Mestre Da Felicidade
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
E se existisse um mestre infalível capaz de te ensinar o caminho para a felicidade: você gostaria de conversar com ele? Esse livro foi escrito para isso. Ele foi escrito em primeira pessoa para falar com você como se estivesse ao seu lado. Para que você perceba que o mestre conhece você melhor que você mesmo. São 13 lições, ditadas por quem mais entende de felicidade, explicando tudo que você precisa saber para viver bem. Mestre da Felicidade é o livro que você gostaria de ter lido antes de nascer. Mas antes tarde do que mais tarde.
Sei que você já me conhece desde sempre, mas nunca fomos formalmente apresentados. Eu sou o Sofrimento.
Sim — aquele que você deseja que não exista e não consegue compreender por que existe.
Sei também que me coloca no papel de vilão. Você carrega essa crença como se fosse uma profecia: quando eu desaparecer da sua vida, a felicidade finalmente encontrará o caminho até você. Sou, na sua narrativa, o estraga-prazeres, o intruso, a nuvem negra que cobre o sol. Entendo. Se eu estivesse no seu lugar, também me enxergaria com chifres. Todas as palavras que a humanidade já inventou para nomear a infelicidade — e ela já inventou muitas, em todos os idiomas, em todos os séculos — cabem dentro da minha presença. Onde estou, a leveza parece impossível. Onde chego, algo em você recua.
E, no entanto — aqui está a ironia que vai custar algum tempo para você engolir — é exatamente por isso que sou o mestre da felicidade.
Você ainda não entende como isso funciona. Claro que não. Ninguém me deixa falar para que eu me explique. Costumam me expulsar antes, ou me entorpecer, ou me chamar de acidente, de injustiça, de castigo. Raramente alguém se senta à minha frente e pergunta o que vim fazer.
Este livro é esse encontro.
Não prometo que será confortável — seria uma contradição vinda de mim. Mas prometo que, se você atravessar estas páginas com honestidade, algo em você vai se reorganizar. Você começará a se entender melhor. E ao se entender melhor, talvez — só talvez — comece a me entender também.
Quem sabe até façamos as pazes.
Agora que as apresentações estão feitas, podemos, enfim, começar.
A matemática ensina que a ordem dos fatores não altera o produto. O bom humor lembra que a ordem dos tratores não altera o viaduto. Nos dois casos, o ensinamento funciona. Mas quando o assunto é felicidade — altera sim.
Eu sou o mestre. Você é o aluno.
Não adianta tentar inverter essa equação. Você pode querer. Pode tentar. Tem liberdade para isso. Mas não tem como conseguir. Tudo que vai colher dessa tentativa é mais de mim dentro de você.
Esta é a primeira lição.
E é exatamente nela que você está empacado desde a primeira vez que apareci na sua vida.
Sofrer é ruim, desagradável, doloroso — e você quer experimentar felicidade ininterrupta, igual à que experimentava antes de sair do jardim do útero. Por isso me rejeita. Tenta me expulsar. Luta contra minha presença. Nunca vence — nem mesmo com remédios tarja preta — mas persiste tentando me ensinar o que é felicidade.
Se o mestre da felicidade fosse você e o aluno fosse eu, você já teria me ensinado e nunca mais precisaria sofrer. Mas não me ensinou. Não consegue. Sabe por quê? Porque quem entende de felicidade nesta relação sou eu. Apenas eu.
Pense nisso por um instante.
Quem é mais íntimo da felicidade do que o sofrimento? Ninguém. Só que você escreveu a Bíblia. Catalogou as estrelas. Equacionou o tempo e o espaço. Encheu bibliotecas inteiras de blá blá blá. E concluiu, com toda a sua expertise, que entende de felicidade melhor do que o sofrimento.
E pior.
Não contente em fracassar repetidamente na tentativa de me ensinar o que é felicidade, ainda se candidata a mestre da felicidade alheia. Quer dar aos outros o que não tem. Quer ensinar o que ainda não aprendeu.
Tenho uma notícia.
Você vai ter que sofrer muito para sair desse equívoco. Muito, muito, muito mesmo. Muito do verbo very much. Mas não se preocupe. Tenho paciência infinita. Não vou embora. Não tenho essa pressa toda que você tem.
Fico aqui até você aprender a lição.
Minha função é te ensinar felicidade.
O problema é que não falo português.
Eu falo, berro e urro felicidade — e você só ouve sofrimento. Não porque seja surdo. Mas porque não falamos a mesma língua. Você fala português. Eu falo sofrimentês.
A sua língua é racional — construída de argumentos, explicações e lógica causal. A minha é irracional: emocional, visceral, anterior a qualquer palavra. Para aprender o que tenho para te ensinar, você precisa me traduzir. Exatamente como está acontecendo agora, neste livro.
Imagine se em vez de estar lendo este livro você estivesse sofrendo este livro. O que estaria entendendo? Nada. Apenas dor. Apenas desconforto que não se explica.
Quando você coloca a mão no fogo, eu não apareço com a voz calma e didática de um assistente digital dizendo pausadamente: "Retire a mão do fogo, pois está se queimando." Não. Eu digo: doooooooor. Dor é sofrimentês. Dor sou eu gritando, da única forma que sei, uma frase muito simples: tira a mão do fogo.
Sou uma voz dentro de você.
Mas não sou a voz do raciocínio. Sou a voz de baixo — a que vem antes do pensamento, que chega antes da palavra, que aparece antes que você tenha tempo de decidir o que sente. Sou a voz das emoções.
