Manual Do Bem Amado
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Você é uma pessoa íntegra, autêntica, de convicções, princípios, preferências e que está sempre jantando sozinha comida de delivery.
Ninguém te convida nem para jogar bingo em quermesse de igreja?
Seu único amigo é um peixe?
Seus problemas de rejeição acabaram!
Bem vindo ao Manual do Bem Amado.
Para quem já está de saco cheio de ser rejeitado e quer, pelo menos uma vez na vida, receber uma resposta com sujeito, verbo e predicado ao invés de joinha.
Caro leitor, antes de mais nada, tiro o meu chapéu.
Meus parabéns.
O simples gesto de esticar o braço e pegar este livro já o coloca três degraus acima da média da humanidade. Mostra que você tem garra, gana, e já está de saco cheio de ser você mesmo — esse fracasso de audiência.
Há quem atravesse a vida acreditando que a autenticidade é o diamante mais precioso da convivência. Que ilusão. O verdadeiro tesouro, qualquer pessoa com mais de dois neurônios e um carnê para pagar sabe, é a aprovação alheia.
É ela que escancara as portas.
Enquanto o coitado do autêntico espera mofando na antessala da vida, o simpático entra na festa de penetra e ainda ganha o primeiro pedaço de bolo.
Entende a diferença?
Talvez você tenha sido educado na perniciosa crença do "seja você mesmo".
Não o censuro.
Somos todos vítimas dessa fantasia new age. Mas é hora de encarar a realidade e o número de visualizações dos seus posts.
Ser você mesmo não vai dar match no Tinder.
Deixemos a autenticidade para os poetas e filósofos de botequim, cuja influência na vida prática é, felizmente, zero.
Para que serve ser autêntico, afinal? Para atrair inveja, desafeto e ser reprovado nas entrevistas de emprego?
A vida é curta demais para você perder tempo discutindo se o certo é bolacha ou biscoito, ou por que prefere coxinha ao invés de empada.
Quem tem opiniões e preferências é obrigado a defendê-las. E defender posição gera o quê? Inimigo, azia e dor de cabeça.
O objetivo não é apagar quem você é.
É muito mais ambicioso que isso.
É ensinar você a fingir que é outra pessoa.
Alguém infinitamente mais agradável, aceito no grupo, e convidado, pelo menos uma vez na vida, para dar um rolê no shopping.
Nas próximas páginas, você vai aprender a fina arte de:
Falar durante horas sem dizer absolutamente nada.
Concordar com as maiores asneiras exibindo um sorriso cativante.
Elogiar a gravata alheia mesmo que pareça um pano de chão.
Turvar sua poça intelectual para aparentar a profundidade de um oceano.
Ficar indignado só quando todos já estiverem malhando o Judas
O povo mal amado dirá que isto é um manual de hipocrisia.
Pura inveja de quem não sabe viver em sociedade.
Esse livro é um passo a passo sobre como se tornar um bombom trufado ao invés de ser um pernilongo perseguido até a morte.
Agora, se você faz questão de continuar sendo esse monumento de integridade: feche esse livro imediatamente e vá alimentar o seu peixe.
Este livro foi escrito para pessoas razoáveis.
E uma pessoa razoável, como se sabe, é aquela que jamais comete a indelicadeza de discordar dos outros.
Concorda comigo?
Todo projeto nesta vida precisa de um destino.
O marinheiro procura o porto, o dono da padaria busca o lucro, e o santo, coitado, se mata para alcançar a salvação. E a pessoa comum, aquela que só quer pagar o condomínio em dia, qual deveria ser a grande ambição dela?
Uns vão dizer que é a felicidade. Bobagem. Basta o preço do feijão subir ou o tempo virar para a felicidade ir para o espaço. Existe, porém, um patrimônio muito mais modesto e infinitamente mais garantido: o afeto.
A pessoa querida atravessa a vida como quem anda por um corredor onde todas as portas já estão entreabertas. Ela não precisa arrombar nada, nem fazer força. Dá um empurrãozinho de leve com o ombro e entra.
E como se chega ao posto de Bem Amado?
Simples: através do agrado.
Ou se preferir: da concordância.
Dá quase na mesma.
Mas não estou falando dessa concordância chinfrim de balançar a cabeça feito aqueles bonequinhos de plástico no painel do táxi. Falo de algo muito mais poderoso: fazer com que o seu interlocutor saia da conversa convencido de que você é a pessoa mais legal do mundo.
O cidadão comum entra num papo carregando a armadura das suas opiniões, pronto para o combate. O Bem Amado entra carregando um sofá confortável. E o sofá, meus queridos, é o artigo mais cobiçado das relações humanas. Todo mundo quer um lugar macio para sentar e desabafar suas opiniões.
Seja um sofá.
Quando alguém chegar para você contando uma novidade que já caducou, nunca cometa a grosseria de dizer: "Ah, mas isso aí todo mundo já sabe". Diga: "Olha que interessante!". A primeira opção bate a porta na cara da pessoa. A segunda puxa a cadeira e ainda oferece um café.
Seja sempre a pessoa que oferece o café.
Se o seu cunhado declarar no meio do almoço que determinado filme é uma porcaria sem tamanho, não cometa o erro de avançar no debate. Diga apenas: "Entendo perfeitamente sua opinião".
