Narciso Nu
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Narciso não é uma pessoa. É um mito.
Mito não é sobre alguém, é sobre todos. É a humanidade olhando para si mesma através de uma metáfora.
O mito de Narciso é a história de alguém que se apaixona pelo próprio reflexo. Por conta disso, acreditamos que uma pessoa narcisista é alguém apaixonado por si.
Esse é o equívoco.
Narciso não se apaixona por si, como se costuma pensar, se apaixona por seu reflexo.
Qual é a diferença?
Veremos a seguir.
Narciso existe sem o reflexo, mas o reflexo não existe sem Narciso.
Narciso é causa. Reflexo é efeito.
Isso é óbvio. E exatamente por ser óbvio, é o detalhe mais difícil de perceber.
Você existe sem o seu reflexo, mas seu reflexo não existe sem você.
Você é causa. Reflexo é efeito.
Quando você ignora essa obviedade, você comete o mesmo erro de Narciso: confunde causa e efeito. Esquece de si e se apaixona pelo reflexo.
Reflexo é criatura. Você é o criador.
Quando você esquece que você é o criador, você perde sua autonomia, perde seu autocontrole, perde a responsabilidade pela sua criação.
E o criador vira escravo da criatura.
Quando você assiste televisão, existem duas mídias acontecendo ao mesmo tempo. Imagem e som. São distintas, independentes, mas como estão sincronizadas, você não percebe a separação. A experiência chega como uma coisa só.
A realidade que você experimenta agora — e sempre — funciona da mesma forma. É multimídia. Mas assim como na televisão, você não percebe as mídias separadas. A experiência chega como uma coisa só. Mas não é.
Para entender o narcisismo, é fundamental perceber que a realidade é feita de duas mídias distintas acontecendo simultaneamente:
Significante e significado.
Assim como você mistura imagem e som quando assiste televisão, você mistura significante e significado quando está vivendo. Essa confusão é a raiz do narcisismo.
Quando você olha para uma coisa — qualquer coisa — o significado que você está vendo não está na coisa. A coisa é o significante, não é o significado.
O significante funciona como espelho.
O significado que você vê em um significante — mesa, sapato, palavra — não está no significante. Está em você — que está olhando para ele. Assim como a imagem que você vê no espelho não está no espelho. Está em você — que está olhando para o espelho.
Eis a função espelho, raiz do narcisismo.
Significante e significado são termos da semiótica, a ciência que estuda a estrutura das linguagens humanas. Mas estou usando esses termos de forma mais abrangente:
Significante = objeto.
Cadeira, mesa, parede, pessoa, cheiro, sabor, etc.
Tudo que você experimenta através dos cinco sentidos.
Significado = o valor que você agrega ao objeto.
Grande, pequeno, bom, ruim, errado, etc.
Tudo que você experimenta através do pensamento e sentimento.
Quando você olha para uma cadeira e pensa "coisa para sentar" — essa definição está na cadeira? Não. É um valor que você agrega à cadeira.
Quando você olha para um copo e pensa "coisa para beber água" — em que lugar do copo está essa definição? Em lugar nenhum.
O copo é só um objeto. Um significante.
Quando você assiste um filme e pensa "que tristeza" — onde está a tristeza no filme?
Em lugar nenhum. A tristeza está em você — que está assistindo ao filme.
Significante é tudo que você experimenta com os cinco sentidos.
Significado é tudo que você projeta sobre os significantes.
Os sentidos fornecem os significantes.
Você projeta os significados.
Você é o projetor do significado que está vendo refletido no objeto. A imagem de Narciso vendo a si refletido no rio é uma metáfora para isso — projeção psicológica.
Não existia psicologia na Grécia, então, os gregos usaram a ideia de reflexo para tratar da projeção psicológica do significado.
Narciso é o significante.
O reflexo é o significado projetado.
O que acontece se você jogar um significante em um urubu? Uma pedra, por exemplo. Você pega uma pedra e joga no urubu. O urubu sofre?
Sim, ele sofre!
Por que o urubu sofre?
Porque dói.
Mas não é só isso! O urubu sofre porque quer prazer e não quer dor. Se o urubu quisesse sentir dor, agradeceria pela pedrada. Mas não quer. Então, sofre.
Percebe? Sem desejo não há sofrimento.
Mas o significante — a pedra — não contém o sofrimento. A pedra é só uma pedra. O sofrimento nasce do encontro entre o significante e o desejo do urubu.
Concluímos, portanto, que o desejo é fundamental no entendimento do sofrimento, a mera experiência do significante não o explica.
E se você jogar um significado num urubu?
Você olha para ele e dispara:
— Seu urubu feio, narigudo e fedido.
Ele sofre?
Não sofre.
Por que não?
