O Dia Que Jesus Voltou
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Pregado na cruz, Jesus encara o silêncio do céu e a dor mais funda de todas: a de ter dado tudo o que tinha e ver o mundo continuar exatamente igual. Pais que ferem filhos por medo. Casais que se afastam tentando se salvar um ao outro. Sacerdotes, reis e soldados, cada um convencido de estar certo.
Enquanto pergunta ao Pai por que foi abandonado, uma fresta se abre no céu e o leva para dentro do coração de dezenas de homens e mulheres que conheceu.
Jesus deixa de olhar os homens e passa a habitá-los. Descobre que todos amam, fundo, sinceramente, até demais. O problema nunca foi a falta de amor.
Esse livro é uma reimaginação da Paixão De Cristo, contada inteiramente de dentro da cruz, sobre a última revelação de Jesus, sua redenção e seu retorno.
Pregaram meus pulsos na madeira.
A madeira não gritou. Só eu gritei. E depois nem isso, porque a dor, quando é funda demais, aprende a se calar sozinha.
O ferro me prende à cruz, mas o que me esmaga, de fato, é o peso dos meus pensamentos.
Respiro com dificuldade.
Meus pés já não são meus, são apenas dor. O vento toca minhas feridas com uma delicadeza que, paradoxalmente, as faz doer ainda mais.
Abaixo de mim, vozes.
Algumas zombam.
Outras discutem.
Algumas choram.
Ouço o ranger das lanças dos soldados,
O bater metálico das armaduras.
O murmúrio da multidão que subiu o monte para assistir ao fim de um homem.
Meu fim.
Daqui do alto, onde o sangue escorre quente e encontra a poeira fria do Gólgota, eu olho para o firmamento.
A claridade que tantas vezes me habitou, partiu.
Uma abóbada de chumbo se curva sob o peso da minha decepção.
Procuro um rosto.
Uma resposta.
Um sinal de que alguém, do outro lado, ainda olha para mim.
— Estou aqui — digo ao céu, porque falar ao céu sempre foi, para mim, a mesma coisa que falar com meu Pai. — Estou aqui, e não entendo por quê.
Não sei se estou rezando ou falando sozinho.
Não me importo.
O vento não responde.
As nuvens não se movem para formar palavra nenhuma.
Só a dor nos pulsos, constante, viva, conversa comigo naquele entardecer.
E outra pior.
Mais antiga, mais funda, que já doía antes de me pregarem a cruz.
A dor de ter dado tudo e ver que nada mudou.
Fico ali, pendurado no ar, entre a terra e o céu, sem pertencer inteiramente a nenhum dos dois.
Converso com o silêncio como quem conversa com um pai que se afastou sem explicação.
Fecho os olhos por um instante.
Minha vida inteira passa por mim como um rio que retorna à nascente.
Vejo uma oficina de madeira.
As mãos de José seguram as minhas, ainda pequenas, ensinando-me a lixar uma tábua sem ferir seus veios.
Vejo Maria sorrindo enquanto prepara o pão, cantando baixinho como quem transforma o cotidiano em oração.
Sinto o cheiro da serragem.
O calor do forno.
As noites em que o céu parece tão próximo que basta estender a mão para tocar as estrelas.
Lembro-me do Jordão.
Da água escorrendo por meu rosto.
Da paz que inunda meu peito quando mergulho.
Lembro-me dos caminhos de terra, das sandálias gastas, das aldeias pequenas, das crianças correndo ao meu encontro antes mesmo que seus pais acreditem em mim.
Lembro-me dos olhos dos cegos quando veem a luz pela primeira vez.
Que caminho tão longo me trouxe até esta cruz?
Volto a falar com o céu.
E falar, agora, é a voz da minha mágoa.
— Pai — sussurro, e minha voz é um sopro áspero que racha nos lábios secos.
Eu fiz tudo o que me pediste.
Caminhei entre eles.
Sentei-me às suas mesas.
Toquei suas feridas sem medo de me contaminar.
Abracei aqueles que ninguém abraçava.
Perdoei aqueles que todos condenavam.
Dividi o pão.
Estendi a mão e recolhi os caídos.
Falei do amor, Pai.
Foi a primeira coisa.
Foi a última.
Foi tudo o que coube no meio.
Ensinei que amar era melhor do que vencer.
Ensinei que o perdão era mais forte do que a vingança.
Falei do perdão setenta vezes sete vezes.
Disse a eles: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.
Pedi que oferecessem a outra face.
Que não revidassem golpe com golpe, que quebrassem, com as próprias mãos, a cadeia antiga que vinha se arrastando desde Caim.
Gastei meus dias tecendo palavras.
Falei da religião.
Não da que se ajoelha por hábito, mas da que se pratica no coração, longe dos olhos, sem precisar de praça nem de aplauso.
Disse que o que importa não é o sacrifício sobre o altar, é a misericórdia que se pratica todo dia, sem que ninguém veja.
Falei do reino dos céus.
Disse que não estava distante, mas dentro de cada um, tão perto quanto o próprio fôlego.
Falei da árvore que se conhece pelo fruto.
Dei tudo o que sabia dar, Pai.
Não guardei nada para mim.
E, ainda assim, aqui estou. Pregado na madeira, olhando para um céu que não responde, tentando entender se alguma palavra minha, alguma vez, chegou realmente a atravessar o peito do homem.
Nuvens começam a surgir muito ao longe. Mais uma. Depois outra. Como se minhas palavras fossem desenhando sombras sobre o azul.
