Outroísmo Impositivo
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
O que é outroísmo impositivo?
Como funciona?
É possível evitá-lo?
Como?
Esse livro desmonta, passo a passo, a lógica da violência, das brigas, das cobranças...
E da salvação que ninguém pediu.
Outroísmo impositivo é quando você tenta impor sua vontade ao outro.
Impor o que você considera melhor.
Impor seu jeito de viver.
Impor seu Quatrix.
Ao fazer isso, você está violando a individualidade do outro.
Lembrando que violência pode ser física, sensorial, afetiva e intelectual.
Afirmo:
Violentar o outro é inevitável.
E pergunto: por quê?
Interlocutor: Porque não sou o outro e vice versa.
Exato! Outroísmo impositivo é inevitável pelo simples fato de que você não é o outro.
A própria alteridade faz com que a violência seja inevitável.
Você sabe o que você pensa, sente, gosta, quer, mas não sabe nada disso do outro.
Você experimenta seu quatrix, mas não experimenta o quatrix do outro.
Sendo que você está constantemente e inevitavelmente convivendo com o outro, mas não experimenta o quatrix do outro, o que você faz?
Interlocutor: Eu violento o outro.
Sim, mas tem uma coisa que você faz antes disso que resulta nisso.
Interlocutor: Eu penso saber pelo outro.
Quase isso.
Interlocutor: Eu imagino.
Quase isso.
Interlocutor: Eu adivinho.
Se você pudesse adivinhar o quatrix do outro, estava tudo resolvido. A violência só existe porque é impossível um adivinhar o quatrix do outro.
Resta supor o que o outro pensa, sente, quer, gosta, etc. Só que para supor, você deve se basear em algo. No que você se baseia?
Interlocutor: Me baseio em mim.
Exato! Você se baseia no seu quatrix. Você só pode experimentar seu quatrix, então, você só tem seu quatrix para se basear. Está claro isso?
Interlocutor: Sim, está!
Qual é o problema da suposição?
Interlocutor: O problema é que eu sou diferente do outro e vice versa.
Exatamente! O problema é que você é diferente do outro e vice versa.
Só que você não tem outra opção senão supor.
Você é um indivíduo.
Você só pode supor seu quatrix para o outro.
E é isso que você faz.
Você se baseia em si e supõe o que é melhor para o outro.
Mas você é diferente do outro e vice versa, então, sua suposição é sempre equivocada.
Outroísmo impositivo é uma opção quase inevitável.
Sua própria natureza de indivíduo lhe induz a viver de forma outroísta impositiva.
Outroísmo submisso é fácil de perceber.
Você sente na pele que determinada opção não está em acordo com seu quatrix.
Você sente sua dor, sente seu sofrimento.
Mas quando você está sendo outroísta impositivo, não.
Você não sente a dor que está causando no outro.
A bala que sai do seu revólver não fere você.
Por isso você não sabe que está violentando o outro.
E vice versa.
Outroísmo impositivo é uma opção QUASE inevitável.
Mas tem sim um jeito de evitá-lo. Só um.
Mas para que você possa colocar esse único jeito em prática, antes você precisa estar consciente de algo, senão, é impossível.
Que algo é esse?
Interlocutor: Estar consciente de que é impossível saber do quatrix do outro.
Exato! Enquanto você estiver convicto de que é possível saber do quatrix do outro, não tem como você sair do outroísmo impositivo. Só quando você está consciente que é impossível pode optar por uma estratégia diferente da suposição.
Interlocutor: Qual estratégia?
A estratégia do diálogo.
Simples assim!
A estratégia que torna você onisciente é a comunicação.
É através do diálogo, e só através do diálogo, que você consegue saber do outro e assim minimizar a violência (outroísmo impositivo).
A matemática da convivência funciona assim:
Quanto menos diálogo, mais outroísmo impositivo.
Quanto mais outroísmo impositivo, mais violência.
Quanto mais violência, pior a qualidade da convivência.
Logo:
Quanto mais diálogo, menos outroísmo impositivo.
Quanto menos outroísmo impositivo, menos violência.
