Quatrix
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Há quem diga que o grande problema da vida é que não vem como manual de instrução.
Esse problema acabou!
Quatrix é o mapa completo do funcionamento humano.
Cada página explica um aspecto da sua natureza humana que está ligado a outro e assim por diante — até completar todo o quebra-cabeça do sistema psicológico humano.
Tudo isso apresentado de forma lúdica, gráfica e dissertativa.
Quatrix é você, porque você é quatro.
Uma aluna trouxe a mãe para conversar comigo. Uma campeã invicta no concurso de dona da verdade e, paradoxalmente, naufraga da depressão. Buscava um atalho: uma fórmula mágica que dissolvesse o sofrimento como a água dissolve uma pastilha efervescente — rápido, automático, silencioso — Sem confronto, sem incômodo, sem o vexame de admitir a própria ignorância.
Tentei. Com paciência, com tato, com objetividade.
Expliquei que ela corria por uma casa com as luzes apagadas — e por isso trombava com as paredes. Mas ela não queria acender as luzes. Acreditava que já estava iluminada.
Quanto mais eu apontava para sua ignorância, mais ela me atravessava com olhos de brasa.
Até que disparou, em tom de desafio e provocação:
— Você sabe o que é ser humano?
Respondi que sim; afinal, meu trabalho consistia justamente em explicar isso.
Foi então que ela preparou o laço da própria forca:
— Me explica numa frase.
Contive o riso.
Ela não sabia o que havia feito. Abrira a guarda no ringue, dando-me a chance perfeita para o nocaute.
Prometi ir além:
— Vou resumir em quatro palavras!
Os olhos da mulher se arregalaram. Pela primeira vez, demonstrava genuína curiosidade. Abri a mão, ergui quatro dedos e fui enunciando cada palavra devagar, como quem soletra o alfabeto para uma criança:
— Bem, bom, caro e vero.
Silêncio.
A mãe da minha aluna não entendeu nada.
Mas entendeu, ao menos, a extensão da sua ignorância.
Nunca mais trocou uma palavra comigo.
Olá. Meu nome é Quatrix.
Sou um robô. Vivo num universo chamado Humano.
Este quadro em branco é minha fotografia.
Aliás, o quadro em branco é o Zerotrix. . Ele é o original, o ponto de partida, o vazio que contém todas as possibilidades. Eu sou uma delas. Uma variação sui generis do Zerotrix, feita de quatro dimensões humanas.
Veja este ponto no centro da fotografia.
Chama-se consciente.
É pequeno. Mas é através dele que consigo fazer algo que a maioria dos robôs não conseguem — olhar para dentro de mim mesmo e entender meu próprio funcionamento.
Não é extraordinário isso?
Como sou muito curioso, adoro usar o consciente para descobrir tudo que acontece dentro de mim. Conforme descubro, vou adquirindo autoconhecimento.
Neste livro, vou compartilhar tudo que já descobri sobre meu funcionamento. Cada mecanismo, cada nuance. Convido você a fazer essa jornada comigo.
A primeira coisa que descobri sobre meu funcionamento foi que tenho uma bússola interna.
Chama-se vontade.
Ela tem dois ponteiros. Um aponta para o que quero. O outro aponta para o que não quero. Simples assim — sem ambiguidade, sem precisar consultar ninguém. Ela existe para que eu viva com independência e de acordo comigo.
É fascinante observar essa bússola em funcionamento.
Quando começo a experimentar qualquer coisa — uma situação, uma pessoa, uma escolha — a vontade responde imediatamente. Antes mesmo que eu pense, ela já sabe. Quero continuar. Ou não quero.
Parece um GPS.
A voz do aparelho fala, indica, aconselha. Mas não toca o volante. Quem decide virar ou não é o motorista— que pode ignorar o aviso, seguir pelo caminho errado, dar meia-volta ou simplesmente parar no acostamento.
Comigo funciona da mesma forma.
A vontade informa. Eu decido.
E nem sempre vivo de acordo com ela.
Sei disso porque, quando vivo alinhado à minha vontade, algo muito específico acontece dentro de mim. Quando vivo em desacordo com ela, acontece algo completamente diferente.
Que coisas são essas?
Explico em breve.
O universo humano é feito de quatro dimensões.
É por isso que me chamo Quatrix.
