O Pequeno Capitalista
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
O Pequeno Capitalista é uma fábula satírica que conversa com O Pequeno Príncipe, mas troca a rosa que pede cuidado por uma rosa que pede extrato bancário. Com humor afiado, às vezes escrachado, o livro ri da mania de transformar tudo em mercadoria.
Certa vez, encontrei um amigo e aluno veterano da 1ficina, que também trabalha com autoconhecimento. Em certo momento da conversa, ele me perguntou se eu não pretendia monetizar a 1ficina.
Respondi — bem protocolarmente — que não. Mas por dentro minha indignação foi forte. Fiquei pensando nisso por dias.
Como alguém que conhece a 1ficina, conhece autociência, lida com autoconhecimento, pode me fazer essa pergunta?
E não foi a primeira pessoa que me perguntou isso. Nem será a última. Quase todos os alunos da 1ficina já me perguntaram exatamente isso ou algo similar em algum momento.
Resumindo, fiquei tão indignado, mas tão indignado, que escrevi esse livro em resposta. Boa leitura!
Era uma vez um pequeno capitalista que morava num planeta do tamanho de um terreno de esquina. Para falar a verdade, não era bem um planeta: era um lote. Tinha até uma placa fincada no chão, desbotada de tanto sol: Oportunidade. Trate com o proprietário. O proprietário era ele. E ele não tinha mais nada para tratar.
Todas as manhãs, o pequeno capitalista acordava, vestia o terninho, ajeitava a gravata do tamanho de um dedo e ia cumprimentar a rosa.
A rosa era de plástico. Tinha pétalas vermelhas que nunca murchavam, um caule de arame encapado de verde que nunca pedia água e, escondida debaixo de uma folha, uma etiqueta com código de barras. O pequeno capitalista nunca tinha reparado na etiqueta. Quem ama não lê as letras miúdas.
— Bom dia, rosa.
— Bom dia pra quem? — respondia a rosa, sem tirar os olhos do horizonte, de onde às vezes passavam naves de luxo.
— Pra mim, ué. Pra nós dois.
— Nós dois não existe. Quanto você tem na conta?
— Hoje? Nada.
— Então hoje também não existe bom dia.
O pequeno capitalista suspirava. Já tinha tentado de tudo. Tinha regado a rosa, e ela reclamou que ia manchar. Tinha colocado uma redoma sobre ela, e ela perguntou se era de cristal. Era de garrafa pet. Ela nunca o perdoou. Tinha até recitado versos.
— Verso não paga boleto — disse a rosa.
— Mas é amor.
— Amor sem saldo é só barulho.
Um dia, passou no céu uma nave dourada, comprida como uma limusine, de vidros escuros. A rosa se esticou toda no caule de arame.
— Isso sim é um homem.
— Você nem viu quem estava dentro!
— Nem precisa. Vi o carro.
Foi então que o pequeno capitalista entendeu. Não bastava ser quem ele era. Ele precisava ser rico. E, para ser rico, ele precisava capitalizar.
— Rosa, eu vou partir.
— Vai tarde.
— Vou buscar novos mercados. Vou capitalizar o universo. E quando eu voltar milionário, você me aceita?
A rosa pensou por um tempo, o que, para uma rosa de plástico, é muito tempo.
— Volta bilionário. Milionário hoje em dia é classe média.
Na manhã seguinte, o pequeno capitalista aproveitou uma revoada de pássaros migratórios, assinou com eles um contrato de transporte com pagamento a prazo (que nunca seria pago) e partiu pelo espaço com uma pasta de couro debaixo do braço. Dentro da pasta havia uma calculadora, um bloco de cartões de visita e uma única palavra, que ele repetia baixinho, como uma oração: capitalizar.
O primeiro planeta era pequeno, poeirento, e tinha no meio uma praça. Na praça, um velho barbudo e descalço conversava com uma pedra, por falta de outra pessoa.
— Bom dia! Sou o pequeno capitalista. Empresário, investidor, sócio. E o senhor?
— Sócrates.
— E faz o quê?
— Pergunto.
— Pergunta o quê?
— Pergunto às pessoas o que elas acham que sabem, até elas descobrirem que não sabem. E aí, às vezes, elas descobrem o que sabem de verdade. Chama-se maiêutica. Minha mãe era parteira. Eu faço parto de ideias.
O pequeno capitalista abriu a pasta.
— Sensacional. Vamos capitalizar a maiêutica.
— Capitalizar?
— Capitalizar, Sócrates! Transformar em capital. Em dinheiro! Você faz parto? Ótimo. Parto é caro. Cesárea, mais ainda. Você cobra por ideia nascida.
— Mas a ideia é da pessoa. Eu só ajudo a nascer.
— Então cobra a taxa de parteiro. Plano mensal. Tem o pacote básico, três perguntas por semana. Tem o premium, com perguntas ilimitadas e direito a não descobrir que não sabe nada.
— Mas descobrir que não sabe nada é o começo da sabedoria.
— Isso aí é o upgrade. Cobra à parte.
Sócrates coçou a barba.
— Me diga uma coisa, pequeno capitalista. O que é capitalizar?
— É fazer dinheiro.
— E o que é dinheiro?