Primeiro, porque “feio” não é uma pedra, não é um objeto, não tem peso, não tem impacto físico, não deixa marca.
Feio não é significante, é significado.
Segundo, porque o urubu não quer significar bonito. Se quisesse, sofreria ao ser chamado de feio. Mas o urubu não sabe o que é bonito. Não sabe o que é feio. Nem quer saber.
Seu desejo pelo significado de bonito é zero.
Se o outro te jogar uma pedra, você sofre?
Sim.
Por que sim?
Porque você quer prazer e não quer dor.
O desejo entra na equação, igual ao urubu.
Até aqui, você e o urubu funcionam iguais.
Mas espere.
E se o outro te jogar um significado? Se te chamar de feio, carniceiro, repulsivo, fedido — você sofre?
Sim, você sofre.
Por quê?
Porque você quer significar bonito.
O urubu não sofre quando é chamado de feio porque não quer significar bonito. Você sofre porque quer ter esse significado.
Agora você ficou diferente do urubu.
Xingue a lagartixa. Xingue a barata. Xingue o cachorro, a parede, a torneira. Nenhum deles sofrerá porque nenhum deles quer significar nada.
O sofrimento com o significado só acontece com o ser humano.
Só o ser humano sofre com o significado. Só o ser humano quer significar algo. Só o ser humano carrega dentro de si o desejo de ser considerado de uma determinada forma e sofre quando o mundo não confirma seu desejo.
Esse é o pilar do narcisismo.
Por que você quer significar bonito e não feio?
Porque você se considera bonito. Porque tem auto-imagem de bonito.
Se você se considerasse feio, quando alguém dissesse "você é feio" — não haveria problema nenhum. A afirmação não causaria dor, como não causa ao urubu.
Você olha para si e atribui o significado de bonito. O outro olha para você e atribui o significado de feio. Um significante. Dois significados conflitantes.
A imagem que você tem de si — auto-imagem — e a imagem que o outro tem de você — outro-imagem — não coincidem. Ao contrário, trombam.
Choque de imagens.
O sofrimento nasce desse choque.
Dessa desigualdade.
Dessa discordância.
Qual critério você usa para se considerar bonito?
Você usa o seu.
Qual critério o outro usa para te considerar feio?
O outro usa o dele.
Esses critérios são particulares e distintos.
Sendo assim, como o outro pode atribuir o mesmo significado que você?
Não pode. É impossível.
Então, por que você espera que o outro faça algo impossível?
Por que espera que o outro use um critério que não é dele?
Essa é a pergunta que o narcisismo nunca faz.
Por que você quer que o outro tenha o mesmo critério que você?
Porque você é narcisista. Se não fosse, não queria. Mas você é humano, e humano é narcisista. Não tem como escapar.
O urubu não quer o impossível porque não é narcisista. Nem consegue ser.
Você consegue. E é.
Mas sendo que seu desejo é impossível:
Você é narcisista ou burro?
Minha sugestão para lidar melhor com o narcisismo é simples: fique consciente de que narcisismo é burrice.
Quando estiver sendo narcisista, diga a si mesmo:
— Estou querendo que o outro faça algo impossível. Logo, estou sendo burro, burro, muito burro. Que burrice terrível. Estou sendo uma anta.
Claro que você não sabia da sua burrice antes dessa explicação.
Mas agora sabe.
Não seja mais tão burro.
Narcisismo é a crença de que seu critério de significação é absoluto.
Como dever de casa, a professora solicitou que cada aluno fizesse um pequeno verso rimado.
No dia seguinte, foi verificar.
— Leia seu verso, Mariazinha — disse a professora.
— A rosa é formosa.
— Muito bem, Mariazinha! E você, Joãozinho?
— Urubu tem pena no cu — disse Joãozinho.
— Tá errado! Refaz a tarefa — ordenou a professora.
No dia seguinte:
— Qual é sua rima, Joãozinho?
— Urubu tem pena no cu — ele repetiu.
— Já falei que tá errado! Refaz a tarefa — reordenou a professora.
Passou um mês. Mesma pergunta. Mesma rima. Mesma reprovação.
Até que Joãozinho, de saco cheio da professora, mudou seu verso:
— Urubu tem pena no pé, porque no cu a professora não qué.
Eis a dificuldade de viver autoísta.
Você é livre para colocar a pena do urubu onde quiser. Sua vida é sua. Mas os professores — religiosos, morais, sexuais, culturais — te reprovam. Te mandam refazer a tarefa. Insistem até você aprender o critério deles. E se encaixar neles.
Essa rima tem um nome: uniformidade.
É uma pena.
Mas acontece desde sempre, em todo lugar, com todo mundo.
E se você não suportar a rejeição — a punição, a discriminação, o olhar torto, o sermão — por viver sua própria rima, acabará rimando amor com dor e se transformando em mais um professor da uniformidade.
