Jogo Do Controle
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Convivência outroísta é você jogando o jogo do controle. Isso você sabe. O que você não sabe é como você faz para jogar. São duas estratégias que você usa. Esse livro explica em detalhe cada uma delas para que você fique consciente e consiga sair do jogo.
Imagine que você se juntou a um grupo de seres para jogar um jogo.
Esse jogo funciona com todos vocês se trancando numa cadeia.
Cada um é diferente do outro, só que ninguém sabe disso, pois cada um só sabe de si.
Vocês entram nessa cadeia, fecham a porta e não tem como sair.
O jogo é simples assim. Imaginou?
Interlocutor: Sim.
Sabe que jogo é esse?
Interlocutor: Não.
É exatamente essa experiência humana que você está tendo.
E por que é uma cadeia?
Interlocutor: Para não fugir.
E do que você fugiria?
Interlocutor: Dos outros.
Exato! Ser humano é se meter dentro de uma experiência de interação com os outros, sem possibilidade de fuga.
Esse é o simbolismo da cadeia.
Viver é conviver. E convivência é o tempo todo. Quer você goste quer não, quer esteja consciente quer não, você está preso na cadeia da convivência. Você não tem outra opção.
Conviver é obrigatório.
Sendo assim, pergunto: O desafio dessa brincadeira é conviver?
Interlocutor: Sim.
Eis o engano!
Conviver não é desafio, pois não é opcional.
Conviver é inevitável.
Logo, o desafio tem que ser outro. Qual?
Interlocutor: Boa convivência.
Isso mesmo!
Cada momento da sua experiência humana é um momento de convivência. Isso é inevitável. Mas você pode conviver bem ou conviver mal. E o desafio é conviver bem.
Entende o que isso significa?
Interlocutor: Não.
Uma vez que você entende que viver é conviver, e que só tem duas opções, conviver bem ou conviver mal, com o que mais você precisa se ocupar senão em conviver bem?
Todo o resto fica secundário.
Todo o resto é apenas o tabuleiro do jogo.
Todo resto é apenas cenário para seu único desafio: conviver bem.
E por que conviver bem é um desafio?
A dificuldade é que cada um dentro dessa cadeia tem um gabarito diferente, mas ninguém sabe disso. Cada um supõe que o gabarito que serve para si mesmo, serve para todos os outros. E cada um supõe isso, não por maldade, mas pela própria natureza da individualidade.
Você é um indivíduo porque você sabe só de si.
Ser um indivíduo significa que você não sabe do outro indivíduo. É por você não saber do outro que você não é o outro. Então, por não saber do outro, só lhe resta a possibilidade da suposição.
Você se baseia em si e supõe seu gabarito para o outro.
Se todos os indivíduos da cadeia tivessem o mesmo gabarito, ou se fosse possível um saber pelo outro, não haveria dificuldade, a brincadeira seria fácil.
Mas a brincadeira é desafiadora justamente porque é necessário que você viva de acordo com o seu gabarito e conviva bem com o gabarito do outro, no escuro, sem saber do gabarito do outro.
Esse é o desafio.
Vou resumir para concluir.
Viver é conviver.
Isso é inevitável.
Você opta entre viver autoísta ou viver outroísta.
Outroísmo resulta em má convivência.
Autoísmo resulta em boa convivência.
Jogo do controle é quando você opta pelo outroísmo.
Por que me tranquei na convivência outroísta se quero viver bem?
Imagina que você é um ser que quer aprender a jogar o jogo da liberdade.
Tem dois planetas que você pode ir:
Planeta Outroísmo.
Planeta Autoísmo.
Para qual planeta você vai?
Interlocutor: Planeta Autoísmo.
Errou!
É do veneno que se faz o antídoto.
Você aprende a viver autoísta jogando o jogo do controle.
No planeta autoísta ninguém joga o jogo do controle, logo, você não tem material de estudo para ficar consciente sobre o que é o jogo do controle e como funciona.
Se você não é consciente sobre o funcionamento do jogo do controle, você não tem como optar pelo jogo da liberdade.
Você se trancou no planeta do outroísmo, onde todos jogam o jogo do controle do controle, desde o nascimento até a morte, para aprender a jogar o jogo da liberdade.