Quanto menos violência, melhor a qualidade da convivência.
Quando você desconsidera o Quatrix do outro, o que você está fazendo com o outro?
Interlocutor: Violentando o outro.
Não me refiro ao seu comportamento, mas sim ao seu estado mental.
Quando você desconsidera o Quatrix do outro, o que você está fazendo com o outro dentro da sua cabeça?
Interlocutor: Supondo que o outro é igual a mim.
Também.
Mas é outro aspecto que quero deixar explícito.
Interlocutor: Desconsiderando a unicidade do outro.
Também.
O que quero apontar é que você está coisificando o outro.
Na mentalidade outroísta impositiva, você não vê o outro como outro ser humano, com um indivíduo.
Vê como uma coisa, um objeto.
Por isso você chuta o outro como se fosse bola.
Dá ordens como se fosse robô.
Coisas não têm vontade própria.
Só que as pessoas tem vontade própria.
E pessoas são coisas.
Esse é o equívoco.
Só que esse é um equívoco construído na infância.
É muito arraigado.
Vamos entender melhor isso.
Quando você é criança e tem fome, o que você faz?
Interlocutor: Eu choro.
E o que aconteceu?
Interlocutor: Minha mãe me dá comida.
Sua mãe te dá leite e maçã, por exemplo.
Você pergunta para a maçã se ela quer ser comida?
Interlocutor: Não.
Você pergunta para o leite se ele quer ser bebido?
Interlocutor: Não.
Você pergunta para sua mãe se ela quer ter o peito sugado?
Interlocutor: Não.
Por que não? O que é sua mãe, a maça e o leite para você?
Interlocutor: São coisas.
E o que você faz com essas coisas?
Interlocutor: Eu uso.
Usa para quê?
Interlocutor: Para satisfazer minha fome.
Sendo assim, para que servem os outros?
Interlocutor: Servem para me satisfazer.
Eis a mentalidade outroísta impositiva.
O outro é uma coisa que serve para me satisfazer.
Quando você era neném e sentia fome, você olhava para sua mãe e perguntava assim:
— Querida mamãe, estaria você disposta a colaborar com minha alimentação e colocar seu peito na minha boca?"
Era assim sua interação com sua mãe?
Interlocutor: Não! Eu grudava no peito e mamava!
Que nome podemos dar para esse tipo de interação?
Interlocutor: Usar.
Sim, mas tem uma palavra melhor.
Interlocutor: Manusear.
Tem uma palavra melhor ainda.
Interlocutor: Controle.
Isso!
Logo que você nasce você aprende sozinho algo vital.
Eu preciso controlar as coisas ao seu redor ou eu morro.
Controle ou morte!
Isso é fato até hoje!
Você precisa controlar o garfo e a faca para comer.
Você precisa controlar a temperatura da água para cozinhar.
Você precisa controlar o sabonete para se lavar.
Você precisa controlar o carro para se deslocar.
Observe sua rotina.
Você passa o dia inteiro controlando as coisas.
Não é só na infância.
Na infância você começa a entender que deve controlar as coisas.
Isso continua para sempre.
Você descobre na infância que precisa controlar as coisas e cresce fazendo isso.
Daí você vai descobrindo que você mesmo não é uma coisa, que você é um ser humano, um indivíduo, com vontade própria.
Então, surge uma suposição extraordinária.
Você começa a considerar que o mesmo deve ser com os outros seres humanos.
Você começa a considerar que sua mãe não é uma coisa.
Você pensa assim: "Se dói quando me tratam como coisa, então, deve doer no outro também".
Daí surge uma nova possibilidade de convivência. Qual?
A cooperação.
Daí surge a possibilidade de você conviver com o outro de fato, outro você, outro ser humano, outro indivíduo e não uma coisa que só existe para te satisfazer.
Há no prédio da Avenida Marechal Dumas, em Morro Alto, um sujeito que sofre de uma patologia muito comum, mas pouco diagnosticada: síndrome de deus.
Não Deus de tudo. Ditador da porra toda. Apenas da vida dos erráticos moradores do vigésimo andar.
