segunda obviedade: toda forma é produto de uma fôrma.
A forma é visível e a fôrma é invisível. Esse texto que você está lendo na tela do seu celular, por exemplo, é a forma visível. A fôrma invisível desse texto é o sistema operacional do seu celular, o famoso Android. Sem o Android invisível funcionando não teria texto visível para você ler. Essa é a terceira obviedade: toda forma visível é produto de uma fôrma invisível.
Uma vez constatadas essas três obviedades, e uma vez que manifestação é comportamento, podemos facilmente definir o que é personalidade. Uma personalidade é uma fôrma mental invisível que você usa para produzir comportamentos visíveis e entender o comportamento dos outros.
Em outras palavras, suas personalidades são suas mentalidades, suas crenças, suas receitas mentais de como você deve se comportar. Cada receita de comportamento em você é uma personalidade.
Quando você senta na mesa para almoçar, por exemplo, é uma personalidade que lhe diz que você deve usar garfo e faca para manusear a comida no prato. Quando tem jogo da copa do mundo, é uma personalidade que lhe diz para torcer para a seleção brasileira. Quando você chega em casa do trabalho, é uma personalidade que diz para você abraçar seus filhos e se comportar como pai de família.
Peça para uma criança fazer um bolo. Ela vai conseguir? Não vai. Por que não? Porque bolo é o produto final. Para se chegar a um produto final é preciso uma receita mental. Uma criança ainda não tem personalidade de cozinheira. Tão logo adquira receitas mentais de como fazer um bolo, ela fará bolos e muito mais. Um comportamento é você executando uma receita mental adquirida. Personalidades são receitas mentais adquiridas.
No filme Matrix, Neo não conseguia lutar Kung Fu porque não tinha personalidade de lutador de Kung Fu, não tinha receitas mentais de como lutar Kung Fu. Porém, tão logo o Neo adquiriu essas receitas, ele se tornou um lutador de Kung Fu e conseguiu lutar Kung Fu.
Imagine que o desafio do Neo não fosse lutar Kung Fu, que fosse viver e conviver bem. É exatamente isso que você tem feito desde que nasceu, produzido personalidades que lhe ajudem a realizar o desafio de viver bem e conviver bem. O problema é usar uma personalidade de lutador de Kung Fu para fazer bolo.
Personalidade é ferramenta. Você é o usuário das suas personalidades. Ferramenta deve servir ao propósito de uso do usuário. Se não serve, ou não serve bem, o usuário deve melhorá-la ou trocá-la. Se seu propósito é viver e conviver bem, mas uma determinada personalidade não está servindo para isso, você, usuário, deve melhorá-la ou trocá-la.
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, faz uma afirmação expressiva e desconcertante sobre a personalidade. Ele diz: "O ego não é senhor em sua própria casa". A palavra "ego" é o termo em latim para dizer "eu". Freud está dizendo que você não é dono da sua vontade, que sua vontade é dona de você. Falta incluir o arbítrio na equação, mas a observação de Freud sobre ferramenta e vontade está correta.
Ferramenta não tem vontade própria. A fonte da vontade de uma ferramenta não é a ferramenta, é o usuário da ferramenta. Observe uma tesoura cortando um tecido. A tesoura, por si só, não quer cortar o tecido, QUEM quer cortar o tecido é a costureira. A tesoura é a ferramenta que a costureira está usando para realizar sua vontade. O mesmo acontece com suas personalidades, são apenas ferramentas mentais sem vontade própria.
De QUEM é a vontade que anima a manifestação das suas personalidades? Esse QUEM é voser (você-ser). Você não é SÓ humano, você é SER humano. O ser que você é existe, é existencial. Você não percebe isso porque voser está se manifestando através da natureza humana e voser, usuário da natureza humana, se confunde com a ferramenta que está usando. Tudo que você faz é motivado por voser. QUEM quer é voser. Só que voser não vê voser, voser só vê você (pessoa), então voser passa a acreditar que voser é você (só humano).
O desejo humano não é humano, é existencial.
Assim como uma tesoura na mão da costureira, suas personalidades são instrumentos mentais na mão da sua vontade. Só que a natureza humana é um instrumento muito mais complexo do que uma tesoura, então requer muito mais lucidez e maestria do usuário para ser bem usado. Você vive mal, primeiramente, porque ignora que voser é o usuário da natureza humana. Sua casa de fato é uma casa sem dono.
Você vai continuar vivendo mal enquanto não produzir sua própria lucidez e maestria sobre a natureza humana, mas você pode começar a praticar auto-observação e autoanálise agora mesmo. É isso que estou fazendo nesse livro, ajudando você a se esclarecer.
