Homem Vertical
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
A fonte primária do sofrimento humano é o narcisismo.
O ser humano sofre porque é rei da barriga. E não tem como deixar de ser. É inevitável. Então, o problema não é o narcisismo. É a ignorância dele.
Causa dos embates, discussões, mágoas, desafetos e luta pelo convencimento.
Homem Vertical é sobre o narcisismo que ninguém vê porque todo mundo tem.
E não dói ver. Só ajuda.
Faz 20 anos que trabalho com o sofrimento humano e não tenho dúvida de que a ignorância do funcionamento do afeto, é a fonte mais recorrente do sofrimento humano. Gosto da lucidez de Freud para tratar desse assunto, mas não gosto da terminologia psicanalítica. Acho desnecessariamente erudita. Quase clerical. Uma carranca que afasta as pessoas do estudo da psicologia em vez de aproximá-las.
Não gosto da palavra "narcisismo". Acho que devia ser substituída por "vaidade". Mas narcisismo é mais do que vaidade, então a troca não fecha.
Na procura de uma palavra ideal para tratar do narcisismo, tive uma eureka sobre o sofrimento afetivo que me fez entendê-lo como nunca havia pensado antes.
O título dessa eureka é o título deste livro: Homem Vertical.
Espero que a explicação seja tão útil para você quanto suponho.
Boa leitura. E muitas eurekas.
A humanidade é um lixo! — diz a voz agressiva e convicta.
Olho para trás a fim de reconhecer o autor e tentar entender o motivo.
A humanidade é um lixo! — ele repete.
Investigo o dono da frase de cima a baixo. Sua pele é encardida. Usa um bigode de bangue-bangue totalmente fora do horário nobre. Veste um pijama estampado de sujeira. Calça as mesmas havaianas das top models, mas desfila sem nenhum charme.
A humanidade é um lixo! — ele diz novamente.
O sujeito sujo está ao lado de um camelô que vende café da manhã por um real. Bolo e chocolate quente. Não está pedindo comida. Está olhando para uma mulher que parou ali.
A humanidade é um lixo! — ele insiste, olhando para mulher.
A mulher permanece tranquila, não o recrimina. Frustrado com a falta de reação da mulher, ele direciona sua afirmação para o camelô.
A humanidade é um lixo e eu tenho pavor de mulher!
O camelô faz cara de poisé. O sujeito sujo volta a falar para mulher.
A humanidade é um lixo e eu tenho pavor de mulher!
A frase é o refrão de uma ferida aberta. Talvez a mulher sinta a mesma dor. Talvez o que está saindo da ferida dele entra na ferida dela como uma 1ficina. Mas por que o camelô não dá logo um fim no sujeito que está espantando a freguesia? Por que a mulher não vai embora? Por que a humanidade é um lixo? Por que parte de mim concorda? Por que outra parte discorda? E pior: por que o sinal abriu e eu continuo assistindo a cena?
A humanidade é um lixo! — ele persiste.
A mulher esfrega as pálpebras. O camelô retira um guardanapo de papel do saquinho de supermercado e entrega para ela enxugar as lágrimas.
O sujeito sujo se cala. Talvez esteja com vontade de dizer algo, qualquer coisa, além daquela frase que já não faz mais sentido. Só que ele não sabe falar, só sabe gemer feito animal. Então, o sujeito se aproxima do cesto de lixo, pega o guardanapo molhado de lágrimas que a mulher jogou ali, e põe na boca, feito hóstia.
A mulher abre um sorriso na contramão da rotina, passa os dedos úmidos na cabeça encardida do sujeito e desaparece dentro de um ônibus lotado.
A humanidade é um luxo. Eu penso.
Faça o download de um programa que você nunca usou, que não tem ideia de como funciona, e tente usá-lo. O que irá acontecer? Você não conseguirá usá-lo. Tudo que fizer não irá funcionar. Tudo que clicar dará errado.