Repare na mágica: você não disse que o filme é bom nem que é ruim. Você concordou com o sentimento dele. E sentimento, meu caro, é propriedade privada. Ninguém pode discutir com o que o outro sentiu. É um tiro certeiro e sem vítimas.
Outro erro básico: só agradar o chefe, o diretor ou o cara da carteira recheada. Isso é amadorismo. Revela um cálculo muito grosseiro. O Bem Amado agrada todo mundo, do presidente da empresa ao porteiro do prédio. O poderoso já tem uma fila de aduladores na porta. A pessoa comum tem poucos, e a gratidão de quem não está acostumado a ser agradado é profunda.
Agradar é tudo. Daqui a três semanas, ninguém vai lembrar exatamente quais foram as suas palavras naquele jantar. As pessoas só vão lembrar de como se sentiram bem do seu lado.
— Ah, mas eu prefiro ser virtuoso — diz a pessoa de princípios.
A virtude dá muito trabalho. Exige que você prove, demonstre, sirva de exemplo. Isso cansa, dá dor nas costas e, de quebra, ainda acorda a inveja dos vizinhos. A concordância, não. Exige um investimento mínimo. Você não precisa ser um gênio, basta não oferecer resistência.
Imagine a cena: de um lado, uma pessoa virtuosa, pronta para morrer em defesa da verdade no meio do churrasco. Do lado dela, outra pessoa que apenas sorri e balança a cabeça. Adivinha qual das duas vai terminar a noite cercada de amigos dançando pagode e sendo convidada para o próximo churrasco?
A condescendência tem uma diplomacia impecável. Ideias obrigam as pessoas a escolherem um lado da mesa. A condescendência dispensa o trabalho e ainda oferece uma farofa.
E não me venham falar em hipocrisia. Que palavra horrorosa.
Os moralistas adoram dar nomes feios para as coisas úteis. Para eles, prudência é covardia, delicadeza é interesse e boa convivência é falsidade.
Não se deixe levar pelo dicionário dos mal amados.
O caráter é uma coisa belíssima, desde que fique guardado na gaveta.
A humanidade perdoa a falha de caráter com facilidade. O que ela não tolera, de jeito nenhum, é o desagrado.
Antes de tentar ser aplaudido pela plateia, tente apenas não ser expulso do teatro.
O resto se resolve na conversa.
De todos os vícios que estragam o almoço de família e o chope de sexta-feira, nenhum é mais desgraçado do que essa mania de ter preferências.
O estrago começa cedo.
A criança mal aprendeu a juntar duas sílabas e os adultos, esses incautos, já começam a perguntar: "Do que você gosta, meu anjinho?", "O que você pensa?", "O que você quer ser quando crescer?".
Um erro crasso.
Estão ali, com a melhor das intenções, fermentando um indivíduo.
Anos depois, quando a criança vira um adolescente insuportável que discorda do pai, da mãe e do chefe, a família se benze e pergunta onde foi que errou.
A culpa não é do garoto: foi das perguntas.
Por isso, um conselho de amigo: quando lhe perguntarem quem você é, responda com muita cautela. Se possível, mude de assunto ou peça mais uma coxinha.
A sociedade não quer autobiografias profundas. Ela prefere uma figura levemente borrada, um rascunho. As pessoas adoram completar o retrato dos outros na cabeça delas. Não estrague o passatempo alheio.
Veja o caso da água. Não tem formato próprio. Nem por isso deixa de ser água. Ela entra no copo e vira copo. Entra na jarra e vira jarra.
Seja água, meu caro. A pedra impressiona, é verdade, mas vira tropeço. Entra no meio do caminho dos outros. E é arremessada para longe.
Conheci uma pessoa que se orgulhava de "dizer sempre o que pensava". Dizia que era sincero. Resultado: a turma mudava de calçada quando ele vinha vindo. Não era medo de apanhar, era medo da franqueza dele. Soco passa rápido, mas a sinceridade alheia deixa um zumbido no ouvido que dura semanas.
Pense na sua identidade como quem pensa num terno. Ninguém vai a um casamento de calção de banho, nem vai à praia de fraque e cartola. Então por que diabos insistir em usar a mesma pessoa em todas as ocasiões?
Daqui a uns vinte anos, pode ser que você tente lembrar quem era de verdade antes de ler este capítulo. Se não conseguir lembrar, não entre em pânico. Alegre-se!
A máscara que a gente consegue tirar ainda é só uma máscara. A verdadeira máscara, a maestria de ser bem amado, é quando você esquece, com um suspiro de alívio, que um dia existiu um rosto ali embaixo.
Chegamos a um ponto crucial. É fundamental aprender a se esquivar de uma das coisas mais perigosas da vida moderna: o pensamento.
Calma. Não estou falando de chover no molhado, tipo "acho que vai esfriar" ou "essa coxinha precisa de mais catupiry". Esses pensamentos são inofensivos e ajudam a empurrar a conversa no cafezinho.
O perigo real é o pensamento original. Desse, sim, mantenha distância.
Um pensamento original é um cachorro grande sem coleira num parquinho. Enquanto está longe, todo mundo acha bonito, mas quando chega perto, alguém sai mordido.
Pensar diferente, por conta própria, é uma temeridade. Significa que, se der errado, a culpa é inteiramente sua. Não há para onde correr. Muito mais seguro e higiênico é pensar igual ao que todos pensam, protegido pela unanimidade.
Quando todo mundo erra junto, o erro vira estatística, vira tendência de mercado, vira hashtag, e ninguém passa vergonha sozinho.