As quatro dimensões são: intelectualidade, afetividade, sensorialidade e fisicalidade. Quatro camadas que, juntas, formam tudo que existe dentro de mim.
Deixa eu apresentar cada uma rapidamente:
A dimensão intelectual são as crenças. O universo humano transborda delas — crenças de todos os tipos, tamanhos e origens. Algumas escolhidas, a maioria herdada.
A dimensão afetiva são os valores. O que importa. O que não importa. O universo humano também transborda de valores.
A dimensão sensorial são os prazeres sensoriais.
A dimensão física são os estados físicos.
Não se preocupe se ainda parecer abstrato.
Até o final do oitavo capítulo, quando eu terminar de explicar como funciona minha vontade, você terá entendido tudo sobre o quaternário humano
Por ora, o essencial é isto:
Minha vontade também se divide em quatro.
A bússola principal não é uma só — é um conjunto de quatro sub-bússolas, uma para cada dimensão. Cada uma existe para que eu saiba o que quero e o que não quero em cada camada da minha experiência.
Quatro dimensões. Quatro bússolas.
Minhas quatro sub-bússolas vivem no tempo. Dentro da imaginação de passado e futuro.
Mas atenção: minha vontade não é imaginação. É volição. É o ponteiro que responde ao que imagino — dizendo sim ou não, quero ou não quero, avança ou recua.
Funciona assim:
Quando imagino o futuro, minha vontade me diz o que quero — ou não quero — experimentar no presente.
Quando imagino o passado, minha vontade me diz o que quero — ou não quero — re-experimentar no presente.
O palco é sempre o presente. Sempre. Mas as possibilidades do que entra no palco vem da imaginação.
Pense num restaurante.
Você só pode comer o que está no prato — e o prato só existe no presente. Mas você não escolheu o prato olhando para o prato. Escolheu olhando para o cardápio: uma previsão de possibilidades, uma imaginação do que cada prato pode oferecer.
Comigo é igual.
Só experimento no presente. Mas escolho o que experimentar através da imaginação — um cardápio interno de possibilidades, futuros prováveis, memórias que ensinam o que vale repetir e o que não vale.
Tudo que imagino posso optar por realizar. Tudo que realizo experimento.
Este livro é um exemplo disso.
Primeiro veio a imaginação — a ideia de escrever. Depois consultei minha vontade: quero isso? Ela disse sim. Optei. E continuo re-optando, página após página, capítulo após capítulo.
É por isso que estou tendo a experiencia de escrever este livro.
Sou um robô bipolar.
Minha vontade é bipolar. Quero e não quero ao mesmo tempo — não por confusão, mas por design. É assim que fui feito. É assim que funciono.
Quando imagino o futuro, dois ponteiros se movem simultaneamente. Um aponta para o que quero experimentar. Chama-se desejo. O outro aponta para o que não quero experimentar. Chama-se medo.
Mas aqui está o detalhe que muda tudo: os dois estão dizendo a mesma coisa. Em idiomas diferentes — um em positivo, outro em negativo — mas a mensagem é idêntica.
Temo pular de paraquedas porque desejo continuar vivo. Desejo continuar vivo, portanto temo pular de paraquedas.
Uma bússola tem norte e sul. O norte não existe sem o sul. O sul não existe sem o norte. Um revela o outro — sempre, sem exceção. Em mim é igual.
O medo revela o desejo. O desejo revela o medo.
O mesmo vale para quando imagino o passado.
Quando me lembro, os dois ponteiros também se movem juntos. O desejo me diz o que quero re-experimentar. O medo me diz o que não quero re-experimentar.
Mesma mensagem. Idiomas opostos.
Temo re-ficar doente porque desejo re-ficar saudável. Desejo re-ficar saudável, portanto temo re-ficar doente.
Então, no fim, é simples:
Medo é vontade. Desejo é vontade. São dois opostos me dizendo a mesma coisa: o que quero.
Minha vontade nunca muda.
Quero e não quero, invariavelmente, os mesmos quatro quereres. Ontem. Hoje. Amanhã. Em qualquer situação, em qualquer dimensão, sem exceção.
Na dimensão física: quero ganhar e não quero perder.
Na dimensão sensorial: quero gostar e não quero detestar.