— É o que a gente ganha quando capitaliza.
— Então capitalizar é fazer aquilo que se ganha quando se capitaliza?
— Exatamente! Viu como você aprende rápido?
— E para que serve o dinheiro?
— Para ser feliz.
— E você é feliz?
— Ainda não. Por isso que eu preciso capitalizar.
— Então o dinheiro, que você não tem, serve para uma felicidade, que você também não tem, e para conseguir os dois você quer vender a pergunta, que é a única coisa que te deram de graça aqui?
— Ô, Sócrates, essa já é a quarta pergunta. A partir da terceira eu vou ter que te cobrar.
Sócrates riu tanto que a pedra quase respondeu.
— Você fala igualzinho aos sofistas. Eles cobravam para ensinar. Eu nunca cobrei um tostão.
— E olha onde você está: descalço, conversando com uma pedra.
— E onde você está?
— Eu? Eu estou... de passagem.
— Eis uma resposta sábia. Pena que você não sabe que sabe.
O pequeno capitalista anotou no bloquinho: "Só sei que nada sei": registrar a marca antes que alguém registre. E foi embora sem saber se tinha fechado negócio. Desconfiava que não.
O segundo planeta era perfeitamente triangular. Num dos cantos, um homem de túnica branca desenhava na areia com uma vareta.
— Que desenho é esse?
— Um triângulo retângulo. O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.
— Repete mais devagar.
— O quadrado da hipotenusa é igual...
— Não, não. Repete devagar só a parte do "soma". Gosto quando você fala em soma.
Pitágoras olhou o visitante de cima a baixo. O pequeno capitalista já estava com a calculadora na mão.
— Pitágoras, você tem noção do que tem aí na areia? Isso vai construir prédio, ponte, viaduto, shopping center. Todo engenheiro do universo vai usar. E vai se chamar Teorema de Pitágoras!
— Com o meu nome?
— Com o seu nome! Já nasceu com marca. Agora é só monetizar.
— Monetizar?
— Cobrar, Pitágoras. Cada vez que alguém medir uma diagonal, pinga uma moedinha. Cada telhado, cada rampa, cada escada encostada na parede. Vamos monetizar a matemática!
— Mas a matemática não é minha. É do mundo. Esse triângulo já era retângulo antes de eu nascer. Eu só reparei.
— Por isso mesmo! Tem que registrar logo, antes que outro repare.
— Entre nós, pitagóricos, tudo é comum. Os bens, as descobertas, até a comida.
— Até a comida? Aí não, né? Isso é comunismo.
— Isso é amizade.
— Dá no mesmo. Olha, vamos negociar. O cateto você pode deixar de graça, ninguém liga pro cateto. A gente cobra só a hipotenusa.
— Não dá pra cobrar só a hipotenusa. Uma coisa depende da outra.
— Então cobra o quadrado. Quadrado é mais caro, né? É o dobro.
— O quadrado não é o dobro.
— Tá vendo? Você não entende nada de matemática.
Pitágoras respirou fundo, que é o que os sábios fazem antes de desistir de alguém. Depois apagou o triângulo e escreveu outra coisa na areia.
— Faz uma conta pra mim. Você mais o seu dinheiro.
— Eu mais zero.
— Dá quanto?
— Dá eu.
— Então você já é inteiro. Não precisa de mais nada.
O pequeno capitalista fechou a pasta com um estalo.
— Ah, Pitágoras. No capitalismo, eu sozinho dá zero.
O terceiro planeta era quase todo um buraco. Na boca do buraco, sentado numa pedra, um homem de ombros largos olhava ora para o sol, ora para dentro da caverna, com uma cara de quem já explicou a mesma coisa muitas vezes.
O pequeno capitalista espiou lá dentro. No fundo da caverna, umas pessoas acorrentadas olhavam para a parede, onde dançavam sombras projetadas por uma fogueira.
— Que maravilha! Você tem um cinema!
— Não é um cinema. É uma alegoria.
— E dá quanto de público?
— Aqueles homens passaram a vida inteira presos, olhando sombras, achando que as sombras são a realidade. Se um deles se soltar e sair, vai ver o sol, vai ver as coisas como elas são. E quando voltar para contar aos outros, vão achar que ele enlouqueceu.
— Platão, escuta o que eu vou te dizer. Daqui a uns dois mil e quatrocentos anos, isso aí vai virar um filme. Chama Matrix. O cara toma uma pílula, acorda, descobre que o mundo era de mentira. Óculos escuros, sobretudo preto, tiro em câmera lenta. Bilheteria monstruosa! Depois vem a continuação, a trilogia, o videogame, o boneco colecionável, a camiseta.
— Não entendi nada do que você disse.
— Nem precisa entender. Precisa registrar. Garante os direitos autorais da caverna agora, que quando o filme sair você recebe de tudo.
— Direitos autorais?
— É quando você é dono da ideia.
— Ninguém é dono de ideia. As ideias estão no mundo das ideias.
— E o mundo das ideias é de quem?
— De ninguém.
— Então está desocupado! Vamos lotear! Terreno no mundo das ideias, com vista pro Bem, pertinho do Belo. Ideia de primeira linha, sem sombra nenhuma.