— Foi tudo em vão? — pergunto à imensidão cinzenta.
O que mudou, Pai?
A violência continua a correr como um rio que nunca seca.
Os pais batendo nos filhos, convictos de estarem educando.
Os filhos, crescidos, batendo de volta, com desprezo e abandono.
Maridos e mulheres se ferindo todas as noites com as mesmas mãos que se acariciavam de dia.
Palavras usadas como pedra, atiradas à queima-roupa, no calor de casas que deveriam ser abrigo e viraram campo de guerra.
Religiosos se digladiando em seu nome e dispostos a queimar os outros na fogueira da própria certeza.
As nações marchando umas contra as outras, erguendo estandartes de morte, queimando colheitas, deixando viúvas e órfãos pelo caminho.
Generais rezando antes da batalha, pedindo vitória ao mesmo céu que o inimigo, do outro lado da trincheira, também rezava.
Reis subjugando povos.
Povos se levantando contra reis. E a cada levante um novo trono se erguendo, e repetindo os mesmos erros do trono que derrubou.
Vizinhos brigando por uma cerca.
Irmãos brigando por uma herança.
Amigos se afastando para sempre por uma palavra mal dita numa noite de vinho.
Nada disso parou, Pai.
Eu falei do amor.
Eu mudei a água em vinho, mas eles preferiram o sangue.
A violência continua tecendo a mesma teia, como se minhas palavras tivessem caído sobre pedra.
Quando o amor é crucificado, o que resta para o mundo?
A dor do corpo já não importa, Pai.
É a dor da falta de sentido que me consome.
O céu, enquanto falo, vai escurecendo.
Nuvens pesadas, carregadas de uma melancolia antiga, engolem os últimos raios de sol.
Olho para a multidão lá embaixo.
Os soldados jogam dados, indiferentes aos meus pensamentos.
— Fui eu mesmo a última prova de amor que ofereci a este mundo.
Não falei do amor de longe, com as mãos limpas, protegido de suas consequências.
Vivi o que preguei.
Estendi a outra face antes de pedir que a estendessem.
Perdoei antes de exigir perdão.
Amei o inimigo antes de esperar que amassem o meu.
E o mundo, em troca, ergueu esta cruz.
Fui traído por quem comeu à minha mesa.
Fui negado três vezes por quem jurou nunca me negar.
Fui julgado por sacerdotes que citavam a lei do amor com a boca, e pediram minha morte com a mesma boca, no mesmo fôlego.
Fui condenado por um governador que lavou as mãos, como se lavar as mãos apagasse o que as próprias mãos permitiram.
Se o amor que ensinei não foi capaz de deter a pedra atirada contra mim mesmo — o que mais eu poderia ter feito?
Que outra palavra?
Que outro gesto?
Que outro sacrifício?
Não peço mais explicação sobre os homens, Pai.
Pergunto sobre mim.
Se vim para servir.
Se dei tudo o que tinha para dar.
Por que este silêncio é a única resposta que recebo.
Justamente agora, quando mais preciso de tua palavra?
Uma lágrima corre. Mistura-se ao suor e ao sangue na minha face.
Reúno o último fôlego dos meus pulmões colapsados, ergo a cabeça em direção ao teto de chumbo do mundo e deixo escapar o grito que rasga a minha garganta e a minha alma:
— Eloí, Eloí, lemá sabactâni?
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
Pela primeira vez, o céu se move.
Sem que vento algum sopre...
Sem que trovão algum ecoe...
Uma estreita fenda abre-se entre as nuvens.
Pequena.
Delicada.
Não é um clarão.
Não é um coro de anjos.
Não é nada do que os profetas anunciariam.
Não é luz suficiente para iluminar o mundo.
Apenas suficiente para que alguma coisa, muito silenciosamente, comece a mudar dentro de mim.
Não ouço nenhuma voz.
Não há resposta em palavra alguma à pergunta que acabei de gritar.
Há um convite.
Calmo. Silencioso. Acolhedor.
Como se a luz escapando pela fresta me chamasse para dentro dela.
Aceito o convite.
A dor da cruz desaparece.
Não sinto mais os cravos, nem o vento frio da Judeia.
Não sei dizer se saí da cruz ou se ela saiu de mim. Só sei que, de repente, não estou mais preso ao meu corpo.
Nada me é dito.
Nem explicado.
Simplesmente sou arrastado por uma correnteza.
E, antes que eu possa entender o que está me puxando, sou empurrado para dentro do peito dos homens que conheci, convivi, ensinei, e que agora choram e gritam aos pés desta cruz.
Eu não os olho de fora.
Eu me torno eles.
Estou diante de um menino.
Meu filho.
Sou seu pai.
O menino mal alcança minha cintura.
Olho para ele e sinto um amor tão grande que dói.
Depois sinto um medo imenso.
O mundo é duro. Cruel.
Não quero que ele sofra.
Não quero que fracasse.
Não quero que zombem dele como zombaram de mim quando era pequeno.
Meu filho precisa aprender.
Precisa obedecer.
Precisa ser forte.
Vejo-o cometer um erro simples. Quase sem importância.
Mas, dentro de mim, aquele erro cresce.
Se eu permitir isso hoje, amanhã será pior.
Se não o corrigir agora, a vida o esmagará.
Minha mão se levanta.
Não por ódio.
Jamais.
Levanta-se porque acredito que é necessário.
Porque acredito que estou protegendo.
Porque acredito que a dor de agora evitará dores maiores depois.
O tapa ecoa.