Entrar na brincadeira humana é fazer o download da natureza humana e começar a usá-la. Só que a natureza humana é um programa que você nunca usou antes e não tem a mínima ideia de como funciona. Então, claro que você será um péssimo usuário da natureza humana.
Podemos olhar para a violência, crueldade e maldade no mundo e concluir que a natureza humana é má, que é um lixo. Isso é um equívoco.
A natureza humana é sensacional, super sofisticada.
A natureza humana é um luxo.
Eis a dificuldade.
O homem pode ser vertical, o repolho não pode.
Se a natureza humana fosse simplória como a natureza de um repolho, você, usuário dela, aprenderia rápido como usá-la e viveria bem.
Falta sofisticação na natureza do repolho para que isso seja possível.
Ou seja: você vive mal e convive mal por dois motivos.
Você entra na experiência humana absolutamente ignorante do seu funcionamento.
Ao tentar entender como a natureza humana funciona, você se depara com um sistema operacional super sofisticado e sem manual de instrução.
Você não sabe. Você vive mergulhado na experiência afetiva, mas não sabe o que é afeto. Tem uma vaga ideia.
O mais comum é pensar que afeto é amor, carinho, sentimento. Sim, tudo isso faz parte da experiência afetiva, mas em síntese, afeto não é isso.
Pense em tudo que você ama, tem apreço, tem sentimento bom e considera importante. Você irá perceber que tudo isso é valoroso para você.
Pense em tudo que você odeia, que despreza, tem sentimento ruim e considera sem importância. Você irá perceber que tudo isso é sem valor para você.
Afeto é valor.
Toda vez que você interage com o outro, você experimenta as características desse outro. Essa experiência é o que você chama de percepção sensorial.
Quando você come o pudim da sua mãe, por exemplo, você tem uma experiência sensorial que chama de "doce". Só que, simultaneamente à experiência sensorial, você tem uma experiência afetiva. Enquanto come o pudim, você sente que ele é especial.
O melhor pudim do mundo.
"Melhor pudim do mundo" é afeto.
O sabor doce vem do paladar. Mas o valor de "melhor pudim do mundo" não vem do paladar, nem do cheiro, nem do tato, nem do olfato, nem da visão.
Vem da sua atribuição de valor.
Vem do seu afeto.
O pudim é apenas um pudim. Nada além do que é: um pudim. Mas como foi feito pela sua mãe, para você não é um pudim qualquer. É especial. É querido. É estimado. É valoroso.
É o melhor pudim do mundo.
Se você me oferecer o pudim da sua mãe e me perguntar: sentiu que é doce? Eu direi que sim. Se você me perguntar: sentiu que é o melhor pudim do mundo? Eu direi que não.
Como isso é possível?
Simples.
Sua mãe não é minha mãe. Então minha atribuição de valor é diferente da sua.
Vamos supor que sua mãe foi minha professora na escola e sempre me deixava de castigo. Se você me disser que foi ela quem fez o pudim, eu direi:
— É o pior pudim do mundo.
O pudim da sua mãe é o melhor ou o pior pudim do mundo?
Nem melhor, nem pior. O pudim é o pudim.
O valor do pudim não vem da percepção sensorial. Vem de atribuição de valor.
E qual é a atribuição de valor correta?
Não existe atribuição correta. O que existe é atribuição particular.
Cada um atribui um valor diferente ao pudim.
Se você perguntar para mil pessoas qual é o valor do pudim da sua mãe, você ouvirá mil valores diferentes. Nenhum valor será correto ou errado. Cada valor será resultado do afeto de cada pessoa em relação a tudo que envolve a experiência com o pudim.
Não existe valor absoluto.
Todo valor é relativo à pessoa que o está atribuindo.
O pudim da sua mãe vale quanto pesa o afeto que você tem por ela.
Você possui uma faculdade cognitiva que funciona igual a um dicionário, possibilitando que você faça distinções de alteridade. Essa faculdade se chama intelectualidade.