Nada é mais acolhedor do que um erro compartilhado.
Repare bem na trajetória das novas ideias:
Começam como escândalo.
Com o tempo, viram consenso.
Terminam como obviedade.
O Bem Amado não se mete no meio desse processo. Enquanto a ideia ainda escandaliza, é perigoso demais defendê-la. Quando ela vira obviedade, aí sim: basta repetir o que o telejornal disse ontem.
O problema é a fase intermediária, onde vivem os reformadores e os mártires. Evite essa zona de turbulência. Pioneiro é uma pessoa que ganha estátua depois que morre, mas que em vida só recebe o olhar torto do vizinho.
Se algum dia lhe ocorrer uma ideia extraordinária, examine primeiro quantas pessoas poderão desgostar dela. Se o número for superior a uma, conserve-a para uso doméstico.
Você pode perguntar: "Como viver sem pensamento próprio?"
Que ingenuidade!
Ninguém precisa inventar a roda todo santo dia.
A humanidade passou milênios pensando, suando e tendo ideias. Seria uma indelicadeza imensa da sua parte desprezar todo esse trabalho acumulado. Use as ideias dos outros. Elas já vêm testadas e com garantia.
Sua fala deve ser seu cartão de crédito, nunca seu RG.
Se lhe perguntarem na saída do cinema o que achou do filme, não comece uma tese sobre o cinema noir. Diga apenas: "Achei interessante". A amizade continua firme, todo mundo vai embora em paz e o cinema noir que se dane.
O objetivo nesta vida nunca é ter razão sobre o significado do filme. O objetivo é continuar sendo convidado para ir ao cinema.
Seja chuva. E chova no molhado!
Depois da arte de chover no molhado, chegou a hora do amigo leitor dominar uma competência ainda mais elevada: a mudez.
Mas calminha aí. Não estou falando da mudez dos ignorantes, que demoram para entregar uma resposta por falta de estoque. A mudez do Bem Amado é a ampliação infinita da pausa para que nunca chegue a tempestade.
É impressionante a fobia que a humanidade tem do silêncio.
Basta abrir um vácuo de três segundos na conversa da sala de estar para alguém se desesperar e soltar uma bobagem sobre o preço abusivo da gasolina ou a quantidade de agrotóxico no tomate.
O pessoal trata o silêncio como se fosse um princípio de incêndio e sai jogando palavras por cima feito baldes d’água.
Não entre nesse pânico. Prefira a palavra não dita. A palavra dita tem um defeito trágico: ela mata as hipóteses.
Antes de abrir a boca, você pode ser um gênio incompreendido, um sábio erudito ou um poeta profundo. Depois que solta a primeira frase, você vira apenas uma pessoa que acabou de dizer uma asneira.
Para que apressar esse rebaixamento?
Conheci um juiz de direito cuja fama de inteligência superior atravessava o estado. O homem falava pouquíssimo. E, quando finalmente resolvia abrir a boca, não saía nada de genial. Era só um comentário bem feijão com arroz. Mas a reputação dele era inabalável. Sabem por quê?
Por causa do hiato. Das pausas dramáticas. Ele demorava tanto tempo mastigando o silêncio antes de responder que os ouvintes já iam criando teses brilhantes na própria cabeça e atribuindo tudo ao doutor.
Agora, cuidado: existe um momento crítico em que o silêncio exige pulso firme. É quando a discussão na mesa do jantar esquenta e, de repente, alguém aponta o garfo na sua direção e dispara: "E você, o que acha?".
O principiante entra em parafuso. Acha que precisa tomar um lado. Erro crasso! Escolher um lado significa automaticamente comprar briga com a outra metade da mesa. Em vez de dar uma resposta, ofereça um intervalo.
Olhe serenamente para a turma, faça uma cara contemplativa e solte: "Pois é... esse é um assunto que exige muita reflexão".
Pronto. A frase não diz nada. E mesmo assim, todo mundo sai da mesa achando que testemunhou um momento de profunda ponderação filosófica.
A aparência é, de longe, a parte do ser humano mais frequentada pela vizinhança. Pouquíssimos vão se dar ao trabalho de explorar o que você pensa. Por outro lado, quase todo mundo vai reparar seu corte de cabelo.
Os moralistas de plantão adoram repetir que "o que importa é o interior".
Francamente, o interior de uma casa só passa a interessar a partir do momento em que o visitante aceita passar pela porta. E ninguém se arrisca a entrar num imóvel cuja fachada parece cenário de filme de terror.
O Bem Amado cuida da pintura externa.
Por fora, bela viola. O resto é irrelevante.
Há pessoas que enchem o peito para dizer que "não ligam para aparências".
Trata-se de uma vaidade às avessas. A pessoa passa quarenta minutos na frente do espelho escolhendo a dedo a camiseta e a calça velha que vai usar para provar ao mundo o quanto ela não liga para as aparências.
Não estou recomendando que você saia por aí fantasiado de magnata. O luxo é um perigo: desperta comparações, as comparações geram inveja, e a inveja produz desafetos que entram no seu sapato como brita.
Em vez do ótimo, mire no bom. É uma regra de ouro que vale tanto para o corte do terno quanto para a postura moral.
Observe a decoração de uma boa biblioteca: nenhum móvel ali fica gritando por atenção, mas todos juntos criam um clima bom. Faça a mesma coisa. Não queira ser a Mona Lisa na parede. Seja a parede.
