Livre Click
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Liberdade e livre-arbítrio não são sinônimos. Igualar os dois é um grande equívoco. Porém, durante toda a história humana, esse equívoco vem sendo mantido e reforçado. Este livro explica esse equívoco. E explica também como liberdade e livre-arbítrio se relacionam para produzir o funcionamento da experiência humana.
Só existe jogo onde existe imprevisibilidade. Pense em qualquer jogo que você conhece e observe que ele é baseado na imprevisibilidade. Mas onde está a imprevisibilidade de um jogo se todo jogo é um conjunto de regras fixas?
Pegando o xadrez como exemplo, as pedras brancas não ficam pretas e as pretas não ficam brancas, isso é previsível. O quadriculado não muda, isso é previsível. Como as peças se deslocam também não muda, também é previsível. Se tudo em um jogo de xadrez é previsível, cadê a imprevisibilidade?
A imprevisibilidade transcende as regras do jogo. Como assim? Se você jogar xadrez contra você mesmo, quem irá ganhar o jogo? Ninguém, o jogo ficará empatado. Por quê? Porque sendo que seu adversário é você mesmo, você consegue prever as jogadas de ambos os lados.
Conclusão: a imprevisibilidade está no arbítrio do jogador. O mesmo acontece com a vida. As regras do jogo são fixas e previsíveis. Todo dia os seres humanos acordam e continuam sendo humanos, exatamente como foram ontem e como serão amanhã. Mas as decisões que cada um toma no jogo não fazem parte das regras do jogo, fazem parte do ato de jogar que é o ato de decidir (arbítrio).
O arbítrio do jogador é a vida do jogo. Sem arbítrio não haveria jogo, só haveriam regras. Pense que só existem sete notas musicais no jogo da música. Agora pense em quantas músicas diferentes existem feitas com as mesmas sete notas. De onde vem tanta diversidade e riqueza musical? Vem do arbítrio dos jogadores (músicos).
Contudo, entretanto, todavia e porém, não falta guru determinista e ignorante para espalhar o equívoco de que você não tem arbítrio. Escolha deles acreditar nesse equívoco e propagá-lo como verdadeiro, mas não precisa ser escolha sua.
Fazendo uma analogia da experiência humana com um videogame, seu arbítrio é o joystick e sua realidade é a imagem na tela. Quando você está brincando de videogame, a imagem na tela obedece o manuseio do joystick.
O mesmo acontece com sua realidade. Só que no videogame, você vê o manuseio do joystick e a correspondente mudança na tela, mas na brincadeira de ser humano, você não vê o joystick. Ou seja, você executa seu arbítrio, mas não se vê executando, você só vê o efeito: sua realidade mudando. A correspondência fica invisível. Por isso parece que sua realidade está mudando aleatoriamente, sem seu arbítrio. E para piorar você também não vê o arbítrio dos outros jogadores.
Então, sem autoconhecimento, é inevitável você supor que não existe arbítrio, que sua realidade é arbitrária. Mas é justamente o oposto. Sua realidade não é arbitrária, é arbitrada.
Arbítrio é existencial, mas está humanizado. Pense em um jogo de videogame. O avatar tem arbítrio? Não! E por que não? Porque o controle do jogo está na mão do jogador e não na mão do avatar. Só que no caso do videogame, é fácil entender isso, pois existe uma distância espacial entre o jogador e o avatar. O jogador está sentado no sofá, o avatar está na tela da televisão, tem dois metros de distância entre um e outro. Aproxime o jogador do avatar até que desapareça a distância entre eles, até que não exista mais separação entre um e outro. Sendo assim, quando o avatar decide dentro do jogo, de quem foi o arbítrio: do jogador ou do avatar? O arbítrio foi do jogador, porque o arbítrio é sempre do jogador, mas sendo que não existe separação entre jogador e avatar, parece que é do avatar. Analogamente, o mesmo acontece na experiência humana: você-ser é o jogador, você-fulano é o avatar.
Liberdade é limite. Mas atenção! Não estou dizendo que liberdade "tem" limite. Estou dizendo que liberdade "é" limite. Assim como seis é meia dúzia, liberdade é limite.
Seis e meia dúzia são duas palavras diferentes, mas que entendemos como sendo de igual significado, ou seja, sinônimos. Limite e liberdade são duas palavras diferentes, mas que entendemos como sendo de significados opostos, ou seja, antônimos.
Segundo a lógica habitual, dizer que liberdade é limite, é uma contradição. É o mesmo que afirmar que aberto é fechado, que seco é molhado, que calor é frio. Esse é o obstáculo para entender o que é liberdade.
Significado funciona por antônimos. É impossível entender aberto senão como antônimo de fechado, seco senão como antônimo de molhado, calor senão como antônimo de frio e liberdade senão como antônimo de limite. Ao igualar liberdade com limite, liberdade fica sem antônimo, e por ficar sem antônimo, fica sem sentido, sem significado.
Mas igualar liberdade com limite não faz com que liberdade perca o significado, faz com que mude de significado. E também não faz com que liberdade perca o antônimo, faz com que mude de antônimo. Sendo que liberdade é limite, o antônimo de liberdade é o mesmo antônimo de limite: ilimitado (sem limite).