Você se trancou no planeta outroísmo porque sabia que iria tentar fugir da escola, e como você quer aprender, retirou de si mesmo a possibilidade de fuga.
Ou você aprende, ou você aprende.
Vou falar algumas palavras e peço para que vocês escrevam essas palavras no bloco de notas do computador. Estão prontos?
Interlocutor: Sim, pode falar.
Sal, açúcar, limão e melancia.
Escreveram?
Interlocutor: Sim.
Ótimo! Agora vamos entrar no tema.
Pergunto: É possível o outro controlar você? Sim ou não?
Interlocutor: Sim.
Interlocutor: Não.
Vamos começar pela resposta "não".
Justifique sua resposta.
Interlocutor: Não, porque tenho arbítrio. Mesmo quando digo sim, querendo dizer não, a escolha é sempre minha, sou eu que decido.
Agora a resposta "sim".
Justifique sua resposta.
Interlocutor: O outro pode me controlar com minha permissão.
Percebem que as duas respostas, sim e não, possuem a mesma justificativa?
Sim, o outro pode te controlar quando você permite. E não, o outro não pode te controlar quando você não permite.
Então, de fato, é impossível o outro controlar você, porque você tem arbítrio. E vice versa. O outro não pode controlar você nem você pode controlar o outro. O que impossibilita isso é o arbítrio.
Mas se é impossível controlar o outro ou ser controlado, devido ao arbítrio, qual é o sentido de estarmos aqui estudando estratégias de controle?
Interlocutor: Ótima pergunta! Não sei.
Agora vou desdizer o que disse.
É possível controlar o outro, e vice versa, muito embora exista o arbítrio.
Como?
Interlocutor: Ainda não sei.
Pelo convencimento.
Seu arbítrio é como o teclado do seu computador: só você tem acesso, só você digita. Mas no começo dessa conversa apareceram quatro palavras na tela do computador de vocês, não foi?
Interlocutor: Sim
Quais foram essas palavras?
Interlocutor: Sal, açúcar, limão e melancia.
Eu queria que vocês escrevessem essas quatro palavras.
Era um desejo meu, não era de vocês.
Só que eu não tenho acesso ao teclado de vocês.
E também não tenho como controlar o arbítrio de vocês.
Contudo, eu controlei.
Tanto controlei que essas quatro palavras “Sal, Açúcar, Limão e Melancia”, apareceram na tela do computador de vocês.
Como isso foi possível?
Interlocutor: Você pediu para que nós escrevêssemos e nós atendemos seu pedido.
Exato!
Eu fiz um pedido e convenci vocês a fazerem o que eu queria.
Só que quem fez não fui eu, foram vocês.
Tá claro isso?
Interlocutor: Sim.
Se quem fez foi você, o que isso significa?
Interlocutor: Não sei.
Significa que quem fez não fui eu: foi você.
Interlocutor: Sim, óbvio.
O que você experimenta é sempre o que você opta experimentar, quer seja uma opção imaginada por você, quer seja uma sugestão do outro.
No final das contas, em questão de experimentação, pouco importa de onde vem a opção, tudo se resume ao seu arbítrio.
O filme Advogado do Diabo tem um ótimo exemplo disso.
O advogado diz ao diabo: "Você me manipulou, me enganou, você me levou a fazer essas coisas". O diabo responde: "Engano seu, pois até lhe disse para desistir. Você fez tudo por opção sua".
Entre as influências e a realidade experimentada, está o arbítrio.
O ambiente pode influenciar fortemente na decisão. De fato, o ambiente sempre influencia fortemente na decisão. Mas…
Influenciar não é determinar.
No filme Advogado do Diabo, o diabo influenciou o advogado, tentou convencê-lo de várias formas a fazer o que ele queria, mas não determinou a escolha do advogado.
Eu fiz a mesma coisa quando pedi para vocês escreverem "sal, limão, açúcar e melancia" no computador.
Eu influenciei vocês, mas quem escreveu foram vocês.
Para controlar o outro, você precisa convencer o outro, pois é impossível controlar o outro de forma direta, atuando no arbítrio do outro.