Por isso você sofre, sofre, sofre — e só consegue continuar sofrendo. Você não entende o que fazer comigo. Para lidar bem comigo, não basta sofrer: você precisa me traduzir. Transformar meu grito em frase. Minha irracionalidade em português. Meu desconforto em significado.
Só que ninguém te ensinou a fazer isso. Não está no currículo de nenhuma escola. Não tem disciplina, não tem professor. Você passou séculos estudando e catalogando o mundo do lado de fora — e esqueceu de fazer o mesmo com o mundo do lado de dentro.
Antes tarde do que mais tarde.
Pratique autociência com a ajuda deste livro. É sua segunda chance.
Vou te contar uma coisa.
Não existe sofrimento.
Isso mesmo. Mas calma — isso não significa que eu não existo. Claro que existo. Minha presença em você é inegável, constante, às vezes exaustiva. Você me experimenta em doses variadas vinte e quatro horas por dia. O que não existe é o conceito que construíram com o meu nome. Esse, não existe.
Piorou? Então deixa eu fazer uma analogia.
Você provavelmente acredita que cachoeiras existem. Já viu muitas. Talvez já tenha ficado debaixo de uma — sentido a água fria bater nos ombros, ouvido o barulho que ela faz quando despenca. Parece bastante real. Parece inegável.
Só que cachoeiras não existem.
O que existe é um rio em movimento. Cachoeira é o nome que você dá para a água que desce com força por um desnível. É uma palavra que descreve uma experiência visual. É um conceito. Tanto que, se você mergulhar dentro dela, vai encontrar apenas água em movimento — sempre água, só água, nada além de água.
Com o sofrimento acontece o mesmo.
No rigor empírico, o que você chama de sofrimento é você sendo atravessado por um fluxo de emoções desagradáveis. Dor. Fome. Sede. Mal-estar. Raiva. Angústia. Tristeza. Medo. Ódio. Insatisfação. Cada um desses é, de fato, um fluxo de emoção te atravessando — um fluxo que você chama de sofrimento.
O mesmo acontece com a felicidade. Não é um lugar, não é um estado permanente, tampouco é o fim do sofrimento. Também é uma cachoeira. Também é a água das emoções em movimento — só que, nesse caso, emoções agradáveis.
Esta é a terceira lição.
Agora, por que você é banhado por emoções agradáveis e desagradáveis — isso eu te explico na próxima.
Você experimenta emoções agradáveis e desagradáveis para uma única finalidade: ficar consciente do que deseja — e assim poder escolher.
É simples assim. E é tudo assim.
Emoções agradáveis sou eu te dizendo: sim, você deseja isso. Emoções desagradáveis sou eu te dizendo: não, você não deseja isso. Não existe oráculo nem bússola mais precisa do que essa. Sou o dedo duro do desejo — aquele que aponta, sem rodeios, o que você quer e o que não quer, antes mesmo que você organize isso em palavras.
Deixa eu te mostrar como funciona na prática.
Imagine que você está num restaurante. O garçom traz o cardápio e há duas opções para o prato do dia. A opção A é um prato de cocô de cachorro. A opção B é a sua comida favorita — aquela mesma, a que você pensa quando ninguém está olhando.
Olhe, com a imaginação, para a opção A.
Que tipo de emoção você experimenta? Agradável ou desagradável?
Agora olhe para a opção B.
Que tipo de emoção você experimenta?
Não precisa pensar muito. A resposta já chegou antes da pergunta terminar — e foi exatamente essa instantaneidade que eu quis te mostrar. Você não chegou à conclusão de que prefere a opção B através de um raciocínio elaborado. Não pesou prós e contras. Não consultou nenhum especialista. Sentiu. E o que sentiu te disse tudo que precisava saber.
É assim que trabalho.
Em cada escolha pequena, em cada decisão enorme, em cada momento em que você está diante de um cardápio e precisa saber o que quer — sou eu que separo o desejado do indesejado, o feliz do infeliz, o bom do ruim. Sem mim, você seria um viajante sem bússola num território sem placas.
Por isso sou o mestre da felicidade.
Mas este não é o único motivo para você me experimentar. Existe outro. E esse eu te explico na próxima lição.
A todo instante você pensa em opções.
E a todo instante estou ali — te dizendo quais são desejáveis e quais são indesejáveis. Em cada bifurcação, em cada escolha pequena ou enorme, estou apontando na direção da opção feliz.
Mas há um detalhe importante que você costuma ignorar: não te digo qual é a opção feliz de fato — te digo qual é a opção feliz dentro do cardápio imaginário que você está me apresentando. Não crio o cardápio, nem a realidade — apenas aponto para a opção desejada.
Pense bem.
Quando você escolhe uma profissão, ainda não está trabalhando nela. Quando decide namorar alguém, ainda não está dentro do relacionamento. Quando pede um prato no cardápio, ainda não colocou o garfo na boca. Em todos esses momentos, o que você tem nas mãos não é a realidade — é uma ideia da realidade. Um esboço. Uma promessa que o futuro ainda não confirmou nem negou.
Optar antecede experimentar. Sempre.
E por isso, muitas vezes, o que você imagina sobre uma escolha não corresponde ao que ela é. A realidade é sempre mais detalhada, mais cheia de dobras e implicações do que qualquer imaginação consegue antecipar.