A violência das minhas mãos é o reflexo tortuoso do meu desejo de salvá-lo.
O menino leva a mão ao rosto.
Seus olhos se enchem de lágrimas.
Meu coração dói junto com o rosto dele.
Quero abraçá-lo.
Quero pedir perdão.
Mas permaneço firme.
Digo a mim mesmo:
"Um dia ele entenderá que foi amor."
Nesse instante, volto a ser Jesus.
Ainda estou na cruz.
Meu peito arde.
Algo mudou.
Eu havia sentido aquele homem por dentro.
Não observara suas ações.
Habitara seu coração.
E ali não encontrei prazer em ferir.
Encontrei medo.
Um medo vestido de amor.
Uma pergunta nasce em mim: e o filho?
O que sente o filho?
Antes que eu termine de perguntar, sou o filho.
Agora crescido.
Mas o corpo ainda guardando, sem saber nomear, a marca antiga daquela mão.
Sinto o afastamento que fui construindo, ano após ano, sem nunca entender por quê.
Sinto que amo meu pai.
E ao mesmo tempo, não consigo chegar perto.
Volto para a Cruz.
Olho novamente para a pequena abertura no céu.
Ela permanece silenciosa.
Então compreendo que ainda há mais.
Muito mais.
Outra vida.
Outra casa.
Outra história.
Sou uma mulher.
Meu marido permanece em silêncio.
Esse silêncio me desespera.
Não porque me ignore.
Mas porque acredito que, se continuar assim, ele se perderá.
Precisa mudar.
Precisa tornar-se mais atento.
Mais sensível.
Mais presente.
Falo.
Insisto.
Repito.
Corrijo.
Critico.
Aponto.
Não faço isso para diminuí-lo.
Faço porque imagino o homem que ele poderia ser.
E desejo esse homem para nós.
Quanto mais tento transformá-lo...
Mais ele se afasta.
Quanto mais ele se afasta...
Mais tento transformá-lo.
Nosso amor gira como uma roda que fabrica tristeza.
Agora sou o marido.
Escuto suas palavras.
Ela diz que quer meu bem.
Acredito.
Nunca duvidei disso.
Mas, a cada conselho, sinto que desapareço um pouco.
Ela não percebe.
Ama a imagem que faz de mim.
Não consegue amar aquele que realmente sou.
Defendo-me.
Levanto muros.
Silencio.
Ela chama meu silêncio de indiferença.
Eu o chamo de sobrevivência.
Também a amo.
Profundamente.
E justamente por isso desejo que ela me aceite.
Nós dois pedimos a mesma coisa.
Nenhum dos dois consegue oferecê-la.
Retorno à cruz.
Abro os olhos.
As vozes do Gólgota voltam.
Minha mãe.
João.
Maria Madalena.
Todos ali.
Todos amando.
Cada um à sua maneira.
Então outra experiência me envolve.
Agora caminho por um templo.
O perfume do incenso enche o ar.
As escrituras repousam abertas diante de mim.
Eu as amo.
Dediquei minha vida inteira a elas.
Nelas encontrei Deus.
Nelas encontrei sentido.
Então aparece alguém.
Fala diferente.
Ensina diferente.
As pessoas começam a segui-lo.
Meu coração aperta.
Se ele estiver errado...
Quantos serão desviados?
Quantas almas se perderão?
Não posso permanecer calado.
É meu dever impedir.
Não por orgulho.
Por fidelidade.
Por zelo.
Por amor a Deus.
Minha voz endurece.
Minha indignação cresce.
Convenço outros.
Precisamos detê-lo antes que seja tarde.
Volto para dentro de mim como quem desperta de um sonho.
Mas não é um sonho.
É uma vida.
Olho para os sacerdotes que permanecem próximos da cruz.
Seus rostos já não são os mesmos para mim.
Ainda há dureza.
Ainda há cegueira.
Mas agora eu também enxergo outra coisa.
Sinceridade.
Uma sinceridade profundamente enganada.
Meu coração vacila.
Não para justificar.
Mas para compreender.
Sou um velho.
Minha barba já embranqueceu.
Minhas mãos conhecem o trabalho e o tempo.
Meu jovem filho está diante de mim.
Ele quer partir.
Fala de terras distantes.
De novos costumes.
De um modo diferente de viver.
Escuto suas palavras como quem escuta alguém anunciar a própria ruína.
Tudo o que aprendi...
Tudo o que meus pais me ensinaram...
Tudo o que conservei durante décadas...
Ele deseja abandonar.
Meu coração aperta-se.
Não porque eu o odeie.
Porque o amo.
Amo-o tanto que não consigo suportar a ideia de vê-lo seguir um caminho que considero errado.
— Escute-me.
Minha voz endurece.
— Você ainda não compreende a vida.
Ele insiste.
Argumenta.
Sorri com a confiança da juventude.
E isso me fere ainda mais.
Como pode estar tão seguro justamente quando está enganado?
Levanto a voz.
Depois o braço.
Depois a autoridade.
Faço tudo para impedi-lo.
Dentro de mim há apenas um pensamento.
"Estou salvando meu filho."
Volto.
Minha respiração falha por um instante.
Olho para minhas mãos atravessadas pelos pregos.
Quantas vezes, durante minha caminhada, eu vejo pais e filhos separados?
Sempre imagino que lhes falte amor.
Agora já não tenho tanta certeza.
Talvez lhes falte outra coisa.
Mas ainda não sei o quê.
A abertura entre as nuvens permanece me chamando.