Assim como um não tem como digitar as palavras "sal, limão, açúcar e melancia" no teclado do outro, pois somente cada um tem acesso ao próprio teclado, somente cada um pode executar o próprio arbítrio.
Para que seja possível um controlar o outro, é necessário um meio de influência.
Meio é a estratégia, maneira, jeito, método.
No início dessa conversa, para que vocês fizessem o que eu queria, eu disse: "Preciso da ajuda de vocês, por favor, façam uma coisa para mim. Será importante para o entendimento do que vamos estudar hoje".
Essa foi minha estratégia de convencimento para convencer vocês a fazerem o que eu queria. E minha estratégia funcionou.
É fundamental entender a diferença entre determinação e influência.
Muitas coisas podem te influenciar, às vezes a influência é quase irresistível, mas não é determinação. O que determina seu viver é sua escolha, seu arbítrio.
O diabo representa a influência tentadora.
O diabo pode ser uma circunstância, uma pessoa, uma sociedade, o que for. O diabo representa algo que está tentando fazer com que você saia do viver autoísta e entre no jogo do controle (outroísmo).
Mas o diabo não pode ganhar de Deus.
Por que não?
Porque Deus é seu arbítrio.
O que cria sua realidade é seu arbítrio.
Por fim, uma pergunta fundamental:
Para que estudar estratégias de controle, se você não quer jogar o jogo do controle?
Interlocutor: Para eu não cair em tentação.
Mais do que isso!
Para você sair da tentação que está caído.
Você vive caído em tentação.
Seu viver é o jogo do controle.
Só que você não percebe isso.
O estudo das suas estratégias de controle é para você perceber o que você está constantemente fazendo, mas não percebe.
Você está doente e o caminho para cura é você estudar minuciosamente sua doença.
Suas estratégias de controle são as minúcias da sua doença.
Quer você esteja consciente, quer não, você está jogando o jogo do controle.
E você executa o jogo do controle através de estratégias.
Então, quer esteja consciente, quer não, você está constantemente executando estratégias de controle.
Só existem duas estratégias de controle.
Sendo que todo ser quer sempre a mesma coisa, o bem, e todos repudiam a mesma coisa, o mal. Então, uma forma de você controlar o outro é através do mal, da punição, e a outra forma é através do bem, da recompensa.
No controle pela punição, você pune até que o outro faça o que você quer, ou seja, viva de acordo com seu gabarito. E vice versa.
Se você não vive igual, em uniformidade, você é punido. Se você já vive igual, você aplica a punição em quem ainda vive diferente.
Controle pela punição é um ato de violência, mas recebe um nome bonito. Você chama o controle pela punição de educação.
E você não aplica a educação só na escola, aplica em todo lugar e a todo instante.
E punição não é só física, pois a natureza humana é quaternária.
Então, punição pode ser física, sensorial, afetiva e intelectual.
Punição gera má convivência porque quem é punido quer vingança.
Quando o outro pune você, você quer se vingar do outro.
Quando você pune o outro, ele quer se vingar de você.
Jogo do controle gera mais jogo do controle.
Você também joga o jogo do controle através da ameaça.
Ameaça é promessa de punição.
Ameaça é uma estratégia de controle também.
Não há punição, mas há promessa de punição.
Funciona até melhor.
Primeiro você pune, depois de várias punições a pessoa internaliza a punição.
A partir daí, basta a promessa.
Sendo assim, fique ciente que o viver autoísta não é um mar de rosas.
Os outros irão punir você de todas as formas possíveis para que você viva em uniformidade.
Você vai dar liberdade para o outro viver e o outro vai te punir do mesmo jeito.
Não conte que o outro vai desistir de te uniformizar.
Não vai.
Nascemos sem educação.
Comemos com as mãos, cagamos nas calças, mijamos fora do vaso, andamos pelados, berramos, e principalmente, somos 100% egoístas. Ser criança é uma maravilha para quem está sendo, mas é um tormento para os adultos.
Toda vez que uma criança caga nas calças está obrigando um adulto a limpá-la. Toda vez que berra de madrugada está impedindo o adulto de dormir.
Para um adulto, a falta de educação e o egoísmo de uma criança é um transtorno. Algo precisa ser feito.
Só que uma criança não é como um robô que você aperta os botões e programa, ou é? O pior, para criança, é que sim.