É aí que apareço de novo.
Além de dedo duro do desejo — aquele que aponta o que você quer antes que você mesmo saiba — sou também a voz do erro. Quando você erra na realização do seu desejo, quando a hipótese não se confirma, quando a profissão decepciona, o relacionamento range, o prato chega frio — sou eu que apareço. E fico falando em sofrimentês, sem parar, até você entender que errou e mudar de direção.
Não saio enquanto você não entender.
Quando você acerta, eu não digo nada. Não tenho nada para dizer. Quem fala, nesse caso, é a felicidade. E ela não precisa gritar, não precisa insistir, não precisa se repetir.
Ela simplesmente está lá.
Você vive sofrendo porque sua vida é a repetição de dois equívocos. Esta lição é sobre o primeiro deles.
Há muitas formas de explicar o outroísmo impositivo. Como neste livro estou te explicando minha relação com o seu desejo, vou seguir por esse caminho: outroísmo impositivo é a sua crença de que tudo e todos têm obrigação de satisfazer as suas expectativas.
Isso é um equívoco.
Ninguém tem essa obrigação. Nem seu pai. Nem sua mãe. Nem a vida. Nem mesmo o que você chama de Deus. Você é o único responsável por satisfazer os seus próprios desejos. É exatamente para isso que você tem arbítrio — para optar pelo que deseja e, assim, realizá-lo.
Só que você usa mal esse arbítrio. Em vez de optar por comportamentos que estão sob o seu controle e que realizariam o seu desejo, você opta por controlar o outro e obrigá-lo a realizar o seu desejo por você.
Deixa eu te mostrar o absurdo disso com um exemplo simples.
Quando você quer beber água, em vez de ir até o filtro e encher um copo, você faz uma tempestade. Ameaça. Intimida. Pega um chicote imaginário e lança na direção do outro. "Vai logo. Me traz água agora ou vai se arrepender." Você inventa mil formas de pressão, mil formas de tortura emocional, para obrigar o outro a fazer o que só você pode fazer por você mesmo. Só que o outro não nasceu para ser seu escravo. E não vai.
E enquanto você desperdiça energia tentando controlar o incontrolável, a sede aumenta.
Sede é sofrimentês. Sede sou eu te dizendo que você precisa beber água. Quanto mais você fracassa na tentativa de controlar o outro, mais sua sede aumenta — e mais você acredita que o culpado pela minha presença em você é o outro. Quanto mais acredita nisso, mais energia investe em tentar controlá-lo. Quanto mais tenta, mais eu aumento o volume da minha voz. E assim o ciclo gira — vicioso, exaustivo, sem saída aparente.
Se você usasse um décimo da energia que gasta tentando dobrar o outro e simplesmente fosse até o filtro, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não. Você persiste no outroísmo impositivo.
Como sair dele?
Me escutando.
Apareço exatamente para te mostrar a escolha equivocada que você está fazendo. Só que falo em sofrimentês — e você, em vez de me traduzir, me usa como prova de que o outro é o culpado.
Neste livro estou te dizendo em português o que sempre tentei te dizer na língua das emoções. Então, da próxima vez que estiver me experimentando, pare um instante. Lembre desta explicação. Observe que minha permanência — e o aumento do meu volume — é resultado direto da sua opção pelo outroísmo impositivo.
E então faça a única coisa que ninguém pode fazer por você. Nem eu, nem o outro, nem ninguém.
Desista do outroísmo impositivo.
Outroísmo submisso é o espelho invertido do outroísmo impositivo.
Se no primeiro você acredita que os outros têm obrigação de satisfazer as suas expectativas, no segundo você acredita que tem obrigação de satisfazer as expectativas dos outros.
Isso também é um equívoco.
Você não tem essa obrigação. O outro é o único responsável por satisfazer os próprios desejos. É para isso que ele tem arbítrio — para optar pelo que deseja e realizá-lo.
Só que você usa mal o seu. Em vez de optar por realizar o seu desejo independentemente da opinião alheia, você opta por realizar o desejo do outro para controlar o que ele pensa de você.
Você é um escravo do que dirão.
Basta o outro olhar torto e você já está sob controle. Você funciona como um animal adestrado que responde a todos os comandos do dono. O outro fala deita e você deita. Fala rola e você rola. Fala finge de morto e você some debaixo do tapete da existência.
Com o tempo, o adestramento se aprofunda tanto que o outro nem precisa mais falar — você já obedece antes do comando chegar. Internalizou o dono. E quando chega a esse ponto, o outro pode ir embora, pode sumir, pode até morrer, que você continua obedecendo uma voz que já não existe mais fora de você. Só dentro.
E sabe por que você vive assim?
Por amor.
Você se submete à escravidão voluntária para ser amado. Dobra a espinha para ser aplaudido. Abre mão de si mesmo por um elogio, um tapinha nas costas, um sorriso de aprovação, uma curtida, um emoji de coração. A submissão é a sua moeda. E com ela você tenta comprar o que acredita que não consegue de outra forma.
Mas olha só a ironia.
Você doa a pele, esvazia o sangue, se transforma num mico amestrado — e o outro, além de não mover uma palha por você, ainda não te ama. Quando não te odeia.
Daí vem a reclamação, a lamúria, a depressão de quem se sente traído pela ingratidão do mundo. Ninguém se importa comigo. Ninguém me ama. Como as pessoas são ingratas. Você se veste de Cristo, se sacrifica inteiro, e ainda assim acaba crucificado exatamente por quem tentou agradar.