Então sou novamente levado.
Sou agora o filho.
Meu pai não me escuta.
Tudo o que digo parece ofendê-lo.
Tudo o que sonho lhe parece absurdo.
Não quero desonrá-lo.
Nunca quis.
Apenas desejo viver conforme aquilo que desperta meu coração.
Mas ele insiste em decidir por mim.
Sufoca-me.
Controla-me.
Corrige cada passo.
Já não vejo nele um pai.
Vejo uma prisão.
Minha voz também endurece.
Respondo.
Enfrento.
Digo palavras que jamais pensei dizer.
Enquanto me afasto, meu coração também sangra.
Ainda o amo.
Fecho-lhe a porta.
Vou embora.
Volto à cruz.
Fecho os olhos.
Respiro lentamente.
Duas dores.
Dois amores.
Nenhum deles deseja destruir o outro.
Mas destroem.
Sou um governante.
Olho um mapa.
Na fronteira cresce um exército inimigo.
Se eu nada fizer...
Meu povo sofrerá.
Se atacar primeiro...
Talvez evite uma guerra maior.
Assino uma ordem.
Centenas morrerão.
Talvez milhares.
Minha mão treme.
Não desejo sangue.
Desejo segurança.
Desejo paz.
Mas a paz que conheço exige esta guerra.
Agora estou do outro lado da fronteira.
Também sou um governante.
Também olho mapas.
Também temo pelo meu povo.
Também acredito que o primeiro ataque salvará minha nação.
Também assino.
Também rezo.
Também peço a Deus proteção.
As duas ordens partem na mesma manhã.
Os dois povos cantam.
Os dois povos choram.
Os dois povos acreditam lutar pelo bem.
Outra vez.
Outro coração.
Agora sou um jovem soldado.
Seguro uma espada.
Minhas mãos tremem.
Não desejo morrer.
Também não desejo matar.
Mas, atrás de mim, está minha família.
Minha cidade.
Meu povo.
Se eu recuar...
Quem os defenderá?
Corro.
O homem diante de mim também corre.
Seus olhos têm o mesmo medo que os meus.
Mesmo assim...
Atacamos.
Porque cada um acredita proteger aquilo que ama.
Quando a lâmina encontra carne, algo morre em mim junto com o outro.
Ainda assim, digo ao meu coração:
"Era necessário."
Volto.
Minha respiração torna-se pesada.
Olho as lanças dos soldados romanos aos pés da cruz.
Imagino suas casas.
Suas mães.
Seus filhos.
Suas histórias.
A cruz permanece a mesma.
Mas aqueles homens deixam de ser apenas soldados.
E voltaram a ser homens.
Sou uma menina.
Tenho poucos anos.
Corro pelo quintal segurando um pequeno pássaro que encontrei caído.
Seu peito sobe e desce rapidamente.
Quero cuidar dele.
Quero vê-lo voar outra vez.
Entro em casa sorrindo.
Meu pai olha para o pássaro.
Depois olha para mim.
Toma-o delicadamente das minhas mãos.
Diz que não devo criá-lo.
Que pássaros pertencem ao céu.
Eu aperto o pequeno corpo contra meu peito.
Não quero entregá-lo.
Então ele o arranca de mim.
Sua voz torna-se firme.
Meu choro enche a casa.
Ele acredita estar me ensinando a desapegar.
Eu acredito que ele não compreendeu meu coração.
Os anos passam.
Já sou adulta.
Alguém me oferece amor.
Mas há sempre uma distância dentro de mim.
Sempre o receio de que aquilo que amo me seja arrancado.
Não me lembro mais do pássaro.
Mas a ferida permaneceu.
Volto.
Outra lágrima escorre.
Nem o pai, nem a menina, percebem o que aconteceu.
O pai acredita ensinar.
A filha acredita não ser compreendida.
O pássaro voa.
A ferida fica.
Sou um rapaz.
Meu irmão é diferente de mim.
Enquanto eu gosto do silêncio, ele gosta das festas.
Enquanto eu gosto do campo, ele ama a cidade.
Enquanto eu escuto antes de falar, ele fala antes de pensar.
Meu pai sorri para ele.
Orgulha-se dele.
Comigo é diferente.
Sempre diz:
— Você deveria ser mais como seu irmão.
Começo a imitá-lo.
Aprendo a sorrir quando não desejo sorrir.
Aprendo a esconder aquilo que sou.
Descubro que, para receber amor, preciso deixar de parecer comigo mesmo.
Os anos passam.
Já não sei distinguir quem sou daquele que inventei para ser amado.
Volto.
Meu coração pesa.
Não porque alguém tenha desejado ferir aquele rapaz.
Mas porque ninguém percebe que, ao elogiar um filho contra o outro, ensina um deles a desconfiar da própria existência.
A violência nem sempre deixa sangue.
Às vezes, deixa silêncio.
E o silêncio pode durar uma vida inteira.
Outra experiência.
Sou um jovem.
Descobri aquilo que faz meu coração cantar.
O teatro. A arte da interpretação.
Quero dedicar minha vida a isso.
Conto aos meus amigos.
Eles riem.
Dizem que é perda de tempo.
Que um homem de verdade escolhe outro caminho.
Rio junto com eles.
Finjo que também acho engraçado.
Naquela noite, porém, enterro meu sonho.
Não porque deixei de amá-lo.
Mas porque passei a sentir vergonha dele.
Ninguém me bateu.
Ninguém me prendeu.
Mesmo assim, algo morreu.