O sujeito se chama Sísifo. Não tem um título, uma escritura ou sequer um apartamento. Ele mora no corredor, entre o extintor de incêndio e o elevador de serviço.
Dali, exerce sua micro-onipotência sobre os moradores legítimos, aqueles que pagam condomínio e têm chave, mas que, na prática, são meros súditos.
Ele fiscaliza o teor das sacolas de compras, os pensamentos e o hálito de quem chega depois da meia-noite.
É o legislador, o juiz e o executor de uma jurisdição de trinta metros quadrados de carpete desbotado.
Nesse cenário…
Eis que um sujeito distraído erra o andar.
Desembarca no território de Sísifo.
Antes mesmo da porta do elevador terminar o seu "plim", Sísifo já está em cima, com o dedo em riste e o cenho franzido.
— Onde pensa que vai? — dispara.
— Desculpe, eu... que andar é este? — balbucia o intruso.
— O Vigésimo. Mas não um vigésimo qualquer. O meu Vigésimo. Aqui as coisas têm ordem. Aqui se obedece. Eu decido quem sobe, quem desce e quem respira.
O intruso, que tem aquele pragmatismo irritante das pessoas normais, olha ao redor. Vê apenas um homem num pijama gasto, policiando vidas que não são suas.
— E o senhor é o quê? Síndico? — pergunta o intruso.
— Sou o dono da porra toda aqui. Há trinta anos mantenho todos sob controle. Vinte e quatro horas por dia de vigilância sanitária, moral e civil. Não tiro férias. Se me afasto cinco minutos, o vigésimo andar vira uma Sodoma de vidas e tapetes fora de esquadro.
O intruso caminha até a janela do corredor.
Aponta para a linda cidade de Morro Alto.
Cheia de luzes, bares, museus e vidas acontecendo sem nenhum tipo de autorização prévia de Sísifo.
— Já foi naquela churrascaria da esquina? — quis saber o visitante.
— Não tenho tempo — respondeu Sísifo, seco.
— Conhece o cinema novo do shopping?
— Nunca ouvi falar.
— Já atravessou o parque?
— Que parque?
— Tomou um chope na calçada?
— Não, mesmo.
— Conhece alguém que não more no vigésimo andar?
— Meu filho, você não entende a responsabilidade de ser o dono da porra toda — explicou Sísifo, com um ar de mártir. — Para eu mandar aqui, o mundo lá fora não pode existir. O Vigésimo é um emprego de tempo integral.
O intruso aperta o botão do elevador.
Mas antes de entrar, lança a dúvida braba:
— Se você só tem tempo para cuidar da vida alheia, você é dono delas ou é escravo?
A porta fecha.
Sísifo anda até o meio do corredor.
Olha pela fechadura da porta.
Confere como estão os moradores do apto 2012.
Endireita um quadro na parede.
Ele é o deus do vigésimo andar.
Imagine que você está empurrando uma pedra. O que acontece se você parar de empurrá-la?
A pedra para imediatamente de se mover, não é?
E por que?
Porque a pedra não estava se movendo por vontade própria, era a sua vontade que estava movendo a pedra.
Analogamente, o mesmo acontece com tudo que você empurra. Marido, esposa, namorado, filhos, amigos, sociedade, etc.
Quando você para de empurrar, eles param de se mover, pois eles também não estão se movendo por vontade própria, é a sua vontade que está movendo todos eles.
E qual é o problema de empurrar os outros?
O problema é o mesmo descrito no mito grego de Sísifo: você perde sua vida fazendo um trabalho exaustivo, inútil e sem sentido.
Outroísmo impositivo é uma maldição igual a de Sísifo.
Você acredita que os outros devem ser verdes, então, os empurra para o topo da montanha verde. Assim que você para de empurrar, eles voltam a ficar amarelos, azuis, vermelhos, cinzas, alaranjados, etc.
Daí, lá vai você, feito Sísifo, empurrar os outros novamente para o topo da montanha verde.
Claro que, sendo outroísta impositivo, você tem convicção de que está fazendo um bem aos outros.
Outroísmo impositivo é síndrome de super-herói.
