Mau Aluno
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Boi manso, boi bravo, boi gordo, boi malhado.
Dar nome aos bois ajuda a identificar.
Este livro dá nome a sete tipos de mau aluno.
Cheio. Fechado. Chinês. Perfeito. Pedra. Esperto. Fantasma.
Cada um acha que está estudando autociência.
Cada um, do seu jeito, escapa dela.
Leia, reconheça o seu — e deixe de ser.
Em um povoado existia um jovem, muito estudado, que havia viajado o mundo inteiro atrás de conhecimento e fez várias formações, mestrados, doutorados, etc. O sonho desse jovem era se tornar o substituto do sábio desse povoado.
Um dia, o jovem marcou uma audiência com o sábio.
Assim que o sábio abriu a porta, o jovem começou a despejar todo seu conhecimento adquirido sobre ele.
O sábio apenas ouviu e perguntou:
— Aceita uma xícara de chá?
O jovem aceitou o chá e continuou falando.
O sábio encheu a própria xícara e depois começou a encher a xícara do jovem.
Sem dar importância para o que o jovem falava, o sábio olhava nos olhos dele e derramava o chá para fora da xícara.
O jovem, ao perceber, disse:
— Você não vê que a xícara está cheia?
O mestre colocou a chaleira no chão e disse:
— Exatamente, meu rapaz. Sua cabeça está cheia como essa xícara, está transbordando de tanto conhecimento que não tenho o que lhe ensinar.
Aluno cheio é o popular sabe-tudo.
É o aluno que acredita que é professor do professor.
Não entre na autociência cheio de teorias. Você não é teoria. E autoconhecimento não é mais teoria, é prática.
Esvazie-se das teorias para se encher de eurekas.
Aluno Fechado é quando você não quer se conhecer.
Um amigo diz que você TEM QUE fazer o curso de autociência. Você cede à pressão. Faz matrícula.
Mas a contra gosto.
Você não quer saber de autoconhecimento. Deseja que o curso acabe o quanto antes para ir embora.
Está presente fisicamente, mas ausente mentalmente.
Todo mundo tem fome de alguma coisa.
Quem não quer isso, quer aquilo.
Procure o que você tem fome e comece por aí.
Autoconhecimento não é para todo mundo. É para quem tem fome de se conhecer.
Provavelmente você já ouviu a expressão "ir para China". É similar a "viajou na maionese". Alguém que não está prestando atenção no que acontece ao redor. Está na lua.
Você sabe o que é mindfulness?
É um termo em inglês que significa atenção plena. Eu chamo mindfulness de "ficar na esquina".
Atenção plena: ficar e focar no que você está estudando sem se distrair. Na prática da auto-observação: se observar sem se distrair com os próprios pensamentos.
Aluno chinês é aquele que vive na China.
Perde a atenção, se distrai, fica pulando de um devaneio para o outro enquanto pratica ou estuda.
Se quer autoconhecimento: fique na esquina.
Aluno perfeito é quando você não consegue se conhecer porque você é perfeito — você não erra.
Ao invés de estudar sua vaidade, você olha para a vaidade dos outros. Ao invés de estudar sua maldade, você olha para a maldade dos outros.
Autociência não é conhecer os outros.
É autoconhecimento.
Além disso, você não tem acesso ao que se passa dentro do outro. Logo, é impossível conhecê-lo.
Não seja um aluno perfeito.
É através da auto-observação que o autoconhecimento é produzido. Sempre e só através da auto-observação.
Estudar os outros não te ajuda a se conhecer.
Pelo contrário, atrapalha.
Você já empurrou uma pedra?
O que acontece quando você para de empurrar?
A pedra para.
Aluno pedra é aquele que só faz algo quando é empurrado. Em sala de aula, só faz as tarefas quando o professor pede ou quando tem prova.
Aluno pedra não estuda autociência para se conhecer. Estuda para não ser excluído, reprovado, penalizado.
Não estuda por vontade própria. Estuda para cumprir obrigações.
Se quer progredir a passos largos no autoconhecimento, não seja um cumpridor de tarefas.
Se a tarefa é se observar uma vez por dia, não se observe uma vez por dia. Se observe o dia todo.
Seja o motor da sua ap.
Um grupo de homens seguia rumo ao paraíso, cada um carregando sua cruz.
Um deles, muito esperto, achou que sua cruz estava muito pesada. Pegou um serrote e cortou um pedaço.
Ninguém reclamou. Nada de mal aconteceu.
Sua cruz ficou mais leve.
Ele cortou outro pedaço.
Ninguém reclamou. Nada de mal aconteceu.
Sua cruz ficou mais leve.
Foi cortando cada vez mais pedaços, até ficar só com um cotoco de cruz.
Quando o grupo chegou na porta do paraíso, todos estavam exauridos. O homem esperto, descansado.
Mas na entrada havia um abismo. Para atravessar, era preciso usar a cruz como ponte.
Todos fizeram isso.
Quando chegou a vez do homem esperto, sua cruz era pequena demais. Não chegava do outro lado.
Ele teve que voltar.
Buscar todos os pedaços que havia cortado.
Aluno esperto é aquele que finge.
Finge ter feito, finge praticar, finge autoconhecimento.
O objetivo é enganar o professor e passar de ano.
Ele até consegue.
Mas em se tratando de autoconhecimento, de que adianta?
Autociência é para você viver bem, não para adquirir diploma. Quando você finge, você não se conhece.
E continua vivendo mal.
Para viver bem, vai precisar voltar e estudar tudo de novo.
Sua esperteza é burra.
E o barato sai caro.
Aluno fantasma é o tipo mais comum de aluno, principalmente quando se trata de autoconhecimento.
Ele não fala, não pergunta, não participa.
O lema do aluno fantasma é: sem exposição.
O objetivo do aluno fantasma é fingir de morto.
Mas autoconhecimento não é se esconder, é se revelar.
Quando você se esconde de todo mundo…
Adivinha?
Também se esconde de si mesmo.