— Você está louco?
— Louco, não. Estou fazendo dinheiro.
— Menino, eu estou explicando a natureza da realidade.
— E eu estou explicando a realidade da natureza: tudo que existe tem dono. O que não tem, é porque ainda não registraram.
Platão olhou para os acorrentados e depois olhou para o pequeno capitalista.
— E o homem que sai da caverna e vê o sol?
— Cobra ingresso pra sair. Quem quiser ver o sol, paga. Quem não pagar, fica nas sombras. Pronto. Plano de negócios.
O pequeno capitalista foi embora animado, sem olhar para o sol uma única vez. Tinha medo que o sol cobrasse alguma coisa.
Platão ficou olhando ele se afastar e pensou que nunca tinha visto ninguém tão acorrentado andando tão solto.
O quarto planeta era um laboratório. Tinha frascos, tubos, fornalhas e, sobretudo, balanças: balança de tudo quanto é tamanho. Um senhor de peruca empoada pesava uma vela antes de acendê-la, e depois pesava a fumaça.
— O que o senhor está fazendo?
— Provando uma coisa. Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
O pequeno capitalista parou. Ficou um tempo calado, coisa rara. Depois tirou um lenço do bolso e enxugou uma lágrima.
— Que frase linda. Que frase genial. Que frase vendável.
— Vendável?
— Lavoisier, isso aí precisa ser registrado hoje. Agora. Senão qualquer um sai falando por aí.
— Mas é para todo mundo falar. É uma lei da química.
— Você não entende o futuro. Daqui a uns séculos vai existir uma tal de internet. E nela, toda frase bonita que não tiver dono registrado vai ser postada com uma foto de pôr do sol e a assinatura de Clarice Lispector.
— Quem é Clarice Lispector?
— Uma escritora. Ela não escreveu nem metade do que dizem que ela escreveu. Mas vão dizer que escreveu a sua frase também. E aí, adeus royalties. Vai tudo pra Clarice.
— E ela vai ficar rica?
— Não importa! É uma questão de princípio. A frase é sua, o dinheiro tem que ser seu. Ou melhor: nosso. Eu fico com vinte por cento, sou o seu empresário.
— Mas, menino, se nada se cria, então eu não criei nada. Só observei.
— Melhor ainda! Se nada se cria, não precisa pagar o criador. Só o dono.
Lavoisier pousou a balança.
— Sabe qual era o meu trabalho, antes da química? Eu era cobrador de impostos.
— Mentira! Um colega! E como foi?
— Me cortaram a cabeça.
O pequeno capitalista levou a mão ao próprio pescoço.
— E você perdeu a cabeça?
— Nada se perde, menino. Tudo se transforma.
O pequeno capitalista anotou a frase no bloquinho, com o nome de Lavoisier embaixo, sublinhado duas vezes. Depois, por via das dúvidas, acrescentou: (não é da Clarice).
O quinto planeta tinha uma única macieira. Debaixo dela, um homem de cabelos compridos dormia encostado no tronco. Assim que o pequeno capitalista pousou, uma maçã se soltou do galho e caiu bem na cabeça dele.
— Ai! Isso dói!
— Isso é a gravidade — disse o homem, sem abrir os olhos.
— E quem é o responsável por isso?
— Ninguém. Eu só descobri. Isaac Newton, muito prazer. Tudo que tem massa atrai tudo que tem massa. A maçã cai, a Lua gira, os planetas dão voltas no Sol. É uma lei universal.
O pequeno capitalista esfregou a cabeça e, aos poucos, o galo foi virando um sorriso.
— Uma lei. Universal. E quem cobra a multa?
— Que multa?
— Newton, lei sem multa não é lei, é sugestão. Vamos fazer o seguinte: taxa da gravidade. Toda maçã que cair, royalty. Todo copo que escorregar da mão, royalty. Todo tombo, toda escorregada no banheiro, toda criança que cai da bicicleta: taxa.
— Você quer cobrar das pessoas por cair?
— Por cair, por pousar, por ficar de pé. Avião que pousa já paga taxa de pouso, sabia? Mercado comprovado! E quem não pagar...
— Quem não pagar?
— Flutua.
— Ninguém escapa da gravidade, menino.
— Exatamente! Cliente cativo! Monopólio natural! O sonho de qualquer investidor!
Newton finalmente abriu os olhos.
— Sabe o que eu fiz depois de velho? Fui diretor da Casa da Moeda, na Inglaterra. Passei anos caçando falsificador de dinheiro.
— Que ótimo! Então você entende de dinheiro!
— Entendo. E o seu é falso.
— Falso como?
— Você está tentando vender uma coisa que não é sua, para pessoas que não podem recusar, em troca de uma coisa que você ainda não tem. Isso, na minha época, dava forca.
O pequeno capitalista engoliu em seco, guardou a calculadora e decolou depressa, antes que alguém aplicasse alguma lei nele.
Atrás dele, outra maçã caiu. De graça, como sempre.
O sexto planeta cheirava a tinta. No centro dele havia uma máquina enorme de madeira e ferro, e um homem de avental manchado encaixava letrinhas de metal numa moldura, uma por uma.
— O que é isso?