Sobre o sorriso: use com moderação.
A pessoa que sorri 24 horas por dia parece corretor de imóveis em início de carreira. Já aquela que nunca sorri vira o pesadelo das crianças do prédio.
E quanto ao olhar?
Mantenha-o disponível, jamais invasivo, jamais no mundo da lua. Exatamente como aquele mordomo de novela, que ninguém nota onde está, mas que aparece no segundo exato em que a bandeja precisa passar.
A aparência perfeita é aquela que desaparece.
O outro considera sua companhia agradável quando você ocupa a mesa sem ter a indelicadeza de disputar a atenção com ele.
Poucas invenções foram tão úteis à humanidade quanto a frase feita.
As frases que já não têm dono, que rodam de boca em boca, que ninguém cita como de fulano porque todo mundo acha que inventou sozinho.
Esse é o verdadeiro idioma do Bem Amado.
Há pessoas pedantes, cheias de si, que torcem o nariz para as frases prontas e as chamam de "lugar-comum".
Que injustiça!
"Lugar-comum" é o apelido preconceituoso que o pessoal que gosta de inventar moda deu para as coisas que realmente funcionam.
Pense numa ponte bem construída: milhares de carros passam por ela todo santo dia. Alguém diz que a ponte perdeu o valor porque é muito usada? Pelo contrário: se passa tanto carro por ali, é porque a ponte é boa e não cai.
Pegue um exemplo clássico: "O bom senso é o melhor caminho".
Que maravilha de frase!
Ninguém sabe o que é bom senso, nem onde fica, mas a turma inteira balança a cabeça em sinal de aprovação.
Ou então aquela outra, imbatível: "Só o tempo dirá".
Observe a genialidade por trás disso. A frase encerra o debate na hora e empurra o problema para um futuro indefinido. Se o tempo confirmar o que você disse, você vira profeta. Se não confirmar, já passou tanto tempo que todo mundo já esqueceu da conversa.
Com uma dúzia de frases clichê no bolso, você atravessa qualquer coquetel de lançamento, jantar de noivado ou fila de banco sem sobressaltos. Decore-as. Use-as sem moderação. A novidade deixa as pessoas tensas, desconfiadas.
O Bem Amado não distribui charadas, distribui travesseiros.
O clichê traz aquele aconchego, aquela paz de espírito.
Não negue esse carinho ao seu próximo.
Poucas coisas na vida causam tanto estrago ao convívio social quanto a tal da profundidade. Aquela que insiste em fazer uma segunda pergunta quando a geral já está entediada com a primeira.
Todo assunto tem uma hora certa para acabar. A maioria sabe quando chegou nesse momento. O filósofo não. É persistente igual pernilongo.
Conhece alguém que goste de pernilongo?
A profundidade vai te afogar no desprezo alheio. Seja raso.
Os filósofos escrevem livros fantásticos, é verdade, mas costumam passar o sábado à noite comendo yakisoba de delivery sozinhos.
Imagine a cena: o pessoal no bar conversando sobre justiça. Alguém solta: "Pois é, no fim das contas, a gente tem que fazer o que é certo".
A mesa inteira balança a cabeça, toma um gole de cerveja, paz absoluta.
Aí, do nada, um espírito profundo ajeita os óculos e manda:
— Mas o que é, afinal, o certo?
Pronto. O ambiente, que até então era uma roda de pagode, vira o banquete de Platão. A cerveja passa a ter gosto de cicuta. E tudo porque um infeliz recusou aceitar uma resposta rasa e viável, ou seja, razoável.
O grande segredo da vida é chegar até a beirinha do abismo, acenar para a plateia, mas jamais olhar para baixo. As pessoas admiram o gesto corajoso. Mas ninguém quer ver a queda.
O elogio é uma daquelas chaves mestras que abrem a porta do outro sem fazer um pingo de barulho no trinco.
O camarada que recebe uma pequena dose de confete todo santo dia vai, quase sem perceber, pegando uma simpatia danada por quem joga.
Agora, atenção: existe uma categoria superior na babação de ovo.
A verdadeira arte do elogio disfarçado.
É quando você finge que está apenas rebatendo uma crítica maldosa.
Alguém solta na roda:
— Fulano é um exigente chato.
Você intervém, com voz macia e olhar ponderado:
— Talvez seja um zelo extremo pela qualidade.
Que beleza! O elogio vem envelopado em neutralidade e equilíbrio. Ninguém resiste. Você imediatamente se torna um bem amado.
Aprenda também a elogiar quem não está na sala.
O ausente não vai receber a flor da sua mão. Mas a rádio fofoca fará esse serviço por você. Além do que, os ouvintes vão supor que você faz o mesmo por eles na ausência deles.
Por outro lado, fuja do autoelogio como o diabo foge da cruz.
Quando você precisa sair avisando o mundo sobre as suas virtudes, perde a chance de deixar os outros fazerem esse trabalho sujo por você.
O Bem Amado nunca bate no peito para dizer: "Sou um homem de coração enorme". Ele apenas distribui pequenas jujubas pelo caminho até que alguém comovido solte: "Mas como você é generoso!".
Aí o Bem Amado abaixa os olhos, dá aquele sorrisinho de canto de boca e aceita a medalha com extrema modéstia.