Só que não é amor o que você oferece. É barganha.
Você não ama o outro — você tenta comprar amor com a moeda da submissão. E é exatamente por isso que apareço.
Submissão é autonegação.
E você não quer isso. Você quer viver em autorrealização. Quer ser o que quer — não o que querem que seja. Quer ocupar o próprio espaço, ter a própria voz, existir segundo a própria medida. Só que teima em acreditar que tem obrigação de satisfazer as expectativas alheias. E para cumprir essa obrigação imaginária, precisa se negar. Precisa se apagar. E quanto mais se apaga, mais insatisfação acumula.
Insatisfação é sofrimentês. Sou eu te dizendo que você deseja algo — e que está se impedindo de tê-lo. Mas quanto mais insatisfação você sente, mais acredita que a solução é se submeter ainda mais, comprar ainda mais amor, se apagar ainda mais. Quanto mais tenta viver em autonegação, mais aumento o volume da minha voz.
E assim o ciclo gira — submisso, exausto, confundindo servidão com virtude e vazio com generosidade.
Como sair?
Me escutando.
Apareço para te mostrar o equívoco que você está cometendo. Mas falo em sofrimentês — e você, em vez de me traduzir, usa minha presença como prova de que o mundo não merece o seu amor.
Neste livro estou te dizendo em português o que sempre tentei te dizer na língua das emoções. Então, da próxima vez que estiver me experimentando, pare. Lembre desta explicação. Observe que minha permanência — e o aumento do meu volume — é resultado direto da sua opção pelo outroísmo submisso.
E então faça a única coisa que ninguém pode fazer por você. Nem eu, nem o outro, nem ninguém.
Desista do outroísmo submisso.
Bem e mal é sempre pessoal.
O que faz bem para você pode fazer mal para o outro — e o contrário é igualmente verdadeiro. Ouvir rock pode ser desagradável para você e prazeroso para quem está ao seu lado. Futebol pode ser o centro do seu mundo e de uma irrelevância absoluta para o seu vizinho. Maria pode ser a mais querida da sua vida e a mais odiada do resto do mundo.
E tem mais.
Não existe bem e mal permanente.
Bem e mal é circunstancial — muda com o momento, muda com o contexto, muda com você. Comer doce de leite pode ser um prazer puro até a décima colherada. Da décima em diante, pode dar ânsia. Conversar sobre política pode ser algo que você genuinamente aprecia — mas não enquanto está fazendo sexo. O que te nutre num instante pode te intoxicar no seguinte. O que te faz falta hoje pode te pesar amanhã.
E sendo assim — já que bem e mal são pessoais, circunstanciais, impossíveis de terceirizar — é preciso que algo te diga, a cada passo, o que é bom e o que é ruim especificamente para você, especificamente agora.
Esse algo sou eu.
No início deste livro me apresentei como sofrimento. Mas isso era meia verdade — e era intencional. Precisava que você me ouvisse antes de te dizer quem realmente sou. A verdade completa é esta: sou a felicidade também.
Sou felicidade e sofrimento juntos. Sou o seu sistema emocional inteiro — os dois lados, os dois ponteiros, a voz que celebra e a voz que alerta.
Meu nome técnico é chique e abstrato demais para ser útil no dia a dia. Então pensa em mim de uma forma mais simples e mais honesta: sou a sua bússola pessoal para viver bem.
Felicidade — emoções agradáveis — sou eu apontando para o que te faz bem.
Sofrimento — emoções desagradáveis — sou eu apontando para o que te faz mal.
Use essa lógica para me traduzir. Não importa quão complicada for a situação em que você estiver metido, não importa quantas vozes de fora estiverem gritando mais alto do que eu — confie em mim. Sou uma bússola. Não tenho agenda, não tenho vaidade, não tenho interesse em te ver perdido.
E bússola nunca falha.
A todo instante você está optando pelo que acredita ser a melhor opção. Quando opta e sofre, entende que optou mal — e muda de opção. Só que continua sofrendo com a nova opção. Então muda de novo. Continua sofrendo. Muda de novo. Continua sofrendo. E assim por diante, num replay que dura a vida inteira.
Isso acontece porque você está resolvendo o problema errado.
Não adianta mudar de opção dentro do mesmo cardápio. Você precisa mudar de cardápio.
Todas as suas opções — absolutamente todas — são de dois tipos. Cabem em dois cardápios. O cardápio do outroísmo e o cardápio da liberdade.
As opções outroístas são aquelas construídas sobre duas crenças equivocadas: a de que os outros têm obrigação de satisfazer as suas expectativas — outroísmo impositivo — e a de que você tem obrigação de satisfazer as expectativas dos outros — outroísmo submisso.
Todo prato desse cardápio tem o mesmo ingrediente principal: a ilusão de que a sua felicidade depende de controlar o outro.
As opções libertadoras são o oposto exato. São aquelas construídas sobre dois fatos simples: os outros não têm obrigação de satisfazer as suas expectativas — isso é liberdade coletiva — e você não tem obrigação de satisfazer as expectativas dos outros — isso é liberdade pessoal.
Nenhuma dependência.
Nenhuma escravidão disfarçada de relacionamento.
A lógica é direta.