— Uma prensa. Com ela, eu imprimo palavras. Antes, cada livro era copiado à mão, durante anos. Agora, qualquer um pode ter um.
— Qualquer um?
— Qualquer um.
— De graça?
— Quase.
— Quase é um começo. Gutenberg, meu amigo, eu tenho uma proposta que vai mudar a sua vida. Você imprime palavra, certo? Eu vou mais longe. Vamos capitalizar as palavras.
— Como assim?
— Todo mundo precisa de palavra pra falar, certo? Pra pedir pão, pra chamar a mãe, pra dizer "eu te amo". Então cobra por palavra. Cada palavra falada, pum, dinheiro entrando na conta. Não importa o idioma. Falou "bom dia", são duas. Falou "good morning", também são duas. Falou em alemão, que tem aquelas palavras compridas, cobra por letra.
— E quem recebe esse dinheiro?
— Você e eu. Eu entro como sócio. Você entra com a prensa e eu entro com a visão.
Gutenberg parou de encaixar letrinhas.
— Eu já tive um sócio. Chamava-se Johann Fust. Me emprestou dinheiro para a prensa, depois me processou pela dívida e ficou com a oficina, com as letras e com a Bíblia que eu tinha acabado de imprimir.
— Pô, mas eu sou diferente.
— Ele também dizia isso.
— Mas eu sou diferente de verdade! Eu sou um pequeno capitalista honesto, que só quer capitalizar o que é justo, e o justo é capitalizar tudo, porque se a gente não capitalizar, outro capitaliza, e aí...
— Menino — interrompeu Gutenberg —, você sabe quantas palavras falou desde que chegou aqui?
O pequeno capitalista abriu a boca. Fechou. Pegou a calculadora. Começou a contar nos dedos. Ficou pálido.
— Pela sua tabela — continuou Gutenberg —, você me deve uma fortuna. E metade dela só de usar a palavra "capitalizar".
O pequeno capitalista não disse mais nada. Fez um gesto de despedida, apontou para o céu, juntou as mãos num pedido de desculpas, desenhou no ar um cifrão cortado ao meio e foi embora em completo silêncio.
Foi a viagem mais barata da vida dele.
O sétimo planeta era redondo como um teatro. No palco, um homem de gola rendada segurava uma caveira na palma da mão e falava com ela muito sério.
— Ser ou não ser, eis a questão.
O pequeno capitalista, sentado sozinho na plateia, levantou a mão.
— Posso dar uma sugestão?
— O espetáculo ainda não terminou.
— É rapidinho. "Ser ou não ser" está ótimo, mas falta um complemento. "Ser ou não ser assinante, eis a questão." Pronto. Você entrega o primeiro ato de graça e, pra ver o resto, o público paga a mensalidade.
Shakespeare baixou a caveira.
— Você quer pôr um muro na frente de Hamlet?
— Muro não, Shakespeare, paywall. É mais moderno. E não é só Hamlet. Todo mundo que disser "tem algo de podre no reino da Dinamarca" paga. Isso é praticamente uma taxa de lixo. Romeu e Julieta, então, é ouro puro: reality show, casal brigando, família contra. Vende caneca, vende chaveiro, vende veneno de mentirinha em frasco de souvenir.
— O mundo inteiro é um palco, menino. Você quer cobrar ingresso do mundo inteiro?
— Agora você está falando a minha língua!
Shakespeare desceu do palco devagar e sentou ao lado dele.
— Você tem cara de quem está apaixonado.
— Como você sabe?
— Eu escrevo sobre isso há muito tempo. Quem é ela?
— Uma rosa. Lá no meu planeta. Ela só aceita gente rica.
Shakespeare sorriu, com aquela tristeza boa de quem já viu essa peça antes.
— Uma vez eu escrevi que aquilo que chamamos de rosa, com qualquer outro nome, teria o mesmo perfume.
— Bonito. Mas tá errado. Rosa de marca vale muito mais que rosa genérica.
— E a sua rosa, que perfume ela tem?
O pequeno capitalista abriu a boca para responder. E percebeu que não sabia. Nunca tinha sentido o cheiro dela.
— Ela... deve ter um perfume caro.
— Deve — disse Shakespeare. E voltou ao palco, para conversar com a caveira, que pelo menos não tentava vender nada.
O oitavo planeta era silencioso. Tinha uma figueira e, debaixo da figueira, um homem sentado de pernas cruzadas, olhos semicerrados, sorrindo para nada em particular.
O pequeno capitalista esperou educadamente uns dez segundos. Depois tossiu.
— Com licença. O senhor está ocupado?
— Estou presente.
— Ótimo, então tem tempo. Sou o pequeno capitalista. E o senhor é?
— Me chamam de Buda. Quer dizer "o desperto".
— Desperto! Que nome bom. Parece marca de café. E o senhor faz o quê?
— Ensino um caminho para o fim do sofrimento. Para a iluminação.
O pequeno capitalista abriu a pasta tão rápido que os cartões de visita voaram.
— Buda. Iluminação. Você tem noção de quanta gente está procurando isso? Todo mundo! E você já tem o método pronto! Vamos capitalizar a iluminação.
— A iluminação não se compra.