Para fechar o tópico: não fique neurótico exigindo que o elogio seja uma verdade irrefutável. Se você for elogiar só com base em fatos provados em cartório, sua máquina de enaltecer vai virar sucata.
O elogio é como um copo de plástico descartável, só precisa atender à necessidade do freguês naquele exato minuto.
É ganhando que você perde tudo. Não ganhe. Nunca. Em hipótese alguma.
Quando perceber que sua vitória é inevitável, que irá ganhar mesmo que não queira, fuja da briga usando a porta dos fundos.
Seja cagão.
Toda briga produz um vencedor e um derrotado. E o grande drama de ser o vencedor, é que você ganha a luta, mas perde o amor da pessoa que derrotou.
Essa é uma troca tola e antieconômica.
O grande guerreiro, quando ouve o outro falando uma asneira, pensa: "Perco o amigo, mas não perco a piada". O Bem Amado, mais calejado, pensa: "Como ignoro essa piada para não perder um amigo?".
No fundo, todo mundo carrega aquele desejo infantil de ter razão e vencer a discussão. E para que? Para ser o sabichão malquisto?
Segure esse ímpeto!
No momento em que você prova, com fatos e fotos, que o outro está errado, você não ganhou a discussão, ganhou um hater.
Mesmo que o outro diga "obrigado pelo esclarecimento" com um sorriso amarelo, por dentro ele está rogando pragas a sua quinta geração.
Ganhar dos outros é o método mais rápido e eficaz de criar antipatia gratuita.
Antes de abrir a boca para corrigir alguém, se pergunte: "Essa correção vai me fazer ser mais querido?". Se a resposta for não, guarde sua enciclopédia no bolso e pegue uma batata frita no prato do seu interlocutor.
Outra regra de sobrevivência: jamais use a palavra "mas" logo depois de um elogio. "Você é muito inteligente, mas...". Pronto, estragou tudo. Elogio seguido de "mas" é uma crítica vestida com roupa de ir à missa.
Se for absolutamente inevitável discordar, faça como as lavadeiras, use amaciantes. Diga: "Compreendo seu ponto...", "Faz sentido". Essas frases não resolvem a crise no Oriente Médio, nem a inflação, mas evitam o climão.
E bom clima é tudo para vida em sociedade.
A maioria das discussões de botequim não serve para descobrir a verdade de nada. Serve única e exclusivamente para medir quem tem o pinto maior, para estabelecer a hierarquia da turma.
Pessoas não defendem ideias, defendem o ego.
Ninguém aceita ser rebaixado na frente dos outros sem guardar um rastro de ódio no coração. Se sentir que o papo está descendo para esse terreno minado, dê um passo para trás. Não porque você está errado, mas porque, se prosseguir, vai disparar o gatilho do ego alheio e explodir o amor que o outro tem por você.
É perdendo que se ganha o amor do outro.
Seja cagão.
Existe um engano trágico cometido por nove em cada dez pessoas que querem impressionar a plateia: acham que precisam, a qualquer custo, virar o centro das atenções. Oito ou oitenta. Preto ou branco.
Santa ingenuidade. Seja cinza.
A luz do holofote mostra o seu terno alinhavado, mas também, com uma precisão cirúrgica, ilumina a mancha de molho de tomate na sua lapela.
O Bem Amado não dá esse vacilo.
Fuja do holofote e prefira uma meia-luz de abajur: todo mundo enxerga o contorno, mas ninguém tem luz suficiente para checar as imperfeições.
Essa é a grande ciência da invisibilidade elegante.
Tem gente que entra num recinto como quem inaugura um marco histórico, arrastando suas virtudes e triunfos, esperando que a turma inteira interrompa o que está fazendo para aplaudir a sua chegada.
O Bem Amado entra de fininho, na ponta dos pés.
Primeiro, dá aquela olhada de soslaio, mapeia o terreno, sente a umidade do ar. Depois, começa a participar do papo com doses homeopáticas. Por fim, quando todo mundo já está relaxado e de guarda baixa, ele faz com que suas qualidades pareçam algo tão natural quanto a geladeira no canto da cozinha.
Não se trata de sumir no mapa. Deus nos livre do esquecimento. O que o Bem Amado busca é ser lembrado sem passar pelo raio-X de ninguém.
Pense numa foto de celular: se você aproxima demais a câmera, aparecem os poros, as rugas e até os cravos no nariz. De longe, com um filtro suave, qualquer um vira galã de novela. Mantenha sempre essa distância de segurança.
A modéstia inteligente não serve para esconder os seus méritos, mas para organizar a entrada deles sem fazer poeira. Jamais saia anunciando suas qualidades no alto-falante. Deixe rastros, dê pequenas pistas. O ser humano adora bancar o Sherlock Holmes e achar que descobriu algo sozinho.
Não diga: "Eu li Os Lusíadas 3 vezes". Diga, com um ar levemente distraído: "Andei revendo umas coisinhas interessantes outro dia...". O acaso é o melhor assessor de imprensa que existe: faz a sua estratégia meticulosa parecer pura coincidência.
Nunca cometa o erro de ser a pessoa mais intensa do recinto. Gente intensa ofusca e cansa a vista. O Bem Amado é o oposto: ele é um alívio, um descanso para a vista. Ele não consome a atenção do interlocutor, ele economiza a bateria. Por isso todos o querem por perto.