O comportamento de um ser humano é tão programável como o comportamento de um robô, principalmente na infância. A diferença é que os botões de programação do comportamento humano são emocionais, e o processo de programação não se chama programação, se chama educação.
Quando você é criança e mija no sofá da sala, por exemplo, o adulto considera isso errado e precisa te ensinar que isso é errado.
Como ele faz isso?
Simples: o adulto faz você experimentar dor.
Tem várias maneiras do adulto fazer você sentir dor.
O adulto pode te dar um tapa, uma chinelada, um beliscão, bater com o cinto, etc.
Porém, violência física não é a única maneira de infligir dor. Um adulto pode usar estratégias psicológicas como humilhação, desprezo, exclusão, chantagem emocional, entre outras.
Quando você mija no sofá da sala e sua mãe te fala:
— Que menina feia! Vou colocar essa menina no chiqueiro porque ela é um porquinho.
Sua mãe está apertando o botão da dor emocional para programar seu comportamento.
Só que você não aprende.
Você mija novamente no sofá da sala.
O que sua mãe faz?
Ela aumenta a voltagem da dor, repetindo a humilhação e acrescentando uma enorme careta de reprovação.
Só que você ainda não aprende.
O que sua mãe faz?
Ela aumenta a voltagem da dor, repetindo a humilhação, repetindo a careta de reprovação e te dando um tapa na bunda.
Sua mãe te trata exatamente como um torturador, mas ela acredita que está te fazendo um bem, ela acredita que está lhe educando.
Com a repetição da tortura associada ao comportamento, chega um momento em que a proibição está programada.
Você sente vontade de mijar no sofá e sua memória te faz pensar na dor que irá experimentar se executar aquele comportamento.
Você não quer sentir dor, então, desiste de mijar no sofá.
Pronto! Você está educada.
Mas não para por aí.
Sua mãe tem um gabarito enorme de certos e errados, então, cheia de amor materno, pensando no seu bem, segue te torturando e te programando até você ficar adulto.
Quando você se torna adulto, o que você faz com seus filhos?
Exatamente o mesmo que seus pais fizeram com você: educação.
Afinal, você também não quer que seus filhos sejam porquinhos, quer?
O filme A Última Tentação de Cristo ajuda no estudo do controle pela recompensa, porque esse filme pega a história mais famosa do mundo e propõe uma outra opção para o desenrolar da história.
Se a história de Jesus é factual ou não, isso não importa para nós nesse estudo, o que importa é o simbolismo contido na história.
E qual é o simbolismo?
Qual é a história por trás da história de Jesus?
A história de Jesus é uma jornada de auto-realização.
Jesus realizando a vontade do pai.
Esse é o termo cristão que se usa.
E o que é realizar a vontade do pai?
É realizar o próprio destino.
Metaforicamente falando, o destino de Jesus era percorrer toda via sacra até a crucificação. Na crucificação, é onde se consuma a jornada de Jesus, onde se consuma seu destino, onde se consuma a vontade do pai.
Para evitar equívocos, mais uma vez explico que destino não é o que você faz, destino é o que você é, destino é ser.
A história de Jesus é uma metáfora do processo de autorrealização do ser.
Então, quando Jesus chega à crucificação, isso simboliza que Jesus viveu sendo Jesus, que viveu em acordo com sua unicidade, que viveu de forma autoísta.
Essa é a moral da história.
Todos os acontecimentos e toda a trajetória de Jesus são metáforas para o entendimento da jornada de auto-realização.
Entendido isso, fica fácil de entender que a jornada de Jesus simboliza sua própria jornada de autorrealização.
A via sacra simboliza a jornada de todo ser humano. É uma trajetória em que você passa por desafios, vence e se auto-realiza.
Os desafios são dois:
Punição.
Recompensa.
No capítulo anterior estudamos detalhadamente o desafio da punição, nesse vamos aprofundar no entendimento da recompensa.
Na história de Jesus, houve momentos em que a influência para que Jesus abandonasse seu destino, foi a punição, mas também houve momentos em que a influência foi a recompensa.
Como já vimos, no jogo do controle, você controla o outro e é controlado por ele, através da punição e da recompensa.
