Kinder Eu
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Jogo da copa do mundo de 1994, sala cheia, refrigerante e pipoca. Todos de olhos vidrados na seleção brasileira e um maluco sentado de costas para televisão em protesto contra o ópio do povo. Quem é esse maluco? O maluco sou eu.
"Acorda gente! É tudo ilusão! É tudo maya! Vocês estão em sono profundo!", eu dizia, fanático e iluminado pela leitura de meia dúzia de livros espiritualistas.
Eu ouvia rock. Só rock. Apenas rock. Nada além de rock. Mas como havia decidido ir contra mim mesmo, parei de ouvir rock e comecei a ouvir música clássica. Fui em um supermercado e comprei uma dúzia de CDs de capas bucólicas que estavam na promoção. Não conhecia nada do gênero, então, sequer escolhi, só peguei.
Sexta-feira era dia de balada, mas como havia decidido ir contra mim mesmo, ficava em casa. Deitava na cama e colocava os CDs de música clássica para tocar. Mas não ouvia. A música só fazia fundo musical para os devaneios.
Assim foi por meses.
Até que uma melodia conseguiu atravessar meus ouvidos entupidos e chegar até minha cabeça oca. De repente, não tinha mais "eu" ouvindo música, só tinha música. E não era feita de notas, era feita de lógica. Era como se estivesse ouvindo uma equação matemática.
Quando a música terminou, depois de 25 minutos, estava em estado de choque. Meu coração ardia. Peguei a capa do CD e li o nome do autor e da música: Ludwig van Beethoven – Violin Concerto in D Major, Op. 61 (1. Allegro ma non Troppo).
Eu só precisava obedecer. "Vai lá buscar!". Eu ia. "Volta!". Eu voltava. "Deita!". Eu deitava. "Dá a patinha!". Eu dava. "Rola no chão!". Eu rolava. "Finge de morto!". Eu fingia. E quanto mais longe o local de entrega, mais feliz eu ficava.
Os outros motoboys se indignavam com minha alegria em ser um pau-mandado. Claro! Eles estavam trabalhando. Eu não! Eu estava de férias. Estava descansando a cabeça e sendo pago para passear de moto pela cidade.
Nessa época entendi porque as pessoas adoram a servidão. Pensar e tomar decisões é mais cansativo que trabalhar numa lavoura de café. Além de cansar, estressa. E o estresse vai para casa com você, deita na sua cama, não te abandona nunca. Seguir ordens é esforço mental zero. E quando acaba o expediente, acaba o serviço.
Minha mãe costuma dizer que na infância eu era um amor de criança e na juventude eu virei um saco. É fácil entender porque ela diz isso. Na infância, voltando da escola, eu tinha o costume de pegar flores no caminho, fazer um buquê improvisado e dar para ela quando chegava em casa. Ela adorava.
Na adolescência, acabou o mar de rosas. Começaram os espinhos. Era como se eu fosse outra pessoa. Minha mãe se perguntava onde estava aquela criança que ela amava e que amava ela. Continuava ali, claro! Só que aquela criança não era mais só uma criança. Não era mais um pau mandado. Aquela criança estava desenvolvendo competência em pensar por conta própria. E com isso, desenvolvendo seu próprio critério de valores. Seu próprio critério de bom e ruim. Seu próprio critério de certo e errado. E assim por diante.
Na infância, não havia espinhos entre minha rosa e eu, porque eu era o pequeno príncipe (aliás, esse era o nome da escola em que estudava) e usava os critérios dela para viver minha vida. Ou seja, a minha vida era a vida que minha mãe traçava para mim (determinava para mim). E não tem nada de espantoso nisso! Assim também foi com você. E assim é com toda criança.
Mas conforme fui crescendo, tendo minhas próprias experiências, e pensando sobre essas experiências, comecei a produzir meu próprio critério de bem e mal, certo e errado. E pior ainda, para desespero da minha mãe, comecei a optar e viver minha vida de acordo com meu próprio critério. Coisas que minha mãe considerava de extrema importância, passaram a ser irrelevantes para mim. O que minha mãe considerava certo, pensei e concluí que era errado.
Comecei a discordar da minha mãe. Eu já não era mais um vagão-filho engatado em uma locomotiva mãe, e que seguia o mesmo trilho da locomotiva. Comecei a virar locomotiva de mim mesmo. Comecei a seguir meu próprio trilho, meu próprio juízo, minha própria vontade e consciência. Mesmo que, aos olhos de minha mãe, eu estava indo pelo trilho errado.