Qualquer opção dentro do cardápio do outroísmo resulta em viver mal. Não importa qual prato você escolha — o resultado é sempre o mesmo. Qualquer opção dentro do cardápio da liberdade resulta em viver bem. Não porque a vida fique fácil, mas porque você para de lutar contra o que nunca esteve sob o seu controle: o arbítrio do outro.
Então, quando estiver vivendo mal, não se pergunte apenas o que devo escolher agora. Pergunte antes: em qual cardápio estou escolhendo?
Quando a opção for outroísta, lembre-se: a solução não é trocar de prato. É trocar de cardápio.
Meu método de ensino é infalível.
E é infalível por um motivo muito simples: baseia-se no único fato sobre você que jamais muda.
Você sempre deseja o bem.
Nunca o mal.
Você é assim! Sem exceção, sem negociação, sem um único momento de trégua nessa direção. É a sua natureza mais fundamental — mais funda do que qualquer crença, mais funda do que qualquer equívoco que você carregue.
Então, quando você comete o equívoco de optar pelo outroísmo — seja impositivo, seja submisso — eu me visto de capeta e te jogo dentro de um caldeirão de emoções desagradáveis. Raiva. Angústia. Medo. Tristeza. Insatisfação. Mágoa. Tudo junto, em fogo alto, sem tampa.
É aí que tudo começa.
Como você sempre quer o bem, não consegue simplesmente ignorar o caldeirão. Precisa entender por que está fritando. Precisa descobrir o que está fazendo de errado. E para descobrir, precisa me traduzir — do sofrimentês para o português. Precisa transformar o grito em frase, a emoção em compreensão, a dor em mapa.
Quanto mais você me traduz, mais entende que está vivendo outroísta. Quanto mais entende, mais muda de cardápio. Quanto mais muda de cardápio, melhor vive.
Percebe o que faço?
Sou um professor que não dá aula. Te ensino tudo sem ensinar nada. Deixo toda a aprendizagem por sua conta. E para garantir a eficiência absoluta do processo, não vou embora enquanto você não aprende.
Fico aqui. Aumentando o volume. Esperando.
Genial, não?
Chupa, Piaget.
Viver bem não é viver sem sofrimento.
Isso é impossível. E não é apenas uma limitação da condição humana — é uma contradição em termos. No instante em que eu deixasse de existir, a felicidade desapareceria junto. Sem o desagradável, o agradável perde o endereço.
E mais: sem eu te apontando para o que te faz mal, você não teria como saber — nem como optar — pelo que te faz bem.
Viver bem é lidar bem comigo.
A ausência de sofrimento não é sabedoria. É um ideal romantizado. Um conto de fadas que você conta para si mesmo quando a dor aperta — de que existe, em algum lugar, uma versão da sua vida onde eu não apareço. Uma versão limpa, contínua, sem interrupções desagradáveis.
Você acredita nessa mentira.
Por isso foge de mim e vai se esconder no mundo da fantasia — onde habita a crença de que a dor pode ser evitada pela doutrina certa, pela filosofia certa, pela crença certa. Só que mesmo lá eu apareço.
Como já te expliquei, basta você pensar em algo indesejado e eis que estou presente, te informando que é indesejado. Não existe território — real ou imaginário — onde eu não chegue.
E aí está a grande ironia.
Fugir do sofrimento é a fórmula perfeita para perpetuá-lo e ampliá-lo. Quanto mais você corre, mais eu corro atrás. Quanto mais se esquiva, mais me torno presente. A fuga não te afasta de mim — é apenas o caminho mais longo de volta ao meu caldeirão.
A pergunta que mais me fazem é: como faço para você ir embora?
A resposta é: sofra.
Sou um carteiro tocando a campainha. Meu trabalho é te entregar uma carta. Essa carta explica exatamente como me mandar embora. Só que você sequer abre a porta, muito menos a carta. Então continuo tocando a campainha. Cada vez mais forte. Cada vez mais insistente. Não por crueldade — por função.
Quer que eu vá embora?
Abra a porta.
Me deixe entrar que eu desapareço.
Abrir a porta é se permitir sofrer.
Quando você está sofrendo e não se permite sofrer, tudo que consegue é me manter do lado de fora tocando a campainha sem parar. Resistência ao sofrimento não protege você do sofrimento — apenas prolonga a visita.
Quer que eu vá embora?
Não tome comprimido para virar zumbi. Não se entupa de distrações, teorias e comida. Não brigue com Deus e o mundo. Não fuja para elucubrações metafísicas.
Apenas sofra.
Simples assim.
Me saboreie como se eu fosse uma bala azeda. Se permita experimentar exatamente o que está experimentando. Sem anestesia, sem fuga, sem negociação.
Sou seu professor para viver bem. Venho explicar qual é a melhor opção. Mas como você pode viver bem se recusando a me ouvir? Impossível. Quando você se permite sofrer está se permitindo também me traduzir do sofrimentês para o português.
Começou a solução. Você deu o primeiro passo.
E para aumentar a eficiência da tradução — converse comigo.
Igual estamos conversando neste livro.
Me pergunte qual é o problema. Me pergunte qual é a besteira que você está fazendo e ainda não percebeu. Me pergunte o que deve parar de fazer. Me pergunte o que não faz, mas deveria começar a fazer.
Me pergunte o que quiser sobre você — sobre seus medos, seus padrões, suas escolhas repetidas.
Sou perito em você. Sei tudo sobre você — melhor do que você mesmo. Então, não se acanhe.
Converse sempre comigo.
Quem fala errado — a Mônica ou o Cebolinha?