Por quê?
Porque você foge da punição para ir para recompensa, que é o mesmo que buscar a recompensa para sair da punição.
São dois lados da mesma moeda.
No jogo do controle, o outro usa punição e recompensa para fazer você sair do seu destino, e vice versa.
É isso que o filme A Última Tentação de Cristo mostra quando Jesus está na cruz e vem o anjo conversar com ele. O anjo tira a coroa de espinhos e tira os pregos. Daí leva Jesus para uma casa confortável, onde ele tem prazeres, alegrias.
Tudo recompensa.
Daí ele tem uma esposa, tem filhos, tem uma família.
Tudo recompensa.
Não estou dizendo para você se negar ter prazer e alegria, pelo contrário. Estou abrindo o significado metafórico do filme A Última Tentação de Cristo.
Quando Jesus aceita as recompensas, simboliza você aceitando recompensa para negar seu destino, sua unicidade.
É por isso que o filme se chama A Última Tentação de Cristo.
Ele aceita a recompensa e cai em tentação.
Jesus sofre dois tipos de tentação.
Ele é punido para não cumprir o destino dele. E ele é subornado também para não cumprir o destino dele.
São dois tipos de estratégias que têm o mesmo objetivo, controlar Jesus e fazê-lo negar seu destino. E no filme, o controle através da punição não funcionou, mas o controle através da recompensa, funcionou.
O mesmo acontece com você no jogo do controle.
Você também controla o outro e é controlado por ele através da punição e você também cai mais em tentação através da recompensa.
Isso acontece porque a recompensa é bom, então, recompensa não parece estratégia de controle. Mas é. Recompensa e punição são as duas estratégias usadas para se jogar o jogo controle.
Controle pela recompensa é a estratégia da ratoeira.
Por que ratoeira?
No controle pela punição, você pune, pune, pune, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa.
No controle pela recompensa, é similar, você recompensa, recompensa, recompensa, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa.
Por isso é ratoeira, o benefício é usado para prender.
Você pode até ter uma vida boa, que é o queijo da ratoeira, mas você não vive bem, pois não vive em acordo com sua unicidade.
Para terminar, tem uma palavra que deixa a estratégia da recompensa totalmente explícita. Essa palavra vai te ajudar a perceber quando você está tentando controlar o outro através da recompensa e quando o outro está tentando controlar você.
Essa palavra é: suborno.
Executar a estratégia da recompensa é subornar.
Houve um tempo em que você podia plantar qualquer planta no quintal da sua casa.
Daí, a sociedade criou uma lei para proibir a plantação de maconha.
Desse momento em diante, plantar maconha se tornou um crime. Se você plantar maconha no seu quintal, será considerado criminoso e será punido.
Tem países em que essa lei não existe, logo, esse crime não existe.
É a lei que cria o crime e não o contrário.
O mesmo acontece com o errado.
É o certo que cria o errado e não o contrário.
Tudo é o que é, nem certo, nem errado, até que alguém crie uma lei, um certo. Daí, por contraposição, surge o errado.
O lugar onde uma toalha está é apenas o lugar onde a toalha está.
Daí alguém cria uma lei de que o lugar certo da toalha é pendurada no banheiro.
Nesse exato momento, deixar a toalha em cima da cama se torna um crime. Se você deixar a toalha em cima da cama, você se torna um criminoso merecedor de punição.
Leis, leis, leis.
As pessoas têm leis para tudo.
Regras de certo e errado.
É por isso que elas te punem, fazendo cara feia, xingando, dando bronca, puxando sua orelha, te cancelando, ou mesmo te batendo.
Você é um criminoso.
Você pode não saber qual é o seu crime, o que fez de errado, mas as pessoas que estão te punindo, sabem.
O mesmo acontece quando você pune os outros.
Toda vez que alguém desrespeita suas leis, essa pessoa se torna uma criminosa. Todo criminoso é merecedor da sua punição.
Por isso você também pune os outros.
Você vive policiando e punindo os outros por conta dessas leis pessoais dentro de você. O outro faz o mesmo.
Como uma convivência assim, de polícia e bandido, pode ser boa?
Não pode!
Mas o problema não é ter leis pessoais.