Minha mãe não gostou da minha autonomia, que era vista por ela como malcriação, e tentou me manter nos trilhos dela, pois ela acreditava que estava fazendo o que era melhor para mim.
Só que não! O que é de um não funciona para o outro, pelo simples fato de que o outro é outro. Somos diferentes uns dos outros. Minha mãe e eu somos indivíduos únicos, singulares, logo, diferentes. O que funcionava para minha mãe não funcionava para mim. Como canta Raul Seixas, eu calçava 37 e minha mãe me dava 36, doía e no dia seguinte, apertava meu pé outra vez.
Minha mãe não entendeu que éramos diferentes e tentou me manter no trilho do critério dela. As tentativas dela buscando a realização desse objetivo, embora bem intencionadas, me violentavam. Causavam dor. Passei a ver minha mãe como um algoz. Ninguém dá flores para seu algoz.
Eis porque parei de dar flores para minha mãe: porque comecei a pensar.
Pensar é subversivo. Pensar desestrutura o status quo. Pensar explode o padrão. Pensar incita o motim contra o capitão da tradição família e ancestralidade. Pensar faz o trem da normalidade descarrilar. Pensar é criminoso, porque além de desafiar a lei, desafia a razão de ser da lei, a lógica da lei.
Por isso, meu amigo e minha amiga, ninguém jamais irá lhe dizer: pensaê! Tudo que você irá ouvir no mundo e do mundo, é: "Vai por mim! Acredita em mim! Faz assim!". Ninguém, ninguém, ninguém, absolutamente ninguém, tem interesse que você se torne competente em pensar por si mesmo. Nem mesmos seus pais!
Ao contrário do que você acredita, viver não é uma atividade biológica, viver é uma atividade mental. Sem pensar você não consegue viver. Sem pensar você não consegue sequer sobreviver. Um bebê não pensa. Deixa um bebê sem alguém para pensar para ele. O que acontece? O bebê morre em menos de um dia. Entende o que isso significa? Pensar com competência é questão de sobrevivência!
Se você quer viver bem, sugiro que você invista menos tempo em lamúrias, reclamações, vitimismos, fofocas, fugas, mecanismos de defesa, crendíces, decorebas e outras atividades de atrofiamento do pensamento. Passe a investir mais tempo exercitando e desenvolvendo a competência em pensar.
Pensamento é igual um carro, se você não sentar no banco do motorista e assumir o controle do seu pensamento e dirigir sua vida, o primeiro que ver o banco vazio vai se sentar e dirigir sua vida por você. É isso que você quer?
Pensa nisso! Pensâe!
Quando comecei no autoconhecimento, tinha um anseio gigantesco de salvar a humanidade. Ainda tenho, mas achava que era possível, que todas as pessoas do planeta iriam despertar a consciência. E, no que dependesse de mim, era isso que iria acontecer.
Nessa época, participava de uma escola esotérica. Um belo dia, em um dos livros dessa escola, li o autor dizendo: "Um homem usando chapéu caiu no rio. O objetivo dos trabalhadores espirituais não é salvar o homem, é salvar o chapéu".
Foi um balde de água fria no meu ânimo de salvação. O chapéu significava 0,0000001% da humanidade. O chapéu pode ser salvo. O resto não tem "salvação", pois não tem interesse. E está tudo certo! Cada um na sua opção e todos na nossa.
A 1ficina explica sobre o despertar da consciência, mas não como obrigação e sim como opção. Para uma pessoa escolher entre ignorância e despertar é preciso que ela tenha ao menos a informação sobre o despertar. Muitos ficam sabendo do despertar apenas para poderem optar pela ignorância, caso contrário, a ignorância não seria uma escolha.
Fui professor de inglês em uma escola que oferecia um curso vitalício. Era uma estratégia de vendas. O aluno pagava o curso uma vez e podia refazer o curso infinitamente.
Esse curso vendeu muito e o dono da escola ficou muito rico na época. Só que a longo prazo, a solução virou problema. As salas da turma inicial ficaram cheias de alunos repetentes e não tinha como matricular novos alunos. O dono da escola precisava que os alunos repetentes passassem de ano.
Foi então que o dono da escola me fez uma proposta indecente: "Vou montar uma turma especial como os piores alunos da escola, só com os casos perdidos, os repetentes convictos. Quero que você seja o professor".
Minha inclinação inicial foi recusar, pois seria muito trabalhoso. Mas daí ele completou: "Você pode usar seu próprio método. Pode fazer o que bem entender". Puta que pariu! Aceitei na hora. Nem perguntei quanto seria o salário. Liberdade pedagógica total era tudo que eu queria.
Foi nesse dia que descobri que tinha vocação para ser professor.