Qual é seu limite de crédito bancário? Vamos supor que seja 10 centavos. Você tem liberdade para gastar 1 centavo além? Não tem! E por que não tem? Porque liberdade é limite.
Qual é seu limite de visão? Vamos supor que seja 500 metros. Você tem liberdade para enxergar 1 milímetro além? Não tem! E por que não tem? Porque liberdade é limite.
Qual é seu limite de camisas? Vamos supor que duas: uma branca e outra preta. Você tem liberdade de vestir uma camisa azul? Não tem! E por que não tem? Porque liberdade é limite.
Qual é o limite do seu corpo? Exatamente o corpo que você tem. Você tem liberdade para ter corpo além do seu corpo? Não tem! E por que não tem? Porque liberdade é limite.
Entender que liberdade é limite elimina uma oposição que não existe.
Imagine que você é Aladim e acabou de encontrar a famosa lâmpada. Você esfrega a lâmpada e o gênio lhe diz: "Seu desejo é uma ordem". Usando essa metáfora, qual é o tamanho da sua liberdade? Ou seja, qual é seu limite de opções?
Sendo que você pode pedir o que quiser, sua resposta provavelmente é que você não tem limite de opções, que seu limite é ilimitado. Você pode pedir um palito de dente, duzentos carros, mil canetas, uma máquina de fazer dinheiro, um tapete voador, etc. Você também pode pedir para o gênio transformar um elefante em uma ervilha ou dar nó em pingo d'água. Enfim, parece evidente que sua liberdade é ilimitada.
Acreditar que sua liberdade de opções é ilimitada é quase inevitável, mas é um equívoco, pois por mais criativo que você seja para imaginar opções, sua liberdade de opções não tem como ir além da sua imaginação. Você pode pedir ao gênio qualquer opção que conseguir imaginar, mas é incapaz de pedir algo que não consegue imaginar. Seu limite de opções é do tamanho da sua imaginação. Liberdade é do tamanho da imaginação.
O entendimento de que liberdade é do tamanho da imaginação tem várias implicações. Vou citar algumas:
— Sendo que sua imaginação é humana, sua liberdade também é humana.
— Sendo que sua imaginação é inconstante, sua liberdade também é inconstante.
— Sendo que sua imaginação é imprevisível, sua liberdade também é imprevisível.
— Sendo que sua imaginação é particular, liberdade também é particular.
— Sendo que sua imaginação difere da imaginação do outro, sua liberdade também difere da liberdade do outro.
Liberdade é uma coisa e livre arbítrio é outra. Pense na tela do seu computador quando você está na internet. Usando essa metáfora, o que é liberdade e o que é livre arbítrio? Liberdade são todas as opções que estão na tela do seu computador. O que é livre arbítrio? É clicar numa opção. Liberdade é limite de opções. Livre arbítrio é optar.
Por isto que livre arbítrio é sempre 100%. Não importa se sua liberdade é de um milhão de opções ou apenas duas opções, em qualquer caso, em qualquer limite, em qualquer tamanho de liberdade, seu livre arbítrio é sempre o mesmo: optar (clicar).
Livre arbítrio é livre click. Não tem meio click. Click é sempre 100%. E não adianta dizer: "Eu cliquei por hábito, fui condicionado a clicar, logo não optei". Claro que optou (clicou).
Tem quem acredite em livre arbítrio e tem quem não acredite. Essa divergência tem produzido bastante debate filosófico desde muito tempo. Porém, esse debate é um equívoco, pois é impossível acreditar em livre arbítrio. E por quê? Porque livre arbítrio é acreditar.
Mais uma vez o problema é com as palavras. Livre arbítrio = livre acreditar. Dizer "eu não acredito em livre arbítrio" é o mesmo que dizer "eu não acredito em acreditar".
O problema filosófico do arbítrio não é filosófico, é semântico. Provavelmente a palavra "arbítrio" surgiu do contexto religioso e a palavra "acreditar" vem do contexto coloquial. O principal é constatar que são sinônimos. Você é livre para acreditar. E se você não acredita no que estou dizendo: pronto! Eis a prova!
Como você faz café? Você fica olhando para o pó de café e fica esperando ver o café ficar pronto para acreditar? Ou você acredita na criação do café, coloca em prática sua crença e vê o café ficando pronto?
Todo dia, ao fazer café, você crê para ver. Você acredita na ideia de pegar o coador no armário (clica nessa ideia). Você acredita na ideia de colocar o pó no coador (clica nessa ideia). Você acredita na ideia de colocar água quente no coador (clica nessa ideia). Enfim, você acredita numa porção de ideias, coloca essas ideias em prática e por isso vê o café sendo feito.
Nada do que você experimenta é criado através do método científico (ver para crer), criação é fé (crer para ver). Acreditar é clicar. Então, criação é clicação.
Através da ciência você testemunha sua realidade, comprova sua realidade, mede sua realidade, categoriza sua realidade, mas não fabrica nenhuma realidade. Por que não? Porque ciência é VER PARA CRER e criar é CRER PARA VER.