Só que ninguém gosta de ser empurrado para dentro de padrões alheios. Então, você não está salvando, nem fazendo bem a ninguém.
Mas o pior não é isso.
O pior é que se você passa a vida empurrando a vida dos outros, como vai empurrar a sua?
A grande maldição de Sísifo, não é que ele jamais obterá êxito em sua missão, mas que irá perder sua vida fazendo um trabalho exaustivo, inútil e sem sentido.
A grande maldição do outroísmo impositivo é igual.
Quanto mais você tenta controlar a vida dos outros, mais você perde o controle da sua própria vida.
Um cientista arranca uma das patas de uma aranha e diz:
— Anda aranha!
A aranha anda.
O cientista pega seu bloco de notas e escreve: "Aranha com sete patas anda".
Depois ele arranca mais uma pata da aranha e repete:
— Anda aranha!
A aranha anda. O cientista pega seu bloco de notas e escreve: "Aranha com seis patas anda".
E assim o cientista vai arrancando uma a uma as patas da aranha. Até a aranha ficar com uma pata só.
— Anda aranha! — diz o cientista.
A aranha começa a se arrastar e anda. O cientista pega seu bloco de notas e escreve: "Aranha com uma pata anda".
Por fim, o cientista arranca a última pata da aranha.
— Anda aranha! — diz o cientista.
E nada da aranha andar.
— Anda aranha! — ele repete.
A aranha não anda.
O cientista começa a gritar:
— Anda araaaanha! Aaaanda!".
A aranha não anda nem um milímetro.
O cientista pega seu bloco de notas e escreve: "Aranha sem patas é surda".
Assim como o cientista da piada está equivocado em relação à aranha, você vive equivocado em relação ao outro.
O outro não é surdo, o outro é outro.
Diferente de você.
Livre para optar pelo melhor para si.
Seu erro é acreditar que o outro te deve obediência.
Começou como coisa de nenê.
Uma facilidade moderna.
O bebê estava com fome? Bi-bi.
Queria colo? Fon-fom.
Os pais agradeceram a praticidade das buzinas.
Ninguém imaginava que ali, entre um chocalho e uma mamadeira, estava sendo assinado o fim de todas as línguas.
Logo o negócio escalou.
Apareceram versões para crianças maiores.
Depois para idosos.
Depois as versões executivas, em titânio escovado, para reuniões de diretoria.
Por fim, para qualquer pessoa que descobrisse que apertar uma buzina era mais fácil do que falar.
E, num piscar de olhos, abrir a boca para articular uma vogal tornou-se algo tão cafona quanto usar pochete ou escrever cartas à mão.
Falar virou coisa de dinossauro.
No começo, era um charme.
Um toque para dar bom dia, outro para agradecer, dois para pedir licença, coisa fina. Parecia apenas uma novidade inofensiva.
Mas novidades crescem.
Ninguém se contentou com o básico.
Buzinar virou vício.
As conversas viraram brigas de trânsito.
As interações sociais viraram um engarrafamento na Marginal Pinheiros. Um buzinava "estou certo", o outro retrucava com "estou mais", e o assunto morria atropelado pelo som de caminhão de lixo dando ré.
A lógica? Esquece. O que mandava era a potência.
O volume tomou o lugar dos argumentos. A verdade virou uma questão de decibéis. Foi decretada a democracia do tímpano estourado.
As vitrines se encheram de nomes pomposos. Buzinas que prometiam transformar qualquer um em autoridade máxima.
Mega Vox — Fale mais alto que qualquer argumento.
Imperial X — Estar certo não basta. É preciso ser ouvido.
Absoluta — O silêncio é para os derrotados.
Os lançamentos provocavam filas que dobravam quarteirões.
O espírito natalino foi substituído pela obsessão por decibéis.
Crianças deixaram de pedir brinquedos.
Adultos deixaram de pedir relógios.
Idosos deixaram de pedir chinelos.
Até o Papai Noel abandonou o trenó e começou a voar de trio-elétrico.
Durante algum tempo, aquilo pareceu resolver o problema.
Mas problemas também crescem.
Logo todos possuíam buzinas igualmente poderosas.