Com meus novos métodos, consegui fazer metade da turma de repetentes passar de ano. Eles tiveram que atravessar o inferno, mas se comprometeram com isso e conseguiram.
Qualquer semelhança com a 1ficina não é coincidência.
A oficina de literatura aconteceu na biblioteca circulante. Os participantes eram malucos de todas as idades, raças, gêneros e pretensões literárias. Para ilustrar, um deles tinha uma lágrima tatuada no rosto. Nosso professor era o poeta e jornalista Nunlembrunome, de sobrenome Pouquimporta, mas a missão dele era claríssima, e ele a verbalizou, após acender um cigarro:
— Tenho três dias para ressuscitar Lázaro.
Para começar o serviço, contou sua história.
— Quando era dúvidas, também tinha Hamlets: to be or not to be escritor? Para sair desse imbróglio, juntei toda a minha coragem e enviei alguns dos meus textos para a escritora que mais admirava: Clarice Lispector. Vocês já pararam para pensar quanto dura uma eternidade? Dura o tempo exato da espera de uma resposta. Após uma eternidade, a resposta veio. Curta. Fria. Clarice em modo guilhotina: "Desista! Literatura não é pra você!". Fiquei, claro, esmigalhado. Mas era preciso entender o porquê daquele pão seco. Escrevi novamente para Clarice perguntando o que tinha de errado com meus textos. Ela respondeu, dessa vez, com um koan budista: "Não tem nada de errado com seus textos. Esse é o problema!"
A fumaça do cigarro do professor Nunlembrunome, de sobrenome Pouquimporta, foi se dissipando e comecei a entendê-lo. Ele continuou com sua história:
— Minha mediocridade era chique, tinha diploma latu sensu, assinava coluna no jornal. Eu precisava de um tapa na cara com todas as letras. Escrevi, mais uma vez, pedindo que Clarice me explicasse o koan. Ela, com sua paciência de navalha, respondeu: "Ninguém se torna autor imitando autoridades. Seu texto é ótimo, perfeito, mas não é seu. É Drummond, é Machado, é a Academia inteira, menos você."
Choque 220 volts em cadeira de plástico. A lágrima tatuada caiu no chão junto com meu cu. A verdade dura de engolir desceu goela baixo: estou morto e sepultado no certo! Para sair do sepúlcro, só tinha um jeito: trocar a idolatria (pecado cópia) pela egolatria (pecado original).
E foi assim que me tornei um pecador original.
Certa vez, na juventude, quando morava em São Paulo, minha esposa (da época) decidiu que queria aprender a meditar.
Ainda não existia o termo mindfullness, muito menos escolas. O único lugar que ensinava meditação eram os centros budistas. Minha esposa fez uma lista de todos os centros budistas de São Paulo e traçou um plano de turismo para visitá-los.
Eu acreditava que budismo era igual japonês, tudo igual. Só que não. Tem budismo que senta no chão, tem budismo que senta no banco de nave, igual igreja, tem budismo que só canta mantra e tem budismo que nem meditação faz.
O budismo que mais me surpreendeu foi o zen. O templo ficava no bairro da liberdade, tradicional reduto da cultura japonesa em São Paulo. Assim que chegamos, recebemos algumas instruções mínimas e ficamos aguardando. Passado um tempo, o instrutor nos chamou pra entrar na sala de prática e fazer zazen.
Arruma a almofada, coluna ereta, pernas cruzadas, mãos sobre os joelhos, olhando pra parede. Peraí!!! Como assim??? Olhando pra parede??? Como vou chegar ao Nirvana olhando pra uma parede?!!! Fechei os olhos e comecei a pensar na vida. E o instrutor, como se lesse meu pensamento, disse: "Olhos abertos, não é pra ir pra lugar nenhum, é pra ficar aqui, olhando pra parede".
Quer fazer uma coisa difícil na vida? Tenta ficar uma hora olhando pra uma parede. VTNC! É impossível! Mas como não tinha outra coisa pra fazer, fiquei, pelo menos, tentando. Terminada a prática de zazen, pensei: beleza, agora vem a explicação, tenho um monte de perguntas.
Só que não! Depois de ter passado uma hora olhando pra uma parede, fomos dispensados, recebendo apenas o convite de voltarmos no próximo sábado pra ficarmos mais uma hora olhando pra mesma bosta de parede. Nenhuma palavra foi dita. Nenhuma explicação. Perguntei se tinha algum livro pra ler e o instrutor sequer pronunciou a palavra não, apenas balançou a cabeça para os dois lados.