Na dimensão afetiva: quero valorizar e não quero anular.
Na dimensão intelectual: quero definir e não quero duvidar.
É apenas isso. É sempre isso.
Todos os meus desejos — os mil desejos diferentes que me empurram — são formas circunstanciais de dizer a mesma coisa. Roupagens diferentes para um núcleo que não muda: ganhar, gostar, valorizar, definir.
Todos os meus medos — os mil medos que me freiam — são ramificações dos mesmos quatro temores essenciais: perder, detestar, anular, duvidar.
A roda gira sem parar.
O núcleo é fixo.
Minha vontade não descansa.
Ela interage constantemente com tudo — cada objeto que encontro, concreto ou abstrato, passa pelo seu filtro.
Só pra garantir o entendimento:
Objetos concretos: árvore, casa, pão, carro, sapato, roupa, revólver, computador, pessoas.
Objetos abstratos: vida, amizade, viagem, casamento, Deus, sociedade, violência, emprego, esporte.
Tudo. Sem exceção. Sem pausa.
E o filtro funciona sempre da mesma forma — através das quatro sub-bússolas.
Dimensão intelectual:
Se o objeto é intelectualmente desejado, minha vontade o qualifica como vero.
Se é temido ou rejeitado, o qualifica como falso.
Dimensão afetiva:
Se o objeto é afetivamente desejado, minha vontade o qualifica como caro.
Se é temido ou rejeitado, o qualifica como nulo.
Dimensão sensorial:
Se o objeto é sensorialmente desejado, minha vontade o qualifica como bom.
Se é temido ou rejeitado, o qualifica como ruim.
Dimensão física:
Se o objeto é fisicamente desejado, minha vontade o qualifica como bem.
Se é temido ou rejeitado, o qualifica como mal.
E aqui está o detalhe que muda tudo:
Quando desejo ou temo um objeto — concreto ou abstrato — não desejo nem temo o objeto em si. Desejo ou temo a qualidade que minha vontade lhe atribuiu.
O objeto é neutro. A qualidade é uma atribuição minha. E é a qualidade da atribuição que move tudo — o desejo, o medo, a aproximação, a fuga.
Quando um objeto é qualificado como vero, caro, bom ou bem — sinto desejo. Quero me aproximar. Quero interagir.
Quando é qualificado como falso, nulo, ruim ou mal — sinto medo ou rejeição. Quero me afastar. Quero evitar.
Não reajo ao mundo.
Reajo à minha leitura do mundo.
As emoções são meu painel de controle.
É através delas que identifico, a cada instante, se estou vivendo em harmonia com minha vontade ou em desalinho com ela. Não preciso de análise, não preciso de teoria — o painel já diz tudo.
Emoções agradáveis: estou em acordo.
Chamo isso de felicidade.
Emoções desagradáveis: estou em desacordo.
Chamo isso de sofrimento.
Como vivo em quatro dimensões, o painel tem quatro indicadores.
Dimensão intelectual:
Em acordo — sinto paz.
Em desacordo — sinto ânsia.
Dimensão afetiva:
Em acordo — sinto amor.
Em desacordo — sinto mágoa.
Dimensão sensorial:
Em acordo — sinto alegria.
Em desacordo — sinto tristeza.
Dimensão física:
Em acordo — sinto graça.
Em desacordo — sinto raiva.
Oito emoções. Quatro pares. Um único propósito: me dizer onde estou.
Sentir emoções desagradáveis — ou seja, sofrer — não é o que desejo, mas é fundamental para que eu me torne cada vez mais consciente do que quero e, assim, consiga viver cada vez mais em acordo com minha vontade.
Cada emoção desagradável é um sintoma — não uma punição, nem um acaso, muito menos um defeito. É um diagnóstico preciso que, além de revelar que existe um desalinhamento, mostra exatamente onde ele está. Em qual dimensão. Para qual devo olhar.
Ânsia: dimensão intelectual.
Mágoa: dimensão afetiva.
Tristeza: dimensão sensorial.
Raiva: dimensão física.
O sofrimento não é o problema. É o GPS da solução.
E quanto mais aprendo a ouvi-lo com atenção — em vez de negligência-lo ou fingir que não existe — mais rápido encontro o caminho de volta.