Se você ganhou um prêmio, comprou um carro novo ou conseguiu um desconto camarada na viagem, não vá dar uma de pavão e escancarar a vitória no meio da sala. Uma vitória exibida na cara dos outros vira afronta. Uma vitória contida, disfarçada com um ar de "dei sorte", vira simpatia.
Segure seu narcisismo.
Quanto mais você murcha seu ego para encher o ego do outro, mais ele te ama.
Quando lhe fizerem um elogio, não mande um seco "obrigado". É educado, mas falta um tempero. Solte um singelo: "Que nada, a gente está sempre aprendendo". Você aceita o confete, mantém a pose de franciscano e ainda deixa nas entrelinhas que tem neurônios suficientes para continuar evoluindo.
Nada de dar uma de João sem braço e recusar o elogio com tanta veemência a ponto de forçar o outro a ter que repetir a lisonja. Isso transforma a gentileza alheia num trabalho exaustivo. "Agradeço o apreço" já encerra a questão com chave de ouro.
A modéstia perfeita não joga a flor no lixo, apenas finge surpresa.
A convivência deixa ressentimentos: o atraso de uma hora no restaurante, o e-mail não respondido. A pessoa mal amada guarda tudo numa planilha no Excel e, na primeira briga, abre o arquivo para esfregar na cara do outro.
Esse é o método mais eficiente para morrer sozinho cercado por gatos.
Guarde da verdade apenas o estritamente necessário para o vento do amor continuar soprando em sua direção. O resto, jogue no arquivo morto, lá no fundo do sótão, de onde ninguém tira nada sem autorização judicial.
Não se trata de jogar a verdade no lixo. Trata-se de colocá-la no seu devido lugar.
A verdade é uma senhora idosa que deve ser tratada com chá e torradas, mas ninguém é obrigado a levá-la para o bar ou convidá-la para festa.
O Bem Amado não perde tempo filosofando: "Isso é verdadeiro?". Ele prefere uma indagação muito mais pragmática: "Isso vai causar boa impressão?".
Um bom médico não sai jogando o prontuário inteiro na cara do paciente de uma vez só, só porque o papel está assinado e carimbado. Ele avalia o momento, sente a pressão arterial e fala dosando as palavras.
Aprenda também a praticar a sabedoria da verdade diluída.
E não vá confundir isso com mentira!
A mentira inventa um elefante na sala, a verdade parcial fala apenas do pedaço do elefante que está tocando para simplificar para o ouvinte.
Afinal, toda verdade tem mil lados.
Agora que você já entendeu a ideia, vamos meter a mão na massa.
Segue dicas de como colocar em prática a filosofia do Bem Amado nos principais locais de convivência.
Cada ambiente tem sua própria liturgia de aprovação.
Aprenda a ser Bem Amado em todos e você nunca mais vai comer pizza sozinho.
O peru de Natal é apenas o pretexto; a verdadeira entidade do evento é o tio da piada. Quando ele puxar, pelo décimo ano consecutivo, aquela historinha mofada sobre a diferença entre o pavê e o "pra comê", não hesite: dê uma gargalhada franca, espontânea, como se estivesse diante da nova revelação do stand up brasileiro. O riso de Natal não é sobre humor, é sobre caridade cristã.
Quando o ambiente da festa de família estiver cortado ao meio por aquela briga histórica entre a Tia Vera e o Primo Braulio. Aplique a tática do diplomata de trânsito. Circule entre os dois grupos com o mesmo nível de entusiasmo. Coma o arroz da esquerda, elogie o salpicão da direita e mantenha a cara de presidente da ONU. Se perguntarem de que lado você está, diga apenas que está a caminho do freezer para pegar mais gelo.
No almoço de domingo, quando o assunto for política e a tensão ameaçar azedar a maionese, saque a única frase capaz de pacificar o ambiente: "Pois é, no fim das contas, cada um pensa de um jeito, né?". Isso não quer dizer absolutamente nada, mas tem o poder de desarmar qualquer um munido de certezas absolutas.
Nunca cometa a grosseria de corrigir uma história antiga dos mais velhos. Mesmo que não lembre de nada, confirme com um aceno emocionado, acrescente um detalhe colorido que você acabou de inventar e ajude a reforçar a lenda. A verdade é um luxo histórico. O mito em família é o que segura o almoço de domingo.
Quanto aos brindes, a regra é de um rigor absoluto: taça erguida sempre. Não importa o motivo. Bata os copos com estardalhaço, diga "saúde!" com olhar firme e tome o espumante meio morno. No grande teatro das festas em família, o que vale é o tim-tim; o motivo a gente inventa depois, quando for lavar a louça.
Não cometa a loucura de querer ser o primeiro da turma. O primeiro da turma atrai olhares, atrai expectativas e, o que é muito pior, vira o encarregado oficial de apagar a lousa.
Também não precisa virar o pior da classe. Ser o pior exige reuniões dramáticas com a diretora e choro na hora do boletim. Mire naquele meio de campo confortável, onde a brisa é suave e o radar não alcança.
Seja sempre o primeiro a gargalhar da piada ruim do professor, especialmente, quando ela for mesmo ruim. O professor que conta piada não tem interesse na comédia, ele busca a validação. Ofereça a gargalhada como quem oferece um copo d'água no deserto.
Fale bem de todos os professores, sem exceção, até que o tribunal da cantina emita o veredito oficial sobre quem é o carrasco do semestre. Atirar pedra em professor antes da hora é amadorismo. Esperar a maioria vaiar primeiro é diploma de maturidade.