É graças a ela que você é capaz de distinguir as coisas.
Quando você usa uma xícara ao invés de um penico para tomar chá, é sua intelectualidade que lhe diz o que é xícara e o que é penico. Caso contrário, você tomaria chá em um penico.
Existe uma frase famosa que diz que o homem é a medida de todas as coisas. É verdade. Porém, é mais do que isso. Cada um é a medida de cada coisa.
Tem aquele clássico meme de duas pessoas olhando para um número no chão. Uma vê o número 6. A outra vê o número 9. Qual é o número correto: 6 ou 9? Ambos são corretos para cada um dos observadores.
Quase ninguém discorda sobre o que é uma porta e o que é uma parede.
Só que definições não se aplicam apenas a objetos concretos. Se aplicam também a objetos abstratos, ou seja, conceitos.
É aí que a relatividade aumenta, e muito.
Tomate é legume ou fruta?
Depende de como cada um define fruta e tomate.
Uma definição é tipo uma caixinha. Quando o tomate se encaixa na sua caixinha de fruta, é fruta. Caso contrário, é legume. Para outra pessoa, pode ser exatamente o oposto.
Cada um é a medida de cada coisa.
Se vivêssemos conscientes de que cada um é a medida de cada coisa, viveríamos de forma respeitosa e universalista. Porém, cada um de nós vive sob o equívoco de que é dono da verdade. Temos a convicção absoluta: eu sou a medida de todas as coisas.
Não temos consciência que vivemos assim, mas é assim que vivemos — tanto em ambientes eruditos como populares.
Essa convicção individual de que minha verdade é absoluta é o narcisismo intelectual — a fonte de metade dos conflitos e da violência entre os seres humanos.
Definir é aplicar um critério de sim ou não sobre algo. Tomate é fruta quando entra no critério de fruta. Quando não entra, não é fruta.
É assim que a intelectualidade funciona: sim ou não, preto no branco, sem tons de cinza.
Contudo, um tomate pode ser uma fruta ótima, boa, regular, ruim ou péssima. De onde vem essa graduação qualitativa se a intelectualidade é sim ou não?
Vem da afetividade.
Ótima, boa, média, ruim, péssima — não são critérios intelectuais.
São critérios afetivos. Critérios de valor.
Afetividade é a régua vertical que você usa para dar valor a tudo. O que você gosta fica no topo da régua. O que você não gosta fica na base.
Sabe aquela clássica pergunta que os pais fazem às crianças:
— Você gosta mais do papai ou da mamãe?
Para responder, a criança olha para sua régua afetiva a fim de ver o que está em cima e o que está embaixo. Se o papai está em cima e a mamãe está embaixo, a criança responde: eu gosto mais do papai. Se for o oposto, responde: eu gosto mais da mamãe.
É fundamental ter uma régua afetiva para classificar as coisas como superiores ou inferiores, melhores ou piores. Como você poderia dizer o que é mais valoroso sem comparar posições na sua régua de afetos?
Não poderia. Seria impossível.
Dentro de cada ser humano existem réguas verticais para ranquear tudo. Réguas para melhores e piores comidas, roupas, músicas, cores de esmalte, jogadores de futebol, marcas de celular, filmes, etc.
É preciso se atentar a isso. Ficar consciente. Duas pessoas podem até ter réguas afetivas semelhantes, mas iguais, é impossível. E para toda régua existe uma sub-régua, o que torna tudo mais complexo e discordante.
Por exemplo: você pode concordar com alguém que café é a melhor bebida no ranking das bebidas. Mas tem o sub-ranking de bebidas de festa. Nesse caso, a melhor bebida pode ser a cerveja e não o café.
E assim por diante.
Existem aproximadamente 8 bilhões de seres humanos no planeta.
Então, somos 8 bilhões de homens verticais.
Diferentes uns dos outros.