Volto.
Olho para a multidão.
Quantos rostos.
Quantas histórias.
Quantos sonhos abandonados apenas para caber dentro do amor dos outros.
O vento sopra sobre o monte.
Faz balançar algumas vestes.
Levanta poeira.
Penso que talvez as feridas da alma sejam parecidas com aquela poeira.
Quase ninguém as vê.
Ainda assim, cobrem tudo.
Agora sou uma mulher idosa.
Minha filha quase não me visita.
Quando vem, tenta reorganizar minha casa.
Muda meus objetos de lugar.
Corrige meus hábitos.
Decide por mim o que devo comer.
Escolhe minhas roupas.
Sorri enquanto faz tudo isso.
Repete inúmeras vezes:
— É para o seu bem.
Olho para ela.
Vejo a menina que um dia carreguei no colo.
Sei que me ama.
Jamais duvidei.
Mas, pela primeira vez, sinto que deixei de existir aos seus olhos.
Ela já não me vê.
Vê apenas aquilo que acredita que eu deveria ser.
Quando ela vai embora, minha casa permanece organizada.
Meu coração, não.
Volto.
A cruz range sob o peso do meu corpo.
Outra compreensão começa a nascer.
Toda imposição diz, ainda que em silêncio:
"Conheço teu coração melhor do que tu mesmo."
Eis a raiz da violência.
Sou um homem já velho.
Meu pai morreu há muitos anos.
Ainda assim, continuo tentando agradá-lo.
Escolho minha profissão pensando no orgulho que ele sentiria.
Educo meus filhos como ele desejaria.
Rezo como ele rezava.
Visto-me como ele gostaria.
Já nem sei se alguma dessas escolhas é realmente minha.
Mas não consigo abandoná-las.
Sua voz continua viva dentro de mim.
Uma voz que dizia:
— Este é o único caminho certo.
Ele nunca quis aprisionar-me.
Quis apenas dar-me o melhor que conhecia.
Mesmo morto...
Ainda caminho segundo suas certezas.
Volto.
Meu coração silencia.
As experiências começam a ligar-se umas às outras como pequenos riachos formando um único rio.
Vejo pais transmitindo aos filhos suas verdades.
Os filhos transmitindo-as aos netos.
Os netos aos bisnetos.
Cada geração oferecendo à seguinte aquilo que sinceramente acredita ser o melhor.
Ao mesmo tempo...
Cada geração herdando também medos.
Feridas.
Culpas.
Ressentimentos.
Tudo envolvido pela mesma palavra:
Amor.
Então percebo algo que jamais havia pensado.
Os homens não herdam apenas a vida.
Herdam também maneiras de amar.
E, sem perceber, repetem umas nas outras as mesmas formas de impor esse amor.
A violência caminha pelas gerações escondida dentro das melhores intenções.
Não é um rio de ódio.
É um rio de convicções.
Ergo os olhos.
A abertura no céu já não parece apenas uma fresta.
As nuvens ainda dominam quase toda a imensidão.
Mas suas bordas começam a perder a escuridão.
Meu coração acompanha aquela mudança.
Toda vez que eu compreendo um homem, diminui um pouco a distância que sinto entre mim e ele.
Os que antes me parecem apenas cruéis começam a revelar sua humanidade.
Não são monstros.
São viajantes.
Cada um carregando um mapa que acredita ser o único.
E é justamente por acreditarem nisso que se perdem uns dos outros.
Vou atravessando coração após coração.
Sem descanso.
Sem nenhuma voz a me anunciar a próxima parada.
Sou muitos outros.
Todos diferentes.
Todos únicos.
Peito após peito, a mesma descoberta se repete.
Nenhum deles está vazio.
Nenhum deles é incapaz de amar.
Pelo contrário.
Todos estão cheios de amor.
Cheios até transbordar.
E, no entanto, transbordam irrigando a morte.
Ao invés da vida.
E, justamente por isso…
Acreditam possuir o direito de invadir o amor do outro.
É o amor — não a falta dele — que empurra a mão.
Faz a exigência.
Joga na fogueira.
Usa a espada.
Volto à cruz.
Meu corpo permanece preso à madeira.
O sangue continua seu lento caminho pela pele.
Mas o peito dói mais que os pregos.
Porque agora a dor já não é apenas minha.
É deles.
De todos eles.
Então compreendo algo.
Ainda pequeno.
Ainda incompleto.
Mas suficiente para inquietar toda a minha alma.
O amor dos homens não é pequeno.
Era imenso.
Tão imenso que cada um deseja estabelecê-lo ao mundo inteiro.
E é justamente aí que começa a tragédia.
Cada homem acredita que aquilo que faz florescer seu próprio coração deve fazer florescer todos os outros.
Cada mulher acredita que seu caminho deve tornar-se o caminho comum.
Cada pai.
Cada filho.
Cada sacerdote.
Cada rei.
Cada mestre.
Cada discípulo.
Cada povo.
Cada coração diz:
"Se isto faz bem para mim, fará bem para todos."
"Se isto é verdadeiro para mim, deve ser verdadeiro para todos."
"Se este é o amor, todos devem amar assim."
E, quando dois amores diferentes se encontram...
Não se contemplam.
Não se perguntam.
Não se escutam.
Tentam substituir um ao outro.
Como duas árvores disputando o mesmo espaço sob o mesmo céu.
Olho para as pessoas reunidas aos pés da cruz.
Cada uma delas carrega um amor.
Nenhuma carrega exatamente o mesmo amor da outra.
