Olho Que Não Se Vê
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Estou pendurado na internet quando ouço o pedido: "Por favor, tire essa toalha molhada de cima da cama e a pendure no banheiro".
Pego o ser de pano pelo meio e o penduro no gancho, perto do chuveiro. A toalha fica surpresa no ar.
Meu olhar se despendura de mim e vai buscar um ponto fixo na parede, mas escorrega de marcha ré até um ponto de interrogação:
"A toalha está pendurada no gancho,
que está pendurado na parede,
que está pendurada na casa,
que está pendurada na rua,
que está pendurada no bairro,
que está pendurada na cidade,
que está pendurada no estado,
que está pendurada no país,
que está pendurada no continente,
que está pendurada no planeta,
que está pendurada na galáxia...
Se tudo a vista está pendurado em algum ponto, onde está pendurado o ponto de vista?".
Inferência é muito importante na ciência e na autociência.
Têm coisas que não são possíveis de serem comprovadas através da observação direta. A lei da gravidade, por exemplo, é uma inferência. Nunca ninguém viu a lei da gravidade. O que vemos é a queda dos objetos.
As coisas caem. Isso vemos. Daí se inferiu uma força que regula o comportamento dos corpos e se deu a essa dedução o nome de lei da gravidade.
A eletricidade também é uma inferência.
Alguém levou um choque e a partir do choque deduziu uma teoria de transmissão de energia que recebeu o nome de eletricidade.
Tem vários exemplos de inferência na ciência.
E na autociência também tem inferência.
Tudo que é existencial não é passível de observação direta, só se torna conhecido por inferência. A inferência existencial é inegável, mas é uma inferência. A primeira inferência existencial é você-consciência.
Nunca ninguém jamais observou, nem jamais conseguirá observar a consciência, pois consciência é a própria capacidade de observação. Contudo, o resultado da observação é inegável. Você vê objetos, sente cheiros, sente o peso dos objetos, a temperatura, a textura, o sabor, etc. Logo, você-consciência é inegável, pois como você poderia saber qualquer coisa se você não fosse senciente, se não fosse saber?
Fazendo uma analogia, o olhar nunca viu o olhar, nem jamais verá, contudo, é inegável que o olhar existe. A prova disso são os objetos que o olhar vê. O olhar também é uma inferência, não é uma observação direta.
Enfim, você-consciência é inegável, mas é uma inferência. Você-consciência é a primeira inferência existencial.
Você-existência é a segunda inferência existencial. Você-existência é uma obviedade baseada na impermanência da realidade. Sendo que a realidade observada é impermanente (acontece), logo, isso que observa, existe, ou seja, é permanente. É através da impermanência da realidade que se faz a inferência da sua existência, daquilo que é permanente: você-existência.
Você-potência é a terceira inferência existencial. Você-potência é uma obviedade baseada na realidade. Sendo que a realidade é forma, logo, existe uma fôrma criando a realidade. É através da inegabilidade da realidade que se faz a inferência da potência, daquilo que dá forma a realidade: você-potência.
Caso a consciência fosse negável, todas as duas inferências subsequentes, a existência e a potência, não teriam como serem inferidas. Só que é impossível negar a consciência, pois até para negar a consciência você precisa de consciência. Tente negar sua consciência e comprove isso.
Por fim, escrevi esse livro por três motivos:
1) Esse livro explica porque algumas escolas param na consciência e não explicam a existência e a potência do ser que você é. Uma vez que se desperta a consciência para consciência, é preciso seguir na inferência para ficar consciente dos outros dois aspectos da unitrindade do ser: a existência e a potência.
2) Esse livro explica no que me baseio para afirmar a unitrindade do ser. Me baseio na auto-observação e na inferência.
3) Agora que você tem o mapa do caminho, seja um autocientista: percorra o caminho.