A regra em trabalhos de grupo é simples: concorde imediatamente com quem fala mais alto na primeira reunião. A pessoa expansiva quer a liderança, você quer apenas a nota. Deixe que ela formate a capa, envie o e-mail para o professor e passe raiva no domingo à noite. No fim, seu nome estará na capa do mesmo jeito, com a vantagem do seu fígado continuar intacto.
Se o professor fizer uma pergunta e a turma inteira responder uma bobagem monumental, não levante o braço para exibir a resposta correta em voz alta. O garoto que acerta sozinho na frente de trinta colegas coloca banca com a professora, mas coloca também um alvo nas próprias costas na hora do recreio.
O segredo da erudição universitária não está no conteúdo, está na pronúncia. Diga "Foucault" com aquele estalo na língua, ou mande um "Schopenhauer" como quem limpa a garganta com elegância. A banca vai balançar a cabeça em transe, e ninguém vai ter a ousadia de perguntar em qual página os caras disseram o que.
Chegue sempre uns dez minutos antes do chefe e saia exatamente cinco minutos depois que a porta dele bater.
Toda crítica deve vir embrulhada em elogio: "adorei a ideia, só uma sugestãozinha". Assim ela passa na alfândega do ego alheio sem pagar imposto.
Concorde em alto e bom som, com qualquer barbaridade dita por quem assina o seu cheque.
Fale pouco, mas fale por último, resumindo o que os outros já disseram, com uma palavra em inglês no meio.
Balançar a cabeça afirmativamente enquanto qualquer superior hierárquico estiver usando da palavra não é submissão: é participação ativa no projeto.
Espere o colega do lado soltar a bomba dele e entre apenas com a segunda opinião. Assim você palpita no caos alheio sem precisar assinar o laudo.
O segredo de parecer devoto está no timing. Chegue cedo o suficiente para ser visto entrando, mas não tão cedo que o sacristão o confunda com a equipe da limpeza.
O "amém" exige precisão. Soltá-lo cedo demais passa a impressão de desespero. Tarde demais parece distraído. Mire naquele coro intermediário, na média ponderada dos fiéis.
Nunca questione a lógica do Dilúvio e a localização geográfica do paraíso.
Dúvidas metafísicas devem ser sussurradas exclusivamente para Deus, em tom confidencial. Afinal de contas, ele é o único interlocutor que nunca faz fofoca da conversa para o grupo da paróquia.
Em grupos espirituais, fale de energia com a mesma frequência com que a meteorologia fala de umidade relativa do ar. Energia densa, energia sutil, energia do ambiente, energia planetária, etc.
Jamais cometa a indelicadeza de discordar do guru. Se ele disser que a terra é plana, você não debate. Fecha os olhos, respira fundo pela narina esquerda e murmura, com devoção: "Om Namah Shivaya".
Se a sua vida estiver de pernas para o ar. O carro bateu, a conta estourou, seu marido te traiu com uma amiga da sua filha, e seu pet morreu. Nada de dar vexame. A tragédia pessoal só afeta quem ainda não atingiu a iluminação. Mantenha a classe e os posts fazendo posturas de ioga. Você não quer estar do lado dos apagados.
Se o vizinho de cima resolver tocar heavy metal na bateria às duas da manhã, controle o ímpeto de subir de pijama e dar soco na porta. A briga presencial gera ressentimento e cara feia no corredor por uma década. Mande uma mensagem pelo WhatsApp, no tom mais suave e aveludado que o teclado permitir: — Puxa, amigo, adoro Iron Maiden, mas tá dificultando pegar no sono.
O elevador é a Suíça, uma zona de estrita neutralidade diplomática. Ao entrar, olhe fixamente para o painel de andares e comente sobre a frente fria que vem do Sul ou sobre essa chuva chata que não passa.
Jamais, em hipótese alguma, solte a palavra "fundo de reserva" ou "cota extra" numa conversa de elevador. A taxa condominial azeda o ar do cubículo mais rápido do que pneu queimado, e a viagem até o térreo vira uma eternidade.
Quando a briga na casa do vizinho esquentar e a gritaria atravessar a parede, segure o ímpeto de evitar o assassinato. O primeiro a chamar a polícia vira o pivô da confusão, o delator do prédio, a testemunha do inquérito. O movimento de mestre é ser o segundo. Você ganha a fama de protetor da ordem sem o risco de ter o pneu do carro furado.
Em reuniões de condomínio, nunca cometa a loucura de levantar o braço sem antes fazer um censo populacional minucioso no recinto. Espere o caldo entornar, conte os narizes em cada canto do salão de festas e só então escolha o seu lado da barricada.
Fale sempre em nome "da maioria dos moradores", mesmo que a maioria seja você e a sua opinião.
Vote com a correnteza. Junte-se aos vencedores sem o menor constrangimento moral. Votar no que já vai ser aprovado de qualquer jeito garante que a sua cédula saia do pleito imaculada, invicta e do lado certo da história.
Ria primeiro, entenda depois. O importante não é a piada, é rir em coro.
Nunca seja a pessoa que sempre discorda da maioria. Esse rótulo é pior que chiclete grudado no banco de couro do carro. Quando você menos esperar, seus amigos já criaram um grupo paralelo no WhatsApp só para marcar a pizzaria sem você.
Pague uma rodada antes de perguntarem se você vai pagar.