No entanto, todas parecem acreditar que o próprio amor é a medida do mundo.
Sinto um peso atravessar meu peito.
Penso: talvez o amor, sozinho, não baste.
Nesse instante, a abertura entre as nuvens alarga-se apenas o suficiente para que um único raio de luz atravesse o céu escuro.
Não cai sobre Jerusalém.
Não cai sobre a cruz.
Cai dentro de mim.
E compreendo.
Com um assombro sereno.
Eu errei.
Todos amam.
Mas amam diferente.
E ninguém respeita o amor do outro.
Esse é o erro.
É desse desrespeito, dessa invasão ao sagrado amor alheio, que nasce toda a mágoa e todo o ódio que envenenam a vida.
Os homens vivem na mais absoluta cegueira sobre o mal que causam quando tentam fazer o bem.
Quando tentam ser salvadores uns dos outros.
Continuo pregado à cruz.
Minha boca está seca.
Ainda ouço o murmúrio dos homens.
Ainda sinto o cheiro da terra revolvida sob os pés da multidão.
Nada mudou fora de mim.
Mas, dentro de mim, eu já não sou o mesmo homem que pergunta ao céu por que foi abandonado.
O céu continua coberto.
As nuvens ainda ocupam quase toda a sua extensão.
Mas já não são as mesmas.
A escuridão que antes parecia pesar sobre mim agora parece apenas esconder alguma coisa que lentamente deseja nascer.
Continuo suspenso entre a terra e o céu.
Meus braços permanecem abertos.
Penso que aquela é uma estranha maneira de morrer.
Abraçado ao mundo inteiro.
Abaixo de mim, ouço novamente os homens.
Uns choram.
Outros riem.
Alguns permanecem indiferentes.
Cada um habitando um universo invisível aos demais.
E se fosse diferente?
Se houvesse respeito?
Eu penso.
E a viagem recomeça.
Sou o mesmo pai.
Em frente ao mesmo menino.
No mesmo quintal.
No mesmo erro pequeno.
No mesmo medo.
No mesmo amor.
Tudo é igual.
Exceto por uma única coisa.
Eu respiro.
Longamente.
Meu impulso de corrigir permanece vivo dentro de mim.
Continuo acreditando que conheço o melhor caminho para o filho.
Nada disso desaparece.
Mas, antes de levantar a mão, acontece algo novo.
Eu olho para o rosto do menino.
Não para aquilo que desejo ensinar.
Olho para quem está diante dele.
Pela primeira vez, percebo que o filho não é uma continuação minha.
É outro coração.
Outro mundo.
Outra consciência.
Abaixo lentamente a mão.
Sento ao lado do menino.
Pergunto:
— Conte-me por que fez isso.
O menino explica.
Eu escuto.
Não concorda com tudo.
Nem preciso.
Mas compreendo que ensinar não é moldar.
É caminhar ao lado.
Naquele instante, sinto algo florescer entre nós dois.
Não é amor.
O que floresce é união.
Sou a esposa.
E também sou o marido.
Digo as mesmas palavras.
Como esposa, desejo mudá-lo.
Como marido, desejo ser aceito.
Tudo recomeça exatamente como antes.
Até que, como esposa, interrompo a minha própria fala.
Olho demoradamente para meu marido.
Penso:
"Talvez aquilo que faz bem para mim não seja aquilo que faz bem para ele."
Não deixo de amá-lo.
Ao contrário.
Meu amor torna-se curioso.
Quero conhecer, em vez de corrigir.
Pergunto:
— Como é o mundo quando visto pelos teus olhos?
Como marido, eu demoro a responder.
Ela nunca me fez aquela pergunta antes.
Enquanto esposa, escuto.
E sinto que abri uma janela nele.
Descubro um homem que não conhecia.
Como marido, eu descubro uma mulher que, pela primeira vez, deseja me compreender antes de me corrigir.
Continuamos diferentes.
Mas a diferença já não parece uma ameaça.
Parece sol e lua.
Outra visão.
O templo.
Os sacerdotes.
As escrituras.
Um mestre ensina algo que me parece estranho.
Sinto novamente a indignação nascer.
O zelo.
O receio.
Tudo como antes.
Mas permaneço em silêncio.
Penso comigo:
"E se as pessoas puderem ser conduzidas a Deus por caminhos que ainda não conheço?"
Não abandono minha fé.
Não renuncio às escrituras.
Não deixo de amar o que acredito verdadeiro.
Apenas deixo de exigir que Deus caiba dentro da minha bíblia.
Meu coração torna-se maior do que minhas certezas.
E, naquele espaço novo, minha violência perde lugar para a escuta.
Sou os dois governantes novamente.
Os mesmos mapas.
As mesmas fronteiras.
Os mesmos exércitos.
Os mesmos receios.
As mesmas famílias esperando proteção.
Aproximo minha mão da ordem de ataque.
Depois hesito.
Imagino, não o inimigo.
Mas um pai.
Uma mãe.
Uma criança.
Do outro lado da fronteira.
Pela primeira vez, percebo que o amor que impulsiona meus exércitos é o mesmo que move o exército inimigo.
Como governante de cá, não deixo de amar meu povo.
Como governante de lá, também não.
Mas deixamos de acreditar que apenas o nosso povo merece continuar existindo.
Minha espada permanece embainhada.
Volto para casa.
Minha mãe dorme sem esperar o som da guerra.
Meus filhos aprendem primeiro o canto dos pássaros.
Só depois o nome das fronteiras.