Mais um caga-regra enfiando pena no cu dos outros.
É isso que você quer?
Então me diga: qual é sua rima?
No narcisismo não existe alteridade. Só existe você.
Você é tudo — e não há outro.
No universalismo existe você. E existe o outro.
Isso é alteridade.
A definição de universalismo da 1ficina é simples e precisa:
1 ≠ 1 — Um é diferente de um.
Você é diferente do outro.
O outro é diferente de você.
Não somos iguais, somos igualmente diferentes.
Eu sou outro você. Você é outro eu.
Mas eu não sou você, nem você sou eu.
Eu sou eu. Você é você.
A luz de uma estrela é luz igual à luz de qualquer outra estrela.
Mas a luz de uma estrela é de uma estrela, não de outra.
Um dedo é a mão. Outro dedo é a mão. Os cinco dedos são a mesma mão.
Mas retirados os dedos: que mão sobra?
Universo não é unidade. É unimultiplicidade.
Convivemos.
Mas convivência não é ausência de individualidade.
É coexistência.
Afinal, como poderia haver convivência sem coexistência?
Somos oito bilhões de super-heróis. Todos tentando salvar o mundo.
O cristão quer salvar o mundo do islamismo. O islâmico quer salvar o mundo do cristianismo. O ateu quer salvar o mundo da crendice. O crente quer salvar o mundo do ateísmo. O heterossexual quer salvar o mundo da homossexualidade. O homossexual quer salvar o mundo da heterossexualidade. A esquerda quer salvar o mundo da direita. A direita quer salvar o mundo da esquerda. Os pais querem salvar os filhos. Os filhos querem salvar os pais.
Resultado: treta, guerra, soco, pontapé, facada, mágoa, inimizade, ódio.
Tudo em nome de salvar o mundo.
Salvar o mundo é piada.
Ninguém quer salvar ninguém. Cada um quer ajudar a si mesmo. Cada um quer que o mundo reze sua cartilha. Cada um quer que sua verdade seja absoluta.
Se ao menos fôssemos honestos sobre isso. Mas não. Somos todos santos. O vilão é sempre o outro. A culpa é sempre do outro. O errado é o outro. O inferno é o outro. O capeta é o outro.
Eu sou o salvador. E imponho meu certo e meu valor ao outro em nome da santidade absoluta, da verdade absoluta, do amor e da salvação.
Expor é diferente de impor. Explicar é diferente de implicar.
Você pode compartilhar sua opinião, seu critério, sua verdade — sem ser um caga-regras. Como? Exatamente como estou fazendo aqui: explicando. E só estou fazendo isso porque você veio se esclarecer. Se não tivesse vindo, não diria nada — seria invasão.
Expor e explicar produz bem viver.
Impor e implicar produz mal viver.
A diferença entre os dois é o mesmo abismo que separa o super-herói do vilão.
Ocupação é um termo popular nos movimentos de cidadania.
Tem um lugar desocupado — alguém vai lá e ocupa. Uma praça pública, o povo ocupa. O Movimento Sem Terra ocupa. Quando os povos antigos foram se espalhando pelo mundo, estavam fazendo ocupação.
O nome histórico é colonização, mas isso é só terminologia.
Colonização é ocupação.
Ocupação acontece quando um lugar é terra de ninguém ou público.
Os portugueses ocuparam uma (suposta) terra de ninguém que chamaram de Brasil. Moradores de rua ocupam o espaço embaixo dos viadutos.
Tudo isso é ocupação física.
Cadê a ocupação metafísica?
Parafraseando Morpheus:
"A ocupação metafísica está em todo lugar. É tudo que te rodeia. Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga a televisão. Você a sente quando vai ao trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos. É a realidade colocada diante dos seus olhos para que você não veja que é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro — numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão mental. Por isso é impossível lhe dizer o que é ocupação metafísica. Você precisa vê-la em si e por si."
No começo da civilização, a ocupação era física. Territorial. A disputa era por chão. Hoje a disputa é por outra coisa: sua cabeça.
Sua cabeça é a terra de ninguém dos colonizadores da modernidade.
Guerra cultural é a disputa entre esses colonizadores.
Na guerra por espaço físico, as armas são físicas — revólveres, metralhadoras, bombas. Na guerra pelo seu pensamento, as armas são mentais — ideologias, teorias, propaganda, fake news, fofoca, injúria. Todo tipo de manipulação de informação.
Eis o que é — e como funciona — a guerra cultural.
A palavra "discriminação" é usada de forma errada.
Discriminar significa separar em categorias. É um processo mental natural, saudável e inevitável. Sem ele, você estaria morto — incapaz de distinguir comida de veneno, amigo de predador, chão de abismo.