Ciência é ver e analisar o produto fabricado, não é fabricar. Fabricar realidade é um ato de fé. Criação é acreditação. Ciência é testemunha da fé.
Não é uma nova era que irá produzir um novo homem, é um novo homem que irá produzir uma nova era. Um novo jardim não é produzido do jardim para a flor. Jardim é efeito. Não é o jardim que faz as novas flores desabrocharem, é o desabrochar das novas flores que faz surgir um novo jardim.
Estamos no início de uma nova era porque estamos no início de um novo homem. Você está mudando de opção, por isso a nova era está se realizando.
Pense na internet. Se você clica sempre no mesmo link, a realidade que você experimenta é sempre a mesma. Se você muda de opção, a realidade muda também. De forma análoga, é assim que você está cocriando uma nova era, clicando em uma nova opção, clicando em um novo jeito de viver, clicando no viver universalista.
Imagine que você está trancado em uma cadeia. Na porta da cela tem uma fechadura. Na sua mão tem uma chave. Foi o próprio carcereiro que lhe deu a chave. Você coloca a chave na fechadura e vira a chave no sentido horário. Nada acontece. A fechadura continua fechada e você continua preso.
Como a chave não funcionou, você conclui que o carcereiro lhe deu a chave errada. Você fica com raiva, joga a chave pela janela e pede que o carcereiro lhe dê a chave certa.
O carcereiro lhe entrega a mesma chave que você jogou pela janela. Mais uma vez você coloca a mesma chave na fechadura e vira no mesmo sentido horário. Mais uma vez nada acontece. A fechadura continua fechada e você continua preso.
Mais uma vez você conclui que o carcereiro lhe deu a chave errada. Mais uma vez você fica com raiva, joga a chave pela janela e pede que o carcereiro lhe dê a chave certa.
Mais uma vez o carcereiro lhe entrega a mesma chave que você jogou pela janela. E assim por diante. Até que você desperta para o óbvio: virar a chave no sentido horário fecha a fechadura. Você vira a chave no sentido anti-horário e a fechadura abre. Você sai da cadeia.
Ora, assim como não era a fechadura que estava prendendo você, mas sua liberdade de usá-la de forma equivocada, também não é sua experiência humana que está fazendo você viver mal, também é sua liberdade de usá-la de forma equivocada.
Cada escolha dispara um pacote de consequências. Você opta por uma coisa mínima, como usar determinada roupa para um compromisso, por exemplo. Só que no pacote dessa opção está uma pneumonia. Você pensa que optou pela roupa, mas optou por ficar com pneumonia. Como se dá isso?
Você opta por usar uma roupa bonita, mas sem mangas, bem aberta. Seu encontro é em um restaurante que tem o ar condicionado mais frio do planeta. Você passa duas horas no restaurante morrendo de frio, mas fingindo que está tudo bem para não colocar um casaco feio que lhe ofereceram, pois vai estragar o look. Consequência: você opta pela roupa e vai parar no hospital com pneumonia.
Só que você não entende essa relação. Você não entende que quando clicou na roupa estava clicando na pneumonia. Mas estava. E pior! Você não clicou na roupa. Roupa é só um objeto, uma coisa, um significante, não tem significado. Você clicou no significado da roupa. A roupa significava sua vaidade. Então, a pneumonia não estava no pacote da roupa, estava no pacote da vaidade. Você vai parar no hospital por causa da sua vaidade.
Escolher é pegar um livro na estante. Você escolhe pela capa, mas quando abre o livro, é pego de surpresa pelos prós e contras da estória. Quando você compra um carro, por exemplo, você não vê que está comprando também a estória do pneu furado no meio da estrada. Quando você fecha a porta do emprego chato, você não vê que está abrindo a porta para o emprego dos seus sonhos. Viver bem é lidar bem com os prós e contras que vem embutidos em toda escolha. Viver mal é acreditar que existem escolhas só com prós e sem contras.
Muitas vezes me perguntam porque as pessoas fogem da 1ficina. A resposta é culpa. As pessoas não fogem da 1ficina, fogem de encarar o fato de que são 100% culpadas por suas escolhas, fogem de ter essa obviedade esfregada na cara.
Tenho uma música que diz: "Escolhas tem um milhão e cem de consequências". Essa frase não é apenas uma metáfora, é uma descrição do funcionamento do universo. Cada mínima escolha que você faz, a cada instante, repercute na sua eternidade, pois não existe tempo cronológico de fato, qualquer instante no relógio é sempre e eternamente agora. Então, sua realidade atual não é apenas consequência das suas escolhas de ontem e anteontem, mas de uma eternidade de escolhas.
Escolhas tem um milhão e cem de consequências. A lei da consequência é infalível. A conta sempre chega. Não adianta fugir. Não tem pra onde fugir. Não adianta nem morrer, pois sua existência é eterna.
A pergunta que nunca vai calar, é: de quem é a culpa? Você pode continuar acreditando que é vítima e continuar vivendo mal, ou pode decidir assumir a culpa e virar o jogo. A 1ficina é culpada e caminha com os culpados. Qual é sua escolha?