Sendo que o dono da casa é voser e todas as suas personalidades só existem para realizar sua vontade, a pergunta fundamental é: o que voser quer? Voser quer ser uma pessoa. Por isso que voser produz múltiplas personalidades. Cada pessoa em você é voser fazendo experiências com a forma humana e aprendendo a ser voser em pessoa. Se você é uma pessoa tímida, revoltada, alegre ou romântica, é você fazendo experiências e aprendendo a ser voser em pessoa. Cada personalidade sua é um laboratório de autorrealização. Toda personalidade é útil.
Não funciona usar personalidade de homem bomba para produzir comportamentos pacíficos, nem personalidade de criança birrenta para produzir comportamentos adultos. "Esse sou eu! É assim que eu sou!". Isso é um equívoco.
Nenhuma personalidade sua é QUEM você é. Cada personalidade que você usa é QUEM você se programou para ser. É fundamental ficar consciente que voser é o usuário e suas personalidades são suas ferramentas, caso contrário, o usuário acaba virando escravo da ferramenta.
Personalidades são programas mentais muito complexos e você é capaz de criar múltiplas personalidades, alterá-las, melhorá-las, trocá-las e deletá-las. O problema começa quando voser (criador) se confunde com você (criatura). Ao fazer isso, você se bloqueia para a possibilidade de ser QUEM você quiser.
Você prefere ser você ou ser feliz? Essa é a pergunta que retira você do equívoco do "eu verdadeiro". A crença no "eu verdadeiro" diz que você precisa saber quem você é para ser feliz, mas é justamente o contrário, você precisa ser feliz para ser quem você é, para você (criatura) viver em acordo com você (criador). Eis a função da felicidade e do sofrimento: deixar você consciente se está vivendo EM ou SEM acordo com voser. Você feliz é sinal de acordo com sua vontade; você sofrendo é sinal de desacordo.
As emoções agradáveis (felicidade) e as emoções desagradáveis (sofrimento) são o telefone pelo qual voser se comunica com você. Para que você possa criar e usar suas personalidades em acordo com sua vontade, é fundamental tomar duas decisões:
— Atender o telefone quando o sofrimento tocar.
— Conversar com o sofrimento.
Acolher o sofrimento é o primeiro passo. Não tem como você entrar em acordo com voser se você não conversar com voser através do telefone do sofrimento.
A função do sofrimento não é te fazer sofrer, é te deixar consciente que você está usando uma personalidade desalinhada com sua vontade. Para executar o realinhamento, você deve conversar com o sofrimento até ficar consciente sobre qual é o desalinhamento. Uma vez consciente, basta se manter consciente toda vez que o desalinhamento voltar a acontecer. Repetindo a consciência do erro, você vai passo a passo reprogramando a personalidade.
Antes de terminar esse livro, devo lhe dizer que embora seja impossível você saber QUEM você é, é completamente possível e recomendável ficar consciente sobre O QUE você é. Todos os livros da 1FICINA se propõem única e exclusivamente a explicar O QUE você é. Mas para viver bem é preciso desconfundir essa sutil confusão do QUEM. O QUE você é não é o mesmo de QUEM você é. O QUE diz respeito a sua identidade existencial, ou seja, sua unicidade. QUEM diz respeito a sua personalidade.
O coordenador do vestibular entrega os envelopes. Abro o meu. São quatro folhas. Na primeira está escrito:
— Quem é você?
Não sei responder. Pulo. Na segunda, está escrito:
— Qual é a pergunta que mais gostaria que fosse respondida?
Sem hesitar, transcrevo o enigma da folha anterior:
— Quem sou eu?
Sigo para a terceira folha, que ordena:
— Responda à sua pergunta anterior.
O silêncio ecoa no papel. Pulo novamente. A quarta é um deserto branco. Sem instruções. Sem saída.
Entrego a prova.
O coordenador a folheia sem pressa. Para na última página vazia, como se esperasse algo surgir ali. Então me devolve as quatro folhas.
— Leve com você — diz, em voz baixa. — Sempre.
Saio com as folhas nas mãos, sem dedos.
Em casa, meus pais me recebem com alegria. Digo que fui reprovado. Mostro minha prova: em branco, apenas com a pergunta:
— Quem sou eu?
Eles riem. Mostram a prova deles. Também em branco. A mesma pergunta:
— Quem sou eu?
Eu rio junto!
Seja eu quem for.
Escrevi esse livro depois que assisti o seriado Mr Robot.
Eliot me inspirou.
Então, para terminar, deixo aqui meu agradecimento pela inspiração.
Thank you, Eliot.