Dizer que abacate é fruta é discriminação. Dizer que fulano é brasileiro é discriminação. Dizer que beltrano é feio é discriminação.
Discriminar é classificar. É o que a mente faz o tempo todo, sem parar, sem pedir permissão.
Quando você "discrimina" alguém — no sentido em que a palavra é usada no dia a dia. Você não está classificando a pessoa na categoria em que ela está. Está exigindo que ela se encaixe numa categoria em que ela não está.
Quando você proíbe uma pessoa de ser gorda, não está discriminando. A pessoa gorda já está na categoria de gorda. O que você está fazendo é outra coisa: exigência.
Está obrigando que se encaixe na categoria de magra.
Isso não é discriminação. É uniformização.
Racismo. Xenofobia. Misoginia. Capacitismo. Etarismo. Aporofobia. Intolerância religiosa.
Nenhum desses é discriminação. Todos são uniformização — a exigência de que o outro se encaixe numa categoria que não é a sua.
E aqui está o detalhe que muda tudo:
Discriminar não é opcional. É automático. Acontece quer você queira quer não — sua mente classifica o tempo todo, é assim que funciona.
Uniformizar é uma escolha.
E uma péssima escolha — porque sendo impossível que algo deixe de ser o que é, a uniformização resulta sempre na mesma coisa:
Mal viver. Má convivência.
Como se curar do narcisismo?
Sofrendo feridas narcísicas. Simples assim e difícil assim.
Sem ferida, não há despertar. Sem despertar, o equívoco continua intacto, confortável, invisível.
A ferida narcísica não é o problema, é o remédio. Ela vem exatamente para isso: tirar você do estado de ignorância. Arrancar o véu.
Não existe atalho intelectual, não existe técnica, não existe leitura — nem mesmo essa — capaz de substituir o poder curador da ferida narcísica.
Você pode entender tudo que está escrito neste livro e continuar narcisista. O mero entendimento intelectual não corrige o erro. A dor, a ferida, sim.
Então quando a ferida chegar — e vai chegar — não fuja. Abrace.
Ela não veio para te destruir. Veio para te acordar.
Para deixar Narciso nu.
Te desejo muitas feridas.
E muita cura.
Não sei o que é urubu.
Sei o que é pedra. Sei onde dói sua visita inesperada. Na asa, no músculo, na carne sendo amassada com o impacto.
Esse ruído — u-ru-bu — que os homens fazem com a boca quando me veem. Isso eu não sei. Não molha minha asa como a chuva. Apenas passa pelo ar como passa o vento, e o vento eu não guardo.
Me chamam de feio.
Feeeeeeio. Sinto a vibração. Chega a refrescar as penas. Depois passa.
Dizem que trago morte.
A morte eu conheço. Conheço o cheiro, o sabor, o lugar exato onde ela pousa e espera. O resto é ideia de homem. Coisas que colocam em mim e acham que é meu. Eu não tenho ideia do que é ideia. Nem de morte. Nem de nada.
Certa vez um homem sentou perto da minha árvore. Ele chorava. O corpo tremendo, o ar saindo em pedaços, os olhos fazendo água. Isso eu entendo. O corpo faz essas coisas quando está machucado. Também faço quando a pedra me atinge.
Mas ele não estava machucado. Pedra nenhuma havia lhe atingido.
Ele chorava do mesmo sopro que jogam em mim. Feeeeeeio. Só que nele o sopro não refrescava. Desfalecia.
Quando me viu, tocou a campainha. Os homens gritam assim, como campainha.
— Sai daqui agourento.
Depois, me jogou uma pedra. Essa sim eu entendi, no ombro que ardeu. E voei. Sem saber que era agouro. Com o ardido que foi sendo curado pelo ar.
São interessantes os homens.
Há neles um lugar onde o som chega duro, sólido e pontudo. Um lugar que não é carne, que não sangra, mas que dói, tanto quanto pedradas.
Eu os vejo arremessando. Não vejo de onde as tiram.
Algumas soam como sirene. Outras como vento. Outras como o canto do rio.
São infinitas.
São pedras que não existem no ar, não existem no chão, existem apenas para os homens.
Eu não carrego essas pedras.
Por isso voo.
Não porque sou livre. Liberdade é pedra humana. Voo porque o ar sustenta, porque as asas empurram, porque a corrente quente sobe e me carrega.
Os homens dizem que sou feio. Eu voo.
Os homens dizem que sou agourento. Eu voo.
Os homens dizem que trago a morte. Eu voo.
A pedrada de ontem já não dói. O agouro nunca doeu.
Amanhã vou pousar no galho. Abrir as asas. Sentir o sol no preto das penas.
O que sou? Não sei. Jamais saberei.
Assim como não sei porque os homens insistem nesse ruído — u-ru-bu — e acreditam, com convicção dura feito pedra, que moro dentro dele.