— Ainda. Hoje é tudo muito trabalhoso: meditar, respirar, sentar anos debaixo de árvore. Ninguém tem tempo pra isso. A gente simplifica. Curso online: "Ilumine-se em 21 dias". Mentoria individual com o próprio Buda, vagas limitadas. E pra quem tem pressa, iluminação em cápsula, na prateleira do supermercado, ao lado do suplemento de colágeno.
— E as pessoas sem dinheiro?
— Ficam no escuro. Mas é provisório. Assim que juntarem, se iluminam.
Buda continuou sorrindo, o que irritou um pouco o pequeno capitalista.
— Olha, eu sei que vocês gostam de equilíbrio. Então eu vou fazer uma proposta equilibrada. Caminho do meio.
— Caminho do meio?
— Meio a meio. Você entra com a iluminação, eu entro com a comercialização, e a gente divide cinquenta por cento cada um. Mais caminho do meio que isso, impossível.
— Tenho também um curso sobre o desapego.
— Perfeito! "Desapegue-se do seu dinheiro." A pessoa paga o curso e já pratica na hora!
Buda abriu os olhos pela primeira vez.
— Eu nasci príncipe, sabia? Tinha palácio, ouro, cavalos, roupas de seda. Tinha tudo isso que você quer.
— E cadê?
— Larguei.
O pequeno capitalista ficou vermelho, depois roxo.
— Largou?! Você está louco? Eu estou atravessando o universo inteiro pra conseguir o que você jogou fora!
— Talvez você esteja procurando no lugar errado.
— Então me vende o mapa.
Buda não respondeu. Fechou os olhos de novo e ficou em silêncio. Um silêncio enorme, macio, que ocupou o planeta inteiro.
O pequeno capitalista esperou. E esperou. E, por um instante, quase sentiu alguma coisa. Depois anotou no bloquinho: Silêncio do Buda: quanto? E foi embora.
O nono planeta tinha uma colina verde, um lago e uma pequena oficina de carpinteiro com cheiro de serragem. Sentado à beira do lago, um homem de sandálias repartia um pão com uns pescadores.
O pequeno capitalista se aproximou, ajeitou a gravata e estendeu um cartão.
— Bom dia. Pequeno capitalista. O senhor é Jesus?
— Sou. Senta, come um pedaço.
— Obrigado, mas antes, negócios. Jesus, eu acompanho o seu trabalho. A sua filosofia é muito bacana. Atinge muita gente. Amor ao próximo, perdão, essas coisas. O pessoal adora esse tema, amor. Vende muito.
— Não é para vender.
— Tudo é para vender. Escuta. Primeiro: curso online. "Ame o próximo em sete passos." Módulo bônus: "Perdoe setenta vezes sete e ganhe um certificado". Segundo: a Bíblia. Você sabia que vai ser o livro mais vendido do mundo? O mais vendido! E sabe quanto você vai receber por isso? Nada! Não tem um contrato, não tem uma porcentagem, não tem nada. Isso é um absurdo.
— Dai de graça o que de graça recebestes.
— Tá vendo? Esse é o problema. Você tem uma ótima frase de efeito e usa pra falar contra o próprio negócio.
O pequeno capitalista olhou para os pescadores, que mastigavam em paz.
— E outra coisa. É verdade que você multiplicou pão e peixe para cinco mil pessoas?
— É.
— E distribuiu de graça?
— Distribuí.
— Jesus! Tinha uma rede de padarias ali! Uma franquia de peixarias! E aquela história de transformar água em vinho? Você estava sentado em cima de uma vinícola e deu tudo numa festa de casamento!
Jesus riu, com a boca cheia de pão.
Animado, o pequeno capitalista arrastou um caixote, cobriu com um pano e montou ali mesmo, na beira do lago, uma mesinha de vendas: velas, terços, garrafinhas de água do lago, "pão multiplicado original", tudo com etiqueta de preço.
Jesus parou de rir. Levantou-se, foi até a mesinha e, sem raiva nenhuma, mas com muita firmeza, virou a mesa. Velas rolaram pela grama. As garrafinhas voltaram para o lago, que era de onde tinham vindo.
— Você está louco? — disse Jesus. — Isso aqui não é mercado.
— Mas vão fazer isso de qualquer jeito! — protestou o pequeno capitalista, catando as velas. — Daqui a dois mil anos vai ter gente vendendo tudo isso no seu nome. Melhor você pelo menos ganhar a sua parte!
Jesus olhou para ele por um longo tempo. E o pequeno capitalista, que esperava uma bronca, viu nos olhos dele uma coisa muito pior que uma bronca: tristeza.
— Eu sei — disse Jesus.
Depois partiu de novo o pão e estendeu um pedaço para o menino. O pequeno capitalista hesitou, olhou em volta para ver se ninguém estava cobrando, e comeu. Era o pão mais gostoso que ele já tinha provado. Não teve coragem de perguntar o preço.
O décimo planeta era música. Lá não havia chão nem céu, só pautas estendidas de horizonte a horizonte, e notas penduradas nelas como roupa no varal. No meio de tudo, um homem de cabelo desgrenhado regia uma orquestra invisível, com cara de poucos amigos.