E a disputa recomeçou.
As empresas, sempre espertas, desenvolveram buzinas que faziam o corpo tremer, que causavam vertigem, e algumas que prometiam até dor física em qualquer um que ousasse discordar.
Os argumentos ficaram menores. As buzinas, maiores.
O cotidiano virou um engarrafamento existencial.
Um pai buzinava para o filho comer o jiló; o filho respondia com uma frequência que fazia a dentadura do velho vibrar.
Um vizinho buzinava por causa de uma festa. O outro respondia com uma buzina mais alta que pedia silêncio.
O "eu te amo" virou um som de navio petroleiro, e as brigas de casal pareciam o teste de sirene de usina nuclear.
As campanhas eleitorais deixaram de apresentar propostas. Vencia o candidato cuja buzina fosse capaz de causar labirintite nos adversários.
A vida virou um inferno sonoro.
As pessoas passaram a dormir em quartos com isolamento acústico. Os hospitais dobraram a espessura das janelas. Os arquitetos passaram a vender apartamentos pelo índice de isolamento, não pela vista.
Ninguém mais via passarinho, nem ouvia cigarra.
Quando lançaram a "Titan Prime", capaz de atingir cento e cinquenta decibéis, o negócio degringolou.
O governo tentou estabelecer limites.
As campanhas diziam:
— Buzine com responsabilidade.
Claro que ninguém ouviu a propaganda.
Os cientistas berraram — literalmente — avisando sobre a perda irreversível da audição coletiva.
Ninguém ouviu também.
O clímax veio na virada do ano.
A humanidade, entupida de espumante, decidiu celebrar da única forma que sabia. À meia-noite, bilhões de buzinas "Titan Prime" soaram em uníssono. Foi um estrondo magnífico, absoluto, uma nota única que abraçou o planeta.
Foi também a última nota escutada.
Ficaram todos surdos.
Você se mata para limpar a casa.
Usa água, sabão, desinfetante com cheirinho de lavanda, escova de dente para limpar rejunte e uma motivação que daria inveja a coach de Instagram.
Mas por mais que tente, não consegue. A sujeira não sai. A bagunça continua. A poeira parece que brota do além.
Você não entende o porquê do fiasco, mas é teimoso.
Não baixa a guarda por nada.
Nada abala sua motivação.
Todo santo dia você acorda, amarra o avental e cai para dentro.
Um verdadeiro herói do rodo.
E vai nessa batida, fracassando com dignidade, até o dia de bater as botas.
Quando percebe que morreu, fica arrasado.
Pensa: "Poxa, passei a vida esfregando azulejo e a casa ainda tá uma imundície".
Dá aquela sensação de que você jogou seu tempo no lixo.
Muito suor para nenhum brilho.
Você abre o berreiro, inconsolável.
Nisso, aparece um anjo plantonista e vem puxar papo.
Pergunta qual é o drama e você desenrola a história toda.
O anjo dá um pulinho lá na tal residência e volta com uma cara de quem sabe de algo.
— Meu amigo, você deu uma bola fora daquelas — diz o anjo, quase rindo.
— O quê? — você reage — O sabão era vagabundo? A escova estava gasta? Errei a mão no detergente? Onde foi que eu pisei na bola?
— Você tentou limpar a casa errada! — solta o anjo.
— Como é que é? — você pergunta, sem acreditar.
— Aquela casa lá não é sua, criatura! É a casa do outro!
Moral da história: não faça a coisa certa no lugar errado.
A faxina mental é ótimo, mas a única casa que você consegue limpar é a sua.
O resto é invasão de domicílio.
Quando ele veio ao mundo, os olhos eram dois bichos ariscos, correndo de um lado a outro sem fixar em nada. Sem prumo. Sem norte.
Entendi na hora: precisava de rédea.
Filho se não freia vira bicho solto.
Corre bonito, mas corre pro precipício.
Comecei cedo.
Enfiei nele um cabresto pequeno.
O rosto mal cabia.
Foi suficiente para entender que tem o caminho certo e tem o caminho errado.
E que o certo era eu.
Seguir meu ditado.