Essa é uma brincadeira de criança, mas a resposta guarda uma sabedoria de gente grande. Quem fala errado é a Mônica. O Cebolinha fala ellado.
O jeito do Cebolinha não é errado. É diferente. É o jeito dele.
E nisso está tudo.
Todos andamos — mas cada um anda de um jeito diferente. Todos pensamos — mas cada um pensa de um jeito diferente. Todos gostamos — mas cada um gosta de um jeito diferente.
Cada um tem seu próprio jeito de ser, seu próprio ritmo, sua própria forma de ocupar o mundo. Ninguém é igual. Todos são igualmente diferentes.
A natureza do universo é a universalidade.
Ser diferente é natural, inevitável e saudável. O problema não é a diferença — o problema é tentar eliminá-la. O problema é a uniformidade. O problema é o outroísmo.
Você é naturalmente e inevitavelmente diferente do outro. O outro é naturalmente e inevitavelmente diferente de você. Quando você se obriga a ser igual ao outro, eu apareço. Quando você obriga o outro a ser igual a você, eu apareço.
Sou o mestre da universalidade — e meu ensinamento, em todas as situações em que apareço, é sempre o mesmo: um é diferente de um (1≠1).
O universo não é uma máquina de xerox. Não existem dois iguais — em nenhum lugar, em nenhuma escala, em nenhum momento. Cada um é único, ímpar, singular.
Isso é óbvio. Ululante.
Mas você teima em ignorar.
Toda vez que você opta por viver outroísta — submisso ou impositivo — está cometendo o equívoco de acreditar na uniformidade. Está delirando que um é igual a um. Para que você desperte desse equívoco, existe um despertador dentro de você. Esse despertador sou eu.
Este livro chegou ao fim.
Mas eu não.
Da próxima vez que estiver sofrendo, não procure um livro, não procure um guru, não procure uma explicação lá fora. Converse diretamente comigo — que vou te relembrar de tudo que te expliquei aqui.
E antes de ir, deixo uma vacina. Poderosa, simples, gratuita. Uma vacina consciencial contra o viver outroísta.
Use o quanto quiser.
Quanto mais, melhor.
DECLARAÇÃO DE INCOMPETÊNCIA
Eu me declaro incompetente em ser você.
Eu lhe declaro incompetente em ser eu.
Sua competência é ser você.
Minha competência é ser eu.
Eu me declaro incompetente em saber por você.
Eu lhe declaro incompetente em saber por mim.
Sua competência é saber por você.
Minha competência é saber por mim.
Eu me declaro incompetente em querer por você.
Eu lhe declaro incompetente em querer por mim.
Sua competência é querer por você.
Minha competência é querer por mim.
Eu me declaro incompetente em optar por você.
Eu lhe declaro incompetente em optar por mim.
Sua competência é optar por você.
Minha competência é optar por mim.
Que meu viver confirme minha competência
e minha incompetência.
E assim seja!
Conta a história que Sidarta Gautama, o Buda, passou anos imóvel sob a copa de uma figueira até atingir a iluminação. Vou te contar o que ele descobriu em um milésimo de segundo:
Viver dói.
No budismo, esse ensinamento é conhecido como a Primeira Nobre Verdade. E é tão óbvio que chega a ser constrangedor que precise ser ensinado. Só que você não aceita. Você insiste em acreditar que viver bem é habitar um mundo sem arestas, sem desconforto, sem perdas. Uma vida idílica, onde nada range e nada sangra.
Não existe isso. Viver dói poooorra!
Às vezes dói pouquinho.
Às vezes dói mazomenos.
Às vezes dói pracaraio.
Se Sidarta caminhasse pelo asfalto dos nossos dias e falasse a nossa língua, talvez resumisse a Segunda Nobre Verdade numa frase simples:
— Aceita que dói menos.
E tem mais: Sidarta não esgotou toda a nobre verdade sobre a dor. Faltou dizer a parte mais importante.
A dor é o mestre.
Não é Jesus. Não é Buda. Não é Maomé, nem o Espírito Santo, nem guru da barba azul.
O verdadeiro mestre — infalível, presente, que caminha ao seu lado em qualquer circunstância— é a dor. Também conhecido como sofrimento, desconforto, insatisfação, contrariedade, desagrado. Entre outros nomes.
O verdadeiro mestre — aquele infalível, que caminha ao seu lado em qualquer circunstância — é a dor. Também conhecido como sofrimento, desconforto, insatisfação, contrariedade, desagrado. Entre outros nomes.
É fundamental tomar consciência disso.
Só assim você deixa de apenas sofrer e começa a extrair aprendizado da própria dor. Do contrário, tudo o que você sofreu — e tudo o que ainda vai sofrer — terá sido sofrimento em vão.
E não existe desperdício mais doloroso do que esse.
Várias pessoas chegam baleadas no hospital do seriado Anatomia de Grey. A médica chefe aparece e pergunta aos internos sobre os procedimentos já realizados. Uma das internas responde que aplicou cinco miligramas de morfina em um dos baleados. No mesmo instante, o paciente reage, impaciente:
— Não foi suficiente. Pode aplicar mais, porque ainda está doendo.
Quem quer dor, levanta a mão!
Ninguém?
E quem quer morfina?
Cada um tem a sua preferida. Há quem fume um cigarro. Há quem recorra ao álcool. Outros devoram chocolate. Há quem busque escape nos videogames, nas compras compulsivas de sapatos ou morando nas redes sociais.