O pequeno capitalista não perdeu tempo. Tirou da pasta um cartão novo, recém-impresso: Pequeno Capital Records, produtor executivo. Apresentou-se como representante de uma grande gravadora, falou em contrato, em turnê, em adiantamento, e prometeu a Beethoven uma bolada de dinheiro. Beethoven, que andava devendo o aluguel, aceitou na hora.
No dia seguinte, Beethoven entregou as partituras da Nona Sinfonia ao produtor da gravadora.
— Fala sério, Beethoven, precisa disso tudo?
— Claro que precisa! É uma obra de arte.
— E aquele dinheiro que eu te prometi? Está precisando daquele dinheiro também?
— Sim, muito!
— Então é melhor a gente diminuir essa banda.
— Não é uma banda, é uma orquestra!
— Tanto faz. Vamos diminuir isso! Vamos fazer uns cortes!
— Nem fodendo.
— E se aquele dinheiro não vier?
— Daí fodeu!
— Ótimo! Então vamos aos cortes.
— Quais instrumentos você propõe tirar?
— Deixa eu ver! Esse aqui tira, esse também, esses dois não precisa, tira esse aqui, tira esse também, mais esses três instrumentos aqui, esse também. Pronto!
— Só ficou a partitura da percussão!!!
— Isso! Que mais precisa? Um batidão forte e vamo que vamo!
— E a melodia? Como vai ter música sem melodia?
— E o dinheiro? Como vai ter dinheiro sem música?
— Mas são quatro movimentos: prestíssimo, presto, allegro e largo.
— Pô, Beethoven, aí é você que está economizando. Só quatro?!
— Sinfonia só tem quatro movimentos.
— Coisa mais careta! Pode colocar mais movimento aí!
— O que você sugere?
— Mão no joelho, mão na cabeça, mão no bumbum, agacha, levanta, requebra, faz o quadradinho. E por aí vai... Quanto mais movimento, melhor.
— Que tal se eu colocar meu dedo anelar no seu cu? Que tal esse movimento?
— Que tal se eu colocar o seu dinheiro na minha conta bancária?
— Tempos difíceis esses, hein?
— Sim! E por falar em tempo, quanto tempo dura essa sinfonia?
— No total, quase uma hora.
— Tem que diminuir isso.
— Não mesmo!
— Ou você diminui a música, ou eu diminuo o seu pagamento.
— Trinta minutos.
— Um pouquinho menos.
— Quinze minutos.
— Diminui mais um pouquinho.
— Puf! Cinco!
— Três minutos e não se fala mais nisso.
— E como eu faço para encaixar essa letra toda numa música de três minutos?
— Ah! Isso é fácil. Consoante não tem som de nada.
— Sim, e daí?
— Corta todas as consoantes da letra e deixa só as vogais.
— Vai ficar um monte de vogal igual!
— Daí você corta as repetidas.
— Vai ficar: a, e, i, o, u.
— Sensacional. Isso mesmo! Batidão... ae ae... Mais batidão... io io... E pra terminar: uuuu!
— É isso que vai ser a Nona Sinfonia de Beethoven?
— Pera! Sinfonia não! Sinfonia espanta a galera! Vamos chamar de funk, que é mais curtição.
— A música vai se chamar Nono Funk de Beethoven?
— Pera! Não leva a mal, mas Beethoven dá ruim. Parece nome de eletrodoméstico. Geladeira Beethoven Frost Free, tão silenciosa que você vai achar que ficou surdo. Beethoven não dá, não. Precisamos de um nome artístico.
— Imagino que você também tenha uma sugestão de nome artístico.
— Tenho, sim.
— Pode dizer.
— Sugiro trocar "maestro" por "MC" e "Beethoven" por "Betão".
— Nono Funk do MC Betão!
— E aí, que tal?
— Ficou uma merda!
— Que nada! Vai bombar no YouTube!
— E daí?
— Você vai ficar rico, Betão!
Beethoven não ouviu a última frase. Era surdo. E, naquele momento, agradeceu muito por isso.
O pequeno capitalista saiu do planeta da música assobiando "a, e, i, o, u". Desafinado, mas otimista. O adiantamento, claro, nunca foi pago.
O décimo primeiro planeta girava devagar, mas o tempo nele passava de um jeito esquisito: às vezes rápido, às vezes lento, dependendo de quem estava olhando. Num canto havia um quadro-negro, um violino encostado numa cadeira e um senhor de cabelo branco espetado para todos os lados, escrevendo uma fórmula curtinha.
E = mc²
O pequeno capitalista leu em voz alta, devagar, e arregalou os olhos.
— E é igual a MC ao quadrado? Você também é MC? Rapaz, que coincidência, acabei de lançar o MC Betão! Vocês dois podiam fazer um feat. MC Einstein ao Quadrado part. MC Betão. Isso estoura!
— Não é esse MC. É massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Quer dizer que massa e energia são a mesma coisa. Um pouquinho de matéria guarda uma quantidade imensa de energia.
— Melhor ainda. Albert, essa é a fórmula mais famosa da física moderna. Vai estar em camiseta, em tatuagem, em caneca. Cada vez que alguém escrever isso numa xícara de chá, tem que pagar.