Sabedoria de quem já pisou em pedra…
E sabe onde o pé corta.
Ele puxava. Claro que puxava.
Todo bicho novo quer o mundo.
Eu segurava. Firme.
— É por bem, meu filho — eu dizia, baixinho, do jeito que se acalma um bicho assustado.
Fui apertando, com os anos, o que precisava ser apertado.
A sela, para ele aprender a carregar o peso da família, do nome, da virtude e de tudo que um dia teria que carregar sozinho.
Às vezes usava a espora. De leve. Só para fazer ele lembrar que a vida não aceita passo lento. Que o mundo não espera ninguém.
Depois, aprendeu a sofrer calado.
Silêncio de bicho domado.
Estava dando certo.
Teve o tempo da rédea curta.
Quando ele quis o mundo, quis a rua e as coisas erradas.
Eu puxei de volta.
Com força.
Amarrei no pau.
Porque o mundo é traiçoeiro, é cobra, é lodo.
E mãe que ama não deixa o filho se perder por aí.
Teve os dias de chicote.
Batia com o coração na boca.
Doía nele.
Doía em mim.
Mas filho que não aprende no verbo, aprende no couro.
Eu preferia seu lombo sangrando a ver ele torto.
Estragado pela vida.
Sem rumo.
Verdade seja dita.
Nunca foi maldade. Nunca.
Foi amor.
Amor bravo.
Severo.
Mas amor.
Ele cresceu manso.
Andando no passo que eu marcava.
Cabeça baixa.
Sempre na rédea.
Sem espernear.
Os vizinhos falavam: "Que filho obediente!".
Eu inflava o peito.
Então…
Sem mais nem porquê…
Ele parou.
Simplesmente parou.
Nem rédea, nem sela.
Nem nada.
Ficava parado, estátua.
Ia para onde a mão apontava.
Comia o que eu dava.
Achei, besta, que tinha terminado a doma.
Não tinha.
Não deu tempo.
O menino morreu.
Não gritou.
Não esperneou.
Só morreu.
Não entendo.
Fiz tudo certo.
Tal qual meus pais me ensinaram:
Amar é domar.
E meu filho morreu.
A vida é cruel.
Minha mãe foi uma ovelha negra, mas criada no tradicional sistema méééé. Que traduzindo para o bom português quer dizer: "fica quieta e obedece". E traduzindo para o inglês genérico fica: “até calada você está errada”.
Antes dela, na hierarquia do rebanho, vinha a minha avó: uma ovelha branca de dar medo, daquelas que não aceitavam nem um fio de lã fora do lugar.
A minha mãe, coitada, teve que aprender o dialeto das brancas na marra. Em pouco tempo já estava domada. Bastava um méééé mais agudo da matriarca e pronto: ela voltava pro cercadinho de cabeça baixa.
O engraçado, ou melhor, o insensato, é que essas ovelhas que cresceram sob uma pedagogia nível Pinochet não tentam nem um tiquinho de Piaget com os próprios filhos. Mas o que é a sensatez diante da necessidade de manter o rebanho?
Aí eu nasci. Só que eu nasci verde. Uma ovelha totalmente fora do espectro cromático da família. E minha mãe, sem perceber isso, repetiu comigo o mesmo méééé que recebeu das ovelhas brancas — só que na cor dela.
Por amor, claro. O velho e bom amor méééé.
Ela quis me pintar de preto. Tentou com afinco. Mas sempre que vinha me arrebanhar, eu respondia com meu contra-mantra: "Livre-arbítrio, mãe!".
Ela deve ter me ouvido dizer isso um milhão de vezes. Ficava possessa. Queria porque queria me enfiar na fila das ovelhas negras. Mas, no fundo daquela lã toda, eu sentia que ela sabia do que eu estava falando.
A coitada tentou de tudo, inclusive o "méééé" emocional, que era a especialidade da casa.
Mas nada conseguia tingir o meu mantra.
E foi assim, marchando com botas de lã e sem nenhum mééé da minha boca, que mostrei à minha mãe o único balido capaz de produzir boa convivência:
Livre-arbítrio. E béééleza.