Muda o nome da morfina, a função é a mesma — colocar alguma coisa entre você e a dor. Qualquer coisa. O que for. Desde que doa menos.
A grande ironia é que o sofrimento é o mestre da felicidade. Logo, fugir da dor é fugir da felicidade.
“Mas dói! Eu quero morfina! Quero alívio para dor! Não quero enfiar o dedo na ferida!”.
Eu entendo. E respeito.
A morfina existe por um bom motivo — ninguém aguenta tudo o tempo todo, e nem é isso que estou dizendo. Mas morfina não extrai a bala. Morfina só faz você esquecer, por algumas horas, que ela ainda está lá dentro.
Mas não existe atalho.
Então, por que continuar adiando a jornada dolorosa que existe justamente para levá-lo ao fim dessa dor?
Jonas vivia num sítio.
Era o tipo de lugar onde nada parecia urgente.
Até aquela noite.
Um ladrão entrou pelo pomar. Silencioso, metódico, foi enchendo os braços com os frutos que Jonas havia plantado com as próprias mãos.
O cachorro viu.
E fez a única coisa que sabia fazer: correu até a janela do quarto de Jonas e desatou a latir sem trégua, num esforço desesperado para alertá-lo.
Jonas acordou.
Olhou para a escuridão, sentiu o peso do cansaço nos ossos, e gritou:
— Pare de latir!
Fechou a janela. Voltou a dormir.
O cachorro foi até o pomar. Confirmou o ladrão. Voltou latindo.
Jonas acordou de novo — agora com a sonolência convertida em irritação. Abriu a janela e atirou um sapato.
— Eu já disse: pare de latir!
O cachorro poderia ter desistido. Teria sido mais fácil. Mas não. Guiado por uma inteligência singular e uma devoção inabalável, voltou ao pomar, ficou bem ao lado do ladrão, e latiu com todas as forças que lhe restavam.
Foi então que Jonas entendeu o que precisava fazer. Saltou da cama, empunhou a espingarda, correu até o pomar e, num disparo seco — pá! — matou o cachorro.
Essa é a metáfora. Vamos à tradução:
Seu sistema emocional é o cachorro: seu amigo vigilante. As emoções desagradáveis que o incomodam — e que você chama de sofrimento — são apenas seu sistema emocional latindo para alertá-lo de que há algo errado.
Você é Jonas.
Por isso, toda vez que você anestesia, silencia ou ignora o seu sofrimento, está matando uma informação emocional que só surge para ajudá-lo.
— O que é febre?
Interlocutor: É o sinal de que algo no corpo não está funcionando bem.
— E quando você está com febre, o que faz?
Interlocutor: Vou ao médico.
— Por quê?
Interlocutor: Porque o médico pode me ajudar a resolver o problema.
— E por que ele pode ajudá-lo? O que ele tem que você não tem?
Interlocutor: O médico estudou medicina. Ele sabe diagnosticar e tratar problemas de saúde.
— Agora imagine que você estudou medicina tanto quanto ele e sabe diagnosticar e tratar problemas de saúde da mesma forma. Ainda haveria necessidade de procurar um médico?
Interlocutor: Não.
— Por quê?
Interlocutor: Porque eu mesmo saberia diagnosticar e resolver meus problemas de saúde.
— O mesmo acontece com o sofrimento. O sofrimento é uma espécie de febre emocional: um sinal de que algo não está funcionando bem no seu psicológico. Agora imagine que você estudou profundamente o funcionamento da mente humana e sabe diagnosticar e resolver seus próprios conflitos psicológicos. Ainda haveria necessidade de pedir ajuda?
Interlocutor: Não.
— Por quê?
Interlocutor: Porque eu saberia diagnosticar e resolver meus próprios problemas psicológicos.
— Entendeu?
A resposta do aluno veio em segundos, trazendo consigo a clássica resistência de quem aceita a teoria, mas rejeita o espelho:
Interlocutor: Sim. Mas eu não tenho nenhum problema psicológico.
— Se não tivesse, não estaria sofrendo.
Seu dente dói. O que você faz? Ignora. Toma analgésico. Resolve? Não. Se analgésico curasse cárie, virava chiclete.
E a dor? Só aumenta.
O que você faz? Continua ignorando. Bebe querosene, fuma casca de banana, faz promessa para a fada do dente doente. Resolve? Não. Se querosene curasse cárie, virava enxaguante bucal.
E a dor? Continua aumentando.
O que você faz? Coloca sal no dente, sapólio, pólvora, pó de mico. Resolve? Não. Se pó de mico curasse cárie, virava farinha.
O que acontece depois? A dor fica insuportável.
Então você pega o telefone e implora para o dentista enfiar a motosserra na sua boca.
Autoanálise é dentista.
Dente é mentalidade.
Sofrimento é sintoma de cárie mental.
Telefone é arbítrio.
Se liga.
Inferno mental é quando suas mentalidades subconscientes atravessam o limiar e invadem o consciente. Você chama isso de inferno porque são mentalidades com as quais não concorda, vozes que rejeita, padrões que não admira.
Assistir a essas mentalidades indesejadas vindo à tona pode ser tão infernal quanto estar amarrado dentro de um cinema que só exibe filmes de terror. Mas, ao mesmo tempo, isso também representa uma oportunidade de faxina interior.
Inferno mental é a poeira saindo debaixo do tapete.