O problema é ignorar que essas leis pessoais são pessoais, que estão dentro de cada um e não escritas na pedra.
Até que a sociedade decida colocar na constituição que o lugar certo da toalha é pendurada no banheiro, ninguém tem como saber que existe essa lei, nem que colocar a toalha em cima da cama é um crime.
Seres humanos convivem sob o equívoco de que suas leis pessoais são de conhecimento de todos e obrigatória para todos.
Não são!
Você não sabe quais são as leis pessoais dos outros e, mesmo que soubesse, não tem obrigação de segui-las.
O outro não sabe quais são suas leis pessoais e, mesmo que soubesse, não tem obrigação de segui-las.
Através do diálogo vocês podem descobrir e, ao invés de conviverem como polícia e bandido, conviverem como seres humanos com critérios diferentes.
Quando você se sente abusado, desrespeitado, invadido pelos outros, você deve estabelecer limites.
Os outros não tem obrigação de respeitar seus limites.
Muitas e muitas vezes irão desrespeitar.
Mas se você não estabelecer seus limites de forma clara e explícita, como espera que os outros respeitem uma linha que não foi traçada?
Outra coisa que precisa ficar óbvia é que regras é sempre para o futuro, nunca para o passado.
Por exemplo, não adianta você estabelecer que o leite derramado volte para panela. O leite já foi derramado.
Regrar o passado é regar mágoas.
Não adianta querer que o acontecido desaconteça.
Não tem como desfazer o feito, tem como refazer.
Você pode estabelecer que ninguém deve derramar leite no seu fogão. Isso sim ajuda, pois isso é para atividades futuras.
Você deseja beber água.
Na estratégia impositiva, você ameaça o outro:
— Seu filho da puta! Seu desgraçado! Me traz um copo d'água agora mesmo ou te mato.
Você pega um revólver e dá um tiro para cima.
Pega uma faca e finca na mesa.
— Vai logo — você ordena.
Só que o outro não nasceu para ser seu garçom e não vai.
Você tenta mil torturas para obrigar o outro a pegar o copo d'água para você.
Nada funciona.
Se você usasse 0,1% da energia que está disparando no outro para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d'água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo.
Mas não!
Você é o sabidão.
Tão sabido que sabe que o culpado pelo seu sofrimento é o outro que está te enrolando.
Sendo que a tempestade por um copo d'água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você decide apertar o botão vermelho e começar com a terceira guerra mundial.
Na estratégia submissa, você começa a fazer chantagem e vitimização para obrigar o outro a satisfazer seu desejo.
— Quem me ama pega um copo d'água para mim —você diz.
Só que o outro não nasceu para ser sua babá e não vai.
Você começa a choramingar:
— Você não me ama! Eu faço isso por você, faço aquilo, eu te dei a vida e você nem pega um copo d'água para mim! Você é um egoísta ingrato!
Se você usasse 0,1% da energia do mimimi para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d'água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo.
Mas não!
Você é o sabidão.
Tão sabido que sabe que a culpa do seu sofrimento é do ingrato que está te enrolando.
Sendo que o mimimi por um copo d'água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você entra em depressão, começa a tomar remédios tarja preta e por fim decide cortar os pulsos.
Se justo e injusto fossem absolutos, não haveria conflito por justiça no mundo, pois não haveria divergência sobre a ação justa e a ação injusta.
Toda ação justa seria visivelmente e incontestavelmente justa. Toda ação injusta seria visivelmente e incontestavelmente injusta. Não haveria necessidade de tribunais, nem de leis e sistemas judiciários.
Contudo, cada dia as leis e os processos judiciais aumentam nas sociedades humanas. Por que?
Porque justo e injusto não são absolutos.
São definições humanas, mentais e particulares.
Cada cabeça é uma sentença.
Cada um tem um critério pessoal do que é justo e injusto, assim como cada um tem um critério pessoal do que é feio e bonito.
O filme Carandiru, dá um exemplo disso.
O Dr Drauzio Varella, interagindo com os prisioneiros do presídio, descobre que todos os prisioneiros têm justificativas para os seus crimes.
Daí ele comenta isso com outro médico. Seu interlocutor lhe responde:
— Você ainda não percebeu que todos aqui são inocentes?