As experiências sucedem-se em mim como rios desaguando no mesmo mar.
Deixo de desejar que meu irmão seja igual a mim.
Ensino sem humilhar.
Ouço antes de decidir.
Pergunto ao meu filho qual é o sonho dele, em vez de contar-lhe o sonho que preparei para ele.
Descubro que posso amar sem possuir.
Percebo que posso cuidar sem controlar.
Permaneço amigo dos meus amigos apesar de pensarmos diferente.
Preservo minhas tradições sem apagar as tradições vizinhas.
Continuo rezando. Mas já não rezo contra os outros.
Minhas ideias continuam existindo. Mas deixo de desejar que elas se tornem correntes para todos.
Sou parte de uma humanidade que permanece plural.
Minhas diferenças não desaparecem.
Multiplicam-se.
Como flores diferentes no mesmo jardim.
E isso não produz medo.
Produz beleza.
Então compreendo.
Não é o amor que nos une.
É o respeito.
Sem respeito, o amor torna-se conquista.
Com respeito, torna-se encontro.
Sem respeito, o amor levanta muralhas.
Com respeito, constrói caminhos.
Sem respeito, digo: "Seja como eu."
Com respeito, pergunto: "Quem é você?"
Volto inteiramente para a cruz.
As visões cessam.
Os corações dos homens já não atravessam o meu.
O Gólgota volta a ser apenas o Gólgota.
O vento volta a soprar sobre a colina.
Os soldados continuam junto à cruz.
Os sacerdotes permanecem observando de longe.
Minha mãe ainda chora.
João permanece ao seu lado.
Nada muda.
E, no entanto, tudo mudou.
Olho novamente para o céu.
As nuvens já não parecem um peso.
Ainda existem.
Mas entre elas há uma luz serena, como se o próprio silêncio respirasse.
Percebo, então, que o céu nunca se fechou para mim.
Era meu coração que estava coberto pela mágoa.
Enquanto pergunto por que os homens continuam violentos, olho apenas para suas mãos.
Agora conheço seus corações.
E nunca mais consigo olhar para suas mãos da mesma maneira.
Fecho os olhos.
Ainda sinto o pai que levanta a mão para proteger o filho.
Ainda sinto a esposa que deseja transformar o marido porque sonha vê-lo feliz.
Ainda sinto o sacerdote que teme perder Deus caso aceite ouvir quem pensa diferente.
Ainda sinto o governante que assina a guerra acreditando salvar seu povo.
Ainda sinto o filho que rompe com o pai para defender aquilo que acredita ser sua própria vida.
Todos eles ainda habitam em mim.
Nenhum deles me parece um estranho.
Respiro lentamente.
Quanto mais eu os compreendo, menos espaço resta para a mágoa.
Ela não desaparece de uma vez.
É como um lago que, sob o calor da manhã, evapora gota por gota.
Primeiro desaparece minha revolta contra aqueles que me condenaram.
Depois, minha tristeza pelos que zombaram de mim.
Depois, minha dor por aqueles que permanecem repetindo, geração após geração, as mesmas feridas.
Por fim...
Até minha pergunta ao céu perde a necessidade de existir.
Não porque eu encontre uma resposta simples.
Mas porque compreender é diferente de explicar.
O coração compreende onde as palavras jamais chegam.
Abro os olhos.
Vejo um dos soldados ajustar a lança nas mãos.
Seu rosto está cansado.
Talvez tenha filhos.
Talvez espere voltar para casa quando aquele dia termine.
Talvez carregue lembranças de outras guerras.
Talvez também acredite estar apenas cumprindo o que julga correto.
Olho para um dos sacerdotes.
Seu semblante permanece firme.
Recordo o coração que habito.
O medo de perder a verdade.
O desejo sincero de proteger aquilo que considera santo.
Percebo que, se eu conheço apenas seus atos, jamais compreendo sua alma.
Olho para os homens que riem.
Também eles.
Quem sabe quantas humilhações recebem antes de aprender a rir da dor alheia?
Quem sabe quantas vezes lhes ensinaram que vencer é humilhar?
Quem sabe quem lhes diz, um dia, que amar é fazer o outro tornar-se igual a si?
Já não os vejo separados.
Vejo uma única humanidade.
Uma humanidade cansada.
Ferida.
Sincera.
Ignorante.
Não uma ignorância da inteligência.
Mas do coração.
Ignoram que o amor floresce em muitas formas.
Ignoram que aquilo que alimenta um coração pode sufocar outro.
Ignoram que ninguém pode oferecer liberdade impondo a própria maneira de viver.
Ignoram que toda vez que um amor deseja ocupar o lugar de todos os outros, nasce a violência.
E, sobretudo...
Ignoram que o respeito é o espaço onde os diferentes amores podem respirar.
Uma profunda compaixão toma conta de mim.
Não é pena.
É comunhão.
Já não sofro apenas por eles.
Sofro com eles.
Toda a violência que testemunho durante minha vida parece transformar-se numa longa noite.
E vejo, pela primeira vez, que ninguém escolhe a escuridão por amá-la.
Caminham nela porque acreditam que é o único caminho.
Uma lágrima escorre pelo meu rosto.
Não de tristeza. De ternura.
Meu coração torna-se leve.
Tão leve que a cruz já não parece carregar apenas meu corpo.
Parece sustentar também o último peso da minha mágoa.
E esse peso finalmente cai.
Volto meus olhos para aqueles que permanecem diante de mim.
Nenhum deles percebe o que acaba de acontecer.