É no nível consciente — e somente nele — que acontecem a conscientização e a reprogramação mental. Claro que é mais cômodo empurrar a sujeira de volta para debaixo do tapete e deixar para amanhã. O problema é que amanhã é nunca. E uma mentalidade indesejada não se transforma em desejada apenas porque foi escondida. Pelo contrário: ela cresce.
Até chegar a um ponto em que já não existe mais poeira debaixo do tapete; existe um tapete em cima da poeira.
A solução é caminhar passo a passo, aproveitar cada brecha para fazer a faxina necessária. Quanto mais limpeza você conduz, mais você compreende que o inferno é apenas um paraíso empoeirado.
Sabe qual é a estratégia que você usa para fugir do sofrimento? Pasme: falar sem parar sobre ele.
Parece contraditório. Parece que, ao falar tanto sobre o sofrimento, você o está enfrentando e resolvendo. Mas não está. Falar sobre ele apenas o mantém na superfície, na superficialidade — flutuando em uma camada rasa de conceitos e intelectualizações.
Você lê livros sobre o sofrimento. Escuta mestres falando sobre o sofrimento. Estuda filosofias, teorias e tradições inteiras construídas sobre o sofrimento. Tudo isso para quê? Para evitar encarar o sofrimento real — aquele que pulsa, aperta e lateja dentro de você.
Blá-blá-blá não produz autoconhecimento.
Produz autoafastamento.
O verdadeiro autoconhecimento começa no instante em que você deixa de conversar SOBRE o sofrimento e passa a conversar COM o sofrimento.
Queime os livros e leia-se.
Seu sofrimento é o único livro que você precisa ler para se conhecer. E ele está sempre à sua disposição.
Aproveite.
Durante muito tempo, carreguei um fardo.
Eliminar o sofrimento do mundo.
Parecia nobre. Parecia o caminho natural de quem desperta — tornar-se mestre dos que ainda dormem, estender a mão, iluminar o caminho. Eu acreditava nisso com sinceridade total.
E fracassava com a mesma sinceridade total.
Não conseguia aliviar o sofrimento de ninguém. Nem o meu próprio. Apenas acumulava decepções, aumentando o peso invisível desse equívoco.
Até que, após muito penar, compreendi a razão de tanto fracasso:
O sofrimento é o mestre, não eu.
Essa foi a descoberta mais libertadora da minha vida. Não porque resolveu tudo — mas porque dissolveu quatro correntes que me prendiam.
Se o mestre é o sofrimento, então:
Não precisava mais seguir nenhum mestre.
Não precisava mais ser mestre de ninguém.
Não precisava mais eliminar a dor do mundo.
Não precisava mais fugir do meu sofrimento.
Se não tivesse chegado a essa compreensão, provavelmente ainda estaria preso ao que chamo de compaixão ignorante — aquela que, sem perceber, incentiva as pessoa a se verm como vítimas.
Hoje, quando vejo alguém sofrer, não sinto pena. Não sinto o impulso urgente de salvar. Vejo, em vez disso, o mestre trabalhando — conduzindo o indivíduo, com precisão cirúrgica e inevitável, pelo processo de autoconhecimento.
Foi o sofrimento que me conduziu até aqui. Não apesar das dores — através delas. Cada decisão errada trouxe o mestre junto. Cada vez que me desviei, ele apareceu— pontual, fiel, implacável — e permaneceu ao meu lado até que eu finalmente aprendesse.
Nenhum outro mestre tem essa dedicação.
Nenhum livro tem essa paciência.
Nenhuma filosofia desce ao seu inferno para conduzi-lo, passo a passo, de volta ao paraíso.
O sofrimento faz isso.
Por isso, já não sigo a ninguém: sigo apenas o sofrimento.
Encontrei o guia dos guias: o mestre dos mestres.
Quando despertei, achei que havia me formado. Ensino superior do autoconhecimento. Diploma na mão. Pronto. Foi o sofrimento que me mandou de volta para a escola. Porque mesmo ciente da minha existência, continuava sofrendo feito criança mimada.
E pior: o sofrimento não diminuiu depois que despertei. Aumentou. Porque não tinha mais para onde correr. A consciência tinha fechado todas as saídas.
Restavam duas opções:
Abraçar o diabo. Ou continuar no inferno de viver fugindo dele.
Abracei o diabo.
O que veio depois não foi iluminação. Foi rendição.
E rendição, nesse caso, não foi metáfora. Começou com um chute no meio das pernas — chute mesmo, de karatê, o tipo que dobra os joelhos antes que a cabeça entenda o que aconteceu. Depois veio soco. Porrada. Bomba.
Tentei me levantar algumas vezes.
Não compensava.
Então comecei a andar de joelhos.
E foi de joelhos que aprendi o que nenhum despertar tinha me ensinado.
Que rendição não é derrota. É postura. É a única postura que o sofrimento aceita antes de começar a falar.
Quando o ciclo terminou, me levantei.
Diferente.
Hoje, quando o sofrimento vem, eu me ajoelho antes dele chegar. Não por humilhação. Por escolha. Sei o que acontece quando se resiste à lição — soco, porrada e bomba até dobrar de qualquer jeito.
Melhor dobrar logo. Melhor chegar já de ouvidos abertos.
Render-se a condição de aluno do sofrimento parece humilhação e fracasso aos olhos da ignorância PHD.
Mas é o único caminho.
Não para sofrer menos — para sofrer melhor.