Diz o ditado que gosto não se discute. Esse conselho popular visa evitar brigas. Mas não tem problema nenhum conversarmos sobre nossos diferentes critérios afetivos. Pelo contrário, é recomendável e saudável. O problema é quando queremos estabelecer o nosso critério de valor como o único critério de valor do universo.
Cada ser humano é uma régua vertical diferente do outro. Porém, vivemos sob a seguinte convicção: eu sei o que é melhor para todos.
Cada ser humano acredita que é a régua absoluta.
Esse equívoco é o narcisismo afetivo — a fonte da outra metade dos conflitos e da violência entre os seres humanos.
Você usa sua intelectualidade para definir tudo, inclusive você. Quando alguém te pergunta: quem é você? Sua resposta é sua autodefinição.
Você diz:
— Eu sou Fulano, brasileiro, casado, advogado, etc.
E você pode aprofundar:
— Eu sou uma pessoa curiosa, paciente, sincera, etc.
Tudo que você pensa sobre si faz parte de um dicionário com a palavra "eu" escrita na capa. Toda vez que alguém afirma algo sobre você, você abre seu dicionário identitário e verifica se a afirmação está correta.
Por exemplo, se você se considera uma pessoa discreta e alguém diz que você é fofoqueiro, você conclui que a pessoa está errada.
Sem um dicionário identitário seria impossível você concordar ou discordar de alguém.
Cada pessoa tem uma definição diferente sobre você e vice-versa. É muito comum que a definição de alguém sobre você seja diferente da sua. E até aí tudo bem. Pessoas diferentes têm definições diferentes umas das outras. Porém, devido ao narcisismo intelectual, todas acreditam que suas definições são absolutas.
É aí que começa a luta do convencimento.
Por exemplo.
Se você se considera uma pessoa discreta e alguém diz que você é fofoqueiro, você tentará convencer seu interlocutor de que você é discreto. Porém, como seu interlocutor também é narcisista intelectual, ele irá discordar e tentar te convencer do oposto.
E assim segue a luta do convencimento, que só serve para produzir estresse, inimizade, conflito e mal viver.
Como se libertar da luta do convencimento?
Simples. Dando ao outro a liberdade de ter uma definição sobre você diferente da sua.
Qual é o problema do outro acreditar que você é uma pessoa que você não é?
Se você não é algo, não precisa convencer o outro de que ele está equivocado. A responsabilidade de sair desse equívoco é do outro, não sua.
Abandone essa responsabilidade e você se liberta dela.
Você usa sua régua vertical para ranquear tudo, inclusive você.
Se considerar bonito, inteligente ou bem-sucedido é se superestimar — se ranquear como superior aos feios, burros e fracassados.
Se considerar feio, burro ou fracassado é se subestimar — se ranquear como inferior aos bonitos, inteligentes e bem-sucedidos.
Cada pessoa tem um ranking completo e diferente sobre você e vice-versa.
Uma pessoa pode considerar você feio, gordo, engraçado, bom amigo, péssimo jogador de baralho, bom pai. Outra pode considerar você bonito, gordinho, sem graça, péssimo amigo, ótimo pai. Você faz o mesmo com todas as pessoas.
Pessoas diferentes têm avaliações diferentes umas das outras.
Porém, devido ao narcisismo afetivo, todas acreditam que suas avaliações são absolutas.
É aí que começa o problema da gangorra narcísica.
Você, assim como todo ser humano, quer ser valoroso. Quer ser superior. Então, quando alguém te subestima, é como se essa pessoa estivessem brincando de gangorra e ela te colocasse para baixo dela. Isso faz você se sentir inferiorizado.
Para sair do sentimento de inferioridade, você precisa subir na gangorra. Para subir, você precisa reverter a avaliação inferiorizante do outro. Para reverter, você faz com o outro o mesmo que ele fez com você: subestima ele.
Essa brincadeira de gangorra narcísica acontece por infinitas estratégias de subestima. Ironia, xingamento, maledicência, despreço, humilhação, porrada, etc.