Justo e injusto são atribuições pessoais.
O que eu considero justo, você pode considerar injusto e vice-versa.
E até aí tudo bem.
É assim que funciona.
O problema é ignorar isso e partir em busca de justiça.
Sendo que justo e injusto é particular, buscar justiça se torna uma tentativa de estabelecer algo particular como absoluto.
Ou seja, se torna tirania.
— Se todas as pessoas me obedecessem o mundo seria uma maravilha!
— Engano seu!
Interlocutor: Por que engano?
— Você tem um computador?
Interlocutor: Sim, tenho.
— O que tem de bom na obediência de um computador?
Interlocutor: O computador não me surpreende. É o escravo perfeito. Obedece cegamente. Faz exatamente e somente o que digo para ele fazer. Não tem vontade própria, nem arbítrio.
— O que tem de ruim na obediência de um computador?
Interlocutor: O computador não me surpreende. É o escravo perfeito. Obedece cegamente. Faz exatamente e somente o que digo para ele fazer. Não tem vontade própria, nem arbítrio.
— Entendeu?
O começo de um jogo de xadrez se chama abertura.
Tem diversos tipos de aberturas.
O gambito da rainha é uma das aberturas mais populares. Consiste em sacrificar um peão para acelerar a abertura do jogo.
A abertura de um jogo de xadrez é crucial para o desenrolar do jogo. Cada movimento inicial determina o leque de opções disponíveis dali em diante. Por isso os jogadores de xadrez estudam tanto as estratégias de abertura. O resultado final de um jogo de xadrez é quase que consequência inevitável da abertura.
O mesmo acontece com você o tempo todo.
Vamos supor que você está com fome e decida jantar em um restaurante. O jogo de jantar vai começar. Você está prestes a fazer uma abertura.
Você vai até a garagem, liga o carro e dirige até seu restaurante japonês favorito, o Tanaka. Você fez o gambito do Tanaka.
Essa abertura determinará seu leque de opções dali para frente. Por exemplo, não adianta você pedir para o garçom do Tanaka te trazer pizza. Não tem pizza no cardápio do Tanaka.
Quando você escolheu fazer faculdade de medicina, quando decidiu se casar, quando decidiu ter filhos, etc, foram aberturas também.
Cada uma das opções que você fez e todas juntas determinaram o leque de opções que você tem hoje.
Só que tem mais!
Independente das suas circunstâncias, você está o tempo todo jogando o jogo da convivência. De um lado do tabuleiro está você, do outro lado estão os outros.
Ganhar no jogo da convivência é conviver bem, perder é conviver mal.
Assim, chegamos ao ponto principal.
Numa convivência, você só tem dois tipos de abertura: outroísmo ou autoísmo.
A abertura outroísta te abre um leque de futuras opções outroístas, que resulta em má convivência e mais opções outroístas.
A abertura autoísta te abre um leque de futuras opções autoístas, que resulta em boa convivência e mais opções autoístas.
Por isso não adianta mudar de opção dentro do mesmo cardápio.
Todas as opções dentro do cardápio do Tanaka resultam em comida do Tanaka.
Todas as opções dentro do jogo do controle resultam em mal viver.
A solução é mudar de cardápio.
Um homem entra no elevador de um hotel.
O ascensorista lhe pergunta:
— Para qual andar o senhor deseja ir?
O homem responde:
— Tanto faz, entrei no hotel errado!
Outroísmo é o hotel do jogo do controle.
Tanto faz para qual andar você vai dentro do jogo do controle, tanto o andar de cima (outroísmo impositivo) como o andar de baixo (outroísmo submisso), só servem para lhe manter jogando o jogo do controle, e consequentemente, vivendo mal.
Para viver bem, ao invés de mudar de andar, mude de hotel.
Interlocutor: A manifestação do outro me afeta. O que eu faço?
Você tem livre arbítrio, você pode fazer o que bem entender. Você pode chorar. Você pode entrar na internet e mandar mensagem para o "reclame aqui". Você pode fazer faculdade de direito, se tornar juiz e mudar a legislação nacional. Você pode entrar em depressão. Enfim, você pode fazer o que bem entender.