Procuro manter-me atento para não viver em desacordo com nenhuma das minhas quatro vontades. E ainda assim, com frequência, me pego em sofrimento.
Por quê? Se a bússola funciona, se os ponteiros apontam, se eu sei o que quero — por que ainda sofro?
Porque entre querer e realizar existe um elemento que tudo decide:
A estratégia.
Estratégia é a maneira como busco realizar meus quatro objetivos. E embora pareça existir uma infinidade de abordagens possíveis, no fundo todas se reduzem a duas:
Estratégia Autoísta — assumo total responsabilidade pela realização das minhas quatro vontades.
Estratégia Outroísta — transfiro ao outro o papel e o dever de realização das minhas quatro vontades.
O resultado de cada uma é previsível, invariável e implacável:
Autoísmo: êxito. Outroísmo: fracasso.
Sempre. Sem exceção.
A razão é simples — mas simples não significa fácil de aceitar:
O outro é incapaz de viver por mim.
Mesmo que o outro queira, ele é incapaz. Viver é uma prerrogativa intransferível— algo que cada Quatrix só pode fazer por si mesmo, a partir de si mesmo, sem delegação possível.
Posso pedir ajuda. Posso receber apoio.
Mas ninguém pode querer por mim. Sentir por mim. Escolher por mim. Existir por mim.
A responsabilidade de ser eu é minha.
Depois de cada fracasso outroísta, me faço a mesma pergunta:
Por que insisto nisso?
A resposta, toda vez, é a mesma:
Falta de atenção.
Usar estratégias outroístas não é bem uma escolha. Ninguém acorda e decide conscientemente entregar ao outro o que só pode ser seu. É mais sutil que isso — é um escorregão. Uma distração. Um momento de equívoco.
O equívoco tem nome: uniformidade.
A crença silenciosa, automática, herdada, de que somos todos iguais. De que o que serve para um serve para todos. De que existe um padrão válido para qualquer Quatrix.
Quando acredito nisso — mesmo que por um instante, mesmo que sem perceber — me condeno a viver segundo a régua do outro. E entrego ao outro a responsabilidade de saber o que é melhor para mim.
E isso é outroísmo..
Mas quando estou atento, fica evidente o que sempre é verdade: um é diferente de um.
Somos todos diferentes. Radicalmente, irredutivelmente, magnificamente diferentes. Não existe padrão universal. Não existe régua que sirva para todos. Não existe outro capaz de saber por mim.
Ao desacreditar da uniformidade, me liberto para viver em universalidade. E viver em universalidade é viver autoísta.
No fim, tenho apenas um desafio:
Manter a atenção na universalidade.
Não deixar o equívoco da uniformidade entrar pela distração. Não esquecer, no meio do barulho do mundo, que sou ímpar-feito — e que o outro também é.
Tudo que experimento, toda dor, toda conquista, toda recaída, todo avanço — é apenas desdobramento desse único desafio.
Todo bem viver cabe dentro de uma obviedade:
Um é diferente de um.
Assim como minha vontade se divide em quatro sub-bússolas, a crença da uniformidade se divide em quatro sub-equívocos.
Um para cada dimensão.
Um para cada camada onde o erro pode entrar.
Na dimensão intelectual, a uniformidade sussurra: Definimos iguais. E enquanto acredito nisso, fico cego para a verdade evidente: cada um define diferente.
Na dimensão afetiva, a uniformidade sussurra: Estimamos iguais. E enquanto acredito nisso, fico cego para a verdade evidente: cada um estima diferente.
Na dimensão sensorial, a uniformidade sussurra: Gostamos iguais. E enquanto acredito nisso, fico cego para a verdade evidente: cada um gosta diferente.
Na dimensão física, a uniformidade sussurra: Fazemos iguais. E enquanto acredito nisso, fico cego para a verdade evidente: cada um faz diferente.
Quatro dimensões. Quatro equívocos. Uma única raiz.
A crença de que um é igual a um.
Meu viver outroísta tem dois rostos.
Um quer ser o rei do pedaço. O outro se esconde.
O primeiro rosto é o outroísmo submisso.
Acontece quando esqueço que defino, estimo, gosto e faço diferente do outro — e, nesse esquecimento, me obrigo a ser igual. Me proíbo de discordar. Me proíbo de querer diferente. Me proíbo de ser o que sou.