Tudo permanece igual para eles.
Mas, para mim, eles já não são meus algozes.
Eram meus irmãos.
Irmãos perdidos dentro das próprias certezas.
Irmãos procurando o bem enquanto produzem dor.
Irmãos sedentos de paz, embora alimentem guerras.
Meu peito enche-se de uma religião diferente.
Uma religião que já não deseja convencer ninguém.
Que já não deseja vencer ninguém.
Que apenas deseja que um dia todos enxerguem o que me é permitido enxergar.
Olho para o céu uma última vez.
Agora ele está aberto.
Não porque as nuvens desapareçam completamente.
Mas porque já não existe nenhuma nuvem entre minha consciência e aquele silêncio.
Então volto meu olhar para os homens.
Minha voz sai fraca.
Quase um sussurro.
Ainda assim, alcança o mundo inteiro que existe dentro de mim.
— Pai, perdoa-os. Porque eles não sabem o que fazem.
Não é súplica o que digo.
É a verdade mais simples e mais funda que um homem pode carregar na hora da própria morte.
Depois dessas palavras, o silêncio torna-se pleno.
Inclino lentamente a cabeça.
Meu último suspiro deixa meu peito como quem devolve ao vento uma canção que sempre lhe pertence.
Tudo fica imóvel.
Por um instante, parece que até o tempo se cala.
Então a luz desaparece dos meus olhos.
E a cruz deixa de sustentar um homem.
Sustenta apenas um corpo.
Mas eu já não estou ali.
Não há dor.
É a primeira coisa que percebo.
Depois, o calor.
Um calor manso, que me envolve sem peso. Não é o calor do sol sobre o Gólgota. É o calor da vida começando outra vez.
Abro os olhos.
Acima de mim não está mais o céu da cruz.
Há um teto simples, de madeira antiga.
O cheiro da terra mistura-se ao da palha fresca.
Ouço a respiração tranquila de animais.
Um boi.
Um jumento.
Ouço alguém caminhar devagar.
Panos roçando uns nos outros.
Uma lamparina trêmula desenhando sombras delicadas sobre as paredes.
Conheço aquele lugar.
Antes mesmo de voltar a cabeça, eu o reconheço.
A manjedoura.
Meu coração sorri antes do meu rosto.
Tento mover as mãos.
Pequenas.
Muito pequenas.
Sem as marcas dos pregos.
Fecho os dedos.
São mãos de um recém-nascido.
Então compreendo.
Eu morri.
E, no entanto, ali estou.
No mesmo lugar onde tudo começou.
Não esqueci nada.
A oficina de Nazaré.
As estradas.
Os pescadores.
As crianças.
As parábolas.
Os enfermos.
Os cegos.
O pão repartido.
Os amigos.
A última ceia.
O jardim.
A cruz.
O céu escurecendo.
A pequena abertura entre as nuvens.
Os corações.
Todos aqueles corações.
Continuam vivos dentro de mim.
Lembro-me do pai levantando a mão porque temia perder o filho.
Da filha que carregou por toda a vida uma ferida que ninguém via.
Do marido.
Da esposa.
Do sacerdote.
Do soldado.
Do governante.
Do menino.
Da velha.
Do jovem.
De cada homem e de cada mulher que eu habitei por um breve instante.
Recordo também do outro mundo.
O mundo respeitoso.
O pai que escuta.
O casal que se descobre.
Os povos que permanecem diferentes sem se tornarem inimigos.
As religiões que continuam rezando sem disputar Deus.
Os homens que já não confundem cuidar com controlar.
Aquela visão não me parece um sonho.
Parece uma semente.
Abro lentamente os olhos outra vez.
Maria aproxima-se.
Seu rosto está iluminado por uma alegria silenciosa.
Seus olhos encontram os meus.
Sorri.
Não há como ela saber.
Para ela, eu acabo de nascer.
Sou apenas um bebê.
Pequeno.
Frágil.
Incapaz de falar.
Incapaz até de sustentar a própria cabeça.
Mas minha consciência permanece desperta.
Olho para ela com um amor antigo.
O mesmo amor.
E, ao mesmo tempo, um amor novo.
José entra logo depois.
Seu olhar repousa sobre mim com a ternura tranquila dos homens que aprendem a amar mais pelo cuidado do que pelas palavras.
Vejo novamente suas mãos.
As mesmas mãos que um dia me ensinaram e me ensinarão a trabalhar a madeira.
Sorrio por dentro.
Há algo profundamente belo em recomeçar.
Não porque o primeiro caminho tenha sido inútil.
Mas porque agora eu conheço uma paisagem que antes me era invisível.
Desta vez não falei do amor.
Amar todo homem já sabe.
Todo homem sempre ama.
Não lhes falta amor.
Falta consciência.
Consciência de que cada coração floresce de um modo.
Consciência de que o bem não se impõe.
Consciência de que a verdade perde sua luz quando pretende caminhar algemada.
Consciência de que respeitar não diminui o amor.
Permite-lhe respirar.
Lá fora, a noite permanece serena.
Uma estrela brilha sobre o silêncio.
Olho novamente para Maria.
Ela acaricia delicadamente meu rosto.
Fecho por um instante meus pequenos olhos.
E, no silêncio da minha consciência, compreendo por que um dia prometi voltar.
Não para desfazer o feito.
Mas para ampliá-lo.
Então penso:
Pronto, Jesus voltou.
E sorrio.
Um sorriso tão pequeno quanto o rosto de um recém-nascido.
Fim.