Basta um trauma para coisa desandar.
E o 7x1 de 2014 foi o fundo do poço que o diabo estava esperando para subir de elevador.
O chifrudo surge do nada.
Capa preta de tergal. Megafone na mão. E uma disposição de síndico de prédio antigo para distribuir imperativos.
Diante de um cidadão que apenas observa o movimento do mundo, o demônio aproxima o aparelho e decreta:
— Beba pinga, meu filho! Entorne o caldo!
O sujeito, que devia ser da abstinência, finge que não é com ele. Aí o Coisa Ruim cola o megafone no ouvido do infeliz e dá o ultimato.
— Eu disse: BEBA PINGA!
O homem, que não quer confusão com a gerência, enche um copo e vira, sem gelo e sem limão.
A rotina do absurdo prossegue.
Na praça ao lado, tem uma garota ouvindo música com aqueles fones que parecem um abafador de ruído de aeroporto. O chifrudo chega chegando:
— Tira essa MPB e bota um Mc Salsicha no talo.
Ela fez careta, claro. Mas o Demo é persistente:
— Escuta o Salsicha, garota! É hit!
Dito e feito. Dois minutos depois e ela já está balançando o ombrinho no compasso do pancadão.
As ordens multiplicam-se como juros bancários.
— Torça para o Vasco.
— Passe férias em Cubatão.
— Deixe crescer os cabelos do ouvido.
— Assista o show do Ary Toledo.
— Durma na praça.
— Bota cinco colheres de açúcar nesse café.
É uma doideira atrás da outra. A lista de maldade não para. E a Cidade Maravilhosa vai virando o puxadinho do inferno, tudo no figurino que o capeta manda.
Até que, no melhor estilo "quem te viu, quem te vê", aparece o Salvador.
O herói da pátria!
Batina branca impecável, brilhando mais que dente de comercial de pasta de dente. Um chaveiro de ouro no peito e aquela aura de quem acabou de descer o Monte Sinai depois de conversar com Deus.
Sobe no coreto, ajeita a voz de barítono e lança sua contraofensiva:
— Atenção, povo! Parem já de obedecer esse sujeitinho mandão!
O povo, que já tava tonto de tanta pinga, olha para o santo e pensa: "Armagedom".
O Santo, então, começa a desfazer os nós:
— Chega de pinga! Quero ver todo mundo na água mineral!
Num estalo, as garrafas vão pro lixo.
Obediência instantânea, coisa linda de se ver.
— E desliguem esse tal de MC Salsicha! Que barulheira é essa?
Os fones são arrancados como se fossem carrapatos.
— Ninguém mais torce pro Vasco!
— E acabou a farra na praça, todo mundo pra dentro de casa agora!
O Santo é um fenômeno.
Onde o diabo havia dito "faz", ele chega com um "desfaz".
Uma espécie de Procon da alma.
Anos depois, o Santo Salvador bate as botas e se apresenta no guichê de imigração celestial, ali mesmo, nas fundações do Cristo Redentor.
O anjo da recepção, com aquela cara de funcionário público cansado, olha a ficha e diz:
— O senhor desce. Destino: Inferno.
— Como assim, meu anjo? Tá doido? Eu salvei o Rio de Janeiro!
— Salvou de quem? Do imposto de renda?
— Do capeta, meu caro! O bicho feio desembarcou na Cidade Maravilhosa e mandou todo mundo fazer o que ele queria. Eu fui lá e libertei geral!
— E como foi essa "libertação"?
— Mandei largarem a cachaça e beber água.
— Que mais?
— Mandei pararem de ouvir aquela porcaria de MC Salsicha!
— Que mais?
— Mandei pararem de torcer para o Vasco.
— Que mais?
— Mandei todo mundo voltar pra casa e dormir cedo!
O anjo suspira, guarda a caneta atrás da orelha e diz:
— Mandou, mandou, mandou... percebe o que fez?
— Não — diz o Santo.
O anjo balança a cabeça, naquele ritmo de quem já viu esse filme mil vezes.