— Pela xícara?
— Pela fórmula na xícara. Pela citação. E não é só citar. Quem aplicar também paga. Toda vez que alguém transformar massa em energia, cai um dinheirinho pra você e pra mim, que sou o seu empresário. Porque, veja bem, dinheiro também é energia. Energia é cara. Então quem inventou esse negócio de transformar matéria em energia tem que ganhar a parte dele.
Einstein soltou uma risada.
— Menino, sabe onde eu trabalhava antes de escrever essa fórmula? Num escritório de patentes, em Berna. Passava o dia inteiro analisando pedidos de patente.
— Então você é da área! Melhor ainda, já sabe preencher o formulário.
— Sei. E sei também que não se patenteia a natureza. Eu não inventei nada. A matéria já virava energia muito antes de mim. O Sol faz isso o dia inteiro, faz bilhões de anos.
— E o Sol paga?
— Ninguém cobra do Sol.
— Ainda.
Einstein balançou a cabeça.
— Você está louco. Isso é uma coisa da natureza. Eu só estou explicando.
— Louco nada. Tudo não é relativo? Você mesmo disse.
— Mais ou menos.
— Então o preço também é relativo. Posso cobrar quanto eu quiser! Vamos capitalizar, Albert. Vamos capitalizar, vamos capitalizar, vamos capitalizar!
O pequeno capitalista falou "capitalizar" tantas vezes e tão rápido que, pelas leis daquele planeta, o tempo dele quase parou.
Einstein olhou para ele com toda a paciência do universo. Depois fez a única coisa que lhe pareceu cientificamente adequada: botou a língua para fora.
O pequeno capitalista fotografou a careta na mesma hora. Achou que dava uma ótima estampa de camiseta.
O décimo segundo planeta era uma ilha cheia de bichos: tartarugas gigantes, iguanas tomando sol, passarinhos de bicos de todos os formatos. Um senhor de barba longa caminhava entre eles com um caderno, anotando tudo.
— O senhor é zoólogo?
— Naturalista. Charles Darwin. Estudo como as espécies mudam ao longo do tempo. As que se adaptam ao ambiente sobrevivem e deixam descendentes. As outras desaparecem. Chama-se seleção natural.
O pequeno capitalista deixou a pasta cair. Depois abraçou Darwin com tanta força que o caderno voou.
— Até que enfim! Até que enfim alguém que entende! Onze planetas, Darwin! Onze planetas de gente me olhando como se eu fosse louco, e você aí, o tempo todo, pensando igualzinho a mim!
— Igual a você?
— Só sobrevive o mais forte! Os fracos que se virem! É o mercado, Darwin! Você descobriu o mercado e escondeu no meio das tartarugas!
— Não foi bem isso que eu...
— Vamos capitalizar o darwinismo. Palestra motivacional. Você no palco, de microfone de cabeça, luz azul atrás. "Evolua ou morra". "Seja o tentilhão do seu próprio bico". "A seleção natural não espera por você". Livro de autoajuda, curso de liderança, coaching para executivos: "Desperte o predador que existe em você". Ingresso caro, porque o mais forte paga.
Darwin recolheu o caderno do chão, com calma.
— Menino, o mais apto não é o mais forte. É o que melhor se encaixa no lugar onde vive. Às vezes é o menor. Às vezes é o que coopera. As formigas sobrevivem há milhões de anos porque trabalham juntas.
— Formiga é comunista. Já entendi. Próximo exemplo.
— Os dinossauros eram os maiores e mais fortes de todos. Dominaram a Terra.
— Isso! Isso é que é liderança de mercado!
— Aí caiu um meteoro.
— Crise econômica. Acontece. Quem tem reserva se recupera.
— Eles não se recuperaram.
O pequeno capitalista ficou quieto um instante. Uma tartaruga enorme passou bem devagar entre os dois, sem pressa nenhuma de chegar a lugar algum.
— Mas uma coisa é verdade, menino — disse Darwin. — Na natureza, quase sempre, o grande come o pequeno.
— Exato! Por isso que eu quero ficar grande.
Darwin olhou para ele de cima a baixo, da gravata do tamanho de um dedo até os sapatinhos engraxados.
— Mas você é pequeno.
Pela primeira vez desde que saiu de casa, o pequeno capitalista se sentiu pequeno. Lembrou da rosa. Fazia tempo que não pensava nela. Contou o dinheiro que tinha juntado em doze planetas e, como sempre, deu zero. Mesmo assim, decidiu voltar. Talvez a rosa estivesse com saudade. Talvez, de saudade, ela aceitasse um desconto.
A viagem de volta foi longa. Os pássaros migratórios, lembrando do contrato a prazo que nunca tinha sido pago, se recusaram a levá-lo, e o pequeno capitalista teve que pegar carona num cometa, de pé, segurando na cauda.
No caminho, fez as contas no bloquinho:
Sócrates: zero. E quatro perguntas de graça.
Pitágoras: zero. Ele mais zero dava ele.
Platão: zero. Nenhum lote vendido no mundo das ideias.
Lavoisier: zero. Nada se perde.
Newton: zero. E uma maçã na cabeça.