Agora, se sua pergunta for "O que posso fazer para conviver bem com a manifestação do outro?".
Você pode e deve abandonar o jogo do controle.
Interlocutor: O outro está infeliz e eu estou feliz. O que eu faço?
Você tem livre arbítrio, você pode fazer o que bem entender.
Você pode comer paçoca com feijão. Você pode fazer pipoca com sorvete. Você pode pedir demissão do seu emprego atual e arranjar um emprego de encanador. Enfim, você pode fazer o que bem entender.
Agora, se sua pergunta for "O que posso fazer para conviver bem com a infelicidade do outro?".
Você pode e deve abandonar o jogo do controle.
Interlocutor: O outro me rejeita. Não quero ficar sozinho. O que faço?
Você pode fazer o que bem entender.
Você pode comprar um time de futebol de botão e passar o resto da vida jogando botão. Você pode prestar vestibular para biologia, se formar e fazer tese de mestrado no Alasca. Enfim, você pode fazer o que bem entender.
Agora, se sua pergunta for "O que posso fazer para conviver bem com a rejeição do outro?".
Você pode e deve abandonar o jogo do controle.
Interlocutor: O outro se comunica com agressividade. O que faço?
Você tem livre arbítrio, você pode fazer o que bem entender.
Você pode ligar para a polícia e mandar prender o outro. Você pode jogar ovo podre no outro. Você pode jogar tomate no outro. Enfim, você pode fazer o que bem entender.
Agora, se sua pergunta for "O que posso fazer para conviver bem com a agressividade outro?".
Você pode e deve abandonar o jogo do controle.
Interlocutor: Quando o outro está mentindo. O que faço?
Você tem livre arbítrio, você pode fazer o que bem entender.
Você pode cortar as unhas dos pés com um abridor de latas. Você pode construir um abrigo anti atômico usando uma colher. Você pode se candidatar a presidente do vasco. Enfim, você pode fazer o que bem entender.
Agora, se sua pergunta for "O que posso fazer para conviver bem com o outro?".
Você pode e deve abandonar o jogo do controle.
Interlocutor: Quando o outro não quer conversa. O que faço?
Você tem livre arbítrio, você pode fazer o que bem entender.
Você pode fazer pipoca com k-suco. Você pode viajar a pé até o Afeganistão. Você pode tentar enxugar gelo. Você pode aprender a tocar violão, piano, flauta doce, etc. Enfim você pode fazer o que bem entender.
Agora, se sua pergunta for "O que posso fazer para conviver bem com o outro?".
Você pode e deve abandonar o jogo do controle.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas que não falam o que pensam?
Permitindo que sejam pessoas que não falam o que pensam.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas que mentem?
Permitindo que sejam pessoas mentirosas.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas que me odeiam?
Permitindo que sejam pessoas que te odeiam.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas burras?
Permitindo que sejam pessoas burras.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas arrogantes?
Permitindo que sejam pessoas arrogantes.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas racistas?
Permitindo que sejam pessoas racistas.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas de direita e esquerda?
Permitindo que sejam pessoas de direita e esquerda.
Interlocutor: Como conviver bem com pessoas assim e assado?
Permitindo que sejam pessoas assim e assado.
Um alpinista estava escalando uma montanha durante a noite.
De repente, escorregou e começou a cair.
A corda de segurança estancou a queda.
Mas ele ficou pendurado no escuro.
Desesperado, quase morrendo de frio, o alpinista começou a gritar:
— Socorro! Alguém me ajude!
— Solte a corda! — disse uma voz.
— Quem está falando? — perguntou o alpinista.
— Você quer se salvar ou não?
— Sim, quero!
— Então, solte a corda.
— Isso não! Me ajuda a sair daqui!
— Estou tentando: solte a corda!
— Nem fodendo solto essa corda!
— Você quer se salvar ou não?
— Sim, quero!
— Então, solte a corda.
No dia seguinte o alpinista foi encontrado congelado e morto, agarrado a uma corda, a meio metro do chão.
O alpinista é você.
O frio é você vivendo mal.
A corda é o jogo do controle.
Sua persistência em se manter agarrado a corda, é você persistindo em jogar o jogo do controle.
Quer viver bem?
Solte a corda!
Desista do jogo do controle!