— Você libertou as pessoas dos mandamentos impostos pelo capeta, impondo os seus. O capeta mandou, você mandou. No fim das contas, o verbo é o mesmo.
— Sim, mas os meus mandamentos eram pro bem! — insistiu o Salvador — Eram santos e sagrados.
O anjo, que já viu muitas boas intenções pavimentarem o caminho errado, diz:
— Meu chapa, aqui em cima, o que avaliamos não é o que se manda fazer, mas o fato de se achar no direito de mandar. O verbo foi o mesmo: mandar.
O Santo Salvador emudece.
A batina murcha.
A ironia do destino é mais pesada que a batina.
— Então é o inferno? — pergunta, já esperando o pior.
O anjo fecha a prancheta com aquele estalo de "final de expediente".
— Calma! Você foi qualificado para um programa de reciclagem para quem gosta de dar ordens. Chama-se reencarnação. Você volta e tenta de novo.
O anjo entrega o bilhete de reencarnação para o santo e diz :
— Não repetirás a mesma merda.
O Salvador dá um sorriso amarelo:
— Mas isso é um mandamento! — retruca o Santo.
O anjo arregala os olhos:
— Pqp! Espera que eu vou também!
Foi numa festa que o vi pela primeira vez.
Ele atravessou o salão como quem atravessa um reino.
Depois disse:
— Olhe para mim.
Eu olhei.
— Dance comigo.
Eu dancei.
Chamei aquilo de amor.
Nos amamos como se ama no mundo imperativo.
— Espere.
— Beije-me.
— Venha aqui.
Ele achava que ser obedecido era ser amado.
Eu achava que obedecer era amar.
Os dois certos.
Os dois enganados.
Casamos num templo de pedra fria.
O padre, de braços erguidos, ordenou o nosso amor:
— Amem-se para sempre.
Nós, ajoelhados diante do nosso destino, repetimos um para o outro os mesmos grilhões dourados:
— Ame-me para sempre.
Ninguém ali estranhou que os votos mais sagrados fossem, também, sentenças.
Assim envelhecemos, como envelhece tudo:
— Segure minha mão e fique ao meu lado.
Eu ficava.
Ele nunca perguntou se eu queria ficar, eu nunca senti falta da pergunta, porque isso de perguntar, não existia em nossa consciência.
As ordens, com os anos, foram ficando mais curtas e cansadas.
— Descanse.
— Coma.
— Durma.
E nisso havia, talvez, um amor disfarçado.
Adoeci no inverno.
Ele, sentado ao lado da minha cama, me dizia:
— Melhore.
— Não me deixe.
— Lute.
Eu já não tinha palavras, só um fôlego raso.
Na última noite, ele segurou minha mão e quis, pela primeira vez em toda a vida, dizer algo que não fosse uma ordem.
Procurou uma palavra. Não achou.
Não existia, em nenhum canto do seu pensamento um jeito de dizer "eu tenho medo", ou "eu não sei viver sem você", ou "eu queria ter perguntado, nem que fosse uma vez, o que você queria". Só existia um modo verbal e foi esse que ele usou:
— Não morra.
Morri pela manhã, antes do sol.
A vida inteira eu obedeci.
Sua última ordem, mesmo querendo, eu não consegui obedecer.
E daí que o outro aquilo, murilo, grilo, esquilo e crocodilo? O que seu umbigo tem a ver com isso? Está procurando chifre em cabeça de cavalo para quê?
Quem procura acha!
E quando o outro te dá um coice bem dado, para você deixar de ser enxerido, você começa com o mimimi e a ladainha: — falei que era um grosso, um cavalo!
Está com tempo sobrando?
Vai cortar grama com alicate de unha.
Vai enxugar iceberg.
Vai pentear o King Kong.
Vai empilhar dominó no terremoto.
Vai contar pingos de chuva.
Vai fazer qualquer coisa ao invés de plantar vento para colher tempestade.
Para boa convivência, nem precisa tanto autoconhecimento.
Vergonha na cara já resolve.
Não tem vergonha na cara?
Vende no supermercado, no mesmo corredor onde você compra esse estoque infinito de tempo para cuidar da vida dos outros.