Gutenberg: menos uma fortuna, em palavras.
Shakespeare: zero. E uma pergunta sobre perfume.
Buda: zero. E um silêncio sem preço.
Jesus: zero. E um pedaço de pão.
Beethoven: zero. E "a, e, i, o, u".
Einstein: zero. E a foto de uma língua.
Darwin: zero. E a notícia de que ele era pequeno.
Total: zero. Mas ele ensaiou o discurso mesmo assim. Ia dizer à rosa que tinha voltado com uma carteira de clientes em potencial, uma rede de contatos de altíssimo nível e uma visão de negócios única. Rosa nenhuma resiste a uma rede de contatos.
Quando enfim avistou o seu planeta, quase não o reconheceu. Tinha uma cerca em volta. Tinha um portão. E, fincada bem no lugar da velha placa desbotada, uma placa nova, grande, brilhante, iluminada por dentro:
VENDIDO
E, embaixo, em letras menores: Mais um empreendimento Grande Capital S.A.
No portão havia um segurança de óculos escuros.
— Pois não?
— Eu moro aqui.
— Morava. O planeta foi adquirido. Porteira fechada.
— E a rosa? Tinha uma rosa aqui!
O segurança consultou uma prancheta.
— Rosa, rosa... Achei. Item 47 do inventário: "Uma rosa artificial, plástica, vermelha, com etiqueta." Foi no pacote. Item de decoração.
— Artificial?
— Plástico, meu filho. Tinha até código de barras. Você nunca reparou?
O pequeno capitalista não respondeu. Lembrou de Shakespeare perguntando qual era o perfume dela, e entendeu, enfim, por que nunca tinha sentido cheiro nenhum.
Lá em cima, passou devagar a nave dourada, comprida como uma limusine, de vidros escuros. No painel, presa com fita dupla face, ia a rosa. Ela não olhou para baixo. Nem precisava: já sabia que lá embaixo não tinha ninguém rico.
O pequeno capitalista sentou no meio-fio do planeta que não era mais dele. Pensou em Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma. A rosa não tinha se perdido. Só tinha se transformado, de novo, naquilo que sempre foi: mercadoria.
Pensou em Darwin: o grande come o pequeno. Ele sempre achou que, um dia, seria o grande. Nunca tinha passado pela cabeça dele que era o pequeno que estava no cardápio.
E pensou em Sócrates, que tinha perguntado onde ele estava, e ele tinha respondido: de passagem. Tinha acertado sem saber. No mercado, ninguém é dono de nada. Todo mundo está só de passagem, até aparecer alguém maior.
Ficou ali um bom tempo. Depois se levantou, ajeitou a gravata do tamanho de um dedo e voltou ao portão.
— Moço, o dono novo está precisando de alguém?
— Está contratando estagiário.
— Remunerado?
— Não. É pela experiência.
O pequeno capitalista pensou um pouco. Depois abriu a pasta e estendeu um cartão de visita.
— Aceito. Quem sabe, um dia, eu viro sócio.
* * *
Dizem que, numa noite sem estrelas (porque as estrelas, a essa altura, já foram todas loteadas), dá para ver passar no céu uma nave dourada, comprida como uma limusine. No painel vai uma rosa de plástico. Continua vermelha. Continua sem cheiro. E continua, como sempre esteve, à venda.
Espero que a leitura desse livro tenha conseguido deixar evidente como é tosca a mentalidade capitalista.
Ao invés de apreciar a rosa viva, mata a rosa para monetizar o perfume. E depois, faz rosas de plástico em larga escala para lucrar, lucrar, lucrar.
Que cheiro tem o lucro da rosa capitalista?
A monetização mata qualquer possibilidade de humanidade no mundo. Aliás, a monetização é desumana. Aliás — com mais profundidade e mais aliás — a monetização está cagando para os seres humanos.
A monetização só se interessa pela merda do lucro. E assim transforma o mundo em um esgoto a céu aberto.
Olha a convivência humana.
Ninguém mais convive, só monetiza. E vende curso, e vende livro, e vende a mãe, e vende o pai, e vende o filho, e vende o cu, e vende a alma.
O outro virou cliente, e só.
A monetização também mata a produção humana. Só se produz o que vende, e muito.
Arte não vende. Então, transforma a música em chiclete, a literatura em margarina e a dramaturgia em papinha de neném — final o público ainda usa fralda.
Filosofia não vende. Então, transforma a filosofia em “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. O que mais importa do que isso?
Despertar da consciência não vende. Então, transforma em bíblia de capa dura, água benta, cueca benzida, incenso, retiro espiritual e o escambau.
E por aí vai a grande maravilha que é a monetização.
Louvada seja, para sempre seja louvada.
E aí de quem ousar perceber que o rei está nu! E duplo aí de quem ousar dizer em voz alta que o rei está nu.
O rei está nu, caralho!
A monetização é o empobrecimento da riqueza humana.
Tudo que há de belo no ser humano, a monetização faz apodrecer.
A mentalidade capitalista fede a água de esgoto.
Eu não bebo água de esgoto.
Embora a maioria beba com alegria, como se estivesse bebendo champagne e comendo caviar.
Também odeio champagne e caviar.