Independente de qual estratégia é usada, a brincadeira é a mesma, o objetivo é o mesmo, e o resultado também é o mesmo: estresse, inimizade, conflito e mal viver.
Como se libertar da gangorra narcísica?
Simples. Dando ao outro a liberdade de se considerar melhor que você.
Qual é o problema do outro te subestimar e se considerar superior a você?
Em que isso altera sua realidade?
Se você se considera magro e o outro te considera gordo, em que isso altera seu peso? Se você se considera inteligente e o outro te considera burro, em que isso altera seu cérebro? Se você se considera bonito e o outro te considera feio, em que isso altera sua fisionomia?
Responder essas perguntas faz você perceber como é inútil e improdutivo brincar de gangorra narcísica. Só serve para manter você preso ao mal viver.
Quer viver bem? Desista da gangorra vertical e venha brincar na horizontal, onde ninguém é superior ou inferior. Cada um é o que é.
Não se tratava de um evento para medir filhotes de galinhas. Era pinto mesmo. Daqueles que os humanos do sexo masculino possuem e se orgulham tanto de possuir. Principalmente depois que Freud fez dele — o pinto — uma espécie de "eu tenho, você não tem".
Era a versão Rambo do Concurso de Miss Universo.
A disputa se dava através da medição. O candidato colocava o pinto sobre a mesa milimetrada e media o tamanho, depois colocava sobre a balança para medir a massa. O número somado e dividido era a nota.
Durante a medição muitos pintos caíram por terra, sobretudo daqueles que gozavam com o pau dos outros. Políticos, jogadores de futebol, artistas, empresários, fazendeiros, jornalistas, publicitários e toda sorte de supostos pintudos ficaram só na propaganda.
Ganhou um pintudo da alta sociedade.
Competidores das classes sociais inferiores reclamaram de propina.
O vencedor subiu no pódio e mostrou o pinto para todo mundo.
Ele era o cara. O maior pinto do mundo.
Claro que na hora do discurso o Mister Pinto não pediu a paz entre os povos. Ele disse… (melhor não dizer o que ele disse)… Todos aplaudiram e ele ficou duro.
Santo Antão queria ser santo. Para tanto, passou a vida dentro de uma caverna, jejuando e sendo atacado pelo demônio.
Quando Antão rezava, o demônio vinha lhe distrair. Quando Antão olhava para o crucifixo, ao invés de ver Cristo, o demônio fazia ele ver uma mulher nua. Quando Antão estava fazendo jejum, o demônio preparava um banquete com as mais deliciosas comidas.
Mas Antão foi fiel. Resistiu a tudo.
Quando Antão estava próximo de completar 105 anos, o demônio desistiu e disse:
— Você me venceu, Antão. Pela primeira vez encontrei um homem mais forte que eu.
O demônio virou as costas e começou a sair da caverna.
Antão caiu de joelhos e disse:
— Finalmente, senhor, me tornei um santo.
O demônio sorriu e voltou.
Tem pessoas que contam essa história dizendo que Antão resistiu a todas as tentações menos a vaidade. Não discordo, mas acho pouco. Usar a palavra vaidade como crime, bater o martelo e encerrar o assunto, é jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. Afinal, ser vaidoso da própria superação não é crime, nem faz mal a ninguém.
Para mim, o verdadeiro pecado de Santo Antão foi a outroestima.
Preciso explicar esse termo para que você me entenda.
Autoestima é quando seu valor próprio está baseado na sua própria atribuição — logo, independe da atribuição do outro. Outroestima é o oposto: é quando seu valor próprio está baseado na atribuição do outro.
Se considerar um péssimo jogador por atribuição própria é autoestima. Se considerar um ótimo jogador por atribuição do outro é outroestima.
Autoestima e outroestima não dizem respeito à qualidade da sua avaliação de valor. Dizem respeito à fonte da avaliação.