Minha esposa e eu fomos pra casa sem entender nada. Então, meditação é isso?!!!. Que merda!!! Que perda de tempo!!!!
Demorei pra entender o que o zazen não me disse. Eu acreditava que meditação era pra entender. Acreditava que Buda era um sabidão que entendia dos paranauês. Nada! Meditação não é pra entender, é pra saber. Saber da parede, da flor, do pensamento, da raiva, da coceira no nariz, do que for. Saber e pronto! Sem para, sem nauê!
Gastava todo meu tempo, o pouco dinheiro, e o povo me malhando feito Judas na quaresma.
Culpa do Ferrari! Culpa do Ferrari!
Tudo era culpa do Ferrari.
Se a Torre de Pisa era torta, culpa do Ferrari.
Se o avião dos Mamonas caiu, culpa do Ferrari.
A Primeira Guerra, a Segunda, o dilúvio, a queda do homem — culpa do Ferrari.
Até calado, eu estava errado.
(Risos.) Rindo agora. Naquele tempo, não. Naquele tempo estava no fundo do poço — e no fundo tinha um alçapão para ir mais fundo.
Procurei um amigo psicólogo — que também fazia parte do grupo, mas era da ala dos aliados. Consultório pequeno, travessa da Paulista, tarde anônima. Contei minha história, como quem despeja entulho na calçada. Ele ouviu tudo com atenção sacerdotal. Como além de psicólogo, era médium, incorporou o capeta. O rosto mudou.
— Tá reclamando por quê? — disse a voz de dragão, falando pela boca do meu amigo — Até que tá bom! Você ainda está de pé! Vai quebrar as duas pernas, andar de joelhos pelo asfalto quente, sangrando nos grãos de milho, arrastando-se sobre cacos de vidro! Pensei: puta que pariu.
Pra quê chutar cachorro morto? Vim pedir cólo e me entregam o armagedom. Mas a voz não parava. Repetia, como uma reza hipótica:
— De joelhos no asfalto, no milho, no caco de vidro… De joelhos… no asfalto… no milho… no caco de vidro… De joelhos… no asfalto… no milho… no caco de vidro…
E eu, que já estava por um fio, comecei a ceder. Me curvei. Me curvei mais. Até que os joelhos tocaram o chão. E, no chão, continuei me curvando, como quem se rende à gravidade do mundo. Caí. Arriado. Sem força vital, sem força psíquica, sem força nenhuma. Estirado no chão, como se o pé de um gigante estivesse me esmagando.
— Entendeu agora? — disse a voz do gigante sem o mínimo tom de piedade — É aí que você está! No chão do vitimismo. Caído, derrotado, fracassado, vencido. E você tem duas opções: continuar se vitimizando… ou se levantar e lutar. O que vai ser?
Tuft! A ficha caiu. Entendi tudo que estava acontecendo e a pedagogia da reza brava. Estava passando pela dor do segundo parto. E tinha duas opções:
Morrer desistindo (de mim, dos meus valores, das minhas verdades, dos meus desejos)
Ou morrer lutando (por mim, meus valores, minhas verdades, meus desejos).
Peeera aí — caiu um cisco no olho. Pronto, voltando…
Dentro de mim, uma voz gritou, furiosa: já que vai morrer, que morra lutando, pooooorraaa! Coloquei as mãos no chão e empurrei o corpo pra cima. E, embora não houvesse pé de gigante nenhum me pisando de verdade, parecia que havia — e era pesado pra caraáalhooo. Mas eu não ia morrer sem lutar. Nem fodendo! Coloquei mais força. Uma força que eu não tinha — ou que não sabia que tinha.
E de repente, estava de pé. Chorando aos prantos. Meu amigo saiu do transe mediúnico, me viu chorando e não entendeu nada. Não expliquei. Não dava. Só chorava.
E quanto mais chorava, mais entendia. E quanto mais entendia, mais agradecia — à dor, à humilhação, àquilo que chamei de injustiça.
Então, meu amigo… A vida é assim mesmo! Antes desse depois, a vida parece injusta e sem sentido. Só que não!
A vida tem uma missão: te colocar de joelhos. E depois, te colocar debaixo do pé do gigante. Até que você grite: não mais! Até que você urre: bastaaaa!
Até que: foooooda-se que são trezentos contra um milhão. Você berra: "Espaaaarta!" E vai pra guerra. Capota, mas não breca. Vencer ou morrer lutando.
E a partir dessa decisão, tudo muda. Tudo faz sentido. Gratidão pelo capeta e pelo gigante. Eles foram seus parteiros.
Crucificado pela vida, você morre. E renasce.
Aleluia!