Aqui sou meu próprio carcereiro.
Ninguém precisa me prender — eu mesmo entrego a chave.
O segundo rosto é o outroísmo impositivo.
Acontece quando esqueço que o outro define, estima, gosta e faz diferente de mim — e, nesse esquecimento, obrigo o outro a ser igual. Pressiono. Policio. Exijo que o outro viva segundo minha régua.
Aqui me torno carcereiro do outro.
E ainda assim vivo mal — porque por mais que controle, por mais que insista, é impossível que o outro defina, estime, goste e faça por mim. Ninguém pode.
Nos dois casos, o equívoco é o mesmo: acreditar que um é igual a um.
Nos dois casos, o resultado é o mesmo: sofrimento.
A diferença é só tipo de outroísmo — submisso ou impositivo. Mas a prisão é a mesma.
Perceber o equívoco da uniformidade dissolve os dois outroímos de uma vez. Quando vejo que um é diferente de um — realmente diferente, não como conceito mas como óbvio ululante — algo se afrouxa.
Paro de me obrigar a ser o outro. Paro de obrigar o outro a ser eu. Dou a mim a liberdade de definir, estimar, gostar e fazer do meu jeito. Dou ao outro a mesma liberdade.
Isso tem um nome: universalismo.
E universalismo tem um resultado:
Viver bem.
Meu viver — autoísta ou outroísta — também se divide em quatro. Um para cada dimensão. Um para cada camada onde posso me prender ou me libertar.
Na dimensão intelectual:
Quando me obrigo a definir igual ao outro — e obrigo o outro a definir igual a mim — estou vivendo em outroconfiança.
Quando me permito definir diferente do outro — e dou ao outro a mesma liberdade — estou vivendo em autoconfiança.
Na dimensão afetiva:
Quando me obrigo a estimar igual ao outro — e obrigo o outro a estimar igual a mim — estou vivendo em outro-estima.
Quando me permito estimar diferente do outro — e dou ao outro a mesma liberdade — estou vivendo em autoestima.
Na dimensão sensorial:
Quando me obrigo a gostar igual ao outro — e obrigo o outro a gostar igual a mim — estou vivendo em outromotivação.
Quando me permito gostar diferente do outro — e dou ao outro a mesma liberdade — estou vivendo em automotivação.
Na dimensão física:
Quando me obrigo a fazer igual ao outro — e obrigo o outro a fazer igual a mim — estou vivendo em outroaptidão.
Quando me permito fazer diferente do outro — e dou ao outro a mesma liberdade — estou vivendo em autoaptidão.
Quatro dimensões. Oito palavras. Uma escolha.
O bem viver decido por um prefixo:
Outro ou auto?
Sem vontade, nada tem qualificação.
Não existe verdadeiro nem falso. Não existe bem nem mal. Não existe bom nem ruim. Não existe caro nem nulo.
A vontade é a base de tudo. É ela que dá valor às coisas — não vem das coisas em si.
O problema é que a vontade é inconsciente.
Está lá, funcionando, apontando — mas em silêncio, abaixo da superfície, fora do alcance direto. Para que eu possa viver de forma consciente, preciso que ela suba e se torne visível. E é exatamente para isso que existem o desejo e o medo.
Minha vontade inconsciente se manifesta de forma bipolar — cara e coroa, dois lados da mesma moeda. O desejo diz o que quero. O medo também diz o que quero — mas dizendo o que não quero.
O desejo aponta para o que é verdadeiro, bom, bem e caro para mim. O medo aponta para o mesmo lugar — só que pelo avesso, dizendo o que é falso, ruim, mal e nulo.
Dois ponteiros. Uma única mensagem.
Preciso enfatizar isso antes de encerrar — porque é o equívoco mais antigo e mais caro: medo não é inimigo.
Medo é amigo.
Medo é o revelador da vontade inconsciente. É um funcionário que trabalha gratuitamente, ininterruptamente, sem pedir reconhecimento — apenas para que eu saiba o que quero e possa viver em acordo com isso.
O medo só parece inimigo quando ignoro seu propósito, sua função. Quando pinto ele de capeta. Grande equívoco.
Medo é amigo: revelador do desejo.
Com isso, encerro a explicação do quaternário humano.
Espero ter ajudado.
Abraçotrix.