Quando a fonte é você mesmo, seja a qualidade ótima ou péssima, é auto-estima. Quando a fonte é o outro, seja a qualidade ótima ou péssima, é outroestima.
Quando digo que o pecado de Santo Antão foi outroestima, estou me referindo à fonte da sua estima. Ele não resistiu às tentações para vencer o demônio e provar sua determinação a si mesmo, mas para ter a benção de Deus, para receber o apreço divino.
Santo Antão passou 105 anos tentando comprar o amor de Deus.
Quando terminou o sexto episódio de Bebê Rena, depois que o protagonista confessou todos seus pecados chorando num palco de stand up comedy, eu pensei:
— Pronto, terminou. Por que será que tem um sétimo episódio?
A resposta era: porque o demônio da outroestima é muito mais traiçoeiro, ardiloso e sutil do que qualquer Santo Antão possa imaginar.
Seu pai não fez por mal, fez por ignorância. Seu avô fez com seu pai, então ele repetiu com você. Seu avô também não fez por mal, também fez por ignorância. Seu bisavô fez com seu avô, então ele repetiu com seu pai, que repetiu com você.
E assim por diante, ou melhor, assim por antes.
Mas o que está feito está feito. O que você pode fazer agora é entender o feito e decidir se deseja continuar fazendo.
Mas o que foi feito?
Seu pai lhe disse: "homem que é homem".
E não apenas disse. Declarou com tom barítono, soturno e convicção que só um homem que é homem é capaz de ter.
E o que você fez? Você acreditou.
Afinal, sua autoridade tinha no máximo três centímetros, duro, enquanto que a autoridade do seu conselheiro era pelo menos três vezes maior que a sua — e se não fosse, você nem tinha nascido. Que outra opção você tinha? Você fez o que seu pai, seu avô, seu bisavô e todos seus ancestrais alfa fizeram: você acreditou.
Daí fodeu. Daí você virou coroinha da tradição, família e ancestralidade. Daí você deixou de ser um homem e se transformou num bosta.
Afinal, você não tinha nenhuma das qualificações necessárias para ser um homem que é homem. Você podia vir a tê-las e assim vir a ser um homem que é homem, porém, com uma autoridade de três centímetros, sem RG, CPF, cartão Gold e opinião crítica sobre o governo do PSPT, você nem podia ser chamado de bosta. Você era um bostinha.
Mas nem tudo era espinhos. O tempo estava a seu favor. Você pensou
— Eu sou um bosta, mas ninguém nasce homem que é homem. Meu pai também nasceu bostinha. Logo, só preciso descobrir quais são as qualificações que transformam um bosta em um homem que é homem, praticar, assimilar e pronto.
Seu raciocínio foi hierarquicamente perfeito. Foi exatamente isso que todos seus ancestrais pensaram e concluíram. Você deu o primeiro passo. Fez a matrícula. O segundo passo era descobrir o que era um homem que é homem.
— Pai, o que é um homem que é homem?
Embora a resposta fosse automática e a pergunta fosse aguardada, por um instante seu pai hesitou. Ele previu seu futuro inteiro. Você seria exatamente a repetição do passado dele: uma bosta pintada de homem que é homem.
Mas daí ele pensou:
— A vida do meu filho não pode ser uma bosta que nem a minha.
E foi assim que seu pai começou com a ladainha:
— Homem que é homem isso, aquilo, murilo, grilo, crocodilo, esquilo, etc.
Se ignorância é uma benção, sinta-se desabençoado. Depois dessa reflexão, você pode até continuar seguindo a tradição, família e ancestralidade, mas não pode mais alegar ignorância.
Se você é mulher, é só trocar "pai" por "mãe", "bosta" por "tonta" e "homem que é homem" por "mulher que é mulher", depois aplicar a mesma lógica e destino.
Seja você é um bosta ou uma tonta, parabéns.
Você é uma benção.