Ria das histórias repetidas como se fosse a primeira vez.
Quando a conversa estiver boa e a saideira já tiver virado a quinta rodada, nunca cometa a indelicadeza de olhar no relógio e avisar, com ar de pai de família, que já passa das três da manhã.
Em festas de aniversário, primeiro elogie a decoração, só depois pergunte quantos anos a pessoa está fazendo.
Cante os parabéns mais alto que o normal. Ninguém verifica a afinação, todos verificam o entusiasmo.
Traga um presente médio. Caro demais expõe quem trouxe barato. Barato demais expõe quem não se importou.
Quando seus amigos te chamarem para ir a um bar de karaokê no domingo de chuva, às onze da noite, do outro lado da cidade, pare tudo que estiver fazendo e embarque nessa barca furada.
Quando o velho companheiro de copo puxar pela vigésima vez aquele causo clássico sobre o dia em que o motor do Fusca pegou fogo na serra, faça cara de surpresa. Abra os olhos, solte um "não me diga!" sincero e caia na gargalhada na hora do clímax.
Na viagem com os amigos, saque o celular e tire foto de absolutamente tudo o que o grupo resolver fotografar. A estátua de bronze, a fachada da igreja, a florzinha na calçada. Não importa se você acha bonito ou feio. Se você não tirar fotos, corre o risco de acabar não parecendo em foto nenhuma.
Quando um amigo formado em história ficar chapado na festa, e jurar de pé junto que o Titanic afundou num afluente do Rio Tietê, segure a erudição no bolso. Deixe ele mudar a história, senão o que afunda é sua amizade.
Curta o post dasamiga imediatamente, antes de cometer a imprudência de ler o texto. A leitura exige atenção, consome tempo e pode provocar um indesejável efeito colateral: vontade de desfazer amizade.
O like é a pedra fundamental da convivência digital. Garanta a sua presença nos feeds. É só isso que importa.
Em grupos de WhatsApp, reaja com o emoji certo. O joinha, o coraçãozinho ou aquela carinha chorando de rir são as maiores invenções da diplomacia moderna.
O emoji custa zero centavos de esforço intelectual e rende para a sua reputação o mesmo capital moral de uma frase elaborada com sujeito, verbo e predicado. É a comunicação em ponto morto: você marca presença na conversa sem precisar engrenar o cérebro.
Quando a tentação de ser sincero na internet for mais forte do que a sua prudência, aplique o freio de mão ao final da frase: "Mas, enfim, é só a minha opinião, né? Respeito quem pensa diferente".
Quando a praça pública virtual resolver entrar em transe por causa da polêmica da semana, não invente de ficar em silêncio. Junte-se ao coro dos indignados no mesmo dia, na mesma hora. Poste a sua cota diária de revolta e vá dormir com a consciência tranquila de quem cumpriu o seu papel na cidadania do algoritmo.
Quando o grupo de WhatsApp da família ou do futebol virar um suplício insuportável, segure o desejo de clicar no botão "Sair do Grupo" como um herói injustiçado. O primeiro que abandona o barco vira o assunto principal do grupo por três semanas consecutivas, acusado de soberba e mau humor.
Quando for sair de um grupo de WhatsApp, saia na surdina da madrugada, sem aviso prévio e sem textão de despedida. O silêncio é a única porta de emergência elegante.
Quando chegar um áudio longo, nada de pânico. Acelere a gravação para 2x. Deixe a voz da pessoa parecendo um esquilo de desenho animado sob efeito de cafeína, absorva o essencial e responda com vários emojis de joinha.
Eis que chegamos ao fim.
Durante essa leitura, o nobre leitor aprendeu a nunca contrariar ninguém. A engolir as próprias convicções. Abandonar a autenticidade. Ser mudo, babão, cagão. E, assim, alcançar algo que antes parecia impossível: ser amado.
Aplique estes mandamentos com rigor cirúrgico e seu nome será acompanhado de comentários como: "Gente finíssima!", "Nunca deu um pingo de dor de cabeça!".
— Mas agradar só tem prós, nenhum contra? — você pode questionar.
Excelente pergunta.
Sim, há perdas. Ao agradar talvez você perca a emoção de morrer abraçado a uma convicção, a liberdade deliciosa de soltar um "não" bem redondo ou o prazer raro de ser autêntico. Mas olhe o que ganhará em troca e sem esforço: a aprovação geral.
Com aprovação você compra trânsito livre, convites de aniversário, risos corteses e a sensação quentinha de amizade.
É verdade que não compra amizade autêntica. Mas amizade verdadeira é artigo raro, exige manutenção cara e costuma vir acompanhada de um carnê imenso de responsabilidades afetivas.
Só um outro porém, uma letrinha miúda no rodapé do contrato. Nessa busca incansável para nunca ser rejeitado pela plateia, o Bem Amado acaba deixando de lado uma pessoa importante pelo caminho: ele mesmo.
Mas calma! Nada de pânico. Esse pequeno contratempo também é perfeitamente administrável. Basta não pensar a respeito disso.
Portanto, vá sem medo, meu caro.
Vista o figurino que a ocasião pede. Tenha a opinião que a mesa está exigindo. Sorria no timing correto. E, acima de tudo, jamais dê ao seu próximo nenhum motivo para que ele mude de calçada quando você estiver vindo.
Cultive o amor.
Lennon já dizia: all we need is love.